sábado, novembro 28, 2009

O Esquerdismo dos Intelectuais



Rodrigo Constantino

Por que tantos cineastas são de esquerda, defensores do intervencionismo estatal na sociedade? Essa pergunta pode ser feita de forma ainda mais abrangente: por que tantos intelectuais desprezam o livre mercado e aderem ao socialismo? Parte da resposta talvez esteja na aleatoriedade das escolhas do público.

Em O Andar do Bêbado, Leonard Mlodinow mostra como o acaso muitas vezes influencia a ponto de determinar nossas vidas. Logo no primeiro capítulo, o autor usa como exemplo para ilustrar a aleatoriedade de eventos justamente o setor de cinema em Hollywood. Ele mostra como chega a ser imprevisível detectar um padrão de comportamento no sucesso ou fracasso dos lançamentos dos principais estúdios. A sorte acaba exercendo um papel fundamental no resultado de bilheteria dos filmes.

Um dos exemplos é o filme A Bruxa de Blair, que custou aos produtores meros US$ 60 mil, mas que rendeu US$ 140 milhões em bilheteria, o triplo do que rendeu O Exorcista, filme cujo custo foi estimado em US$ 80 milhões. Claro que a qualidade do filme é importante, assim como a competência do produtor, diretor, roteirista, atores, etc. Mas o ponto é que são tantos fatores que determinam o desempenho de um filme, ele sofre tantas influências imprevisíveis e incontroláveis, que não seria possível afirmar com grande dose de confiança qual filme será um estouro e qual será um fiasco.

Vários filmes milionários, com atores super famosos, foram vergonhosos fracassos, sem que ninguém pudesse ter previsto isso antes. Por outro lado, filmes que diversos estúdios rejeitaram, por considerá-los terríveis, tornaram-se verdadeiros blockbusters. Isso não ocorre somente com filmes. O mesmo se passa com livros, onde escritores como John Grisham e J.K. Rowling tiveram suas obras rejeitadas dezenas de vezes, antes de virarem celebridades. Não é nada fácil antecipar quais serão os best-sellers e quais ficarão encalhados nas prateleiras.

Nada disso anula a relevância da capacidade. Como o próprio Mlodinow explica, “isso não quer dizer que a habilidade não importe – ela é um dos fatores ampliadores das chances de êxito - , mas a conexão entre ações e resultados não é tão direta quanto gostaríamos de acreditar”. Talvez o talento seja uma condição necessária, mas não suficiente para o sucesso. Até porque cinema e literatura são meios altamente competitivos. E, principalmente, porque as preferências e modismos das massas são imprevisíveis. Aquilo que o grande público vai gostar não é algo simples de prever.

Mas o que isso tudo tem a ver com o esquerdismo predominante em Hollywood e entre os intelectuais? Ora, essa característica aleatória das escolhas do público pode ser muito cruel com os autores. Um dia eles são estrelas, quase deuses, e no outro podem estar esquecidos, mergulhados numa fase decadente. Nada garante o sucesso sustentável. O público, por qualquer motivo aparentemente inexplicável, pode lotar as salas de cinema para ver um filme que nenhum chefão de Hollywood achava que faria sucesso, e pode também se recusar a assistir uma produção milionária com atores já renomados.

A imprevisibilidade e a instabilidade da demanda produzem muita ansiedade nos produtores. Ficar à mercê dos ventos do momento, que podem mudar de direção sem aviso prévio, pode ser desesperador. A competição acirrada e essa demanda randômica assustam. Além disso, muitos produtores gostam de fazer filmes “cabeça”, enquanto nada garante que esta seja a demanda do grande público. Esse fator é ainda mais visível no caso francês. Se ao menos houvesse uma maneira de evitar tanto sofrimento e angústia! Infelizmente, existe uma forma de fugir desta tensão: não depender tanto da demanda. E como isso seria possível? Garantindo antecipadamente uma espécie de reserva de mercado, através do governo, claro.

Desta forma, a simbiose entre produtores e governantes permite satisfação mútua para ambos os lados. No caso de Hollywood a troca é mais sutil e indireta, enquanto no Brasil o acordo é mais direto e escancarado. Os produtores fazem filmes com o suporte do governo, recebendo financiamento dos impostos, cotas nas salas de cinema são reservadas para filmes nacionais e agora o governo pretende levar os filmes para os mais pobres através dos “cinemas populares”. Já os governantes, donos da caneta poderosa, fazem com que os filmes mais alinhados aos seus interesses sejam os vencedores nessa disputa política. Filmes enaltecendo políticos em particular e o governo em geral, acabam sendo os escolhidos para os privilégios. Quem sai perdendo é o público, como sempre...

Resumindo, a aleatoriedade da demanda do público pode ser uma, entre outras*, das causas do esquerdismo predominante no meio intelectual. Os produtores acabam buscando refúgio na segurança do governo, onde a troca de favores fala mais alto. Dessa forma, eles não precisam se submeter à “tirania do mercado”, ou seja, aos gostos e preferências dos consumidores.

* Outras possíveis explicações para a predominância esquerdista no meio intelectual foram levantadas por gente como George Stiegler e Hayek.

28 comentários:

João disse...

Essa inversão dos valores em relação ao comunismo se deve muito mais ao fato de o capitalismo premiar aqueles que tem méritos do que aqueles que não tem.

Oras, com muito mais gente pobre do que rica onde estaria a galinha dos ovos de ouro da incompetência?

Na pobreza, oras.

O comunismo é a louvação da pobreza que a transforma em nobreza.

Pobre agora é nobre e nobre agora é pobre, ou seja, persona non grata.

Apesar de nobreza rimar com pobreza ambos são conceitos diametralmente opostos.

Não existe nobreza na pobreza a não ser que o pobre adira à uma religião e com isso embeleze moralmente sua vida.

Se todo mundo fosse rico ou gozasse de uma vida mais ou menos abastada os conceitos marxistas não encontrariam eco em seus sentimentos.

Se isso ocorre é porque o pobre sente-se abandonado pelo Estado de Direito e não se sente um cidadão de fato.

Muitos sentem-se como se tivessem apenas deveres e nenhum direito.

Por isso é necessário que se faça promoção social mas, pelo amor de Deus, que não sejam intelectuais inventando palhaçadas para o povo se divertir tais como nariz de palhaço, malabarismo em estacionamento, etc.

O que faz o povo sentir-se digno é ver seus filhos participando de atividades - pasmem! - direitistas.

Exemplos? Campeonatos de xadrez, escotismo, filatelia, competições de matemática, física, quimica, etc...

O que noto no Brasil é que muitos intelectuais de hoje não tiveram infância.

Por que isso?

Porque devido à eles não empatizarem com as brincadeiras dos demais ficaram sem um campo de atuação para sua infância diferenciada.

Daí o que temos hoje é uma classe intelectual revoltada não exatamente contra a política e sim, contra a infância que eles não tiveram e nem sequer brilharam nela.

fejuncor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lRhapsody disse...

E a Oi-lulinha já recebe os dividendos do filme via BNDES rsrsrs
É tudo feito ná cara dura.
Corremos sérios perigos!!!!!!!!

fejuncor disse...

Como “convém” ser de esquerda... A qualidade, nem poderia ser diferente, acaba em segundo plano.

É dinheiro do contribuinte a bancar romantização de notáveis da história brasileira como Bruna Surfistinha, longas milionários baseados em novelas (sic) vide Tieta do Agreste que passa longe da obra de Jorge Amado, “teatros filmados” Ó Pai ó - esse é o nosso, como dizem, maior "filme cabeça" - e etc etc etc. Não raro extrapolando nos palavrões e o erotismo apelativo já esperado ao se tratar de filme brasileiro.

Talvez Alberto Santos-Dumont não seja tão interessante quanto a vida e o plano de poder de um semi-analfabeto com ilusões de grandeza eleito líder num pais no qual o índice de analfabetismo se compara ao de aprovação do presidente. Talvez possamos em 5 minutos achar temas mais interessantes, supondo que Bussunda já não o tenha feito, quando repetidas vezes, incorporou Lulla.

Mas no pais de Bruna Surfistinha e Lulla, esse adjetivo tem uma interpretação bastante peculiar.

PedroAdãO disse...

Subscrevo o colega acima.
A propósito, se o troço é sobre o retirante de Garanhuns, porque quem surje destacado no cartaz é a Glória Pires?

fejuncor disse...

Constantino, imputo necessário frisar aqui um ponto. Não é uma aleatoriedade “pura”, mas relativa, ou seja, relativa a probabilidades inerentes ao ambiente em que está inserida.

Um fenômeno blockbuster pode e sempre será relativamente ocasional, pois você nunca vai “ter certeza” que determinado projeto arrebentará: mas pode assegurar com muito mais segurança de onde há maiores chances de sair algo bom, pesando certos aspectos. A variância amostral que é a medida da dispersão estatística dessa VARIÁVEL ALEATÓRIA, assim, deve indicar quão distante em geral seus valores se encontrarão do valor esperado. Indice passível de se calcular com um banco de dados cinematográfico em mãos, daquilo que se queira analisar. Em outras palavras, qual a possibilidade de prever o resultado ou de se amargar um fracasso inesperado para um lançamento nacional ou hollywoodiano, por exemplo.

Não creio que seja difícil apontar onde pareça mais seguro apostar umas fichas. Aliás algumas apostas são até “garantidas”. Falando em Ridley Scott, F.F. Coppola, Steven Soderbergh, profissionais geniais criando e dirigindo dentro da estrutura que os americanos adquiriram com as décadas de comercialização e otimização desta atividade artística, não tem erro. O mesmo de suas animações.

Você junta ótimos roteiristas na penúria precisando de dinheiro (lembram da greve dos roteiristas) com empresas que visam lucros como uma Dreamworks, uma Pixar, todos na premência imposta de atender a demanda, é de esperar que venha coisa boa. Incentivos para isto não faltam.

ntsr disse...

As massas querem almoço grátis, os filmes querem agradar as massas, o resultado é isso, um tiro no pé
Hoje em dia até o cinema comercial que devia ser só diversão é cheio de porcaria, o batman begins vomita cliches esquerdistas do começo ao fim, aquele 007 loiro é todo pertubado, problemático, justamente o contrário dos livros do Ian Flemming, no senhor dos aneis o tolkian lá falava q o anel era o capitalismo...hoje em dia tem q assistir filme tapando o nariz

ntsr disse...

'Se todo mundo fosse rico ou gozasse de uma vida mais ou menos abastada os conceitos marxistas não encontrariam eco em seus sentimentos.'

Engraçado que o pobre de hoje tem uma vida muito mais confortável que a de muitos ricos do passado,justamente por causa do capitalismo

ntsr disse...

'O que faz o povo sentir-se digno é ver seus filhos participando de atividades - pasmem! - direitistas.

Exemplos? Campeonatos de xadrez...'

Xadrez?? Na russia o Kasparov entrou justamente no que sobrou do partido comunista
Ele apanhou do deep blue, agora quer apanhar do mercado

Calypso.Escobar disse...

A direitona dark não sabe que tem muita coisa boa no cinema nacional e que deve ser valorizada,,,
Esse FEIUNCOR deve ser daqueles que dirá que só o "Tropa de elite" que se salva. O cinismo dessa burguesia é tão unilateral quanto o filme.
Ah!, ganhou o Urso de Ouro em Berlim? Que amigo urso! E logo em Berlim, tão marcada pelo fascismo.
A ploriferação de blogs com pensamentos como estes que vejo é um triste espetáculo, reflexo da mentalidade colonizada existente no Brasil: reverência de muita gente a tudo que vem de fora apenas, aos filmes de extrema-direita; o branco, europeu, alemão, "superior", ao premiá-lo, diz, afinal, segundo a mente colonizada, o que devemos pensar a respeito.
Ao ufanismo desavisado: patriotismo só rima com fascismo no som das palavras.
E, como vivemos na colônia, tem muita gente(muita mesmo) que tem a mente colonizada e repete igual papagaio que o cinema nacional não presta, que isso e aquilo nacional não presta etc, etc, etc. Essa gente deveria era conhecer melhor o cinema nacional, assim como o Brasil e seu grande presidente.
O pessimismo e a crítica sempre na ponta da língua.
Mas soluções, cadê???
É preconceito de elite, crônico e latente.

fejuncor disse...

Huahahshuah para melhorar é preciso que esses cineastas de araque deixem de fazer filmes "cabeça" (de bagre) politicamente corretos, chatos e panfletários de causas equerdopatas. A tal da Estética da Fome, daquele imbecil do Glauber serve como exemplo entre outros cabeças de bagre. E o pior de tudo às custas de nosso sagrado dinheiro! É preciso que esses cineastas caiam na real e aprendam de uma vez por toda: CINEMA É ENTRETENIMENTO!!! Jamais “tratado ‘filosófico’” politicamente engajado. Por fim, eles devem ter muitas aulas com o cinema yankee, quiçá sim o melhor do mundo.

Fascista? Ora, por favor. O capitão Nascimento não é um herói - e identificá-lo como tal não é claramente a proposta do filme. Se é para julgar, afirmo sem pestanejar vc é o tipo que exalta filmagens que dramatizam nossa miséria moral, enquanto execra Tropa de Elite porque é uma denúncia contundente dessa realidade, a qual te capitaliza de alguma forma.

É demagogia de corruptocrata, crônica e latente.

ntsr disse...

'Essa gente deveria era conhecer melhor o cinema nacional, assim como o Brasil e seu grande presidente. '

Então fica com ele pra ti

ntsr disse...

1) E Escobar, parece que vc tinha um discurso decorado e colou ele sem nem ler o artigo direito, o negócio nunca foi TODO o cinema brasileiro mas sim o cinema NAO SÓ BRASILEIRO que é feito com o dinheiro dos contribuintes que acaba puxando brasa pros interesses dos governos.O que inclui muita coisa americana tb.

2) Se fosse mesmo como tu fala, reverencia ao estrangeiro,branco,alemao,etc, eu por ex nao teria comentado que entre alguns dos filmes que mais detestei estava justamente a triologia do sr dos aneis, onde só tem brancos, mitologia irlandesa, e aquele novo james bond, alemao, pertubado (como vcs gostam) e esquerdinha até a alma

fejuncor disse...

Pois é ntsr, e "o preconceituoso" ainda é você.

Everardo disse...

fejuncor, confesso que sou um pouco rude, semi-analfabeto, como o nosso Presidente, necessitando que você traduza o que escreveu: "não é uma aleatoriedade pura, mas relativa, ou seja, relativa a probabilidades inerentes ao ambiente em que está inserida";
É muita erudição!! Fiquei com enxaqueca!!!

fejuncor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fejuncor disse...

Já estudou Distribuição de Probabilidade? Leia, entenderá um pouquinho. Embora jovem ao menos tenho algum conhecimento a respeito.

Lá o termo aleatório é comumente usado pra designar uma propriedade estatística BEM DEFINIDA tipo a quebra duma neutralidade ou CORRELAÇÃO, esse, o aspecto a que me referi (não simplesmente abstrata como popularmente se emprega "ah é uma coisa aleatória/errática"). Alude à imprevisibilidade, mas não é sinônimo – assim como risco não é sinônimo de perigo, embora parecido, e por ai vai. Pense, descrever a chance que uma variável pode assumir ao longo dum espaço de valores só rola se você conhecer e levar em conta isso. Antes examina os elementos relacionados a ela, depois incorpora os cálculos, e ai clareia. A natureza aleatória da coisa não vai mudar, de qualquer forma chegas a um discernimento mais acurado, que é melhor do que não tê-lo.

Aquela velha história da incerteza... previsões econômicas não são perfeitas e nem se pretendem ser, porem, precisamos delas para fins de planejamento. Ruim com elas, pior sem elas.

fejuncor disse...

Há previsão e “previsão", assim como aleatório e "aleatório", depende. O texto e o contexto definem os limites das interpretações possíveis.

Inclusive pode ser puramente aleatório sim. Vai depender do caso. O cinema de cá, digamos, aproxima-se desse último. É quase tudo uma porcaria mesmo, os que se destacam, 1% (sim de toda dinheirama despejada pela Embrafilme esmagadora maioria deu no saco) o foram por razões tão fortuitas, mal cabe avaliar.

Everardo disse...

fejuncor, a probabilidade também tem princípios, leis. Ocorre que as leis da natureza não são 100% recorrentes e o percentual que fica não é explicado pelo método científico conhecido atualmente. Entre os limites, a que você se refere, cabe a sua certeza, mas fora deles, há outro mundo, outras leis que os aferrados aos paradigmas modernistas (individualistas, capitalistas e cietificistas) não compreendem, por isso erram tanto nas suas previsões.

fejuncor disse...

Previsões são prévisões. Avalia-se cenários, assume-se o risco e decide-se. Projeção do passado é dizer: se tudo o mais permanecer como então o amanhã vai ser +ou- assim… ora mas se o porvir será repetição do ensaio, é quase uma tautologia. Inexiste “uma lei histórica”, vício hegeliano, nada a ver com a busca da economia. Sim, cientificismo, bom ver quem verdadeiramente se beneficia dessas tolices ditas como se fossem raciocínio sólido.

fejuncor disse...

Inclua-me fora, nunca cai na roubada de atribuí-las caráter científico, uma charlatanice.

Everardo disse...

Afinal, fejuncor, o seu raciocínio é ou não é científico? Você recorreu, ou não, a projeções do passado? O que você entende por "parte não recorrente" dos fenômenos da natureza? Tome as variantes que você considera que vão interferir no objeto da observação e descubra depois que NÃO interferirm (e por isso você falhou). Os economistas precisam estudar mais sociologia e os sociólogos precisam compreender o objeto do seu próprio estudo.

fejuncor disse...

Em relação a que? A conjetura dos analistas?

fejuncor disse...

Negativo. Só dados de auxílio à tomada de decisão. Exatidão é ciências exatas, na nossa “o átomo pensa”, como diria Delfim.

anaodesantoamnarao@gmail.com disse...
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anaodesantoamnarao@gmail.com disse...
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anaodesantoamnarao@gmail.com disse...
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anaodesantoamnarao@gmail.com disse...

mais sobre o cinema e esquerda.

realmente quem faz fimles que nao tendem ser blockbusters DEVEM PREFERIR que o Estado ou algum outro meio financie suas obras, mas isso nao se aplica somente a esquerda, se aplicaria a tudo que nao eh economicamente rentavel. salvador dalí, dalí era reconhecidamente de direita, quem sabe ele desejasse que o estado financiasse suas obras para que elas fossem mais divilgadas.