quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O custo político da Petrobras

Rodrigo Constantino, Jornal Valor Econômico

Normalmente, uma empresa estatal apresenta um risco maior que outra privada para seus acionistas minoritários. Isso se deve ao risco de uso político da companhia, além da falta de escrutínio adequado dos principais sócios no uso dos recursos escassos.

A Petrobras é um caso sintomático desse perigo. Várias vezes a empresa foi utilizada para objetivos políticos dos governantes, levando pouco em conta os interesses dos acionistas. O melhor retorno possível sobre o capital sempre foi colocado em segundo plano, atrás das metas políticas do momento. Com a descoberta do pré-sal, esse fantasma está de volta.



Para que a enorme quantidade de recursos naturais se transforme em riqueza efetiva, a empresa terá que realizar um programa gigantesco de investimentos: para os próximos cinco anos, são previstos US$ 175 bilhões.

A geração própria de fluxo de caixa da empresa não será suficiente para suprir todo esse montante. O grau de alavancagem da Petrobras já não está em patamares tão confortáveis. Resta, portanto, a opção de emitir novas ações para levantar capital.

Mas o governo não pode ser diluído e perder o controle da empresa. Surge um problema: como capitalizar a Petrobrás sem que o governo perca o controle ou precise desviar dezenas de bilhões para a estatal?

A resposta veio por meio de uma engenhosa arquitetura financeira. O próprio ativo sob o solo, que pertence à União, será usado como capital pelo governo. Dessa maneira, ele não precisa desviar dinheiro de outros setores. Entretanto, uma grande incerteza paira no ar: qual será o valor atribuído a esse ativo?

O fluxo de caixa gerado pelas reservas pré-sal será altamente dependente do preço futuro do petróleo, sem falar dos enormes riscos operacionais da atividade. Além disso, o valor presente desse fluxo dependerá da velocidade no uso do pré-sal, que custa mais caro para ser extraído do que o óleo em menor profundidade e em campos já maduros.

Dependendo das premissas usadas, o valor presente do pré-sal poderá ser elevado, sacrificando, porém, as margens da Petrobras, que faria uso melhor de seu capital focando em reservas mais baratas.

O risco de o governo supervalorizar esses ativos de alguma forma, para aumentar o capital da Petrobrás sem diluir sua participação, não é nada irrelevante. Há um claro conflito de interesses entre o acionista controlador, o governo e os acionistas minoritários. E o mercado de ações acusa o golpe.

Desde meados de 2009, as ações da Petrobras já perderam cerca de 30% de valor em relação ao Ibovespa. Isso não pode ser explicado pela mudança no cenário de commodities, pois o petróleo continuou no mesmo nível nesse período, sem falar do bom desempenho da OGX.

Além disso, as ações da Petrobras perderam também bastante valor em relação às ações da Vale, o que mostra claramente que o problema é específico da Petrobras.

As incertezas quanto ao modelo de capitalização estão no cerne do problema, agravado pelo "overhang" de ações (bilhões de dólares serão vendidos em forma de novas ações aos minoritários, inundando o mercado com mais oferta de papel). O valor de mercado da Petrobras tem oscilado entre R$ 300 bilhões e R$ 350 bilhões.

Esses 30% de perda no valor relativo ao Ibovespa representa quase R$ 100 bilhões. Pode-se afirmar que este foi o custo, até agora, de se colocar a política acima dos interesses dos acionistas no que diz respeito somente ao pré-sal.

Se todos os demais custos, pelo fato de a Petrobras ser ainda uma estatal, fossem computados, o resultado seria assustador. Quantos bilhões a mais a empresa poderia valer se tivesse uma gestão privada, focada no melhor retorno sobre o capital, sem a influência do interesse político?

Infelizmente, nas eleições que se aproximam, não há um único partido com a bandeira de retomar as privatizações. Os minoritários da maior das estatais continuarão arcando com um pesado custo enquanto tiverem que pagar pelo jogo político dentro da empresa.

12 comentários:

fejuncor disse...

Pior, o que nos aguarda é uma nova onda estatizante. Ironicamente a estratégia da candidata petralha guarda semelhança com os PNDs, os planos nacionais de desenvolvimento tocados pelos governos Costa e Silva e Ernesto Geisel durante o regime militar de aumento do Estado na economia em 3 frentes: energia, mineração e telecomunicações. Isto é as mesmas considerações feitas aqui valerão para Vale (cuja bandeira de retomada do controle ela defende) e Eletrobrás. Ainda temos de ouvir isso “Quinta potencia mundial” me ajuda ai Dilma! Seremos a primeira, sim, a primeira em gastos do governo.

Mateus disse...

Rodrigo, Fejuncor, e demais com conhecimento mais específico de economia, vocês poderiam me tirar uma dúvida?

Quanto a economia, meu embasamento e conhecimento não é tão exímio assim, então aproveitando esse gancho em que no artigo foram mencionadas os investimentos em ações da Petrobrás.

Eu nunca investi em ações, sempre fui "conservador demais", digamos assim, e queria satisfazer a minha curiosidade, que á de saber se hoje ainda vale investir em ações como a da Vale e Petrobrás.

A pergunta deve soar boba, infantil, mas como disse anteriormente, meu conhecimento relativo a essa área é escasso demais.

P.S: meu email para contato, visto que talvez possa acabar sendo um assunto off-topic:

mateusrgd@gmail.com

Rodrigo Constantino disse...

Mateus, eis o tipo de conselho que não gosto de dar. Pelo simples motivo de que ninguém sabe ao certo! Se as ações da Vale ou Petrobrás serão bons investimentos daqui para frente depende de uma infinidade de fatores, muitos imprevisíveis: preço das commodities, economia mundial, risco geopolítico, taxa de juros, crise na Europa, crescimento chinês etc.

Enfim, não tenho bola de cristal para responder de forma satisfatória. Sinto muito.

Rodrigo

Mateus disse...

Rodrigo, ainda assim, agradeço, e mais uma vez, perdoe a pergunta off-topic!

Iconoclastas disse...

Mateus, já que vc pensa na hipotese de aplicar parte sua poupança em açoes e solicitou ajuda aos "demais", dá uma lida o post do RC, com o título abaixo, tá no arquivo de Janeiro deste ano. complementa o q ele disse, e eu concordo totalmente, sobre não haver bola de cristal.

outra coisa, não se apegue a rotulos como "conservador demais". quem sabe o custou para vc ter o teu dinheiro é vc.

" Bolsa não é cassino, mas exige autocontrole do investidor"

Mateus disse...

Iconoclastas, li o artigo indicado por você, e realmente seria muito complicado opinar neste aspecto, visto as diversas vertentes que englobam o investimento em ações. Não há realmente bola de cristal.

Citando ainda o livro "O Jogador", li o mesmo há anos atrás, e agora posso interligar como esta literatura realmente ilustra muito bem o comportamento de um jogador.

Aprendiz disse...

Na verdade, a questão não é apenas o custo de extrair o petróleo do pré-sal. A questão é que a tecnologia ainda não existe, e talvez nunca venha a existir. E mesmo que se torne tecnicamente possivel, pode ser por um custo que torne INVIÁVEL a extração. Grandes quantidades de petróleo a profundidades muito menores tem sido encontradas no mundo inteiro.

Aleandra disse...

Acho que a privatização da Vale do Rio Doce foi uma das grandes bobagens do governo Fernado Henrique Cardoso. Cadê o dinheiro da venda? Você nunca sabe com certeza onde enfiaram o dinheiro (em alguma cueca?), mas o país perdeu uma das jóias da Coroa. Para mim é como vender um patrimônio que gera riquezas por uma qunatia finita que some como mágica. Dinheiro na mão é vendaval (pior se for na mão de algum político).

fejuncor disse...

Ôh, Mateus! Sim pra quem está disposto a deixar grana aplicada nesses papéis por, no mínimo, uns 3 anos - e tem calma necessária pra agüentar um constante sobe-e-desce de preços. Logo é um investimento conservador.

Agente fala aqui de forma catastrofista acerca do que virá com a esquerda no poder, mas as vezes são para polemizar. Um governo se mostrando irresponsável além da conta acaba punido pelos investidores e pelos eleitores.

No caso a PN da Petro e a Vale PNA sozinhas respondem por praticamente 30% do Ibovespa. Sou como vc, meio avesso ao risco: o sono do “day trader” não me causa inveja. E nada como aluguel duma boa salinha comercial..

fejuncor disse...

Aleandra,

A única maneira de democratizar o capital, e portanto a riqueza do país, é vaporizando esse capital através de ações na bolsa. Estatizar é transformar as empresas em “feudos” de quem estiver no poder. Os cumpanhêros leninistas estão “babando” para por as mãos nas grandes geradoras de empregos.... O caminho para o progresso passa pela privatização.

Mateus disse...

Fala Fejuncor! Realmente o risco não me atrai muito, por isso sempre tive dúvidas quanto a investir ou não em ações, levando em consideração essa oscilação constante de preço, é realmente um jogo de paciência.

E bem lembrado, nada como o bom e velho aluguel de uma sala comercial!!!

fejuncor disse...

Como transformar 1 país pobre de funcionarios publicos marajás num pais de empreendedores criadores de riqueza?