segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A Escola de Salamanca



Rodrigo Constantino

Em recentes artigos, alguns podem ter ficado com a errada impressão de que condeno de forma generalizada qualquer religioso já por ser religioso. Não é verdade. Sim, eu considero o fanatismo religioso extremamente perigoso e uma das maiores ameaças à liberdade. Sim, eu considero prepotente a alegação de que existe a verdade sobre as grandes questões e esta foi revelada por um messias qualquer. Sim, eu penso que a paixão que o tema desperta muitas vezes funciona como uma catraca no cérebro, impedindo um raciocínio claro e objetivo e levando ao repúdio de qualquer questionamento ou crítica. Sim, eu vejo que existem muitos embusteiros no meio religioso em busca de poder e riqueza à custa da ignorância alheia. O próprio fato da Igreja Católica ser tão rica materialmente falando incomoda. Mas não considero tudo que sai das religiões algo ruim, nem de perto.

Em resumo, condeno o fanatismo religioso, a hipocrisia muitas vezes presente no meio religioso e a crença de que a fé pode ser objetiva, e não subjetiva. Mas reconheço o lado bom das religiões, assim como o fato de grandes homens terem sido religiosos. Aliás, tenho um parente próximo que é padre, e uma excelente pessoa. Convivemos bem com as divergências sobre o assunto, pois ele não é um fanático. E para fazer justiça e não deixar também a imagem de que condeno qualquer pessoa religiosa – o que está longe da verdade – pretendo tratar neste artigo da enorme e muitas vezes desconhecida influência que a Escola de Salamanca exerceu na Escola Austríaca, a que mais admiro no mundo econômico.

Os precursores intelectuais da moderna Escola Austríaca foram, na maioria, dominicanos e jesuítas, professores de moral e teologia em universidades que constituíram os focos mais importantes do pensamento durante o Século de Ouro espanhol. Uma detalhada análise encontra-se no livro Escola Autríaca de Jesús Huerta de Soto. Já em 1555, o bispo Diego de Covarrubias expôs melhor que ninguém a teoria subjetiva do valor, afirmando que “o valor de uma coisa não depende da sua natureza objetiva mas antes da estimação subjetiva dos homens, mesmo que tal estimação seja insensata”. O estudo de Covarrubias, cujo título era Veterum collatio numismatum, é citado por Carl Menger nos seus Princípios de Economia Política. Menger é considerado o fundador da Escola Austríaca.

Este foco subjetivista iniciado por Covarrubias tem continuidade por outro escolástico, Luis Saraiva de La Calle, que definiu a relação entre custos e preços já naquela época, mostrando que os custos é que tendem a seguir os preços e não o contrário. Isso seria a antecipação da refutação que Menger faria da teoria objetiva do valor, que passaria a ser o ícone da teoria de exploração marxista.

Outra notável contribuição dos escolásticos foi a introdução do conceito dinâmico de concorrência, entendida como “o processo empresarial de rivalidade que move o mercado e impulsiona o desenvolvimento da sociedade”, segundo Huerta de Soto. Este viria a ser o coração da teoria do mercado da Escola Austríaca, contrastando com o modelo de equilíbrio de concorrência perfeita ou monopolística dos neoclássicos. Os preços de equilíbrio, portanto, não poderiam ser conhecidos, e isso derrubava a teoria de planejamento rígido defendida pelos socialistas. As contribuições dos cardeais jesuítas espanhóis Juan de Lugo e Juan de Salas também merecem destaque. O primeiro, já em 1643 havia concluído que o preço de equilíbrio depende de uma quantidade tão grande de circunstâncias que apenas Deus pode conhecer. O segundo afirma que apenas Deus pode ponderar e compreender exatamente toda a informação e conhecimento usados no processo de mercado pelos agentes econômicos. As mais refinadas contribuições de Mises e Hayek sobre a teoria do conhecimento estavam então sendo antecipadas no século XVII.

O princípio da preferência temporal, um dos elementos essenciais da Escola Austríaca, fora mencionada por Martín de Azpilcurta em 1556. Ele diz que, tudo o mais constante, os bens presentes são sempre mais valorizados do que os bens futuros. Azpilcurta tomou emprestado este conceito de um dos discípulos de Tomás de Aquino, Giles de Lessines, que já em 1285 havia afirmado que “os bens futuros não são tão valorizados como os mesmos bens disponíveis de imediato”. Complicado é entender isso e condenar a usura, como tantos religiosos fizeram.

O trabalho do padre Juan de Mariana, intitulado De monetae mutatione, publicado em 1605, critica a política seguida pelos governantes da sua época de baixar de forma deliberada o valor da moeda, embora não utilize o termo “inflação”, desconhecido então. Mariana critica também a política de estabelecimento de um preço máximo para lutar contra os efeitos da inflação. Ele refere-se ao governo como um cego tentando guiar aquele que vê. E ainda sobre a contribuição à questão monetária, Luis de Molina foi o primeiro teórico a salientar que os depósitos e o dinheiro bancário em geral, que ele denomina em latim chirographis pecuniarum, é parte integrante, da mesma forma que o dinheiro em espécie, da oferta monetária.

Huerta de Soto conclui que “os escolásticos espanhóis do Século de Ouro foram já capazes de articular o que depois viriam a ser os princípios mais importantes da Escola Austríaca de Economia”. Como fica claro, ainda mais para um profundo entusiasta do brilhantismo da Escola Austríaca, os religiosos ofereceram ao mundo muitas coisas boas também. Isso nunca deve ser negado apenas para atacar os frutos podres – que existiram, e aos montes. Este tipo de atitude é desonesta, típica de bandos coletivistas que consideram tudo fora de sua seita terrível. Como fazem alguns religiosos fanáticos, que jogam no mesmo saco os ateístas e os comunistas, como se os horrores destes fossem conseqüência inexorável da descrença na divindade, ou como se todo ateu fosse comunista, ignorando a enorme quantidade de excelentes liberais ateus ou agnósticos.

Os desonestos ignoram convenientemente que uma das maiores influências do comunismo foi um fervoroso cristão católico, Thomas More, cuja obra Utopia estimulou vários comunistas. Afinal, para os crentes fanáticos, o primeiro e muitas vezes único critério de julgamento de valor é a crença religiosa, ainda que muitos crentes sejam pérfidos e muitos ateus sejam honestos. Para aqueles que não são fanáticos, no entanto, não há mal algum em reconhecer que existiram muitos ateus terríveis, como os comunistas (ainda que possamos considerar o comunismo uma seita religiosa, com puro misticismo como pilar de sustentação), e muitos religiosos terríveis também. Por outro lado, vários ateus são ótimas pessoas, assim como vários religiosos. E é neste grupo que devemos incluir os membros da Escola de Salamanca, com espetacular contribuição para o pensamento moderno.

10 comentários:

O Direitista disse...

Rodrigo, a idéia de utopia, assim como todas as ideologias totalitárias, como o nazismo e o comunismo, são idéias gnósticas, que defendem a possibilidade de o homem conseguir sua salvação por si mesmo, independente de Deus, e a possibilidade de se chegar a uma espécie de eternidade dentro da história, como se a história caminhasse até o ponto x (como seria o advento do comunismo) e, subitamente, parasse. Sendo idéias gnósticas são também idéias anti-cristãs. O fato de um defensor deste tipo de idéia se dizer cristão católico não o torna um cristão católico, mas um herege.

Anônimo disse...

Constantino, pare enquanto é tempo. Quem sabe ainda lhe sobre algum prestígio. Não foi suficiente a humilhação pública a que Olavo o submeteu?

Luiz.

Anônimo disse...

O tom de suas afirmações continua inflamado,você age como um profeta antireligioso,objetivamente,mesmo que não o saiba e não compreenda o modo de ser do "homo religiosus".Todos os seus artigos sôbre religião são antireligiosos,porque você nunca sentiu a "centelha divina"(Meister Eckhart) no seu interior,isto faria a sua egolatria murchar.E você continua a confundir a INSTITUIÇÃO Igreja com a religiosidade individual das pessoas, esta não é controlável por nenhuma instituição...ainda bem!

J.Rodrigues disse...

Não tenho nível intelectual nem para entender cem por cento dessas discussões filosóficas, mas sinto que meus sentidos não conseguem captar tudo o que me cerca nesse mundo material (as abelhas enxergam o que eu não posso, os cachorros ouvem sons que eu não ouço, etc.etc.) Imagino minha ignorância no campo imaterial. Crer ou não crer é assunto meu, do meu limite. Não quero ser ‘obrigado’ a nada.
O que me assusta é ver pessoas letradas, politicamente honestas se insultando enquanto os comunistas se entendem e ajeitam direitinho suas diferenças e continuam tranqüilos doutrinando as pessoas que estão longe de poder participar dessas discussões e que, diga-se de passagem, é a imensa maioria. E ainda proclamam que os ‘da direita’ são arrogantes. E não deixam de ter um pouco de razão.

Anônimo disse...

Ao j.rodrigues:
Esta não é uma discussão inútil,o ateísmo militante(miles=soldado), guerreiro,solapa,conscientemente ou não,as bases de nossa civilização,a única onde um debate como este pode ocorrer.O Rodrigo citou alguns bons frutos da Civilização Helênico-Cristã, da Universidade de Salamanca,e agora quer jogar no lixo a árvore de onde brotaram,o cristianismo?Sem a boa árvore,a nossa civilização,cujas raízes
são profundamente religiosas...bye,bye
liberdade.
O artigo logo acima mostra que o Rodrigo é profundamente antireligioso,
mesmo não entendendo nada do assunto nem tendo vivências.Estes ataques parecem gratuitos,mas não o são.
Rodrigues,o tom brutalmente apologético
e emocional dos artigos do Constantino,
no campo da religião,denotam a vontade de extirpar esta do campo social.O ateísmo do Rodrigo,mesmo não sendo ele comunista,é parecido com o dos bolcheviques,goste ele ou não disso.

Gustavo disse...

Brilhante exposição.
Se você tem uma idéia deve divulgá-la e defendê-la,há quem chame de militância idiota,eu chamo de bom senso.
Quem te acha antireligioso não leu o artigo com a atenção necessária.

Giuliana disse...

É NECESSÁRIO, É URGENTE QUE ARTIGOS ASSIM CONTINUEM EXISTINDO, CASO CONTRÁRIO VOLTAREMOS PARA AS TREVAS MEDIEVAIS. O PONTO DE VISTA DO AUTOR NÃO É O MAIS RELEVANTE, SEM TIRAR O VALOR, MAS A DISCUSSÃO É EXTREMAMENTE NECESSÁRIA. VIVEMOS EM PLENO SÉCULO XXI COM PESSOAS SENDO ENGANADAS EM NOME DE DEUS, ENTREGANDO SUAS POSSES MATERIAIS (DINHEIRO, IMÓVEIS, ETC) PARABÉNS CONSTANTINO E CONTINUE CRITICANDO SEMPRE, A CRITICA É QUE NOS IMPEDE DE ABSORVER IDEOLOGIAS COMO VERDADES ABSOLUTAS! giulianacafe@hotmail.com

Anônimo disse...

Trevas medievais? Ora, Constantino está exaltando a Escola de Salamanca, que temporalmente se localiza na Idade Média tardia e inspira-se na escolásticas, sobretudo na filosofia tomista, da Idade Média.

De que trevas a senhora fala, dona Giuliana? Provavelmente a dos livros didáticos mais atuais, afinal, não há atualmente um historiador sério que endosse essa coisa de Idade das Trevas, que é tão-somente mais uma propaganda iluminista - aliás, o Iluminismo é composto apenas de propaganda e ideologia; é a idade das luzes, da razão fundamentada no obscuro culto ao Ser Supremo de Robespierre e a vontade geral que suprime a razão de Rousseau.

Anônimo disse...

Trevas Medievais? Ora, o Constantino está exaltando a Escola de Salamanca, que se localiza temporalmente na Idade Média tardia e se inspira na escolástica, sobretudo na filosofia tomista, que se deu na alta Idade Média.

De que trevas a senhora fala, dona Giuliana? Seria a dos livros didáticos do MEC? Pois não há hoje um historiador sério que leve em consideração essa coisa de Idade das Trevas, que é tão somente mais uma propaganda do iluminismo com o intuito de atacar a Igreja - e o Iluminismo é somente isso, propaganda. Época das luzes fundamentada na ideologia e no obscuro culto ao Ser Supremo de Robespierre, além das nas trevas ignóbeis do hobbesianismo e da vontade geral de Rousseau, substituta direta da razão. A maioria decidiu irracionalmente, portanto, cortemo-lhes as cabeças.

Sim, vivemos em pleno século XXI, que ainda chora sob as tumbas dos mortos do século XX, recordista em derramamento de sangue em toda a história da humanidade.

Ah, se o problema fosse a entrega de posses materiais daqueles que crêem na imortalidade da alma (e para que serviriam tais bens?); daqueles que não se apegam ao que tem e nem matam compatriotas em nome de uma causa, pelo contrário, dispõem-se a morrer por Cristo, aceitando todo o tipo de humilhação e injustiças, assim como aquele que morreu na cruz.

Maravilhosa modernidade! Que além de promover a matança generalizada e fingir que não tem responsabilidade alguma, pretende se preocupar com a vida alheia ao passo que sente uma preguiça incontrolável para cuidar da sua própria vida, dos seus próprios problemas. Não, não... a soberba faz com que todos se sintam especialícimos, críticos contundentes daquilo que mal e porcamente entendem, mas crêem. Crêem, mas não suportam que os outros também creiam.

Anônimo disse...

Ola a todos que precebem o verdadeiro significado da escola austriaca do pensamento economico. Sendo sinceros qualquer movimento se pode tornar fanatico e isso engloba o proprio pensamento desta escola. O problemas e que para alguem que desenvolveu o mainstream neoclassico e keynessiano ( escreve alguem licenciado na Faculdade de Economia do Porto, Portugal ) isto da escola austriaca e como destruir as twin towers ( o que faz de nos bin ladens eh eh )

Como ? Economia sem estatisticas ? Economia sem micro sem macro ??
Sem pontos de equilibrio ?? O que eu estudei 5 anos para alguem dizer que esta tudo errado. E aqui e que esta o problema de muito bom economista ou gestor a olhar por este ponto de vista .

E obviamente um problema de epistemologia das ciencias sociais (ou segundo os austriacos soft science) que deve ser diferente do das ciencias naturais ( hrd science onde o o objecto nao e humano e entao o metodo cientifico de analise de data pode ser aplicado e o seu tratamento estatistico

Isto nao tem nada a ver com fascismo ou extrema direita que muitas vezes colam os austriacos

Enfim , santa ignorancia

Jose Conrado