sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O Ônus da Prova



Rodrigo Constantino

“A ignorância traz muito mais certezas que o conhecimento.” (Charles Darwin)

Os ateus e agnósticos costumam ser injustamente acusados de prepotentes. Os crentes afirmam que os ateus se acham os donos da verdade. Não poderia haver maior inversão! O ponto de partida de um ateu é justamente o reconhecimento da nossa ignorância, dos limites do nosso conhecimento. Há muito que o homem pode aprender sobre o mundo, principalmente utilizando sua principal ferramenta epistemológica, que é a razão. Foi raciocinando, e não rezando, que chegamos a tantos avanços tecnológicos e medicinais, ou mesmo às conquistas da liberdade. Mas há um limite onde nossos sentidos conseguem chegar. Além disso, resta um mar de desconhecimento.

O ateu consegue conviver com essa ignorância, com muitas dúvidas sobre o mundo, sobre as questões básicas que sempre mexeram com os homens. Como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, tais questões não têm resposta ainda, e o reconhecimento disso é que possibilita a eterna busca por mais conhecimento. Como disse Epíteto, “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”. Mas o crente religioso não suporta a dúvida. Ele não consegue apenas não saber. “A dúvida é tortura apenas para o crente, mas não para o homem que segue os resultados de sua própria investigação”, disse Humboldt. E então surgiram muitas religiões, oferecendo as respostas prontas, garantindo já saber sobre essas questões complexas. A prepotência, portanto, está justamente do outro lado, do lado dos que juram saber as respostas, pois estas teriam sido “reveladas”.

Muitos entendem que deus é uma palavra apenas para designar esse desconhecido, essa vastidão acima da nossa capacidade intelectual. Mas nesse caso, eu pegaria emprestada a frase de Frank Lloyd Wright, e diria que acredito em deus, mas soletro natureza. Não vejo porque dar outro nome então. Pois o outro nome, deus, vem carregado de outros conceitos, e gera muito mais confusão. Cada um terá sua idéia subjetiva do que venha a ser esse deus. O deus de Einstein, por exemplo, é muito parecido com o dos ateus, já que ele declarava não crer na imortalidade do indivíduo e considerava a ética uma preocupação exclusivamente humana, sem nenhuma autoridade super-humana acima. Não vejo mal algum nisso. Mas vejo riscos no deus antropomórfico que muitos homens criam e passam a acreditar. Um deus que observa os homens, que pune, que salva, enfim, no deus cristão ou no Alá dos muçulmanos. Essa crença em deus pode ser prepotente por afirmar saber as respostas, e ainda costuma ser intolerante, pois não admite competição e repudia qualquer outro deus.

Algumas perguntas delicadas são feitas pelos ateus, mas costumam ficar sem respostas objetivas por parte dos crentes. Se esse deus meio humanizado é onisciente, sabe de tudo, então ele tem que conhecer a dor e o sofrimento, para ter criado tais sentimentos. Mas como pode um ser perfeito conhecer a dor e o sofrimento? A perfeição pressupõe ainda a inércia, pois qualquer mudança, qualquer ação, irá levar inexoravelmente para uma situação pior. Como deus agiu então para criar o mundo? A ação é fruto do desconforto e da busca pela melhoria, e seres perfeitos não agem. Se o teísmo é vagamente definido como uma força superior, um ser misterioso cuja essência não podemos sequer entender, então deus seria um ateu. Ele não acredita numa força superior a ele mesmo, e seus próprios poderes, apesar de acima dos homens, seria natural para ele, e compreensíveis. Tudo seria “natural” pela sua perspectiva. É justamente o que defendem os ateus.

Muitos crentes ficam incomodados com isso tudo, e partem para a fuga mais conhecida: exigem que se prove então que deus não existe. Mas como se pode provar uma não existência? Se for uma fantasia, como será possível provar que ela é mesmo uma fantasia? A ciência busca refutar teorias, testando-as. As que suportam os testes empíricos, são consideradas válidas até que provem o contrário. Mas é impossível partir da necessidade de provar que algo não existe. Eu poderia afirmar que existe um gnomo vivendo em minha casa, e que ele é invisível e indetectável. Nenhum método que os homens conhecem seria capaz de provar a sua existência. Se eu pedisse para provarem que ele não existe, isso seria impossível. E creio que se eu insistisse muito em sua existência, era mais provável chamarem os homens de branco e me levarem para um hospício, depois de realizado um teste com o bafômetro. O ônus da prova deve estar com aqueles que afirmam sua existência, não o contrário.

Os ateus apenas não reconhecem as crenças subjetivas dos religiosos como prova da existência de um deus. Se alguém deseja que suas crenças sejam levadas a sério pelos demais, deve mostrá-las como algo mais que conceitos pessoais, que um estado da mente. Uma crença torna-se objetiva quando é justificada com razões que podem ser examinadas e avaliadas por outros. Caso contrário, não é nada mais do que uma visão pessoal das coisas, uma emoção do indivíduo que nada prova sobre o mundo externo.

Espero ter deixado mais claro que os ateus costumam ser mais humildes por aceitar a ignorância humana, enquanto os crentes assumem uma postura de prepotência e intolerância porque consideram que já sabem as respostas.

35 comentários:

$ disse...

Bom artigo Rodrigo. Esta questão epistemológica é realmente central à discussão da religião. Link.

Gustavo disse...

Bem colocado. Algumas religiões buscam o amadurecimento mental, espiritual e ético. Mas as religiões de fácil digestão, que se preocupam com o número de adeptos, têm a prepotência de fornecer respostas para tudo, o que dá um grande conforto psicológico.

Ressalto que nem todas as religiões são um simples conjunto de crenças, nem deveriam ser. O resultado mais provável para a receita é a intolerância e a incapacidade de aceitar idéias e fatos.

Anônimo disse...

Rodrigo, bons tempos em que vc escrevia artigos sobre economia.

Zepa disse...

"Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los."(autor desconhecido)

Como RC disse:"Além disso, resta um mar de desconhecimento.
O ateu consegue conviver com essa ignorância, com muitas dúvidas sobre o mundo, sobre as questões básicas que sempre mexeram com os homens. Como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, tais questões não têm resposta ainda, e o reconhecimento disso é que possibilita a eterna busca por mais conhecimento."
Ateu não é um ignorante ( veja um dicionário),e sim aquele que não acredita em Deus ou deuses, segundo seu artigo a diferença entre ateu e crente e saber conviver com a crise existencial? Que confusão.

augusto disse...

ok, mas quando morremos não acredito q simplesmente sumimos, e o interessante é q há várias evidências sobre isso, mesmo eu não sendo espiríta acredito em boa parte dele

dae vem minha crença em algo superior

Alvaro Augusto disse...

Sobre a crença na imortalidade da alma, recomendo ver as especulações do economista David Friedman: http://daviddfriedman.blogspot.com/2006/09/visual-processing-and-immortality-of.html

[ ]s

Alvaro Augusto

Ricardo Froes disse...

O fato de não acreditar em um deus porque não se tem como explicá-lo, não significa necessáriamente uma crise existencial nem uma busca desesperada por argumentos para definir o fenômeno. Eu também não sei de que lado fica a cabeça de uma minhoca e nem por isso vou me preocupar em estudar a morfologia dos anelídeos.

Os ateus vivem em paz com sua ignorância, somos limitados e sabemos disso. Mas limitados a tratar daquilo que existe e não do que gostaríamos que existisse.

Anônimo disse...

Excelente artigo disponível no blog do angueth: www.angueth.blogspot.com, de 23/01.
Leiam e reflitam!!!
João paulo vernieri

Zepa disse...

Muitos dos filósofos que conheço são ateus e no entanto a ignorância os incomodam. Ateísmo não se relaciona diretamente com ignorância, são distintas.

Anônimo disse...

Indico: http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5548&language=pt

juliano disse...

haha, constantino finalmente decidiu mostrar do que é feito e socar a piroca nos conservadores

Anônimo disse...

Pelo jeito, Juliano, você demonstra ser um grande conservador, se não for agora sentiu vontade, não é?

$ disse...

"Muitos dos filósofos que conheço são ateus e no entanto a ignorância os incomodam. Ateísmo não se relaciona diretamente com ignorância, são distintas."

Exatamente. Eu, por exemplo, [b]sei[/b] que deus não existe, que o universo não "começou" e que "viemos" dos animais através da mutação e seleção natural.

O que não me impede de ouvir argumentos (e não dogma!) nem de explorar as coisas que ainda não sei.

O Direitista disse...

Rodrigo, vc afirma que "os ateus costumam ser mais humildes por aceitar a ignorância humana". Será que não está faltando humildade para você investigar o que os filósofos e teólogos, durante mais de 2 mil anos, pensaram e escreveram sobre essas questões?

Será que não é precipitação e prepotência saltar tão rapidamente para a conclusão de que, porque vc não conhece as respostas para estas perguntas elas não existem e que, assim, Deus não existe? E pior, disso ainda concluir que a religião é inimiga da razão?

Pois se você mesmo admitiu que a religião é um tipo de filosofia (“Para mim, a religião é uma forma primitiva de filosofia. Lida com as questões básicas da metafísica, e de uma maneira mais primitiva. A filisofia veio para superar a religião”), e se este tipo de filosofia antecede e cria as bases para todos os demais, é necessário que ambas a filosofia e a religião sejam regidas por algo em comum, e este algo em comum não é outra coisa além da Razão.

André disse...

Artigo interessante, mas que generalizou erroneamente o ponto de vista dos ateus, ao meu modo de ver as coisas. Já conversei com vários que transpiravam prepotencia assim como religiosos que se consideravam os donos da verdade como vc mesmo disse. Ambos são comuns e posso afirmar com alguma segurança que essa posição de neutralidade e consciencia da ignorancia não é uma qualidade comum em discuções sobre religião,política... mesmo em outros artigos seus publicados nesse blog a imparcialidade e a admissao da possibilidade de estar errado não me parece muito presente.

gildo p. disse...

Caro Rodrigo,
Li com atenção os artigos "Túmulo do Fanatismo" e o corrente.
Decerto que há diversas considerações que v.levantou, que são pertinentes, mas, se nós leitores não tomarmos cuidado, partiremos para um raciocínio errôneo. Senão, vejamos:
quando Carl Sagan disse que “não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”, não levou em consideração alguns aspectos da filosofia, tais como o processo cognitivo, que, por exemplo, para Platão, estabelece hierarquias para tal processo onde, em EM PRIMEIRO LUGAR, está a FÉ, em segundo lugar a razão e, daí por diante. A busca de evidências no processo cognitivo, faz parte da ciência, que trata da questão do mundo dos fenômenos, da phyisis, esta, passível de uma investigação por parte do raciocínio mecânico humano (comumente chamado razão). No entanto, a fé não pode ser vista pura e simplesmente como uma crença derivada de uma necessidade de se acreditar em alguma coisa. É,acima de tudo, algo inerente ao gênero humano, uma experiência pessoal, íntima, que só diz respeito ao indivíduo, é o que se chama experiência de Deus.
Provar? Como posso provar uma experiência de fé, sendo que ela não pode ser contemplada simplesmente por um raciocínio lógico-mecânico? Isso seria de um reducionismo primário: dizer que todo crente é ignorante.
Sim, é verdade que há muitos crentes ignorantes, a maioria, até, que se julgam os donos da verdade, que desconsideram e demonizam as outras experiências vividas em outras culturas que não a sua. Não é o meu caso, pois respeito os que me são diferentes, inclusive os ateus, desde que não me venham com proselitismo. Mas, e os ateus arrogantes que você combate tão vigorosamente, não são eles também fanáticos seguidores de uma seita, por exemplo, o marxismo-leninismo, que, em nome de uma causa exterminou milhões no último século e meio?
O cristianismo, em que pesem todas as suas distorções históricas, crimes, inclusive, é, juntamente com o judaísmo e o helenismo um dos pilares da nossa cultura, enfim nosso elemento civilizador. E o ateísmo dogmático marxista-leninista? E o tosco pretenso cientificismo ateu positivista de Augusto Comte?
Quando v.se refere a algumas passagens bíblicas, cita Davi, Salomão, seus crimes bábaros, que, o próprio Deus desaprova e pune.
Quando v.cita as passagens "fantasiosas" precisa entender que a Bíblia não é um livro de história natural, não é um livro para o qual se pode dar característica da historicidade que conhecemos. É teologia. É claro que os diversos biblistas se valeram dos mitos e lendas correntes em suas culturas e épocas para descreverem suas experiências, construindo, assim, suas teologias, seus discursos sobre uma instância criadora em que colocavam sua crença, transmitida ao longo das gerações.
Está certíssimo Voltaire quando afirma que “um homem que recebe sua religião sem exame não difere de um boi que atrelam”. Como católico, sinto-me tranqüilo quanto a esta afirmação, pois questiono as diversas instruções que a Igreja transmite e, como orienta São Paulo, examino tudo, retendo só o que é bom. Recomendo a leitura de uma das últimas Encíclicas de João Paulo II: "FIDES ET RATIO".
Grande Abraço.

Anônimo disse...

muitas coisas das religiões são que nem comício comunista; um cara discursando pra um monte de ovelha que come aquilo tudo sem perguntar... sem contar a culpa católica sobre riqueza, talvez se não houvesse esse elemento presente na sociedade ocidental o comunismo já estaria há muito tempo extinto.

Gustavo Gaieski Lehmann disse...

Rodrigo, eu sempre leio os teus artigos pela a lista da RL , simplesmente esse teu artigo e o anterior estão perfeitos, tocam exatamente no ponto que diferem os verdadeiros liberais.
As ideologias e as religiões são iguais, apelam sempre para o emocional e nunca para os fatos.
Um bom autor Ateu é o Richard Dawkins.

um grande abraço

Alvaro Augusto disse...

Caro gildo,

A bíblia certamente não é um livro histórico, mas muitos evangélicos acreditam que o seja. É claro que eles acabam tendo muitos problemas para adaptar a realidade à teoria e chegam ao cúmulo de afirmar que o planeta Terra não tem mais de 5.000 anos de idade! Com essas pessoas, não há discussão, pois eles partem do princípio que a bíblia é a palavra de Deus, e Deus não pode estar errado.

[ ]s

Alvaro Augusto

Ricardo Froes disse...

Como eram sábios os gregos! Nós aqui em uma polêmica para aceitar um só, enquanto eles os tinham às dezenas. E como eram acessíveis os ditos cujos. Simpáticos até, apesar de terem as mesmas manias do deus que os substituiu, quando mandavam castigos terríveis aos humanos que ousavam mais do que deviam.

Eles não tinham problemas tão sérios como nós em explicar que o homem foi feito à sua semelhança porque além de aparentarem ser humanos fisicamente, padeciam confessadamente de ciúmes, raiva, ambição e outros sentimentos inaceitáveis pelos deuses que hoje nos tentam empurrar goela abaixo.

Até hoje não sei que fim levaram Zeus, Hera e cia. ltda.. É uma pena que aquelas farras no Monte Olimpo, regadas a néctar e alimentadas a ambrosia, tenham caído no esquecimento, substituídas que foram pelos porres solitários de Noé e pelos incestos de Lot, que absolutamente não têm o charme da mitologia grega.

Além de tudo, os gregos, segundo as mais recentes descobertas, ainda inventaram a cerveja e a pizza. Como eram sábios os gregos!

" He was a wise man who invented beer." Plato

Anônimo disse...

Brilhante novamente, Rodrigo. Parabéns!

Waldemar M. Reis disse...

Rodrigo,

Em minha opinião você continua tentando demolir pirâmides, algo relativamente fácil, embora de certo modo inútil, pois outras serão erigidas em seus lugares. No comentário que fiz sobre o seu texto anterior, tendo como base Voltaire, proponho o uso de método mais racional para se tratar do assunto religioso, bem como do político e do econômico, estes últimos de naturesa igualmente mística, embora nunca nos demos conta disto (decerto por escusos interesses, próprios do homem no que tem ele de pior). Refiro o modo como Feuerbach aborda a essência da religião: em vez de, como Voltaire, apontar as inverdades ou hipérboles de livros como a Bíblia ou o Corão, prefere investigar a necessidade humana de constituir o divino. Sua convicção era a de tal compreensão ser mais produtiva do que a destruição dos mitos, uma vez poder-se pôr nos lugares destes o substituto adequado, satisfatório o bastante para desestimular ulteriores investidas religiosas.

Abraço,

Waldemar M. Reis disse...

Esqueci-me de tocar num ponto importante. Você parece afirmar a impossibilidade de provar-se a inexistência de algo ("...é impossível partir da necessidade de provar que algo não existe"). Digo isso tendo em mente a frase citada, algo vaga, e tudo quanto a antecede e sucede. Apesar de admirar a solução popperiana para o problema da indução, às vezes não atino para certas afirmações dali tiradas por seguidores seus, como essa que você nos apresenta.

Nem precisei dormir sobre a matéria e lembrei de uma polêmica seminal em filosofia, dirimida pelo gênio de Parmênides. Este insurgiu-se contra o hábito que filósofos do seu tempo tinham de, na ausência de melhor explicação para eventos do mundo, aventarem a existência do não-ser, donde proviria d para onde se dirigiria todo o existente. O eleata baniu do panorama filosófico semelhante licença com a brutal elegância de um lacedemônio: 'o não-ser não é'.

Estava provada a inexistência de algo e sem tentativa e erro. Esse milagre teórico decorre do fato de certos objetos serem inconcebíveis e informuláveis por pensamento e linguagem respectivamente. É o caso do não-ser: o simples fato de mencioná-lo lhe confere existência, ser. Decerto por isto Górgias, algum tempo depois, diria, não sem ironia, 'o não-ser é'. Parmênides, com seriedade hierática alerta para a impossibilidade de postular-se o não-ser, mostra que logicamente não existe e que não se pode, por conseguinte, mencioná-lo. Já Górgias, é possível que num rasgo humorístico, quisesse dizer: 'ora, já que falam dele (do não-ser) e não há como deter tal falatório, isto é evidência de que, se não existia antes, o que não é (ou não existe) passou a ser (ou a existir) de fato'.

Caso você queira mesmo incutir em mentes mais empedernidas a inexistência de Deus (deveria tentar de saída a do Olavo de Carvalho), creio que atribuir o ônus da prova a quem postula a sua existência é o mesmo que dar murro em ponta de faca. Um teólogo bem educado será para um cético e ateu o mesmo que o H. Staden foi para os tupinambá no século XVI: encontrará a oportunidade de ocasionar sua conversão, pois apesar de em tese os ateus viverem em paz com sua ignorância, é sempre possível haver ao menos uma parte desta que lhe cause calafrios, podendo isto ser a suficiente abertura por onde um bem treinado pregador lhe instile a presença divina. Poucos no mundo têm a firmeza de um Capistrano de Abreu, que até o último instante se conservou incréu.

Assim, trate de atacar antes de o inimigo municiar-se e sempre procure fazê-lo tendo em vista o aspecto lógico. Ao menos desse modo deixá-lo-á com problema a ser longamente digerido, o que para você significará algum tempo de paz.

Anônimo disse...

Até agora não entendi, trata-se de degladiação entre ateísmo teísmo, ou religioso contra não religioso? Esse blog parece meis uma arena, pensei pelo menos, aqui, hovesse pessos cultas dispostas à expor idéias. Percebo existir entre vocês algo parecido alhures. Estou percebendo em certo fundamentalismo por parte de alguns comentaristas, cuidado isto pode ser perigoso. Alguém que se acha amigo da sabedoria jamais se deixará influenciar por sentimentos de intrigas. O problema maior não é o teísmo ou ateímo, e sim a idolatria, essa pode se apresentar travestida de várias maneiras.

Anônimo disse...

simplesmente perfeito
parabens

Ricardo Froes disse...

"O eleata baniu do panorama filosófico semelhante licença com a brutal elegância de um lacedemônio"...

Que maravilha! Que frase profunda... Tem gente que tem indigestão quando lê um dicionário. Objetividade que é bom, nada. O texto alambicado é uma salada de Górgias, Parmênides, Hans Staden e Capistrano de Abreu, que mistura nada com porra nenhuma. Se espremer sai o Houaiss inteirinho em ordem de importância: primeiro o palavrório complicado, depois o inteligível. Coisa típica do pretenso intelectual exibicionista-padrão.

Zepa disse...

Valeu Ricardo!

Mario disse...

Caro Constantino,

O erro dos ateus (ou agnósticos?) não é não acreditar na existência de Deus. É adotar como doutrina a inexistência de um "outro mundo" que não seja o material.

Ricardo Froes disse...

Meu caro Mario, realmente você tocou fundo no ponto e gostei da firmeza da afirmação. Realmente almas do outro mundo é coisa que não falta por aqui.

Na próxima encadernação quero voltar tão seguro quanto você.

josé antonio disse...

Sim, o Constantino deixa um POUCO a desejar quando o assunto é religião, pelo menos quando a trata deste modo (observamos textos bem melhores como "O Rebanho Bovino"). Penso que a fé se torna, para alguns, de tal modo imprescindível. Imaginemos a situação que segue. Um estudante que prescisa fazer uma prova muito complexa da qual depende seu futuro (e ele reconhece isso plenamente), se entregará a fervorosas orações de petição porque pensa que assim atingirá seu objetivo. Suponhamos que após as orações e promessas este estudante consiga fazer um bom estudo que cumine em sua aprovação. Coloquemos também um estudante "2" na mesma situação. Este último sabe que seu desempenho na prova será conseqüência pura e simples de sua preparação, e assim sendo, faz uma preparação que igualmente culmina em sua aprovação. Agora verifique que para o primeiro, o resultado foi possível graças a uma obra divina enquanto para o segundo foi simples questão de causa e efeito, estudo-aprovação. A meu ver, a causalidade dos fatos foi válida para ambos, com a diferença que o crente não admite ou não percebe que passou na prova única e exclusivamente pelo que estudou (ou seja, pelo uso da razão) e fez um bom estudo somente devido a sua fé (e não pela existência de um interlocutor que ouviu suas orações e interviu). Este indivíduo será sempre dependente da força de sua crença para conseguir grandes mudanças na vida, e toda vez sairá se gabando por aí dizendo que Deus o ama, quando na verdade apenas está viciado numa fé cega que pode trazer conseqüências futuras indesejadas. O estudante "2" possui uma visão mais direta das coisas, tem responsabilidade para culpar a si mesmo pelo que acontece ao invés de atribuir os acontecimentos a sistematizações divinas. De tudo, o que podemos notar é que o estudante "2" foi direto ao ponto, uso empenhado da razão e o crente utilizou a fé para que, ironicamente, avançasse para o seu segundo estágio (primeiro para o outro) o uso da razão. Portanto, embora cega e indiretamente, a fé de certa forma exerceu seu papel na atuação dele e é por isso que digo que para alguns ela é não só importante como necesária.
Ah e eu esqueci de dizer que o aluno "2", não obstante o nome, passou em primeiro lugar pois utilizou o tempo em que o outro rezava para fazer uma leitura a mais... hehe!

josé antonio disse...

Ao amigo lá em cima que citou: "Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los.", e colocou autor desconhecido, a autoria é de Isaac Asimov.

Ricardo Froes disse...

Interessante e elucidativo o seu exemplo, José Antonio. Só discordo da fé ser necessária porque o aluno "sem fé" passou em primeiro exatamente porque em vez de orar, estudou um pouco mais. Logo...

Toth disse...

Rodrigo Constantino é muito fraco falando de filosofia e religião. Levou um verdadeiro sabão na comunidade do Olavo de Carvalho e como argumento "in contrarium" apelou apenas para clichês e panfletos estereotipados e bem surradinhos, a ciência detém algo de muito mais valioso que é a razão e a fé não explicada, só ilude. Saiu de lá ouvindo determinadas verdades inconvenientes sobre a ciência e o ateísmo que hoje são impublicáveis por ir justamente contra o "politicamente correto" do cientificismo iluminista.
A ciência e a razão são tão democráticas e abertas que estas verdades só são possíveis de serem mencionadas ainda ( vejam bem: eu disse ainda) nas "catacumbas" da internet orkutiana. Dependesse dessa gente e nem isso tinha. Teríamos que engolir a versão "oficial" e ai de quem discordasse.
Realmente o "fracasso subiu à cabeça" do Sr Constantino.

$ disse...

"mais racional para se tratar do assunto religioso, bem como do político e do econômico, estes últimos de naturesa igualmente mística"

Política e Economia não têm nada de místico em sua natureZa. Místico é sinônimo de irracional, incompreensível.

Pedir mais racionalidade do trato de misticismo é abraçar a contradição e destruir a própria mente. Como fazem os religiosos.

Anônimo disse...

ótimo texto. muito bom meesmo!