domingo, fevereiro 04, 2007

A Doutrinação Ideológica do Itamaraty



Rodrigo Constantino

“Há um sentimento generalizado de que hoje os diplomatas são promovidos de acordo com sua afinidade política e ideológica, e não por competência.” (Roberto Abdenur)

Que o governo Lula ideologizou a política externa brasileira, qualquer um que tenha acompanhado os acontecimentos dos últimos anos sabe. Mas não deixa de ser importante a confissão e o testemunho de um insider, de um dos mais experientes diplomatas do quadro do Itamaraty. Por isso a relevância da entrevista concedida à revista Veja por Roberto Abdenur, que se aposenta depois de 44 anos de carreira, sendo seu último posto o de embaixador nos Estados Unidos.

Para o diplomata, as decisões do Itamaraty hoje têm sido pautadas pela miopia de um grupo de esquerdistas, cujo antiamericanismo infantil representa o denominador comum. As promoções internas têm como critério, segundo ele, a afinidade de pensamento, e não a competência. Em suas próprias palavras, “um processo de doutrinação assim no Itamaraty não aconteceu nem na ditadura”.

O elemento ideológico na política externa brasileira é visível a quaisquer olhos que ainda não tenham sido cegados pela ideologia. O eixo preponderante que o governo Lula tenta criar, aproximando-se dos países subdesenvolvidos do Sul, revela um antiamericanismo atrasado. Para qualquer pessoa que tenha um pouco de conhecimento da mentalidade de Samuel Pinheiro Guimarães, não há espanto algum nessa afirmação. Roberto prossegue: “Está havendo uma doutrinação. Diplomatas de categoria, não apenas jovens, são forçados a fazer certas leituras quando entram ou saem de Brasília. Livros que têm viés dessa postura ideológica. É uma coisa vexatória. O Itamaraty não é lugar para bedel.”

A trajetória do PT é autoritária do começo ao fim. Logo, também não é nenhuma surpresa a declaração do diplomata de que “há intolerância à pluralidade de opinião”. Esses líderes do partido e aliados próximos de Lula, que atualmente ocupam cargos da maior importância, nunca apreciaram muito a divergência de opinião e um debate honesto focado nos argumentos e nos fatos. Os dissidentes, pelo contrário, precisam ser calados. Não há espaço para quem pensa diferente, muito menos para quem ousa questionar os dogmas em público. Esse câncer que o governo petista tem contribuído a disseminar na política nacional afetou o Itamaraty também, que parecia blindado até então. O profissionalismo foi rasgado, o apartidarismo dos diplomatas foi solapado, e a tolerância foi destruída. Os embaixadores, pelo que consta, precisam estar totalmente alinhados com a força política do momento, servindo não aos interesses da nação, mas aos objetivos pérfidos e ideológicos de um grupo que adoraria transformar o Brasil em uma Venezuela.

A acusação do diplomata é direta: “A minha maior crítica está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia”. E conclui: “Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado”. Só é questionável nessa frase o termo “vagamente”, posto que a retórica dos que ditam o rumo da política externa nacional é completamente anticapitalista, antiglobalização e, principalmente, antiamericana. Sem falar dos dois pesos e duas medidas, já que o governo, através dos seus interlocutores de política externa, não hesita em acusar medidas tomadas por outros governos, especialmente quando se trata dos Estados Unidos, mas sempre alega isenção quando tem que comentar alguma atrocidade cometida pelos vizinhos amigos de ideologia. Se Bush faz algo que o governo brasileiro desaprova, a crítica é voraz. Se Chávez consegue destruir a democracia em seu país, isso é assunto interno deles, e como presente ainda vai um convite para participar do falido Mercosul. Seria cômico, não fosse trágico.

O que esperar de um partido que ajudou a criar o Foro de São Paulo ao lado do ditador Fidel Castro e de organizações revolucionárias criminosas como as FARC? O que mais espanta mesmo é o espanto que gera cada nova descoberta sobre a essência do governo Lula. Essa contaminação ideológica do Itamaraty terá seqüelas graves, e levará tempo para ser revertida. Isso sem falar das inúmeras oportunidades já perdidas por conta dessa política externa poluída pelo ranço esquerdista. Certas coisas nunca mudam e alguns povos nunca aprendem. Uma vez mais os inocentes são sacrificados no altar da ideologia.

11 comentários:

O Direitista disse...

Também fiquei com a sensação de "o que há de novo nisso?"...

Ricardo Froes disse...

Li a entrevista de Abdelnur e só queria acrescentar que essa esquerdização do Itamaraty só foi possível por causa das nomeações matreiramente feitas por Lula no início do primeiro reinado, que passaram para trás até gente concursada. Inoculado o vírus, foi fácil transformar aquilo em um ninho de cobras de esquerda, da raça de Marco Aurélio Garcia, Samuel Pinheiro Guimarães e Celso Amorim, aquele que viaja muito e não resolve bulhufas.

Juliano Camargo disse...

Nossos aliados

http://www.farcep.org/?node=2,2513,1

Ricardo Froes disse...

Rodrigo, essa não é necessariamente para ser publicada, mas será essa sua moderação dos comentários realmente necessária?

Eu sei que há abobrinhas demais, besteiras em profusão e spams indesejáveis, mas que perto do que se discute a sério, tudo isso é quase irrelevante e, de mais a mais, a maioria aqui tem ferramentas mais que necessárias para reduzir a pó de traque qualquer aventureiro sem bagagem.

Embora essa medida provavelmente não me atinja, eu tenho certeza que ela vai parecer antipática para muitos.

Se quiser responder "por fora", meu e-mail é ricfroes@centroin.com.br.

Rodrigo Constantino disse...

Não irei filtrar NENHUM comentário sobre os artigos, mesmo aqueles que apenas tentam me atacar pessoalmente. O filtro de comentários foi ligado apenas para barrar uns idiotas que têm colocado links e propagandas no blog. Quando casarem, retiro o filtro. Sou contra isso, e defendo a completa liberdade de expressão. Aqui, podem criticar meus argumentos à vontade, e podem até mesmo ficar me xingando. Não tem problema.

C. Mouro disse...

Grande Rodrigo Constantino!

Nada mais tenho a acrescentar.

Abraços
C. Mouro

Mario disse...

Essa ideologização do Itamaraty é CRIME DE LESA-PÁTRIA, criando inimigos, o que jamais houve na história do Brasil. Esses esquerdóides preferem ser cabeça de sardinha a rabo de baleia. Aliás, com o fim do Mercosul e com a subserviência a Castro, Chavez e até ao índio cocalero Morales, estamos mais para rabo de sardinha.

Sobre a propaganda indevida e indesejada: é postada por robots. Podem ser barradas filtrando IP's de acesso ao blog, porém, é trabalhoso.

Ricardo Froes disse...

OK. O blog é seu e sua resposta já era a esperada por mim, mas apesar de concordar com os argumentos, acho que alguma satisfação devesse ser dada não só a mim, que perguntei já sabendo a resposta, mas a todos que o lêem, para que isso aqui não seja confundido com, por exemplo, um blog como o do zé dirceu, onde a censura é feita pelos nomes das personas non gratas como eu.

Eu tenho a certeza que esse tipo de discriminação não passa pela sua cabeça, mas e os outros? A censura intimida, mesmo que seja com bons propósitos, por isso acho que você deve esclarecer seu objetivo a todos ao optar por mediar os comentários.

Ricardo Froes disse...

Desconsidere o comentário acima. Com as letrinhas realmente fica mais simpático.

Dellano disse...

É Rodrigo! O mais triste é que no passado, a diplomacia brasileira foi exercida com maestria por homens como Barão do Rio Branco e Rui Barbosa, e hoje, vemos legítimos PILAs (Perfeitos Idiotas Latino-Americanos) infestarem os quadros do Itamaraty com suas ideologias burras, que só fazem mal ao nosso país!

Ricardo Froes disse...

Já eram mais que esperadas as reações do Itamaraty à entrevista de Abdelnur à Veja. A estranhar, só a indagação de Amorim perguntando o porquê do embaixador não ter feito as críticas quando ainda estava na ativa. Uma besteira desse tipo só poderia ter saído da cabeça de um tonto como o Ministro, porque ele está farto de saber que um diplomata é, antes de tudo, um servidor do governo e que, mesmo discordando das políticas adotadas, tem o dever de representá-lo sem chiar. E, que me conste, Abdelnur o fez a contento.

Depois, nós vivemos em uma democracia, onde todos têm o direito de opinar (ou não?). E por que será que ninguém abriu a boca para contestar o ponto principal da entrevista, a afirmação sobre o aparelhamento do Itamaraty, preferindo frases de efeito duvidoso como "ele cuspiu no prato em que comeu"?

Governo chinfrim é isso aí.