domingo, novembro 01, 2009

Palestra na Estácio de Sá - Capitalismo em crise?

Trecho da minha palestra na Universidade Estácio de Sá, onde argumento que a principal causa da crise que abalou o mundo foi a manipulação das taxas de juros pelo banco central americano (Fed).

4 comentários:

Adamos Smithson disse...

Eu entendo que uma palestra do Rodrigo vá sempre tentar atribuir a culpa da crise ao Estado, afinal, cada um tem sua agenda. Mas acho que essa explicação é muito simplificada, e ignora dois pontos cruciais:

1) O sistema financeiro e de seguros se tornou tão entrelaçado, que hoje, a quebra de qualquer uma das grandes empresas do setor é capaz de fazer com que todas as outras quebrem junto. São as too big to fail. Isso não aconteceu por causa da ação do Estado, embora ele pudesse tê-lo evitado através de regulação. É causado por ferramentas derivativas como os CDSs. Isso é preocupante. É natural do capitalismo que empresas quebrem. É esperado que empresas quebrem. É assim que os "genes ruins" saem do sistema. Só que hoje, quando uma quebra - o que sempre vai acontecer - todas as outras quebram. Isso não é causado pela ação do Estado, e sim pela sua omissão.

2) Você diz que a causa da crise foi a manutenção, por parte do FED, de taxa de juros abaixo do valor justo de mercado. Você se "esqueceu" de explicar como essa ação do Estado fez com que os bancos/seguradoras passassem a comprar/vender dívidas sabidamente de alto-risco (as subprimes) como se fossem dívidas de baixo risco (AAAs). Assumindo que o FED de fato estivesse mantendo taxas de juros artificialmente baixas (o que é discutível), o esperado seria inflação. Agora, não existe nenhum tipo de ligação lógica entre "(1) taxas de juros artificialmente baixas" e "(2) bancos vendendo subprimes como se fossem AAAs". Sem explicar a ligação entre (1) e (2), sua palestra fica mais cara de "propaganda" do que de "ciência".

Adamos Smithson disse...

Mais uma coisa, ligeiramente importante: a taxa de juros que o FED determina é a taxa que o FED paga, quando ele toma dinheiro emprestado. O FED não tem poder de determinar a taxa de juros que o mercado irá oferecer para outros entes. Ele sequer tem o poder de fazer com que os entes superavitários aceitem emprestar dinheiro para o banco central por essa taxa por este determinada.

Assumindo que o Greenspan tenha mantido uma taxa de juros artifialmente baixa, o que toda a teoria econômica nos diz é que a quantidade de dinheiro emprestada ao FED seria menor do que a quantidade que seria emprestada em livre mercado. E só.

Para dizer que essa política é a causa da crise, é preciso explicar os pontos de interrogação da seguinte figura: http://imgur.com/eq79E.png.

ntsr disse...

"É esperado que empresas quebrem. É assim que os "genes ruins" saem do sistema. Só que hoje, quando uma quebra - o que sempre vai acontecer - todas as outras quebram. Isso não é causado pela ação do Estado, e sim pela sua omissão."

'Quando uma quebra ***todas*** quebram'...
O ônus da prova disso é seu.
Não sou economista mas, que eu saiba, um monte de bancos e investidores passaram bem longe da crise justamente por apostar no que era chato e seguro.Sem precisar do seu papai governo.

Pedro Urbinati disse...

Sr. Adam Smithson,

A dinâmica que falta no seu raciocínio é a seguinte:


Com as taxas do FED, teoricamente, abaixo da taxa de juros de equilibrio, temos um excesso de demanda por capital.
Nesse sentido, os bancos para conseguir captar $, precisam oferecer um produto que proporcione um retorno maior que 2%a.a. Dessa maneira, você percebe que uma taxa de juros pouco atrativa dos títulos americanos incentiva a criação de produtos com retorno maior, e portanto, risco maior.