sexta-feira, fevereiro 12, 2010

A Cigarra Doente



Rodrigo Constantino, Revista Voto

Apesar do epicentro da crise mundial estar nos Estados Unidos, a economia européia é que foi parar na UTI. Mais especificamente, os países denominados PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha, na sigla em inglês) estão passando por um verdadeiro dilema sem fácil solução. A tragédia grega se espalha rapidamente para contaminar os demais membros da União Européia, todos eles vítimas do mesmo tipo de doença. Esta mazela tem nome: chama-se welfare state.

A vida animal numa natureza hostil nunca foi fácil. Não poderia ser diferente para os seres humanos. Sobreviver é uma árdua tarefa, sujeita a inúmeros riscos, além da constante necessidade de labutar para obter os recursos fundamentais. Viver bem então, levar uma “vida digna”, parece uma meta ainda mais audaciosa. Boa parte da humanidade simplesmente viveu ou vive à margem dessas benesses que os povos de nações desenvolvidas pelo capitalismo parecem tomar como certas. E quando a maioria do povo começa a encarar tais condições como “direitos” que são garantidos pelo governo, e não mais como resultado de um sistema que oferece liberdade individual e cobra responsabilidade em troca, eis quando os problemas começam.

Conceitos básicos obtidos pelo bom senso passam a ser ignorados por aqueles que, feito crianças mimadas, sonham que basta bater o pé no chão e pedir para ser atendido. Mas quem vai provê-los de tais “direitos”, na verdade vantagens duramente conquistadas? Ora, o Estado, “essa grande ficção através da qual todo mundo tenta viver à custa de todo mundo”, como dizia Bastiat. Essas pessoas, imbuídas de uma mentalidade coletivista que justifica tudo pelo “social”, esquecem que para alguém desfrutar do direito a produtos feitos pelos homens, outro deve ser obrigado a trabalhar para produzi-los. Afinal, casas, remédios, roupas, alimentos, nada disso cai do céu. Quando um povo ignora como tais recursos são possíveis, quando ele passa a acreditar que basta o governo decretar, e todos os desejos serão realizados, o encontro com a dura realidade será questão de tempo.

E o tempo de ajustes dolorosos para os europeus chegou. O aumento na quantidade de “direitos” oferecidos pelos governos europeus aos seus eleitores foi impressionante nas últimas décadas. Para financiar tais promessas, a carga tributária já subiu a patamares assustadores, fazendo com que um típico europeu tenha que trabalhar quase a metade do ano apenas para pagar impostos. A rigidez das leis trabalhistas, na ingênua crença de que garantiriam segurança aos trabalhadores (já empregados), engessou a economia, dificultando a demissão e, portanto, a contratação de pessoal. Os governos encontraram, como única alternativa para honrar seus gastos excessivos, a opção de emitir dívida. O endividamento desses governos em relação às suas economias chegou a graus insustentáveis em alguns casos.

Enquanto a maré toda está subindo, por conta de choques produtivos com a entrada de bilhões de eurasianos no mercado de trabalho, ou pela manutenção das taxas de juros em níveis artificialmente baixos, tudo parece bem. Mas quando a bolha estoura e a maré baixa, aqueles que nadavam pelados ficam expostos. É justamente este o caso de boa parte da Europa. Seu modelo de welfare state apresenta grande semelhança ao esquema Ponzi de pirâmide. Os trabalhadores novos vão sendo forçados a trabalhar mais para pagar pelos “direitos” dos outros. A previdência social, altamente benigna, no papel, com os aposentados, vai acumulando um rombo explosivo. Ocorre que a demografia não mais ajuda. Os europeus passaram a ter menos filhos. A conta não fecha. E a economia mundial deixou de ajudar, entrando em recessão. A bomba-relógio parece cada vez mais próxima de explodir.

O que deve ser feito é bastante claro do ponto de vista teórico. Esses governos precisam apertar bastante seus cintos, reduzir drasticamente seus gastos, soltar as amarras burocráticas que travam o dinamismo econômico, e deixar o setor privado respirar ares mais livres. Em resumo, a Europa precisa realizar reformas liberais, voltar a aceitar a realidade como ela é. O trabalho precisa ser enaltecido, em vez da vida parasitária à custa dos outros. A responsabilidade, sempre individual, precisa retornar, jogando para escanteio a utopia coletivista. Os fatos devem ser enfrentados. A formiga, enfim, precisa ser mais valorizada que a cigarra.

Há, entretanto, um grave problema na equação: convencer esse povo, agora já acostumado, a abrir mão dos privilégios insustentáveis. Muitos já ameaçam ou até fazem greves gerais, mostrando que não aceitarão, sem luta, regressar à realidade, largar o osso oferecido pelo governo no passado. A cigarra, mesmo doente, não deseja abrir os olhos e verificar que aquela dolce vita não existe mais. Ela irá relutar até o final. Só que as formigas cansaram de bancar a farra da cigarra. Até quando ela conseguirá cantar assim?

11 comentários:

Iconoclastas disse...

e o câmbio?

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ntsr disse...

O socialismo vai funcionar no dia que os porcos voarem

cessna disse...

Infelizmente, Rodrigo, desta vez o welfare state não é o vilão. Não que ele seja bom, mas dessa vez não há relação entre o estado babá e a crise.
Quais seriam os países com estados mais "generosos"? Alemanha, França, Suécia, etc. Nenhum deles está pedindo socorro, pelo contrário, eles é que terão que socorrer a Grécia.
As taxas de desemprego altíssimas e estáveis da EU é que são consequencia do estado babá. Esta crise não tem nada a ver.

Rodrigo Constantino disse...

Cessna,

A situação da França não é boa, e os PIGS foram ainda mais irresponsáveis na gastança pública. A Alemanha eu concordo, está em situação bem melhor. Mas justamente porque conseguiu manter maior dinamismo capitalista. A Suécia quebrou em 1992, fez reformas liberais, e deu a volta por cima. Hoje tem mais liberdade econômica que os PIGS.

Rodrigo

Iconoclastas disse...

ah, sim, eu esqueci: a Itália vem na verdade na direção contrária apesar do alto endividamento, ou por causa deste. o nível de estimulo "anti-crise" concedido foi desprezível, o déficit projetado para este ano é um dos mais baixos do MCE e a projeção de longo prazo para a sua relação dívida/pib é de estabilidade, enquanto a da maioria dos outros países é explosiva. é fato que houve algumas reformas que reduziram os dispendios sociais, inclusive na previdencia. enfim, no contexto geral, fora o alto nível da dívida, no contexto europeu a perspectica dos italianos não é das piores. tem muita gente dizendo q o "I" tá mais para Irlanda...

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samuel disse...

Brilhante artigo Rodrigo. Uma análise correta da crise pairando sobre a moeda da UE.

Leo Lucas disse...

É você quem faz as figuras de suas postagens, você as compra, ou elas caem do céu?

ntsr disse...

carnaval...época onde o brasileiro mostra que seu único motivo de orgulho é o que o homem tem em comum com os animais

Paulo disse...

Ótimo artigo.
Não li o suficiente para saber se essa crise é fruto de welfare state, mas de qualquer forma o texto é muito bom.

Breviarium disse...

Prezado Rodrigo,

Foi inaugurado ontem o site de notícias Breviarium, uma versão brasileira do www.drudgereport.com , o site de notícias mais influente dos EUA. Há um link no site para seus artigos e a idéia é estar "linkando" seus artigos constantemente. O endereço é: http://www.breviarium.com.br/

Cordialmente,
Editores
Contato@breviarium.com.br

fejuncor disse...

Vai transar? O governo dá camisinha.

Já transou? O governo dá pílula.

Engravidou? O governo dá o aborto.

Teve filho? O governo dá o Bolsa Família.

Tá desempregado? O governo dá bolsa desemprego.

Vai prestar vestibular? O governo dá o bolsa cota.

Não tem terra? O governo dá o bolsa invasão e ainda aposenta.

É um circulo vicioso manejando a manada.