domingo, novembro 08, 2009

Cárcere na Selva



Rodrigo Constantino

“A crua realidade em que estávamos mergulhadas era, sem dúvida, superior à nossa capacidade de entendimento.” (Clara Rojas)

O livro em que a companheira de cativeiro de Ingrid Betancourt, Clara Rojas, conta sua experiência de seis anos como prisioneira das Farc, mais parece um roteiro de filme de ficção, tamanha a incredulidade que desperta. Eu, prisioneira das Farc é o registro autobiográfico dessa resistente mulher que pariu um filho no meio da selva, foi afastada dele pelos guerrilheiros, e como nos contos de fadas, finalmente conseguiu encontrar a liberdade e reunir sua família novamente.

Os relatos dos anos que lhe foram roubados pelos guerrilheiros marxistas são muitas vezes chocantes. Rojas afirma, por exemplo, que “dormir em uma cama de tábuas (...) era um verdadeiro luxo”. Ela lembra: “[...] quando era hora de seguir caminhando pelo meio daquela selva terrível e densa, daqueles terrenos tão inóspitos, com freqüência o suor de minha testa se misturava às lágrimas. Eu me sentia no próprio fim do mundo e quase completamente sozinha”.

Após uma tentativa de fuga, eis o tratamento recebido dos guerrilheiros: “Colocaram em cada uma de nós, no tornozelo, um cadeado com uma corrente de uns três metros, que ficava amarrada a uma árvore, de modo que não podíamos nos movimentar. Só nos soltavam para ir ao banheiro; o resto do tempo ficamos acorrentadas como animais, inclusive durante a noite”. E ela desabafa: “Cheguei a me sentir o ser mais miserável sobre a face da terra, e aqueles guerrilheiros me pareceram os seres mais detestáveis que jamais imaginei conhecer”.

Mesmo grávida, perto de dar à luz, Clara Rojas não foi libertada, nem teve acesso aos enfermeiros da Cruz Vermelha, como havia solicitado. Ao contrário, praticamente morreu durante um parto no meio da selva, feito de forma totalmente irresponsável. Já em liberdade, ela precisou de várias cirurgias para “arrumar o estrago que me haviam feito em meu abdome com aquela cesariana de urgência na selva”. Após oito meses, mãe e filho foram separados, e Clara só iria reencontrar seu filho depois de três longos anos.

Sobre seus seqüestradores, eis o que nos informa Rojas: “Na maioria dos casos tratava-se de gente iletrada, jovem, com idade média entre 18 e 35 anos, dinâmica, com um nível importante de treinamento e disciplina militar, mas com pouca informação geral e nenhum conhecimento do país, do mundo, em suma, da civilização”. Além disso, ela acrescenta: “[...] todos eles são ensinados e estão acostumados a pensar que a única existência possível e o único futuro estão nas Farc, principalmente quando ingressam com pouca idade e se tornam adultos dentro da guerrilha”. Ou seja, inocentes úteis vítimas de lavagem cerebral seguindo a “ética” da barbárie. Seres humanos transformados em animais insensíveis, máquinas de violência.

O mais chocante de tudo isso, além da constatação de quanta barbaridade alguns seres humanos são capazes de realizar, é lembrar que os seqüestradores e assassinos das Farc ainda são tratados com negligência ou mesmo simpatia por alas da esquerda latino-americana. Quando não ajudam os guerrilheiros, como no caso de Hugo Chávez, governos esquerdistas se negam a reconhecer o fato de que as Farc representam um grupo terrorista. Durante o governo do petista Olívio Dutra no Rio Grande do Sul, o representante das Farc, Hernan Rodriguez, foi recebido pelo governador no Palácio Piratini. O Foro de São Paulo, criado pelo PT em parceria com grupos radicais de esquerda, considera “legítima” e “necessária” a luta das Farc. No Brasil, o embrião do que poderia ser chamado de Farb, o MST, é um aliado dos petistas, e apesar de inúmeros atos de vandalismo e violência, vários esquerdistas ainda chamam os criminosos de “movimento social”.

Para essa gente, os fins utópicos e revolucionários justificam quaisquer meios. Em nome da “justiça social”, todo tipo de injustiça, como a sofrida por Clara Rojas, acaba fazendo parte do sacrifício pelo “bem maior”. Afinal, para se fazer uma omelete é preciso quebrar alguns ovos, certo? O afastamento dessas pessoas das práticas mais básicas de humanismo parece total. Eles amam a Humanidade, mas não ligam mais para os homens de carne e osso. Um mundo novo é possível, e enquanto ele está em construção, vítimas inocentes como Clara Rojas e tantos outros deverão sofrer as conseqüências necessárias para esta magnífica obra: a construção do “novo homem”, um ser altruísta, totalmente abnegado, vivendo em prol da coletividade. Se para tanto o preço é virar um traficante de drogas, um guerrilheiro, um seqüestrador e um assassino, esse parece um preço que alguns estão dispostos a pagar. É a barbárie em ação!

10 comentários:

Ludwig disse...

É... A doutrina do Bem Comum (= Mal Individual) anda bem difundida. A violência, a opressão, a dor, a desumanidade, a escravidão são as Eminentes Bases do "Greater Good". Essa é a maravilhosa perspectiva com que o Bem Comum deseja banquetear a sociedade.
Viva! Urra! Que a Barbárie FINALMENTE reine! Viva o Progresso!

Ernesto Heredia Dias disse...

E o MST ataca novamente, e permanece impune !

Agora fazendas no Pará, após a destruição da fazenda da Cutrale !

Aonde está a justiça, a polícia e o estado ???

Fernando disse...

Rodrigo, no último artigo de seu blog o Emir Sader afirmou que o neoliberalismo nasceu na América Latina.

Depois disso eu passei definitivamente a acreditar que existem pessoas vivendo em realidades paralelas...

André Barros Leal disse...

Quando será que o restante da esquerda será obrigada a responder pelo seus crimes como os nazistas?

ao que tudo indica, o muro já caiu, o socialismo faliu, mas nenhum dos responsáveis pelos milhoes de mortos foi posto a julgamento.

o problema dessa falta de aplicação da lei é que os defensores do socialismo ainda usam a foice e o martelo como um sistema humanitário e não algo responsável pelos maoires massacres de individuos depois da chegada do branco às americas.

vai entender...

Everardo disse...

É preciso localizar esses milhões de mortos, André Barros Leal. Segundo os blogs da direita, variam de 5 a 100 milhões. Olavo de Carvalho eleva a 250 milhões. No Brasil, durante a intentona, me parce qeu foram pouco. Uns cinco, talvez. Onde mais, na AL?

Everardo disse...

Ernesto, às vezes me divirto quando vejo pessoas que desejam o fim do estado clamarem por ele em desespero contra o MST. Que gozado!!!

fejuncor disse...

Ouvia ontem mesmo no Pinga-Fogo, em vista da CPI do MST, um beócio da esquerda naquele papinho da ”função social da propriedade” (rubrica petista coletivização) espanta-me como essa gente é ensaiada. O discurso de meus professores. São meia dúzia de lugares comuns retóricos a justificar um tal ideal rousseaniano pouco importa o contexto: de tratores vandalisando cultura de laranjas a seqüestros de pessoas inocentes, serve o mesmo papo. Evita-se o foco no argumento e em fatos reais procurando levar pro lado da filosofia. Agora experimente citar Israel que qualquer análise mais ampla e filosofante é recebida como agressão pessoal - ai os fatos, mesmo que enviesados, viram valor supremo. Cuba tem a área um pouco maior do que a área de Santa Catarina. E o dobro da população. Mas enquanto meu estado se constitui num dos maiores focos de produção de alimentos do planeta, contribuindo com comida de verdade para a espécie humana, Cuba precisa importar 60 (SESSENTA) porcento do que seu povo miserabilizado por uma ditadura burocratoparasita consome.

A petralhada tem despeito do Sul do Brasil. O trabalho que se vê produzindo alimentos no Sul desperta o ódio do MST e de toda a ratatulha burocratoparasita pendurada no governo "Lula". E Cuba eles endeusam, talvez também porque em Cuba o trabalho seja desincentivado.

André Barros Leal disse...

Everardo,
Voce deve estar de brincadeira ou contando alguma piada de mal gosto. Pelo que eu entendi voce acha que os milhoes de mortos pelo socialismo é invenção da "direita"? Voce está ignorando por acaso o tratamento dado aos oposicionistas de Stalin? Voce quer saber onde etão os que se opuseram à Mao e Pol Pot?

Isso é simplesmente ridículo. Mas eu tenho que deixar uma coisa muito clara. se o socialismo é a esquerda, então quem seria a direita? Não é o livre mercado com certeza. Talvez possam ser os regimes militares ditatoriais. Mas com a mais absoluta certeza, o livre mercado nao pode ser acusado de matar ninguem na história.

Agora me ilustre o seguinte: Mais uma vez, o Socialismo é esquerda. O sindicato Polones Solidariedade lutava CONTRA o socialismo, como é entao que Lech Walessa é considerado um lider de esquerda?

Agora mais proximo de nós... FHC é um socialista declarado. Como é entao que ele é taxado como sendo de direita?

Everardo disse...

Ora, quem deve responder é você, André, que contabiliza os mortos vítimas da esquerda e sabe onde estão os esquerdistas; como agem, como matam. O que eu acho ridículo é achar que todos os males são originários na esquerda e depois justificar essa postura com os seus crimes, que, pelo jeito, em breve, chegará a um bilhão de pessoas. Essa redução da filosofia socialista a uma mera prática criminosa contra seus opositores é uma deficiência.

André Barros Leal disse...

eu nao acho que a filosofia socialista é criminosa. acho que é falida.

eu nao tenho dois pesos e medidas. para mim, o errado é errado e pronto. tirar uma vida humana ou invadir uma fazenda são atos criminosos... independente do objetivo destes fatos.

se voce matar alguem com a justificativa de que vai salvar 100 crianças com cancer da morte, continua errado.

apoiar um sistema que me rouba minhas posses CONTRA A MINHA VONTADE para fazer caridade ou seja lá o que for é e sempre vai ser imoral...

isso é o que os socialistas nao entendem.