segunda-feira, maio 20, 2013

Da Cartola para a Cachola


Percival Puggina


            Muitas vezes me perguntam como desconstituir as falácias que a esquerda militante difunde em relação aos fatos e à história do país. Minha resposta é esta: não há como. O trabalho de manipulação é feito com insuperável determinação. A sempre acesa fogueira das mentiras queimou o sentido de certas palavras e forjou outras com persistência e eficácia que tornam inútil qualquer tentativa de lhes recuperar o significado. Há meia dúzia de anos, por exemplo, a palavra auto-anistia começou a ingressar no vocabulário político nacional para designar o disposto pela Lei de Anistia. Quantas vezes, leitor, você leu ou ouviu algum desmentido a esse respeito?

          A simples palavra - auto-anistia - usada em substituição a Anistia, basta para sugerir que os congressistas de 1979 e de 1985 empenharam-se em aprovar preceitos que livrassem do acerto com a Justiça os agentes do regime que vigeu no país entre 1964 e 1985. A substituição de uma palavra pela outra tem o poder de substituir uma história por outra, bem diferente, ao gosto de quem consegue tirá-la da cartola e introduzi-la na cachola do distinto público. Feito isso, está pronto o serviço. A Anistia deixa de ser um instrumento jurídico de reconciliação nacional para se transformar em gesto canalha de quem, valendo-se do poder que detinha, legislou em causa própria para livrar a cara. Como são poucos os que conhecem história, a explicação do vocábulo se contenta com afirmar seu significado: a Anistia foi uma auto-anistia dos militares. Feito! Não há a menor necessidade de apresentar provas, ou indícios consistentes ou depoimentos testemunhais que convalidem aquilo que é afirmado.

          Quem conhece a história, no entanto, sabe que não foi assim que as coisas andaram. A partir de 1966 surgiram os primeiros movimentos em favor da Anistia. Quem participava dessa mobilização? Entre outros, Associação Brasileira de Imprensa, Ordem dos Advogados do Brasil, sindicatos, entidades estudantis, advogados de presos políticos, familiares de brasileiros no exílio e o MDB, partido político oposicionista. Como se pode perceber, ninguém pró-anistia falava pelas Forças Armadas. Seria um completo disparate imaginar isso. A campanha era conduzida pelos que estavam do outro lado. Passaram-se muitos anos até que em 1979 fosse votada a Lei de Anistia em tumultuada sessão do Congresso Nacional. O projeto do governo Figueiredo não anistiava quem tivesse participado de "terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal". Para estes, as duras penas da lei. Mas havia uma emenda do deputado Djalma Marinho que anistiava a todos, ampla, geral e irrestritamente. Essa emenda, levada a votação, foi rejeitada por 206 votos a 201. Derrotada a emenda, o projeto do governo foi aprovado pelos votos das lideranças do governo e da oposição. Essa primeira Anistia, parcial, permitiu a volta ao Brasil da maior parte dos exilados, entre eles Leonel Brizola e Miguel Arraes.

          A campanha pela Anistia ampla, geral e irrestrita continuou, então, por mais seis anos. Empenharam-se nela as mesmas instituições e grupos políticos de antes, insatisfeitos com o fato de que os praticantes de crimes ditos de sangue tivessem ficado fora da lei de 1979. Foi apenas através da Emenda Constitucional Nº 26, que convocou a Constituinte, em 27/11/1985, que o Congresso Nacional, eleito em plena legitimidade democrática, inseriu o preceito que conferiu à Anistia o caráter amplo, geral e irrestrito pelo qual clamavam as oposições. Não há, ao longo dessa longa história que se estende por 19 anos, o menor traço ou gesto que possa ser lido como um anseio dos governos militares por se protegerem. A Anistia que tivemos foi aquela pela qual clamavam os opositores do regime. Ninguém se mobilizou por uma anistia ampla, geral e irrestrita, menos ampla, menos geral e menos irrestrita, que excluísse os agentes do Estado. Portanto, essa história de que houve uma auto-anistia é mais uma das tantas mentiras sacadas da cartola para ser inserida nas cacholas menos esclarecidas. Ou seja, para enganar quase todos. A Anistia foi concedida pelo Parlamento, portanto, não pode ser "auto" coisa alguma.

          Apesar de as coisas terem transcorrido desse modo, a mentira muito repetida, insiste, agora, em que a desejada e pleiteada Anistia, além de autoconcedida, foi uma injustiça. Também acho injusto que terroristas, guerrilheiros, assassinos e assaltantes, responsáveis por mais de uma centena de mortes, andem soltos e recebendo gordas indenizações. Digo outro tanto de quem abusou do poder, torturou e seviciou. Tais impunidades não são justas! Mas a Anistia não foi concebida para servir à Justiça. Ela serviu ao perdão, ao esquecimento, à pacificação nacional e à boa Política. Infelizmente há quem só saiba operar politicamente num ambiente crispado por ódios e ressentimentos. 

11 comentários:

Marcio disse...

OS COMUNISTAS SÃO OS VERDADEIROS ELITISTAS, BURGUESES E MILIONARIOS!
Na Venezuela o PSUV, aqui o PT: AMBOS MAGNÍFICOS COMBATENTES DA BURGUESIA ELITISTA "APENAS DOS OUTROS, FORA DO PARTIDO"!
O ABAIXO SERVE IGUALMENTE PARA O PSUV!
O PT passou a se destacar a sociedade brasileira a partir do momento em que permitiram acesso à formação da juventude e ao aparelho de Estado, adentrou como um vírus usando o organismo sadio - vacilo dos militares - como hospedeiro e pretende permanecer.
O PT seria ilegítimo, por ser filho da dupla mentira calculada e linguagem usadas, uma para o público, outra para sua própria elite burguesa partidária e apadrinhados.
É fruto também da dupla moral oportunística, apregoando as virtudes tradicionais do povo brasileiro e praticando o seu contrário no exercício do poder, e vindo à tona à ocasião dos numerosos escândalos na CPI do “mensalão”.
Seria a recorrente montagem de ministerios agora já em número de 39 a prática do mensalão doutra aparência?
Já notou como os altos dirigentes de partidos comunistas são ricos, elitistas, burgueses comportando-se como ricaços e exibidos, desejando passar por amigos dos pobres e COMBATIVOS DA BURGUESIA DOS OUTROS APENAS FORA DO PARTIDO?
Admitem a elite burguesa apenas deles DISFARÇADA DE ESTADO, dos outros concorrentes fora do partido, jamais!
O PT representaria a falsidade e a mentira maquinadas por décadas de propaganda enganosa. Essa é uma das falhas essenciais da administração petista, auto condenada à extinção por se valer apenas de expedientes suspeitos, ferindo todos os comportamentos éticos, morais, religiosos e financeiros.
Até seus aliados começam a se indispor contra ele por sua deterioração ter alcançado patamares absurdos!
Quem apoia ou vota no PT serve de matéria prima e idiota-útil a seu esquema de montagem e vítima doutra burguesia elitista tacanha e muito mais opressora!

Anônimo disse...

O problema é que os militantes de esquerda foram mortos e torturados. se cometerema crimes, já pagaram. E os torturadores ? Até agora não aconteceu nada com eles. Não dá para comparar !!!

Pablo Moron disse...

Acredito que o anonimo não saiba o significado da palavra anistia.

Pablo Moron disse...

Não é "se" cometeram crimes anonimo, eles cometeram crimes e foram anistiados, ou seja, não pagaram por isso, entendeu?

Pablo Moron disse...

fui dar uma consultada no site do ternuma, excelente para o conhecimento dos crimes cometidos por esses malditos comunas e descubro que infelizmente foi tirado do ar, não sei por qual motivo, triste!

Anônimo disse...

Comissão da Verdade revela que tortura foi utilizada logo após o Golpe de 64 e não depois da luta armada, como é defendido pelos militares.

Pablo Moron disse...

É o mesmo anonimo querendo mudar de assunto? a tortura sempre foi utilizada no brasil, inclusive pelos comunas.

Anônimo disse...

Os defensores do golpe alegam que a tortura passou a ser utilizada depois do AI5 por causa da luta armada. A Comissão da Verdade mostrou que a tortura era praticada antes da luta armada e antes do AI5. Cai por terra a defesa do golpe. Só isso que disse. Está baseado em fatos e não em suposições.

Anônimo disse...

Outro dado importante descoberto na Comissão da Verdade foi que houve assassinatos de índios (milhares de desaparecidos e 300 casos já comprovados). É um dado que mostra que a violência do Estado não atingiu somente adeptos da luta armada.

Pablo Moron disse...

é anonimo, vc n entendeu o texto, fugiu do assunto e começou a escrever obviedades, indios sao assassinados no brasil desde 1500.

Pablo Moron disse...

Me impressiona a incapacidade de interpretar um texto tao simples como esse, que essa "jente" tem.