terça-feira, janeiro 12, 2010

Socialismo do Século XXI



Rodrigo Constantino

“Aqueles que ignoram o passado estão condenados a repeti-lo.” (George Santayana)

A Venezuela caminha a passos acelerados rumo ao completo abismo, fruto do modelo socialista cada vez mais imposto pelo caudilho Hugo Chávez. Cuba está logo ali. Empresas privadas, estrangeiras ou nacionais, foram tomadas pelo governo. A imprensa foi amordaçada. Os petrodólares foram usados de forma populista para comprar apoio da população. A inflação foi usada como mecanismo de estímulo à economia. O país precisa racionar energia, mesmo possuindo todo aquele petróleo. Com a situação saindo de controle, culminando na maxidesvalorização de sua moeda, vimos essa semana a patética cena do Exército fechando lojas para combater a “especulação”. Para os socialistas, a inflação ainda é um fenômeno derivado da ganância dos empresários, não da emissão descontrolada de moeda pelo governo. Tem quem nunca aprenda com as lições da história mesmo.

Na Babilônia, há cerca de quarenta séculos, o Código de Hamurabi impôs um rígido sistema de controle de preços. Na Grécia Antiga, Atenas estava constantemente enfrentando escassez de cereais, dos quais pelo menos metade tinha que ser importada. Para combater a alta dos preços, um exército de inspetores dos cereais, chamados Sitophylakes, foi nomeado com o objetivo de estabelecer um preço “justo” para os cereais. Em ambos os casos, as medidas fracassaram. Apesar da pena de morte que o governo de Atenas aplicava aos desobedientes, era quase impossível fazer respeitar as leis que controlavam o comércio dos cereais.

No Império Romano, sob o tribuno Caio Graco, foi adotada a Lex Sempronia Frumentaria, que conferia a cada cidadão romano o direito de adquirir certa quantidade de trigo a um preço oficial muito inferior ao preço de mercado. O resultado, naturalmente, foi contrário ao que o governo esperava: a maioria dos agricultores do campo migrou para Roma, para lá viver sem trabalhar. Para resolver os problemas crescentes, os imperadores começaram a desvalorizar a moeda. Nero começou com pequenas desvalorizações, e Marco Aurélio intensificou o ritmo. O auge do controle de preços se deu no reino do imperador Diocleciano. Em vez de cortar os gastos do governo, Diocleciano preferiu desvalorizar a moeda, inflacionando a economia. Como os preços fugiam de controle, ele apelou para o tabelamento, e prescreveu a pena de morte para os que vendessem as mercadorias acima dos preços oficiais. O resultado foi um fracasso total.

Como se pode observar com esses exemplos, a tentativa de governos de controlar os preços das mercadorias com base em decretos não é novidade alguma. Para os brasileiros, a memória é recente, com os famosos fiscais do Sarney averiguando os preços praticados nos supermercados, em nome do combate à inflação. Claro que foi um fiasco. Afinal, como os economistas austríacos e de Chicago já tinham explicado faz tempo, a inflação é sempre um fenômeno monetário.

Mises explicou de forma sucinta o processo que ocorre quando um governo inflaciona a economia. O primeiro passo será a sensação de prosperidade causada pelo aumento dos gastos provenientes da impressão de moeda nova. Será uma prosperidade ilusória. Quando os preços de alguns produtos começam a sair de controle, a tendência é o governo partir para o controle daqueles preços específicos, os “vilões” da inflação. Mas isso irá gerar apenas escassez desses produtos no mercado, estimulando um mercado negro para eles. Outros produtos substitutos ou que usam tais produtos como insumos começam a disparar de preço também, e o governo precisa estender cada vez mais seu controle, até chegar à totalidade da economia.

Como exemplo, podemos pensar no minério de ferro. Supondo que ele seja alvo de uma expressiva alta de preços causada pelo excesso de moeda no mercado, o governo resolve tabelar seu preço. Logo começará a faltar minério no mercado. O preço do aço vai disparar também. O governo decide controlar o preço do aço então. Falta aço agora, e o preço de todos os produtos derivados do aço dispara, assim como o preço de seus substitutos. Em pouco tempo, o governo terá que tabelar quase todos os preços da economia, gerando uma escassez generalizada. O regime soviético, ícone dessa experiência de controle estatal da economia, conseguiu produzir apenas armas para o próprio governo oprimir o povo, e prateleiras vazias.

Eis a essência do socialismo. Miséria ao povo e armas para o governo controlar os miseráveis. Milênios atrás, ou em pleno século XXI. As leis econômicas não costumam ligar muito para esses detalhes. Pobre povo venezuelano. Servindo como cobaia de um experimento que cheira à naftalina de tão velho. E esse é o modelo que o governo Lula fez tanta questão de convidar para fazer parte do Mercosul. O povo venezuelano não aprendeu nada com a história. Resta saber se o povo brasileiro vai aprender com o triste exemplo do vizinho aquilo que não se deve fazer!

20 comentários:

Ludwig disse...

Estou bem preocupado com o Plano Nacional Bolivariano que os criminosos do PT querem nos impor. Se ele for aceito pelo Congresso e posto em vigor, teremos de dar adeus à liberdade. Um blog como o teu jamais poderá existir. Seremos todos escravos do Lulla, tal como a população venezuelana já é escrava de Chávez.

Denis Diniz disse...

Maxidesvalorização da moeda venezuelana. Anotem aí: é o começo do fim de Chavez.

Malkav disse...

Maxidesvalorização da moeda venezuelana. Anotem aí: é o começo do fim de Chavez. [2]

André Barros Leal disse...

O cronograma está simplesmente perfeito. O proximo passo é o desabastecimento, seguido do surgimento de mercado negro e cobrança de agio para alguns produtos.

O interessante foi ouvir a miriam leitão dizer que a manobra foi positiva pois iria reduzir o defict publico... Sem comentários. Obviamente os bancos estão morrendo de rir, afinal eles sao os primeiros a ganhar com a desvalorização da moeda. O povo, para variar um pouco será o que mais vai sofrer, pois o dinhiro que possui vai valer menos.

Mas o importante é que o culpado tenha sido apontado logo cedo: mais uma vez o inocente empresario vai ser o vilao da história. Quando será que essa palhaçada vai acabar?

Ludwig disse...

Acho que a palhaçada de que falaste JAMAIS acabará. Lobos NUNCA se tornam vegetarianos.
O Bem Comum é o perene objetivo dos políticos: a escravidão, a miséria, o genocídio econômico e humano.

Rinaldo Maciel de Freitas disse...

Prezado Rodrigo;

Muito legal! Vi seus cursos e formação, mas, se me permite um pitaco, o excesso de moeda no mercado provoca é a queda de preço e não o contrário. Como o aço é cotado em dólares, havendo excesso da moeda a cotação da moeda americana abaixa consequentemente o preço do aço, principalmente pelo valor do real, provocando verdadeira concorrência na medida em que o setor é cartelizado.

fejuncor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fejuncor disse...

Não confunda câmbio com inflação, Rinaldo. Uma moeda desvalorizada, como a japonesa por exemplo, pode ser um bom mecanismo de negócios internacionais. Já a inflação é uma doença. Perceba que a China tem um modelo escravocrata/feudal que, associado a uma moeda desvalorizada, a torna um grande vendedor de bugigangas.

Inflação braba tivemos quando João Figueiredo jogou no chão a faixa de presidente e o José Sarney pulou em cima, ávido, e fez um governo que promoveu uma das maiores inflações da história. A inflação é uma doença. Sua causa é a corrupção. É por isso que ela está voltando.

E é por isso que tanto maior quanto mais populista e corrupta for uma administração.

Everardo disse...

Discordo totalmente de você, fejuncor. Os grupos com chances reais de vencer as próximas eleições são os que, há dezesseis anos, vêem mantendo a inflação sob controle (FHC e Lula) e ambos são acusados de graves esquemas de corrupção (privataria e mensalão). Collor foi afafstado por corrupção, mas havia recebido uma inflação de 84% a.a, do Sarney, que também recebeu um ciclo inflacionário crônico. (Sarney pode ser acusado de corrupção, mas o que dizer dos militares?). E, não parce que ela, a inflação, esteja voltando. Não há sinais. E a moeda japonesa não está desvalorizada como estartégia para bons negócios internacionais. DE qualquer forma, a sua tese absolve o governo Lula, um longo período de tranquilidade em relação à inflação. Ou, não?

C.o.n.s.u.e.l.o disse...

É o bolivarianismo fazendo água em cima de um mar de petróleo hiihhih.......... Haja pré sal..... Quando só restam corruptos, o que nos resta é a alternância de poder...... República é alternância e democracia é movimento. Caraca! Pobre Caracas.

OBS..: Coleguinha ai de cima, o fejuncor está totalmente certo para variar, o Brasil merece outra proposta. É hora de evoluir. Esse debate que está aí, falando do Regime, do Regime, porque o Regime e o Regime....... isso é gasto, é ultrapassado. Não por acaso há uma indústria montada sobre as indenizações....... Dos dois lados do poder.

Requião, Cristovan Buarque, Marina Silva, Gabeira, qualquer nome novo que areje o debate. Os grupos que manipulam o governo desde a queda de Collor estão muito à vontade.

fejuncor disse...

Maior sinal foi adiarem a taxação da poupança justamente dada perspectiva de inflação: que reeleva a Selic, deixando-a de novo competitiva e aliviando o "problema" que o governo tinha quanto ao financiamento da dívida.

fejuncor disse...

Brigadão, Consuelo. Eu não votaria em Dilma Roussef se ela fosse candidata. Muito atrelada aos acontecimentos do passado. Saudosismo. Coisa velha. A época da repressão e dos terroristas já está mais próxima dos tempos de Getúlio Vargas do que de hoje. Eu vejo este pessoal remexendo o regime militar e me lembro que em 88 havia uns núcleos saudosos das idéias de Eduardo Gomes, Prestes e do próprio Getúlio. Se via naquilo um retrocesso. Papo furado de gente que havia parado no tempo. Assim como o pessoal da "luta gloriosa contra os déspotas militares" está no passado hoje.

Dilma Roussef não tem proposta. Aliás o Brasil não tem proposta, só segue a reboque desse mundo atual: uma corruptocracia burocratoparasita lastreada em uma base creditícia e não poupadora.

fejuncor disse...

Em tempo, Everardo. Não obstante o esquerdismo demagógico que é sempre devastador pra qq economia pq não respeita regras básicas de funcionamento dos mercados, sendo a 1ª delas tão antiga quanto as civilizações: a lei da oferta x procura, azar do Chavez é que ele não teve um FHC pra acertar a economia Venezuelana ANTES dele assumir.

Sorte do Lula.

Malkav disse...

Pela postura do Hugo Chavez, não faria diferença se alguém acertasse ou não na economia antes dele. Ele faz questão de estragar mais a Venezuela.

fejuncor disse...

Rodrigo,

Causou-me estranheza você não ter comentado uma linha sequer sobre a entrevista do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, às páginas amarelas desta semana:

"A esquerda somos nós"

"Iremos mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação.”

fejuncor disse...

Estamos diante de um possível vencedor do pleito presidencial, outro propenso a brincar de aprendiz de feiticeiro em frente aos botões de comando dessa nossa geringonça econômica... uma penas teres deixado passar essa, valia um post.

Abs.

Aprendiz disse...

Constantino

A verdadeira face do governo brasileiro, no que toca os direitos humanos, é essa:

http://notalatina.blogspot.com/2010/01/indiferenca-do-governo-brasileiro-ante.html

E é assim no mundo todo. Os corruptos, terroristas, assassinos, genocidas e torturadores, sabem que podem contar com o inteiro apoio do governo brasileiro.

akinaga disse...

Rodrigo Constantino é formado em Economia pela PUC-RJ, e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no setor financeiro desde 1997. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT"", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand" ,"Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo: O Legado da Escola Austríaca". Escreve artigos para diversos sites, assim como para a revista Voto, e para o caderno Eu&Investimentos do jornal Valor Econômico. É colunista do jornal O Globo. É membro-fundador do Instituto Millenium, diretor do Instituto Liberal, membro do Conselho Consultivo do Instituto Federalista e membro do Conselho de Administração do Instituto Mises Brasil. Foi o vencedor do Prêmio Libertas em 2009, no XXII Fórum da Liberdade.
Luiz Inácio Lula da Silva : Torneiro mecanico formado pelo SENAI, Presidente da República do Brasil.
"Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida que com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que esta no olho do teu irmão e não vês a trave que esta no teu olho?"
Matheus 7:1,2,3,4

Marcel Selhorst disse...

akinaga
O que você quer dizer com isso?
Presidência da República é um cargo eletivo burocrático normalmente ganho pelo político mais manipulador de trouxas e com um bom marketeiro. Na teoria, ele é nosso funcionário e não nosso patrão. Mas o seu post dá a impressão que você parece achar que a presidência da república é almejada por todos como meta última pra qualquer profissional. Imbecilidade!

ntsr disse...

Maxidesvalorização da moeda venezuelana. Anotem aí: é o começo do fim de Chavez. [3]