terça-feira, dezembro 22, 2009

O culto à Presidência

Rodrigo Constantino
O GLOBO (22/12/2009)

Um dos grandes paradoxos das democracias modernas é a tendência a reclamar do governo ao mesmo tempo em que mais responsabilidade é delegada ao poder político. As pessoas condenam as conseqüências do aumento de concentração de poder no governo, mas acabam confiando ao mesmo a solução para todos os males do mundo. Parece haver uma dissociação entre o governo idealizado e os políticos de carne e osso que ocupam os poderosos cargos. Como abstração, o governo surge como um deus moderno, sendo o presidente seu messias enviado para nos salvar. Já no cotidiano, os políticos são alvos de ataques constantes e profunda desconfiança por parte do povo. Alguma coisa está fora de lugar.

Esta contradição não é monopólio nacional. É o que mostra Gene Healy em “O Culto à Presidência”. No livro, Healy expõe a crescente devoção dos americanos ao poder Executivo, tratado como uma espécie de gênio capaz de lidar com todo tipo de assunto. Isso fica claro na retórica dos candidatos, com um tom cada vez mais messiânico. O ex-presidente Bush pretendia nada menos do que livrar o mundo do mal, enquanto o atual presidente Obama venceu as eleições com um discurso igualmente megalomaníaco, calcado na “audácia da esperança”. Aqui, o bordão “nunca antes na história deste país” já virou marca registrada do presidente Lula, o “filho do Brasil”.

Os limites do poder Executivo impostos pela Constituição vão sendo abandonados em troca de uma arbitrariedade digna de imperadores. O que possibilita esta perigosa mudança é justamente o fato de que muitos depositam no presidente a esperança para solucionar todos os problemas, desde desastres naturais, passando por pobreza, violência, drogas, até as questões mais banais do dia a dia. Enquanto o governo for visto como o instrumento para realizar todos os nossos sonhos e desejos, será natural termos uma concentração assustadora de poder em suas mãos. Diante de uma expectativa irracional quanto à sua habilidade para resolver os grandes problemas nacionais, os presidentes encontram boa razão para forçar uma escalada de poder de acordo com esta responsabilidade.

Como essas expectativas são irrealistas, a decepção parece inevitável. Com freqüentes crises, em vez de a fé no governo ser questionada, demanda-se mais governo como solução. Essas pessoas agem como as vítimas da Síndrome de Estocolmo, encantadas com o próprio malfeitor. Pretendem curar o envenenamento com cianureto. Acaba-se num ciclo vicioso preocupante.

O que está sendo negligenciado é a noção de que, ao ceder poder suficiente para o presidente realizar tantas maravilhas, também se está cedendo poder suficiente para o despotismo. O estrago que um governo ruim pode causar tende ao infinito. Mesmo partindo de uma premissa altamente questionável, de que o presidente eleito seria um indivíduo totalmente íntegro e capaz, é preciso lembrar as limitações de qualquer ser humano. Além disso, o alerta de que o poder corrompe jamais deve ser esquecido. Para piorar, o próprio jogo político leva à troca de favores e interesses particulares. Em primeiro lugar fica sempre a própria sobrevivência no cargo.

Logo, mesmo assumindo as melhores qualidades de um presidente, seria indesejável concentrar tanto poder em suas mãos. Basta pensar na hipótese bem mais realista de que o presidente não terá todas essas qualidades, não será o Papai Noel, para qualquer um ter calafrios. A menos que nós mudemos o que pedimos do governo, nós teremos aquilo que, de certa forma, merecemos. Depois não adianta reclamar.

20 comentários:

Malkav disse...

Onde posso encontrar esse livro, de preferência em português, para vender?

Eu sempre achei que o culto a uma personalidade do governo fosse quando a conjuntura econômica vai bem e o país tem nível de instrução baixo no geral fosse o suficiente. Me interessei por ver outras bases para isso.

fejuncor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fejuncor disse...

A República virou a Igreja do Deus-estado e o governo é o clero: corrupto, amoral, vicioso, parasita. O que descreve esse artigo seria a "realidade" das ovelhas-cidadãs, que vivem da promessa, comem o pior capim e ainda entregam sua lã em troca de nada, apenas para ter o direito a uma "realidade" que as incorpore numa comunidade onde as faça imaginar que são vistas pelos olhos "patriarcais" do poder dos ishpertos.

fejuncor disse...

Todos na cteza de ser impossível viver doutro modo, crendo cegamente que sem a religião-governo Satanás-anarquia dominaria o mundo.

Malkav disse...

Fejuncor, você está forçando demais misturando religião com governo. A Igreja foi uma instituição religiosa e política, mas as religiões não são braços políticos de suas sociedades, são braços morais (e isso não tem nada haver com política).

As pessoas ainda acreditam mais em Deus que em qualquer político, embora julguem alguns como santos ou que vão resolver suas mazelas.

Fabiano - Barricada Vermelha disse...

O texto é bem escrito, com certeza, e faz relevantes questionamentos sobre o excesso de poder dado a um homem. Pessoalmente, acho que a centalização de poder facilita atos como corrupção e a construção de uma burocracia corporativista. Considero que a sociedade socialista pretende eliminar esses males, mas para isso, a Esquerda deve fazer uma auto-crítica e perceber que a democracia é prfeitamente cabível na construção do socialismo. Sobre este blog, aproveito para fazer alguns remendos e algumas críticas: Edmund Burke não devis aqui ser citado. Apesar de entusiasta da revolução gloriosa de 1688, ele assumiu no parlamento a horda conservadora, contra os liberais! Além disso, era a favor da monarquia, dos valores religiosos e familiares. Se queremos discutir "liberdade"(e essa palavra é usada pelos liberais com uma convicção de que ela só existe com mercado!), não podemos citar um homem que simplesmente amaldiçoou a maior revolução burguesa: A francesa. Entendo a citação e o sentido que ela representa, mas é perigoso este desvirtue, por que Burke amava tudo, menos a liberdade popular!
Sobre Dilma e Serra, me parece óbvio que aqui, Dilma não receba nenhum comentário simpático. "Criminosa"? Dilma simplesmente lutou contra um regime que perseguia, matava e escondia os corpos dos seus opositores. Criminoso lutar contra isso? Me parece que este blog, se tivesse de tomar um lado, ficaria ao lado dos milicos, não? Na verdade, considero que esta posição já foi tomada, mas não assumidamete. Como há uma grande profusão de textos, não pude conferir, mas quero ver quantos textos daqui se dedicam a criticar o golpe, os milicos, a lei da anistia, e discorrer sobre os desaparecidos poíticos. Só vejo perseguição ao MST e ao PT, que para alguns é quase "Nacional-socialista" (entendem de economia, mas muito pouco de história). Gostaria de saber a opinião das pessoas que corroboram nesse blog, sobre o "Ternuma" e os milicos. Me parece que logicamente, até mesmo para vocês, de alguma forma, eles representam mais perigo que o governo Petista, onde as liberdades individuais estão sendo respeitadas.

Malkav disse...

Fabiano, o socialismo não pode ser democrático, ele apenas funciona sobre uma ditatura. Tivemos durante a história um Robert Owens que tentou aplicar uma sociedade socialista utópica que funcionava de maneira semelhante a gestão da URSS antes da segunda guerra que falhou miseravelmente e conforme denunciado pelos anarquistas e demonstrado pela história, todas as sociedades socialistas acabaram em ditatura. Quando você tira o proletário de uma alienação da exploração do capitalista e passa para outra alienação e uma nova luta de classes com os burocratas e o povo, você cria uma ditatura automaticamente. Não há como haver democracia, adendo, numa sociedade homogenea conforme pregou Lenin, senão me engano, já que a democracia parte do pressuposto que há vários grupos de interesse num país (e o unico interesse do socialismo é do partido unico que existe que deveria atender os interesses do povo, que na cabeça dele tinha que ser um só).

O ponto desse texto é interessante porque ele também indica que mesmo numa democracia, se um presidente for cultuado como um individuo que resolverá todas as mazelas sociais no seu comando e concentrar poder ele também acabará, cedo ou tarde, numa ditatura onde as liberdades individuais serão restrigidas.

Deixarei as respostas sobre o que é esse blog para o próprio Constantino. Eu já sei que ele vai responder (que é o mesmo que irei responder, por sinal), só não vou tirar a graça dele.

fejuncor disse...

Estado teocrático mistura, falo da “mitificação” laico ou não. Metáfora, sabe Malkav? Tanto que há tempos políticos se convenceram que devem criar um avatar triunfante, simpático e infalível nas eleições substitui a carranca humana (num país católico de preferência a feição de Cristo). Isso o PT aprendeu bem narrando “do nascimento na manjedoura à ressurreição gloriosa” o filme de Lula.

Rodrigo disse...

Fabiano,

Roberto Campos certa vez disse: "É sumamente melancólico - porém não irrealista - admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: 'anos de chumbo' ou 'rios de sangue'..."

Se de fato havia somente estas duas opções, fico com os "anos de chumbo" ...

Sds

Rodrigo Constantino disse...

Malkav, que eu saiba esse livro não existe em português.

Fabiano, Dilma não lutava CONTRA a ditadura, mas sim POR OUTRA ditadura, muito pior, aquela até hoje existente em Cuba e admirada por esses terroristas do PT.

Wemerson disse...

Malkav, não é o fejuncor que mistura duas instituições que ideologicamente deveriam andar dispares, mas sim, a própria história política e religiosa.

Fabiano se esqueceu de mencionar as formas com as quais a ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária "Dilminha" usava para coibir o tal "regime" que matava e escondia corpos.

Ricardo Constantino fiquei um tanto curioso para ler outro texto seu com a solução para essa centralização de poderes e presidencialismo. Tenho plena certeza, que será uma opinião extremamente válida. ABS!

fejuncor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabiano - Barricada Vermelha disse...

Não Wemerson, não esqueci. Tenho certeza que o senhor pode nos contar mais sobre os métodos. Eu mesmo não os conheço, mas nenhum deles, tenho certeza, incluia a violação através do uso de cassetetes e vassouras.

ntsr disse...

Fabiano, sobre o embargo de cuba, 2 coisas:

1 Botar tudo pra cima do embargo ignora uma coisa que todo país tem, por menor que seja, que é seu mercado interno.Só que se eu for cubano não posso empregar mais cubanos pra fazer coisas pra outros cubanos, pq o governo é o único empregador

2 Não é meio incoerente, um governo choramingar por não poder trocar com outros países, sendo que esse governo é o primeiro a proibir seu povo de trocar entre si?

samuel disse...

Rodrigo! Seu BLOG é o mais patrulhado da net pela quantidade de comentaristas. Deve ser pela qualidade dos V artigos. Pode se gabar disto. O tal Fabiano - Barricada Vermelha (o nome já diz tudo) é o novo nome do Smith Smithson. Eles estão ahi para confrontar seus argumentos lógicos, com comentários tortos cheios de slogans da esquerda! É uma perda de tempo dar espaço a eles. É evidente a má fé!

Everardo disse...

Roberto Campos, Rodrigo, levou o Estado brasileiro a representar 53% da economia. Era um "liberal". O Bob Fields, como Ministro promoveu um gigantesco programa de estatização da economia e estabeleceu a nossa dependência ao FMI. Ele queria ser embaixador (e chegou a ser) do Brasil, mas, o que ele foi mesmo foi embaixador dos EUA NO Brasil. Um anti-brasil.

Denis Diniz disse...

Curioso Everardo! Seguindo esse raciocínio Fidel Castro foi um tremendo embaixador dos EUA visto que tornou estatal 100% da economia cubana. Será que não estamos deixando de entender alguns aspectos circunstanciais da nossa história econômica?

Everardo disse...

Denis Diniz, digo embaixador no sentido de representar os interesses americanos, e não os nossos. Qaunto ao modelo, lembro que os EUA não implantam em suas "colônias" os modelos da metrópole. Lá, são democratas. Nas colônias, implantam ditaduras. Lá, produzem tecnologia e valor agregado. As colônias devem ser fornecedoras de matéria prima. Felizmente isso está mudando...

Everardo disse...

Fabiano, eficiência e produção em escala são fatores que liquidam, dia a dia, o sonho capitalista do pleno emprego. E as populações desempregadas irão para o assistencialismo estatal. Uma socidade rica, justa, solidária, vivendo sob as regras de um estado humano e justo.

Denis Diniz disse...

Everardo, tua resposta me confundiu ainda mais. O “Bob Fields” promoveu um gigantesco programa de estatização e assim estaria atendendo os interesses dos EUA? Huummm, fico intrigado com essa proposta.

Outra coisa intrigante é esse suposto conflito entre modelo na metrópole e modelo nas colônias. Colônia???? Mas o que significaria isso exatamente? Poderia explicar quais são os critérios que você usa para definir “colônia” Everardo?