quinta-feira, agosto 13, 2009

Cena Carioca: Uma Novela Chamada Detran



Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Eu desconheço casos de cariocas que nunca enfrentaram problemas durante a vistoria anual obrigatória dos carros. Quase sempre é a mesma novela: um monte de gente reclamando, sistema de informática fora do ar, informações desencontradas, descaso com os motoristas, e horas perdidas no Detran para finalmente receber o comprovante de que o carro está em condições adequadas para circular – ainda que as ruas não estejam.

Todo ano eu enfrento essa mesma novela, e vejo que não sou o único. Sempre está cheio de gente esbravejando contra a demora, a arbitrariedade dos funcionários, o mau humor, a burocracia. Esse ano eu tive que passar por este sofrimento nada menos que três vezes. Na primeira vez, soube que era obrigatório agora fazer uma alteração no documento, para constar que o carro é blindado. Naturalmente, era preciso pagar uma taxa também, acima de R$ 80. Uma manhã perdida para saber disso. Tudo feito, lá vou eu novamente para o Detran. Descubro que a mudança não é mais obrigatória.

Por mim tanto faz, só que eu havia agendado a alteração e a vistoria juntas, e como a mudança no documento caiu em exigência, pois faltava a nota fiscal das peças da blindagem (?), eu não obtive sucesso. Tentei argumentar que não fazia questão alguma de fazer a mudança, podendo aproveitar minha ida para fazer somente a vistoria, que já tinha sido feita e aprovada. Mas o funcionário me informou que isso não era possível, pois eu tinha agendado a mudança no documento também! Ele disse que era mais fácil eu simplesmente agendar uma nova vistoria, o que foi feito. Hoje, finalmente, a novela chegou ao fim, após duas horas de espera, e uma manhã de trabalho jogada no lixo.

Como o meu, existem vários outros casos. Conheço várias pessoas que não tiveram o carro aprovado por conta do farol de xenon, daquele inútil extintor de incêndio vencido, do pneu um pouco careca segundo o julgamento do funcionário, do insufilm acima do permitido (numa cidade onde o governo não oferece segurança alguma), de alguma pendência boba na documentação, etc. São horas perdidas em função do Detran. Quanto custa para a cidade tanto desperdício de tempo? Parece que todo mundo é funcionário público! É tanta burocracia, tanto descaso, tanta demora, que fiquei sabendo através de um senhor que muitas pessoas pagam uma quantia, em torno de R$ 150, para receber o documento da vistoria em casa. A velha máxima que todo brasileiro conhece bem: a burocracia cria dificuldades para vender facilidades ilegais depois.

A questão principal é: por que fazer uma vistoria obrigatória? Não é justamente para isso que serve a polícia? Nos Estados Unidos, o policial verifica na hora se o carro se encontra em bom estado, e caso contrário, dá uma notificação ou multa para o motorista. Nos demais estados brasileiros, até onde eu sei, essa vistoria anual obrigatória não existe. Além disso, o IPVA é metade daquele pago pelos cariocas, que chega a 4% do valor do automóvel. Somos mesmo o povo dos “malandros”. Carioca é esperto! E paga o dobro de IPVA, se submete ao caos infernal do Detran para fazer a vistoria anual obrigatória, e depois circular por ruas que mais parecem queijos suíços de tantos buracos, sem falar dos riscos constantes de assalto.

Não está mais do que na hora do povo demonstrar alguma revolta contra esse abuso do governo? Eu nem culpo aqueles funcionários do Detran, pois eles não contam com os incentivos adequados para mostrar eficiência e focar na satisfação dos clientes. Tanto é verdade que praticamente toda repartição pública é a mesma porcaria. Filas enormes, burocracia infindável, descaso, arrogância dos empregados, etc. No setor privado, a empresa sobrevive e lucra se conseguir satisfazer seus clientes. No setor público, esta pressão não existe. Por que a surpresa então com o péssimo serviço fornecido por todas as esferas do governo?

Por isso, a solução é acabar com a vistoria obrigatória. Essa é a única forma de livrar os cariocas dessa tortura anual. E quem acha que o fim da vistoria representaria o caos nas ruas, com carroças caindo aos pedaços circulando por aí, eu pergunto: e isso já não é a realidade atual? Ou alguém realmente confia no Detran para retirar esses carros das ruas? Essa é justamente uma das funções da polícia, que infelizmente não está muito preocupada em rebocar esses veículos, porque seus donos não contam com carteiras recheadas para subornos polpudos. Aliás, não estaria na hora de privatizar as ruas e até a própria polícia também?

16 comentários:

Adamos Smithson disse...

Em SP o IPVA de carros a gasolina também é de 4% o valor venal do veículo.

Gian disse...

Começo a entender o porquê de quase 50% dos veículos que rodam no Rio de Janeiro estarem irregulares. Quem faz regras muito difíceis de serem cumpridas está incentivando a desobediência civil.

bluecastro disse...

> Nos Estados Unidos, o policial verifica na hora se o carro se encontra em bom estado, e caso contrário, dá uma notificação ou multa para o motorista.

Caro Rodrigo,
Ao contrário do que você quer indicar, que a vistoria é uma burocracia tropical, lá nos EUA eles fazem vistoria em automoveis, sim. Aliás, já faziam essas vistorias dez anos atrás em Chicago, onde morei e tive carro.

livemusic disse...

Aqui em SC a vistoria só acontece na transferência do veículo, felizmente. E mesmo assim é como você disse, pagando por fora o cara vai na sua casa fazer a vistoria, e o carro passa mesmo não tendo condições de trafegar.

Realmente, o valor das taxas de IPVA e impostos embutidos nos combustíveis que pagamos não refletem na condição de nossas estradas, coisa que a privatização resolveria.

Augusto Araújo disse...

Rapaz, to de queixo caído, vistoria anual no Detran? Graças a Deus (por mais q vc seja ateu) esto nao existe onde moro.

cessna disse...

Cara, se vc gosta tanto de liberdade, vai morar no Paraguai. Lá pode tudo. Mas é uma porcaria.

patricia m. disse...

Que eu saiba as ruas já são privatizadas, ou você consegue estacionar seu carro na rua sem ter um maldito flanelinha praticamente *exigindo* dinheiro para que seu carro *não* seja roubado? Eles são os donos da rua...

Fênix Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fênix Felipe disse...

Privatizar as estradas sim (com segurança privada), agora a policia comum é pedir de mais! Logo vai querer privatizar o judiciário

Adamos Smithson disse...

Privatizar estradas por quê? Deixa a iniciativa privada identificar a oportunidade, comprar as terras e construir as estradas ela mesma. Essa seria a proposta do extremo-liberal, não seria? Pelo que observo, em NENHUM lugar do mundo isso funciona ou poderia funcionar. (estou me baseando em empirismo, e não em teoria, para fazer esse comentário)

A construção de estradas é uma das áreas onde o Governo precisa intervir. Talvez pelo custo ou prazo de retorno serem muito grandes, sei lá. Só sei que tirando um ou outro exemplo muito específico, uma sociedade sem governo interventor não teria estradas.

Gian disse...

As estradas existiam muito tempo antes de haver governo, então sua evidência empírica está um pouco desfocada, Adamos.
E na verdade, sem o governo intervir, o patrimônio de transporte brasileiro, com várias estradas de ferro, era crescente no Brasil, até as tragédias Vargas e Kubitschek.

Adamos Smithson disse...

Embora eu estivesse falando de estradas rodoviárias, você acha que as ferrovias do Brasil pre-rodoviariano eram construídas sem participação/incentivos governamentais?

Adamos Smithson disse...

Em tempo: antes que as freirinhas do puritanismo liberal passem vergonha dizendo que Adam Smith NUNCA defenderia a intervenção governamental na construção/operação de estradas, digo logo: no Riqueza das Nações, ele diz explicitamente que o Governo DEVE se responsabilizar pelas estradas.

Gian disse...

Adamos, embora não seja historiador ou economista, acho que sim, muitas eram feitas deste modo. Mas me deixe explicar que não estava apenas falando do Brasil e sim de um contexto mais geral.
Mesmo no Brasil de hoje, são encontradas equipamentos de transporte que não são apenas construídos sem o apoio estatal, são feitos ao arrepio da lei, como as estradas das madereiras ilegais e as pistas de pouso do tráfico, em condições similares, ou melhores, do que as construídas pelo poder constituído.
Tudo isso, porém, não isenta o poder público, que é pago para isso, de construir estradas onde julgar necessário.

igor disse...

Aqui no RN, temos um detran e um posto avançado do detran a diferença é que um a burocracia é grande e no outro é bem mais fácil e por ser mais simples não precisa de uma figura que faltou ser citada no artigo o "despachante" que não faz nada a não ser facilitar, aqui no estado ele coloca uns muleques pra ficar na fila, dá gorjeta aos funcionários do detran, e etc.. o diretor do detran nada faz, no posto avançado é mais simples infelizmente no meu caso eu descobri isso depois que passei 3h na fila. Todo ano o governo inventa uma nova burocracia para no ano seguinte irmos ao detran ou pagar uma nova taxa ou curso, se fosse bom ao menos! fora que sempre existe um caso de alguém que tira carteira de motorista que foi paga!

Fábio Vasconcelos disse...

Penso o seguinte: se o Estado do Rio de Janeiro quer diminuir o numero de acidentes, primeiro conserte as estradas, diminua o crime, acabe com a corrupcao policial, enxugue o Detran, enfim, ORGANIZE o Estado, e ai sim, pecam ao motorista para perder tempo e fazer uma vistoria.

Outra coisa: de graca! Por que pagamos o IPVA? Se e Imposto sobre a Propriedade de Veiculos Automotores, cade o servico prestado? Qual e o servico mesmo pelo qual pagamos esse imposto?!?

Sabe quando isso vai acabar? Quando os outros 50% dos motoristas ignorarem solenemente essa tal vistoria. Quando os empresarios e a populacao pararem de recolher os impostos.

Sem contrapartida nao deve haver pagamento de impostos.