segunda-feira, fevereiro 05, 2007

À Procura da Felicidade



Rodrigo Constantino

“I´m a great believer in luck, and I find the harder I work the more I have of it.” (Thomas Jefferson)

O filme À Procura da Felicidade, que conta a história de Chris Gardner, é simplesmente imperdível. Além da incrível e tocante interpretação de Will Smith, a mensagem do filme é excelente, e está em falta nesse país. Trata-se de um homem obstinado que luta para sobreviver e sustentar seu filho mesmo sob as mais árduas circunstâncias, sem que isso o faça ignorar os principais valores nem perder as esperanças. Gardner encontra-se nas mais desesperadas situações, sob constante pressão financeira, chegando a dormir no banheiro de uma estação de metrô e depois em abrigos. Nessa jornada angustiante, ainda é abandonado pela mulher, tendo que criar o filho sozinho. Mas nada disso o impede de manter o carinho e passar valiosas lições para seu filho, que depositara total confiança no pai. Os obstáculos parecem intransponíveis, mas a força de vontade de Gardner é ainda maior.

O filme retrata o “sonho americano”, onde o trabalho duro individual pode levar qualquer um longe na terra das oportunidades. Logo no começo do filme, aparece o então presidente Ronald Reagan fazendo um discurso na televisão, e não creio ser por acaso. Neste discurso, o presidente está culpando os excessivos gastos do governo pela situação delicada em que a economia do país se encontra. As reformas adotadas nesta época foram cruciais para resgatar o crescimento econômico do país. Menos intervenção estatal, mais iniciativa privada, uma receita infalível.

Em uma determinada cena do filme, quando Gardner jogava basquete com seu filho, uma preciosa lição de vida foi passada aos espectadores. O próprio pai fala para o filho desistir do sonho de ser um campeão algum dia, e ao perceber o desânimo do garoto, lhe dá uma bronca, explicando que ele não deve jamais deixar outros – inclusive o próprio pai – colocá-lo para baixo, repetir que ele não é capaz de algo. A inveja faz com que outros tentem diminuir as habilidades alheias, desestimulando qualquer um que pareça um pouco mais capaz em determinada tarefa. O pai afirma então que o filho nunca deve ligar para isso, para o que os outros falam dele, e que nada deverá ficar entre seus sonhos e a realização deles. Proteja seus sonhos sempre! A responsabilidade é individual, e isso vale ainda mais em um país onde muitos esperam passivamente soluções milagrosas através do governo.

A postura do próprio Chris Gardner enfatiza esse abismo que separa os eternos fracassados daqueles que chegam ao sucesso. Logo no começo do filme, Gardner avista um indivíduo saindo de uma Ferrari em frente a um prédio comercial. Todos à sua volta pareciam felizes. Ele pergunta ao desconhecido o que ele fazia para poder ter aquilo, e a resposta muda sua vida. O homem diz que era corretor de ações, e que para tanto bastava ser bom com números e com pessoas. Gardner coloca na sua mente então que chegará lá um dia, e parte para um processo obstinado de tentativa, superando os mais absurdos obstáculos. O grande diferencial que vejo é o fato dele olhar o sucesso alheio e admirá-lo, querendo buscar para si algo semelhante. Isso é oposto ao que vemos, infelizmente com boa freqüência, em pessoas invejando o sucesso alheio, e querendo destruí-lo ao invés de lutar para subir na vida por conta própria.

A Declaração da Independência americana é bastante citada no filme, assim como a frase que Thomas Jefferson inseriu sobre o direito de todos à procura da felicidade. A mensagem do filme é bela, é uma mensagem de esperança, de liberdade, de valores pessoais e integridade. Mesmo sob a situação mais desesperadora que se pode imaginar, Gardner jamais deixou para trás seus valores. Isso serve de lição para muitos sociólogos e intelectuais que forçam uma associação de causalidade entre a pobreza e a criminalidade, como se a pequena conta bancária automaticamente criasse bandidos. A integridade das pessoas não depende do saldo no banco. Fora isso, o filme desmonta a crença do Estado paternalista, que irá cuidar dos pobres. Pelo contrário, o governo aparece para tirar na marra e sem aviso o dinheiro que Gardner conseguiu juntar com a venda de scanners para médicos, alegando impostos atrasados. Foi a gota d’água que jogou Gardner na rua da amargura. Esse é um retrato da realidade. O governo, para dar algo, antes precisa tirar, e normalmente o fardo recai sobre os mais pobres.

Não deixem de assistir o filme. Em uma nação onde todos pensam somente no que o governo pode oferecer, onde a figura de “Che” Guevara ainda é enaltecida, e onde a iniciativa privada é vista como inimiga do povo, nada mais urgente que um relato de uma história verídica, de um sujeito que conhece bem de perto a completa miséria, e sai dela por conta própria, tornando-se um multimilionário. E lembrando ainda que o dinheiro aqui é apenas um subproduto, um indicador do sucesso que Gardner teve na vida. Pois seu valor mesmo, como homem íntegro que soube vencer barreiras inacreditáveis e educar seu filho sob tais circunstâncias, esse não pode ser mensurado pelos seus milhões de dólares.

13 comentários:

Lefebvre de Saboya disse...

Na cena do conselho ao filho, pareceu mais que o Gardner lembrou da chacota feita pela esposa e caiu na real. Mas entre alhos e bugalhos, até mesmo o título do filme é de difícil tradução. Perseguindo a Felicidade seria um título melhor, que chega mais perto do sentido da expressão em inglês. Mas em se tratando de miséria, é melhor comparar os mendigos. Lá, eles ainda fazem fila para dormir nos abrigos. Aliás, os próprios mendigos atuaram como extras nas cenas recebendo o salário mínimo americano. No Brasil, que eu saiba, pobre só recebeu no Ilha das Flores e duvido que ganharam tanto dinheiro.

Mario disse...

Como costumo dizer, "se quer ser grande, una-se aos grandes". Quem pratica ou praticou algum esporte sabe disso.

Com pensamentos tão mesquinhos como os dos esquerdinhas, que são os que são a "verdade" por aqui, o Brasil JAMAIS terá condições de lamber os sapatos dos americanos.

C. Mouro disse...

Genial este artigo, brilhante no "úrtimo"!

Sêneca já dizia que o dinheiro, a riqueza, são coisas boas que não devem ser desprezadas, favorecem a felicidade e deve-se deseja-la, mas sem perder a referência própria. Afinal, diz ele, há coisas mais importantes que a riqueza, diz que a riqueza deve servir ao indivíduo que irá molda-la a suas aspirações, e não o contrário, onde o indivíduo molda-se para visando a riqueza. Já Socrates (creio) disse que a riqueza não atribui valor ao indivíduo, mas sim a capacidade de produzi-la (honestamente, ressalte-se).

O indivíduo forte admira o forte e o fraco faz propaganda da fraqueza. Montaigne importou-se com tal questão, citando exemplos de condescendencia entre semelhantes. Quem tem orgulho de si não encontra razão para invejar ninguém, está satisfeito consigo. Já aqueles que "olham" para si e se frustram não encontram motivos para admirar os admiráveis, mas apenas para fazer propaganda daquilo que degrada. É semelhante à moral do escravo, que enaltece a servidão como atributo valorizador do indivíduo.

Não resisto a uma bela frase:
"A servidão degrada tanto o homem que é capaz até de faze-lo ama-la".

Para fazer frente a esta só....:
"Quem tem por habito usar a força para conseguir o que quer, tem por habito querer sempre mais"

Abraços
C. Mouro
Obs.:
Meus dois comentários anteriores foram perdidos ontem à noite. um no "antiamericanismo patológico" e outro no "ambientaista crente".

Obs2:
Infelizmente meu navegador não exibe as letras/imagem para verificação, tendo eu que usar o explorer para consegui-lo.
...mas vou continuar lendo, não perderei um só artigo.

Abraços
C. Mouro

J.Rodrigues disse...

.”Pois seu valor mesmo, como homem íntegro que soube vencer barreiras inacreditáveis e educar seu filho sob tais circunstâncias, esse não pode ser mensurado pelos seus milhões de dólares.”
É isso aí. Educação na integridade. É tudo uma questão de princípios. É uma educação repassada de geração a geração. Meu tetravô(?) foi um brasileiro, soldado de Rafael Pinto Bandeira, orgulhoso de lutar contra os “castelhanos” na defesa do nosso território sulino. Liberado da luta saiu sem soldos nem galões e foi cuidar da própria vida. Meu triavô também empunhou armas a serviço da pátria. Está lá o nome dele em livros de história. Meu bisavô, meu avô, meu pai nasceram e morreram neste país. Sou BRASILEIRO sim, com muito orgulho, mas não me orgulho de brasileiros que não merecem respeito, seja de qual classe social for e qual posição social ou política ocupar. Meus antepassados foram pobres, ricos, depois pobres de novo não sei quantas vezes. Eu tive infância pobre, mas com educação briosa. Digo educação porque entendo que formação se recebe na escola e educação se recebe em casa, na família. Ou será o contrário? Se for é só trocar as palavras de lugar e continua valendo o mesmo. Meu entendimento está explicitado. A honra, a honestidade, a verdade sempre, o respeito ao próximo, o trabalho e a defesa do que nos pertence foram valores recebidos e cultivados com carinho. Já a preguiça, a malandragem, a inveja, a mentira e a cobiça ao que pertence aos outros foram vícios combatidos e desestimulados desde cedo em nossa família. Eis porque não consigo me acostumar à devassidão moral que assola o meu país. Sinto-me muito mais brasileiro do que muitos desses imorais que infelizmente estão hoje aí a governar os meus patrícios. Meus antepassados foram homens livres, ‘Chimangos’ uns ‘Maragatos’ outros, porém todos com espírito libertário sempre tomando conta de suas vidas sem se pendurarem em nenhum maldito governo. “Potro solto pede cancha, doma seu próprio destino” diz a canção gaúcha. Não consigo ser diferente, seria uma traição à minha origem. Não pretendo impor regras de conduta aos outros, também não vejo nenhum respaldo nos que se acham no direito de impor suas regras ao povo do qual faço parte. Quem quiser moldar o comportamento dos outros tem que, no mínimo, ser detentor de comportamento exemplar. Não tenho visto isso ultimamente nos eleitos.

O Direitista disse...

Impecável, Rodrigo.

Tiago Motta disse...

Seria essencial que esse filme tivesse bilheteria recorde no Brasil. Um jeito de dar uma lição a um povo acomodado!

Paulo disse...

Fazendo um eco e um comentário sobre o que disse o leitor Tiago: assisti o filme ontem, e me espantou ver que a fila para "A Grande Família" estava muito maior do que a de "À procura da felicidade".

É, o filme sobre Chris Gardner é uma vacina eficíente para a inveja e a típica alma de funcionário público dos brasileiros. Mas pena que as aventuras de Agustinho e Dona Nenê interessem mais.

Daniela • Brasileira Insone disse...

Olá Rodrigo

Na linha da construção de padrões morais como a que você aponta no caso deste filme, cito também o filme "Prenda-me se for Capaz", no qual os méritos são compensados e os crimes são punidos e não endeusados.

A gravidade do assunto se dá na medida em que a arte cria e reforça nas pessoas a construção dos mitos, os modelos de personalidade e comportamento. O Jeca, retratado pelo Reinaldo Azevedo na coluna da Veja desta semana é um exemplo de mito que modela socieade brasileira, sem que, na larga maioria dos casos, esta se dê conta.

Observe só as conseqüências nefastas para a sociedade quando o que existe, ao contrário do caso do filme que vc citou, é a apologia de idéias como as apresentadas no filme "O Homem que Copiava" (se você não viu, leia meu comentário sobre ele aqui: http://brasileirainsone.zip.net/arch2006-07-02_2006-07-08.html ), que não só recria, mas reforça alguns dos principais traços do mito "Lula".

A cada dia que passa e quanto mais tempo dedico a imaginar uma saída para o Brasil que não seja o aeroporto, mais me parece que a saída só viria através da desconstrução dos mitos atuais e da construção de novos mitos. Mas para isso seria necessário quase que um "pacto" entre veículos de comunicação, artistas, jornalistas, agências de publicidade, cineastas... Só que não há intelectualidade suficiente, em nenhum destes meios, para pensar em colocar em prática alguma coisa desta envergadura.

Daniela • Brasileira Insone disse...

Olá Rodrigo

Na linha da construção de padrões morais como a que você aponta no caso deste filme, cito também o filme "Prenda-me se for Capaz", no qual os méritos são compensados e os crimes são punidos e não endeusados.

A gravidade do assunto se dá na medida em que a arte cria e reforça nas pessoas a construção dos mitos, os modelos de personalidade e comportamento. O Jeca, retratado pelo Reinaldo Azevedo na coluna da Veja desta semana é um exemplo de mito que modela socieade brasileira, sem que, na larga maioria dos casos, esta se dê conta.

Observe só as conseqüências nefastas para a sociedade quando o que existe, ao contrário do caso do filme que vc citou, é a apologia de idéias como as apresentadas no filme "O Homem que Copiava" (se você não viu, leia meu comentário sobre ele aqui: http://brasileirainsone.zip.net/arch2006-07-02_2006-07-08.html ), que não só recria, mas reforça alguns dos principais traços do mito "Lula".

A cada dia que passa e quanto mais tempo dedico a imaginar uma saída para o Brasil que não seja o aeroporto, mais me parece que a saída só viria através da desconstrução dos mitos atuais e da construção de novos mitos. Mas para isso seria necessário quase que um "pacto" entre veículos de comunicação, artistas, jornalistas, agências de publicidade, cineastas... Só que não há intelectualidade suficiente, em nenhum destes meios, para pensar em colocar em prática alguma coisa desta envergadura.

Alvaro Augusto disse...

Ainda não assiti o filme, mas não gosto muito dessa idéia de "sonho americano", pois dá a entender que basta você "trabalhar duro" para se dar bem na vida. Não é bem assim, nem mesmo nos EUA. De fato, a história mostra que para cada vencedor há vários derrotados que também trabalharam duro. Qualquer empreendedor (sou um deles) sabe que seu negócio envolve risco. Uma coisa é apostar na hipótese arcaica do Estado provedor, outra, bem diferente, é achar que a iniciativa privada conduzirá todos que se arriscaram ao sucesso. Alfred Marshall, com sua idéia de "empresa representativa", já sabia disso.

[ ]s

Alvaro Augusto
http://alvaroaugusto.blogspot.com

Juliana MOntaleone disse...

OLÁ, RODRIGO!! VC TIROU AS PALAVRAS DA MINHA BOCA... ESSE FILME É EXCELENTE E VC RESUMIU COM BRILHANTISMO AS NUANES DELE.
ELE DEVERIA PASSAR EM TODOS OS COLÉGIOS DO BRASIL, COMO FONTE INSPIRADORA.
NÃO AGUENTO MAIS A DESCULPA ESFARRAPADA DE QUE OS POBRES ROUBAM, PORQUE NÃO TÊM SAÍDA.
ABRAÇO,
JULIANA MONTALEONE.

Juliana MOntaleone disse...

errata.
leia-se: nuances. no comentário acima.

Anônimo disse...

engraçado como são as coisas. Eu vi o filme "a procura da felicidade" e achei fantástico. Eu não vi o filme "a grande família". Mas não acho justo fazer críticas sobre as opções das pessoas. PElo contrário, que bom que os brasileiros estão prestigiando filmes daqui, porque fora essas exceções como "a procura da felicidade", tem muito filme americano que ninguém aqui recomendaría. E não é porque a fila pra ver "a grande família" está cheia, não quer dizer que essas mesmas pessoas deixarão de ver "a procura da felicidade" seja no cinema ou seja em casa. Engraçado, as pessoas gostam deste filme mas não aprendem nada com ele, são radicais, bem diferente do personagem principal do filme...engraçado né...