quarta-feira, dezembro 30, 2009

Uma Tragédia Grega

Rodrigo Constantino

Jornal Valor Econômico

O modelo de "welfare state" (bem-estar social) europeu com uma moeda única está em xeque. Os países conhecidos como PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) encontram-se diante de uma crise sem precedentes. Quando o euro foi lançado, o economista Milton Friedman fez uma previsão de que a moeda única não iria sobreviver após sua primeira grande crise. O júri ainda não deu o veredicto, mas o julgamento está em andamento com evidências favoráveis ao prognóstico pessimista. O caso da Grécia é sintomático.

O ímpeto gastador do governo grego tem batido de frente com a necessidade de manter as contas fiscais ajustadas. Desde 2001, quando a Grécia aderiu ao euro, o país cumpriu somente uma vez o teto acordado de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para o déficit fiscal no ano. O déficit projetado para 2009 está em 12,7% do PIB. A dívida pública deve chegar a 125% do PIB em 2010. O governo precisa levantar € 55 bilhões no ano que vem para refinanciar a dívida existente e manter o pagamento de salários e pensões. A necessidade de reformas é urgente, mas o governo não parece disposto a enfrentar a realidade com coragem.

O resultado foi o rebaixamento dos títulos do governo grego pelas agências de classificação de risco Standard & Poor's e Fitch. O spread desses papéis em relação aos títulos do governo alemão disparou, chegando perto dos 300 pontos-base. Após Dubai mexer nos mercados com o pedido de alongamento da dívida estatal, foi a vez de a Grécia assustar os investidores no mundo todo. O clima de euforia, estimulado pela espetacular injeção de liquidez pelos bancos centrais mais importantes, foi levemente abalado pelas notícias da Grécia. Mas os investidores parecem não trabalhar ainda com um cenário mais negativo para o país ou com o risco de contágio no resto do mundo.

Entretanto, tais riscos existem e não parecem nada desprezíveis. Afinal, a situação da Grécia é bastante delicada e ela não está isolada. A Itália já possui mais de 100% de dívida pública sobre o PIB e a Espanha caminha para a mesma direção. A carga tributária na região já é elevada demais.

Os países mais importantes do euro parecem contar com o suporte eterno da Alemanha. Mas a capacidade de o país de atuar como locomotiva do resto é limitada. Além disso, o governo da Alemanha se encontra num dilema: se resgatar os demais governos mais irresponsáveis, ele estará dando um sinal perigoso de que a irresponsabilidade é compensada ("moral hazard"). Mas se deixar a Grécia ir à bancarrota, o custo poderá ser muito alto. Em qualquer caso, o euro parece ameaçado. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Historicamente, países nessa situação complicada de contas públicas acabaram apelando para uma desvalorização de sua moeda. Isso garante alguma sobrevida, mas com pesados custos. Os PIGS, entretanto, não dispõem deste instrumento artificial, já que sua moeda é o euro. Em outras palavras, seus governos não controlam diretamente a emissão da moeda.

O controle dessa ferramenta está nas mãos de Jean-Claude Trichet e o Banco Central Europeu, que segue a tradição do seu antecessor Bundesbank. Este, por sua vez, é conhecido por sua independente disciplina na defesa do marco, após sua destruição total na hiperinflação alemã. A independência do BCE dificulta a vida dos governos perdulários. Como eles não podem simplesmente imprimir moeda para gerar crescimento inflacionário, precisam fazer o duro dever de casa e cortar gastos. Mas será que vão conseguir?

Eis a questão que tem incomodado os mais pessimistas com a Europa. O euro, que chegou a US$ 1,60 em seu pico, está perto de US$ 1,40 agora, mesmo com o Fed adotando uma política monetária altamente inflacionária. Os investidores estão preocupados com o futuro do dólar, e com razão. Mas mesmo assim o euro desperta pouca atração. Seu futuro também está em jogo. O mundo atual representa desafios interessantes para todos os investidores. Como proteger o capital e seu poder de compra quando os governos mais importantes do mundo ignoram as lições básicas de economia?

O ano que acaba foi marcado pela recuperação dos mercados, principalmente dos emergentes. Impulsionados pelo caminhão de dinheiro emitido e pelos juros artificialmente jogados a zero, os principais ativos dispararam. Para 2010, muitos extrapolam essa tendência. Já consideram a crise coisa do passado. Como será que iriam reagir diante de um "default" do governo grego? Essa hipótese não pode ser descartada. Afinal, a Grécia vive uma tragédia digna de Sófocles. E ela pode carregar a Europa junto no seu drama.

71 comentários:

Adamos Smithson disse...

Mas o que o welfare state citado no começo do texto tem a ver com que vem depois?

Se o problema fosse do welfare state, os problemas não deveriam se limitar aos PIGS. Deveria atingir igualmente, ou até mais intensamente, a França, a Alemanha, a Suécia, a Dinamarca, etc, etc, etc, não é?

A sua argumentação seria quase-válida se os PIGS fossem os únicos países da União Europeia a adotarem o welfare state. Nesse caso, você poderia cair no tradicional erro de confundir correlação com causalidade e dizer "Viram? Os países da União Europeia com welfare state estão com problemas, logo, welfare state gera esses problemas". Mas nem isso dá pra fazer nesse caso, já que o Welfare State está presente em vários outros países da UE, em muitos deles até com mais intensidade.

Adamos Smithson disse...

Mas vamos aos dados, retirados de http://en.wikipedia.org/wiki/Welfare_state.

Os países com maiores gastos em bem estar social em relação ao PIB são:

1 - Dinamarca
2 - Suécia
3 - França
4 - Alemanha
5 - Bélgica
6 - Suíca
7 - Áustria
8 - Finlândia
9 - Itália
10 - Holanda
11 - Grécia
12 - Noruega
13 - Polônia
14 - Reino Unido
15 - Portugal
(...)
20 - Espanha

Os PIGS são, portanto, o nono, décimo primeiro, décimo quinto e vigésimo na lista de países com maior gastos em bem-estar social por PIB. Logo, evidentemente os problemas que eles enfrentam são causados pelos gastos com bem estar social. Por um motivo que fica para o leitor interessado demonstrar, nós ignoramos todos os outros países da lista. Ignoramos também que os PIGS gastam relativamente pouco com bem-estar social. Mas mesmo assim a culpa é do bem-estar social.

Esse raciocíno faz sentido?

ntsr disse...

mudando um pouco de assunto...
Rodrigo, qual sua opinião sobre o governo exigir que toda construção tenha um engenheiro?

Rodrigo Constantino disse...

Adamos, o problema não é "apenas" o welfare state, mas ele claramente tem boa parte da culpa. Afinal, é ele que explica a gastança dos governos, que por sua vez levou a uma carga tributária super elevada e uma dívida pública explosiva. Isso sem falar do problema da previsência social.

E vc acha que a França, por exemplo, não está com problemas graves? Que a Suécia não teve que fazer diversas reformas e privatizações para reduzir o estrago causado pelo modelo do welfare state?

Rodrigo Constantino disse...

ntsr, sou contra o governo exigir isso. Que o mercado resolva.

ntsr disse...

Mas Rodrigo, quando o prédio desaba morre muita gente, quando o negócio é jornalismo eu concordo, mas no caso do prédio não é o caso da coisa que o cara faz prejudicar os outros que não tem nada com isso?

Everardo disse...

Rodrigo, um prédio que desaba soterrando famílias é de responsabilidade do mercado? Bombeiros e hospitais, pensões e danos em vias e equipamentos públicos são de responsabilidade do mercado? Ou também os médicos e bombeiros podem ser substituídos por agentes do mercado?

Ludwig disse...

Hehehehehe... "Agentes do mercado"... Quanta lavagem cerebral esses comunistas mal-intencionados (desculpem-me a redundância) realizam!
TODOS somos agentes do mercado. O padeiro, o lixeiro, o médico, o jogador de futebol, o administrador, o professor.
Só quem vive de mamata estatal não é agente do mercado: os políticos e os burocratas.
Quando o governo obriga que haja engenheiros (= gente com diploma em Engenharia) na construção de prédios, na verdade ele garante a essas pessoas um emprego. O acompanhamento de uma construção por um diplomado em Engenharia não é garantia de nada. O cara pode ter sido um imbecil que só tirava o mínimo para passar.
O Deus Governo, ao institutir a obrigatoriedade dos diplomas, apenas dá fôlego às universidades, que se tornaram meras provedoras de diplomas.
VIVA O BEM COMUM!!!!!!!!!!!!!

Adamos Smithson disse...

Rodrigo, o que te faz dizer que o welfare state tem boa parte da culpa? Se isso fosse verdade, os problemas não deveriam ser maiores nos países com mais welfare state? Por que eles só se manifestariam com mais intensidade nos países da UE com menos welfare state?

Alan disse...

Gostaria de saber a sua visão (e a da escola austríaca em geral) sobre alavancagem financeira, tanto no crédito propriamente dito quanto no financiamento de margem em operações na Bolsa de Valores.

Alan disse...

Ao meu ver qdo se exige um Engenheiro nas construções aumenta, por exemplo, o preço das casas isso impede q certas famílias q poderiam ter uma casa numa situação sem engenheiro possam ter casa agora. Seria a mesma idéia q salário mínimo, mas nesse caso é "gasto mínimo" para se ter uma casa (e como todos sabem "não existe almoço grátis"!). E como nas favelas não se "exige" engenheiros veremos um aumento da favelização ao mesmo tempo q teremos ter q pagar mais pelos programas assistencialistas habitacionais d Governo... a "propaganda"eleitoral do PT vai pesar ainda mais no NOSSO bolso.

Rodrigo Constantino disse...

Misturaram os assuntos, mas vamos lá.

O governo não precisa afirmar que engenheiro com diploma tem que assinar projeto. Isso não garante nada, além de reserva de mercado. SE for mesmo necessário, as construtoras VÃO usar. Não precisa do governo dizendo isso. Se o prédio cair, bem, isso é FRAUDE, CRIME, e os construtores podem ir presos. Quando o prédio do Sérgio Naia caiu, por acaso o responsável do GOVERNO foi preso? Por que não? Ah, no fundo o governo não assume a RESPONSABILIDADE. Fácil, assim. Apenas cabide de emprego e poder, sem accountability.

Pensem no caso de um supermercado. Vcs confiam que a Wal-Mart não vende comida podre por causa da Anvisa ou porque não é do interesse dela afetar sua imagem e confiança perante os clientes???

Give freedom a chance!

Rodrigo Constantino disse...

"Rodrigo, o que te faz dizer que o welfare state tem boa parte da culpa?"

Ora, o fato de que é a GASTANÇA DO GOVERNO com tantos projetos que colocou esses países nessa situação. Aliás, o welfare state tem criado muita xenofobia na Europa também, principalmente França. Como faltam empregos, por causa do welfare state, e o governo oferece muita regalia, imigrantes pobres querem curtir os hospitais públicos mas não conseguem empregos. Dá um problemão isso. Tenho artigo sobre o tema.

Rodrigo Constantino disse...

Alan, a Escola Austríaca é dividida sobre a alavancagem. Alguns acham que deveria ser 100% de reserva, pois reserva fracionária nos bancos é fraude. Outros acham que a moeda deveria ser totalmente privada, e deixa o mercado ajustar.

Adamos Smithson disse...

Ora, o fato de que é a GASTANÇA DO GOVERNO com tantos projetos que colocou esses países nessa situação.

Dado que esses países gastam relativamente pouco com bem-estar social, comparado aos outros países da UE, que estão em situação financeira melhor, não devemos concluir que os gastos com bem-estar social não devem ser tão determinantes?

É claro que, se o problema são os elevados gastos do Governo, qualquer tipo de gasto pode ser considerado causa. Mas, dado que os outros países da UE gastam muito mais com bem-estar social e estão em situação financeira melhor, somos levados a crer que esse gasto em especial não deve ser tão importante, pois, caso o fossem, os outros países também estariam em situações parecidas...

A isso chama-se método científico. Você observou um fenômeno e formulou uma hipótese científica: "a deteriorada situação financeira desses países é consequência dos gastos com bem-estar social". Como bons cientistas, devemos testar essa hipótese. Que teste melhor que observar a situação de outros países que gastam tanto quanto ou mais que os PIGS com bem-estar social. Se esses países não estiverem em condições financeiras como a dos PIGS, a hipótese mostrou-se falsa.

Essa é a diferença entre ciência e palpite. O chato da ciência é isso... nem sempre dá pra concluir aquilo que a gente quer, né?

Adamos Smithson disse...

Em tempo: antes de tirar suas conclusões, você chegou a se informar sobre quanto dos gastos Governamentais dos PIGS são direcionados ao bem-estar social?

Ou você simplesmente chutou que a culpa é daquilo que você não gosta?

Rodrigo Constantino disse...

Adamos, estou com preguiça, na véspera do fim do ano, de explicar noções básicas de economia.

De onde vc acha que pode ter vindo a situação grega??? Explica!!!

Governos que gastam mais do que podem, que oferecem regalias a todos, e que assumem dívidas enormes, costumam enfrentar problemas sempre. No caso dos PIGS, por não controlarem a moeda, não podem sair pela inflação, como muitos fazem. Simples!

O governo SOCIALISTA da Grécia gastou demais, apresentou déficit acima do trato por anos, se endividou, e agora está nessa situação. Só falta agora vc tentar culpar o livre mercado, em vez do welfare state!!! hehehehehehe

Adamos Smithson disse...

Rodrigo, você está ciente que nem todo gasto do Governo é com bem-estar social?

Adamos Smithson disse...

E você concorda com: "Se existem outros países que gastam muito mais que os PIGS com bem-estar social e não estão na mesma situação econômica que os 4 países, logo é possível manter o nível de gastos em bem-estar social que os PIGS têm sem enfrentar os problemas que os PIGS estão enfrentando"?

Alan disse...

Realmente tinha observado essas visões em diferentes autores... O que não entendo é como alguém pode pensar um mundo em desenvolvimento sem alavancagem. Imagina se isso fosse implantado no Brasil hj, onde estaria o dinheiro para ser aplicado, pelos empresários, na infraestrutura d país? Alguns chegam a utilizar o argumento da propriedade privada para dizer q os bancos deveriam manter 100% de reserva a final seria dinheiro das pessoas... Manter dinheiro nos bancos é uma opção, as pessoas deveriam saber quão alavancados estão os bancos e colocar dinheiro no q julgam menos arriscados ou mais rentável. Depósitos compulsórios de 100%, onde está a liberdade da Escola Austríaca?
Quanto a corrente que defende moeda privada eu pergunto. Seria uma moeda lastreada com o dinheiro corrente d Economia (como o caso d ticket refeição e vale-transporte) ou seria uma moeda independente? No primeiro existe o problema d liquidez (sempre sofro isso qdo sobra vale no final daquilo q seria meu salário) no segundo caso além d liquidez haveria um problema d conversão da moeda isso teria um custo, a final se o mercado fosse realmente livre qtas moedas iriam existir? 100? 1000?
Gosto da Escola Austríaca por princípios (principalmente a liberdade do indivíduo) e concordo c ela em mtos pontos mas não encontro no caso da alavancagem algo q me convença na aplicação prática, além disso os autores acabam caindo numa idéia meio minkiana q a culpa da crise é da liberdade dada aos especuladores. Lógico q argumentam q a culpa tbm é do Governo que fornece sinais e garantias q distorcem o mercado, e nisso eu concordo.
Como tenho interesse no assunto gostaria, se fosse possível, me indicar algum livro sobre o papel d alavancagem financeira (para o bem ou para o mal) dentro do desenvolvimento econômico.

Alexandre disse...

Rodrigo

O teste de hipótese do “Smithson” está perfeito. Se o gasto com bem estar social fosse particularmente nocivo, a Dinamarca e a Suécia teria que estar enfrentando problemas piores que os da Grécia.

Gastos com bem estar social são tão nocivos quanto qualquer outro gasto que gere demanda apenas pela via do consumo. Se um país compensa o gasto a mais com bem estar social, reduzindo o gasto com custeio e subsídios, a equação não se altera.

O teste de hipótese mais correto seria comparar a proporção dos gastos que não são investimento de cada país da UE e, nesse caso, eu poderia apostar que o diagnóstico da crise dos PIGS seria à prova de contestação estatística.

p.s.: Gastos públicos, pra geração de demanda, com investimento no incremento da capacidade produtiva até que são benéficos, embora sejam, via de regra, menos eficientes que os gastos privados da mesma natureza.

Everardo disse...

Ludwig, você acha que a exigência do diploma de Médico é reserva de mercado? E SE o cara era um imbecil, que só tirava o mínimo para passar? Quando o "mercado" terminar de selecionar entre os curandeiros aqueles que merecem medicar, vai então lhe conferir uma "credencial" para isso? Qual o burocrata vai emití-lo? Um do Estado ou um do "mercado"? As funções do Estado, Ludwig, existirão em economia planificada ou em economia de mercado. Se você utiliza algum serviço público, saberá disso.

Denis Diniz disse...

Everardo, deixei no coemntário do texto "O culto a presidência" outro questionamento sobre suas impressões a respeito do "embaixador dos EUA" Reproduzo o texto abaixo:

Everardo, tua resposta me confundiu ainda mais. O “Bob Fields” promoveu um gigantesco programa de estatização e assim estaria atendendo os interesses dos EUA? Huummm, fico intrigado com essa proposta.

Outra coisa intrigante é esse suposto conflito entre modelo na metrópole e modelo nas colônias. Colônia???? Mas o que significaria isso exatamente? Poderia explicar quais são os critérios que você usa para definir “colônia” Everardo?

a3m disse...

O Alexandre acertou! Parabéns pela análise e pela sensatez do texto.

Fernando disse...

Eu acho que mais do que suas conseqüências econômicas, deveríamos atentar para a imoralidade do welfare state, isto é, tirar algo a força de quem produz riqueza para dar para outro, que não produz nada e é assim um parasita.

Mas concordar com isso vai muito do caráter da pessoa. Eu, por exemplo, sempre preferi o meu 6.5 a um 9 colando...

Adamos Smithson disse...

Fernando, deixando as consequências econômicas de lado, eu também acho muito fácil que nós, que nascemos em famílias com condições de nos dar uma boa educação, saúde, habitação, etc, consideremos que o bem-estar social seja imoral, seja parasitismo, etc.

Afinal, dado que eu nasci em família rica, por que eu iria apoiar políticas públicas que beneficiam os pobres?

Afinal, se eu, que nasci no Sudeste e tive dinheiro para estudar em escola particular, tenho um bom emprego, bom salário, plano de saúde, etc, e o cara que é o 12o filho de pais analfabetos no interior do Piauí não tem tudo isso, é porque eu sou competente e ele é vagabundo, pura meritocracia. Qualquer tipo de política pública que tentasse diminuir essa diferença seria imoral, autoritária, fascista e comunista.

Não é de se admirar que sem colar você fique com 6.5 :)

Fernando disse...

A única relação de culpa que pode existir para a pobreza do 12o. filho dos pais analfabetos é com aqueles que lhe colocaram no mundo.

Eu não tenho nenhuma culpa da miséria dele, nem você. A pobreza é uma desgraça, mas dificilmente uma injustiça.

Ou então, olhando de outra forma, imagine que chegassem os 12 miseráveis batendo na sua porta dizendo que você tem responsabilidade de lhes prover uma vida melhor. Ou seja, uma dúzia de desconhecidos miseráveis que você nunca viu na vida e que o único vínculo que tem com você é compartilharem da mesma nacionalidade pelo acaso de nascerem num mesmo território arbitrariamente determinado.

Você deve agora tirar parte da sua renda, que você obtém com seu trabalho e que normalmente gastaria com sua família, para prover para esses 12 miseráveis. Deverá abrigá-los em sua casa e recebê-los em sua mesa.

Estranho né? E não venha me dizer que você os receberia de portas abertas. Senão, pode publicar seu endereço em Ipixuna-MA.

Viu como é absurdo quando você não coloca o Estado como intermediário?

Adamos Smithson disse...

Fernando, ninguém falou em culpal... mas é sempre por aí que sai a resposta, né?

Fernando disse...

Por culpa, pode entender responsabilidade. O que eu quero dizer é que nem eu nem você podemos ser responsabilizados pela pobreza dos 12 filhos do homem analfabeto lá, isto é, não devemos sofrer punição (ter nosso dinheiro tirado a força) porque não temos culpa.

Ou seja, se eu não tenho responsabilidade e mesmo assim sofro "punição", estou sendo injustiçado e o sistema é imoral.

Adamos Smithson disse...

Ninguém falou em culpa, nem em responsabilidade. Até porque, nesse caso, a diferença entre culpa e responsabilidade seria miníma, quiçá nenhuma.

E não, também não se trata de punição. Quando você paga o seguro do seu carro e ele não é roubado, e a seguradora usa o seu prêmio para pagar o meu carro que foi roubado isso significa que você foi punido? Claro que não, o seguro é "solidário". A pessoa que teve a sorte de não ter o carro roubado paga para a que teve o azar de ter o seu furtado.

No caso da solidariedade do bem-estar social, nós, que tivemos a sorte de nascer em famílias ricas, pagamos por um mínimo de bem-estar para os que tiveram o azar de nascer de pais analfabetos no interior do Piauí. Não, você não tem culpa nem é responsável pela pobreza dele, mas ele também não o é.

Já adianto sua resposta: "mas no caso do seguro eu escolho se eu quero participar ou não, blá, blá, blá". É claro. No caso do bem-estar social, você diria que escolhe não participar, mas só porque você já sabe, na hora de escolher participar ou não, que você está no grupo que teve sorte de nascer numa família rica. Achar que essa é uma escolha que deve ser feita por quem já sabe se precisa de bem-estar social ou não é típico de aluno que tira 6,5, nota com a qual você não passaria de ano onde estudei.

Fernando disse...

Eu não estou dizendo que é imoral ajudar aos pobres.

Imoral é obrigar alguém a fazê-lo só por estar, teoricamente, em condição de fazê-lo.

Se você acha que as pessoas ricas tem um dever de solidariedade para com os pobres, ótimo, se você for rico ajude-os. Mas não use o Estado para obrigar todos a fazê-lo.

fejuncor disse...

Pode notar, Fernando. No Brasil ao propor alguma enquete do tipo "Ninguem da nada à outro de graça?"

O resultado sempre será uma tremenda negativa, quase que um coro afinado. Na prática, porém, pesquisem: somos um dos países menos filantropos do mundo.

Nos EUA onde há o discurso inverso, as doações são elevadíssimas.

É curioso, ou não?

fejuncor disse...

Não estou advogando pelo egoísmo. Claro que damos, de coração, muitas vezes, por algum motivo, em determinadas circunstancias como apoio – mas como estilo de vida? Só da boca pra fora. Todos gostariam de estar no lado QUE RECEBE, já do lado que tem que dar.... inexiste almoço grátis. Isso é uma simples questão de lógica. "Incentivos".

Fernando disse...

É que no Brasil também não se valoriza a filantropia... é visto meio que como uma obrigação, um "pelo menos ele faz isso" senão um "a quem ele está tentanto enganar", já que ser rico aqui é uma coisa muito, muito feia.

Some-se a isso a desconfiança generalizada do povo brasileiro pelo privado e a sua confiança cega no público, e temos o quadro que temos.

fejuncor disse...

Não é atoa que Augusto Cury fascina tanto por aqui. Eu já li o Vendedor de Sonhos, gostei, só estou dizendo que seu sucesso entre os brasileiros não é por acaso.

fejuncor disse...

Fazer filantropia no Brasil é extremamente difícil. Norte-americanos são exemplos. Por que não somos como eles?

Sugestão de Leitura:

http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0912/gestaoepessoas/m0152385.html

"Latino-americanos estão na lanterninha quando se fala em investimentos filantrópicos por pessoas físicas com mais de 1 milhão de dólares para investir"

Fernando disse...

Na verdade, a cultura brasileira idolatra o fracasso. Pra ter simpatia no Brasil basta ser um coitado qualquer. Seja no Big Brother ou na eleição presidencial, as pessoas votam meio que por pena, meio que por vingança contra os ricos - isto é, elegendo um pobre.

A grande desgraça da mentalidade brasileira é que ela quer mais ver a cara do rico comendo buchada de bode do que a do pobre comendo carpaccio...

Fernando disse...

E tem outra coisa na questão da filantropia: as instituições brasileiras são pouco confiáveis. Só um exemplo, nos EUA doaram-se e doam-se milhões à universidades, mas quem doaria seu dinheiro, digamos, à USP? Só pra constar, a Universidade de São Paulo, mesmo sendo a melhor do Brasil e tendo um orçamento equivalente ao de Oxford, gasta 83% dos recursos em folha de pagamento e sequer apareceu no ranking das 200 melhores do Times desse ano. É uma mediocridade muito, muito cara.

fejuncor disse...

Descolamento ridículo entre o que pregam e o que se vê. Ao contrário da falsa percepção propagada pois somos muito bons de discurso, a timidez dos números nos colocam mundialmente na rabeira quando se fala em filantropia.

E não deve ser difícil constatar isso, basta se perguntar quantos estabelecimentos de uso comum como estádios, parques, praças, por exemplo, levam nomes de personalidades privadas nestas bandas.

A regra é nomes públicos com dinheiro público. Na Europa e sobretudo América do Norte isso parte de iniciativas particulares - Air Canada Center, Pepsi Center de times de basquete como Denver Nuggets da NBA, Philips Stadium do time de futebol PSV Eindhoven na Holanda, Allians Arena seguradora que ergueu o palco do Bayer, AOL Arena em Hamburgo e por aí vai.... aliás na Alemanha multinacionais e milionários alemães ajudaram a revitalizar e financiar 3/4 da copa e não o povo carente com seus impostos como acontece em outros trópicos.

fejuncor disse...

Outro ponto agravante, sem dúvida.

Não querendo generalizar, nem fazer mal juizo. Mas no Brasil é comum se usar o termo "pilantropia". E algum motivo há.

fejuncor disse...

Você citou a América. Lá existe uma série de incentivos específicos como desconto para doações realizadas à escolas onde o contribuinte pode abater até 50% dos impostos, assim, é notório que universidades e centros de pesquisa norte-americanos recebam bilhões de dólares todos os anos de grandes empresários do país, tornando-as referências, reconhecidamente as melhores atraindo pesquisadores de todo mundo.

Aqui, em contraste, fazer doação significa um martírio – e nossas instituições de ensino recebem migalhas dos milionários brasileiros, convivendo com dificuldades e sucateamento (lupas do laboratório da UFSC onde estudo, veja, foram doadas pela Polônia pós-guerra). São inúmeros casos famosos e emblemáticos do paradoxo que constitui “fazer uma boa-ação” no nosso país como do empresário José Mindlin que levou OITO ANOS para conseguir doar sua biblioteca de 50.000 livros à USP. Ou da “Coleção Brasiliana” uma série de 477 obras de arte adquiridas pelo empresário Jorge Paulo Lemann (da Imbev) em leilões na Europa e doada à Pinacoteca do Estado de SP no ano passado, levou TRÊS ANOS.

Detalhe: eles só queriam doar!

fejuncor disse...

Outro artigo a respeito:

http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11360

Fernando disse...

Pois é, mas no Brasil, da iniciativa privada nem doação.

E olha só, você citou vários estabelecimentos com nomes de empresas ou empreendedores. Esse tipo de coisa geraria enorme desconfiança por aqui. Uma "Universidade Ermírio de Moraes" seria ridicularizada pela inteligentsia acadêmica nacional, que gosta mesmo é de universidade pública, que gasta bilhões e não presta conta. Tudo em nome de um conceito bem estranho de liberdade acadêmica - a liberdade de fazer o que eu quero com o dinheiro público, em outras palavras.

Eu estudo na USP. Lá, as melhores unidades são aquelas que recebem apoio vultoso de fundações privadas, como a Faculdade de Medicina, que recebeu R$ 35 milhões levantados pela Fundação Faculdade de Medicina para reformar suas instalações ou a FEA, que tem a FIA e várias parcerias.

Desnecessário dizer que essas parcerias são demonizadas pela esquerda universitária, que faz de tudo para dificultá-las, acusando-as de mercantilizar o ensino, etc.

É ridículo constatar que, apesar de receber US$ 1,75 bilhões dos cofres públicos, as unidades da USP que não tem apoio privado sofrem com falta de infraestrutura. Sobra dinheiro pra pagar funcionários e falta para comprar papel toalha.

Adamos Smithson disse...

Fernando, nós temos opiniões diferentes mas falamos a mesma língua. Eu entendi exatamente o que você disse.

Você diz que não deve existir um Estado que imponha a solidariedade (embora o nosso devesse fazê-lo, conforme explicitamente determinado pela nossa Constituição).

O que eu estou dizendo é que é muito fácil ter essa opinião tendo nós vindo de famílias com dinheiro.

A solidariedade transfere do rico para o pobre. No caso, ela transfere de nós para eles. Como ningúem gosta de perder nada, o óbivo é que nós, que nascemos em famílias com dinheiro, sejamos contra qualquer tipo de solidariedade forçada. Os pobres, por sua vez, são a favor. Tanto nós como os pobres podemos bolar complexas explicações, baseando-nos no princípio da não-agressão (no nosso caso) ou, digamos, no princípio da "dignidade da pessoa humana" (no caso dos pobres), mas, no fundo, o que existe é "Eu, rico, sou contra a imposição da solidariedade pois ela transfere o que é meu para eles" ou "Eu, pobre, sou contra a não-imposição da solidariedade pois ela não transfere deles para mim".

Dar a sua opinião sobre bem-estar social já sabendo se você nasceu numa família rica ou pobre é tão óbvio que chega a ser imbecil. O rico, que não precisa dessas políticas e têm algo a perder se elas forem implementadas é contra. O pobre, que precisa delas, é a favor.

O que eu quero saber é qual seria a sua opinião sobre a existência de escolas públicas, saúde pública e outras coisas de bem-estar social se você não soubesse se iria nascer numa família rica ou pobre. Se você soubesse que 9.2 em cada 10 brasileiros (*) nascem em famílias que não têm condição de pagar uma escola particular, e que você, portanto, tem 92% de chance de nascer numa dessas famílias, você acharia imoral que o Estado obrigasse os ricos a pagar pelas escolas para os pobres? Essa é a pergunta que não tem uma resposta tão óbvia.


(*) Um artigo recente mostrou que 73,6% das estatísticas citadas na Internet são inventadas na hora, e devem ser entendidas por seu valor qualitativo mais do que pelo quantitativo.

Rodrigo Constantino disse...

Adamos, por que vc, em vez de repetir que é liberal, não assume logo ser um MARXISTA, já que acaba de afirmar que é a "classe" que define nossa postura política?

Eu conheço várias pessoas humildes que não acham que o governo deve ter o direito de tirar à força dos ricos para dar a eles, só porque são pobres, e que entendem que os obstáculos à riqueza são justamente criados pelo governo. Ou seja, pobres liberais. Eles existem, sabia? E como vc explica?

Conheço também vários ricos socialistas ou social-democratas (como vc mesmo, que diz ser rico e é socialista). O Verissimo, Chico Buarque, Niemeyer etc., tudo rico, tudo socialista. Como vc explica? Ah, eles são altruístas??? Não são alienados??? Ou seria safadeza, sentimento de culpa, falta de apreço pela liberdade?

Adamos, vc e demais marxistas deveriam ler com muita atenção o alerta de Benjamin Franklin:

"He that is of the opinion money will do everything may well be suspected of doing everything for money." (Benjamin Franklin)

Adamos Smithson disse...

Rodrigo, você me diverte. Nesse seu blog, já fui comunista, fascista, feudalista, mercantilista, racista, entre outros. O Olavo de Carvalho te definiu como o homem de mim. Eu lhe chamo de o homem do -ista. A sua resposta é sempre "Você é xxxista". Muda o disco!

Mas vamos lá: é claro que eu não disse que a classe define nossa postura política, afinal de contas, eu nasci em família que pode pagar pela minha educação, mas mesmo assim acho que o Estado deve pagar, com meu dinheiro, a educação dos pobres (e saúde e tudo mais que for necessário para uma vida digna). Disse apenas que é normal e esperado que alguém que não precise de bem-estar social seja contra sua implementação, dado que não tem nada a ganhar e algo a perder. E mesmo que tivesse afirmado o que você diz que eu afirmei, isso não significa ser marxista. Marx falava alemão, mas nem todo mundo que fala alemão é marxista. Mesmo que eu tivesse essa opinião em comum com o Marx, o que não tenho, isso não significa que eu seja Marxista. Tenho certeza que você conhece o nome em latim para essa falácia.

Sobre a parte séria. Altruísmo? Também acho que não. Tenho pelo menos dois bons motivos para defender esse nível de bem-estar social, pensando apenas em interesse próprio:

1) Sou um crente fiel na teoria de evolução através da seleção natural. Mais especificamente, sou fã do Richard Dawkins (ele é minha Ayn Rand) e sua teoria do gene egoísta, bem como sua expansão para ideias, a "memética". Acho que por mais que a gente lute contra, a evolução vai selecionar o que for mais eficiente. Inclusive no que diz respeito à políticas públicas. Quando eu era anarco-capitalista, achava que a política de bem-estar social eventualmente seria eliminada, pois ela era ineficiente, gerava utilidade negativa. O que me fez mudar de ideia? Eu me convenci que o ser humano não é um ser social a toa. Os seres vivos, de uma forma geral, não vivem em comunidade por acaso. A vida em sociedade deve gerar uma vantagem evolutiva, ou já teria sido eliminada. A vida individual evoluiu para a vida em sociedade, não só nos seres humanos mas em todas as formas evoluídas de vida. O que você debochadamente pergunta se é altruísmo na verdade me parece ser uma adaptação à vida em sociedade, que foi o caminho seguido pela evolução em centenas de espécies, inclusive a nossa. A evolução não selecionou a vida em grupo por causa do bem do grupo, e sim porque ela é vantajosa para o indivíduo. Está lá no último capítulo do gene egoísta.

2) Eu sei que você acha que a democracia é um meio e não um fim, mas eu não concordo. Acho que a Democracia é um fim. Também acho que não existe democracia sem voto direto e universal. Tenho a impressão, puramente empírica, que o anarco-capitalismo tem um caráter concentrador de renda, e que a ausência de programas de bem-estar social e transferência de renda pioram a qualidade de vida dos mais pobres (você pode discordar, mas lembre-se do gráfico IDH vs tamanho do Estado). Bom, dado que os pobres são maiorias, uma política pública que não os atenda nunca será estável, pois eles irão acabar votando em alguém que implante os bolsas-famílias que eles querem. Você pode bolar a melhor política pública do mundo. Se ela não for estável, não serve de nada. Talvez, apenas talvez, se a Venezuela tivesse tido um quadro de bem-estar social decente nas últimas décadas, o Hugo Chávez nunca teria existido. Você pode achar que o Governo da Suécia é fascista, comunista e todos aqueles istas que você encher a boca para falar, mas ele é melhor que o Chávez.

Adamos Smithson disse...

Você me chama de marxista porque eu não sou anarco-capitalista, mas eu já disse inúmeras vezes que o autor que mais me influenciou foi o Milton Friedman.

Eu gosto do Friedman porque ele enfrentava os problemas de forma objetiva. A proposta dele para bem-estar social era simples e elegante. Chamava-se Negative income tax, ou "imposto de renda negativo", e consistia, basicamente, de um pagamento de uma determinada quantidade de dólares para cada família abaixo de uma determinada. Era um bolsa-família sem a propaganda. Está tudo lá no Capitalism and Freedom.

É isso que eu defendo. Isso é ser marxista? Então o Friedman também o é.

Rodrigo Constantino disse...

Ai ai ai, lá vai ele se colocando novamente como um liberal...

Adamos, eu não te acusei de marxista PORQUE vc defende o Bolsa-Família, e sim porque vc disse (sim) que cada classe "pensa" de um jeito, que o pobre defende social-democracia e o rico o liberalismo. Agora vc tenta negar o que disse. Mas isso já não é um problema meu, né?

Leia o que VOCÊ escreveu, caso tenha se esquecido:

"o óbivo é que nós, que nascemos em famílias com dinheiro, sejamos contra qualquer tipo de solidariedade forçada. Os pobres, por sua vez, são a favor."

a3m disse...

Os comentários do Adamos polarizam para questões paralelas e desvirtuam uma discussão que podia ser melhor. São provocativos e atrapalham bastante um espaço de ideias. No post em questão poderíamos discutir seriamente se é realmente verdade que o "o modelo de welfare state europeu está em xeque", ou se é o modelo grego, ou se na Grécia existe mesmo bem estar social, e outras questões mais profundas.

Adamos Smithson disse...

Rodrigo, se você acha que dizer que "quem tem algo a ganhar com uma determinada política pública tende a apoiá-la e quem algo a perder tende a se opôr a ela" é luta de classes marxista, então eu sou marxista, assim como todas as outras pessoas que acreditam que "o ser humano responde a incentivos". Isso não é marxismo, trata-se apenas de contastação do óbvio.

Rodrigo Constantino disse...

Adamos, pessoas não seguem apenas interesses FINANCEIROS. Muitas seguem PRINCÍPIOS. Mas isso acho que vc não poderia compreender.

Além disso, é FALSO que o welfare state favorece os mais pobres. Isso é FALÁCIA. Quem consegue entender os efeitos do welfare state no longo prazo, sabe que ele é RUIM para os mais pobres, e que o liberalismo econômico é MELHOR.

Rodrigo Constantino disse...

Mais da crise do welfare state europeu, que o "liberal" socialista Adamos acha que não existe:

da Folha Online
Jovens queimaram 1.137 carros em toda a França durante a noite, quando novamente as comemorações do Ano Novo se tornaram violentas, informou o Ministério do Interior francês nesta sexta-feira, afirmando que quase 400 pessoas foram presas em consequência dos distúrbios.
Dezenas de carros são queimados a cada noite nos subúrbios pobres de grandes cidades da França, mas os incidentes são especialmente disseminados durante as festas de Réveillon.
O número de veículos incendiados ficou dez unidades abaixo do registrado no ano passado, quando foram destruídos 1.147 carros neste mesmo período, embora o Ministério do Interior tenha mobilizado 45 mil policiais durante a noite passada --10 mil a mais do que há 12 meses. O número de carros queimados no Réveillon de 2009 tinha sido 30% maior que na celebração do ano anterior. Também foram mobilizados 50 mil bombeiros.
Esse tipo de vandalismo é geralmente atribuído a jovens de bairros pobres com grande presença de imigrantes e evoca a onda de três semanas de distúrbios e violência que chocou o país no final de 2005.

Denis Diniz disse...

Acho que as intervenções do Adamos são bastante pertinentes, fundamentadas e enriquecem o debate. Se o espaço aqui é aberto, então deve-se não apenas tolerar, mas também aplaudir o contraditório.

O que entendi da fala do Adamos é que “estatisticamente” as classes menos favorecidas apoiarão as políticas de transferência, por que as interessam enquanto que as mais abastadas estarão contra por que as tributam. Se observarmos o quadro político partidário da maioria das democracias do mundo veremos que essa hipótese é bastante razoável. Não se pode acusá-lo de marxista por conta dessa constatação. É claro que teremos pobres liberais e ricos socialistas mas não podemos dizer que isso é regra.

Não conheço as idéias de “gene egoísta” do Richard Dawkins mas outros autores mais “populares” já discorreram extensamente a respeito do tema solidariedade entre eles Durkheim com seu conceito de solidariedade orgânica e, vejam só, Adam Smith com seu conceito de “mão invisível”. É importante que fique claro que o conceito de “mão invisível” nada mais é que um conceito de SOLIDARIEDADE. O problema está no caráter compulsório do exercício dessa solidariedade através do Estado. Nos conceitos citados acima a solidariedade vai ocorrendo voluntariamente. O individuo oferece algo ao mercado(rede de solidariedade) atendendo uma determinada demanda e com os recursos que recebe vai buscar no mercado em troca aquilo que o interessa.

Mas a relação de solidariedade é uma relação onde os dois lados ganham. Quando o Estado tributa para transferir a alguém o outro lado se sente lesado por que não “enxerga” o retorno e fica parecendo um patrocínio a vagabundagem. Nesse caso o Estado não estaria impondo a solidariedade mas sim a generosidade com o chapéu alheio.

Num primeiro olhar parece ser isso mesmo, mas desconfio que essa impressão decorra muito mais da nossa miopia para entender todo o funcionamento da complexa sociedade de hoje. Vejamos que quando o Estado paga a educação dos mais pobres pode ser que apenas o interesse desses esteja sendo atendido. Mas por outro lado, o mercado demanda mão de obra mais qualificada. Os estudos de diversos organismos internacionais elegem a baixa escolaridade dos brasileiros entre os principais, quando não o principal entrave ao desenvolvimento do país. Nesse sentido, investimento em educação teria conseqüência equivalente ao investimento em estradas, ferrovias pontes etc visto que trata-se de investimento estrutural que dinamizaria o mercado beneficiando todo o conjunto de indivíduos.

O imenso excedente criado pela sociedade industrial tornou mais difícil entender quando a ação do Estado(ou mesmo de empresas) tem o caráter solidário ou meramente generoso. Um exemplo histórico interessante é o Plano Marshall. Um gigantesco ato de “generosidade” americano que além dos controversos objetivos políticos, buscava dinamizar a economia européia e as trocas comerciais, tendo como grandes beneficiários os próprios Estados Unidos. Muitos analistas atribuem a esse verdadeiro investimento o grande crescimento econômico gozado no mundo especialmente na Europa Ocidental e nos EUA na década de 1950.

Rodrigo Constantino disse...

"É importante que fique claro que o conceito de “mão invisível” nada mais é que um conceito de SOLIDARIEDADE."

Não sei exatamente o que vc entende por solidariedade, mas no conceito de Adam Smith claramente não há a INTENÇÃO de ajudar o próximo:

"It is not from the benevolence of the butcher, the brewer, or the baker, that we expect our dinner, but from their regard to their own interest. We address ourselves, not to their humanity, but to their self-love, and never talk to them of our own necessities but of their advantages." (Adam Smith)

O resultado "solidário" é um EFEITO do nosso egoísmo no livre mercado, mas não é a meta.

Everardo disse...

Denis Diniz,
quando me refiro a colônia estou focando o sistema de dependência econômica que se estabelece entre a matriz do sistema e os satélites do sistema e não ao antigo colonialismo mercantilista. A "metrópole" hoje implanta o modelo de produção, de consumo e de relacionamento de forma que seus produtos e serviços recebem mais valor de mercado que os das "colônias". Na troca, os produtos dos ricos valem mais que os dos pobres (mesmo que, para isso, tenham que forçar para baixo os preços das mercadorias, via subsídio). Na prática, o efeito é o mesmo do passado. Subserviência política e dependência econômica. Quem efetiva, na prática, a troca desvantajosa é a "mão invisível".

Denis Diniz disse...

Rodrigo, o que eu entendo por solidariedade provavelmente é o mesmo que você entende mesmo porque no conceito em si não há grandes motivos de controvérsia. Estou apenas dizendo que não é trivial entender como ocorre na complexa sociedade atual as relações de solidariedade. Observe que não estou enfatizando a questão moral que envolve o conceito, mas sim fazendo especulações de caráter econômico e sociológico que é onde reside hoje- penso eu, os pontos mais controversos.

Observe também que apontei a distinção entre solidariedade e generosidade por ser obvio e disse que a solidariedade “ia acontecendo voluntariamente”. Disse também que é uma relação onde todos ganham, logo, obviamente, atendendo as motivações egoístas dos envolvidos. Estava pensando exatamente num trecho parecido com este citado da Teoria dos Sentimentos Morais e na fábula das abelhas do Mandeville.

Creio que minha fala tenha sido bem clara. Não entendo o motivo da confusão

Denis Diniz disse...

Everardo, lendo tua resposta cheguei a ficar com um pouco de dor de cabeça. Acho que não consigo alcançar mesmo o teu sofisticado pensamento portanto suplico esclarecimento.

Você diz que A "metrópole" hoje implanta o modelo de produção, de consumo e de relacionamento de forma que seus produtos e serviços recebem mais valor de mercado que os das "colônias". Quais são os meios utilizados pela metrópole para impor tudo isso? Por exemplo, quando o Chaves vende seu petróleo “baratinho” para os EUA e compra da “metrópole” os caríssimos produtos manufaturados, ele está se submetendo a que tipo de imposição? E o Brasil nesse caso, que é hoje provavelmente, o maior fornecedor de produtos manufaturados para a Venezuela, seria a Metrópole?

Você disse que através de subserviência política e dependência econômica consegue-se os melhores preços dos produtos da metrópole apesar dos subsídios e tudo isso se explicaria pelo conceito da Mão Invisível. Danou-se! Agora que minha cabeça deu um nó!

Acho Everardo, que você está confundindo alho com focinho de porco. Qual seria a relação do conceito de Mão Invisível com políticas de subsídios? Como produtos subsidiados poderiam ser mais caros que produtos sem subsídios? É abstração demais para minha cabeça!!!

Rodrigo Constantino disse...

A The Economist, na coluna Buttonwood, endossa a visão de crise do welfare state:

"[...] governments have deliberately taken on the debts of the private sector. In most cases it has been assumed that governments have almost limitless capacity to assume such burdens. But you can see welfare states as national Ponzi schemes in which governments grant benefits and take on spending responsibilities, confident in the expectation that the next generation of citizens will pick up the bill."

Rodrigo Constantino disse...

E explica porque "deu certo" até agora:

"Such promises have worked so far because of continued economic growth and rising populations. But with populations starting to fall in some countries, and the tax base shrinking in others, the strain is starting to show. The financial crisis has piled on further stress. Iceland, a tiny island state, was overwhelmed by the debts of its banks. Dubai has shown that the distinction between government debt and the debt of government-controlled entities can be a fuzzy one. Greece has been downgraded by two rating agencies, Fitch and Standard & Poor’s."

fejuncor disse...

Respeito à visão Rawsiana de maximizar a utilidade daqueles com níveis inferiores de bem-estar, mas devemos pesar o CUSTO de se atingir tal fim através do Estado em detrimento ao mercado. É o velho dilema entre eqüidade X eficiência. Quem já estudou isto possivelmente conhece “n” cases em micro ilustrando como ocorre na prática. Que os crescentes ganhos de eficiência nas alocações em um mercado menos desemperrado, pujante e bem estruturado nunca são superados por bondades e medidas burocráticas por mais bem intencionadas e planejadas que sejam.

Rodrigo Constantino disse...

Fejuncor,

Até mesmo a idéia de maior igualdade com a intervenção do governo é uma falácia. O governo costuma ser o maior concentrador de renda de todos. Vide Brasília, a maior renda per capita do país, de longe.

fejuncor disse...

Com certeza, equalizar as oportunidades e condições sim, mas via firmação do ambiente de negócios e não governo. É o que sempre digo, sobretudo no nosso caso. O Congresso não tem função nenhuma a não ser manter uma desculpa para a existência de uma União que não tem função nenhuma.

fejuncor disse...

O Senado consome uma fortuna para ficar 90% do tempo discutindo o próprio Senado.

CPIs, Reuniões do Conselhos de Ética, debates longos de tribuna sobre desmandos e senadores, quebra de decoro, Sarney...

Improdutividade.

fejuncor disse...

Só comentando teu coment, Fernando. Será que parte da explicação está apenas na discrepância cultural? Nos Estados Unidos, até por influência das culturas protestante e judaica há uma crença disseminada de que o cidadão deve devolver à sociedade parte da riqueza que conseguiu acumular. Mas seria somente isto? Ou o problema tmb não passa por má gestão das ONGs (envenenadas pelo G da sigla) e burocracia, um Estado tão intrometido que prejudica até o altruísmo?

Parece-me um absurdo que o país já mais rico do planeta tenha um governo que estimule os milionários a repartir sua fortuna com a sociedade, e o Brasil, com tantas demandas (sociais) não cultue e favoreça esse comportamento.

Denis Diniz disse...

Essa mesma coluna da The Economist mostra que é comum o posicionamento político do eleitor ser função da classe social desse eleitor o que não é necessariamente um pensamento marxista (a menos que a the economist seja marxista) Veja o trecho:
(...)
"The battle then is between taxpayers and public-sector workers, with the former broadly represented by right-wing parties (the Republicans in America, the Conservatives in Britain) and the latter by left-wing ones (the Democrats and Labour). Even if the right-wing parties win the argument in the legislature, they could still lose on the streets, if strike action forces governments to back down."

samuel disse...

Rodrigo, Smith Smithson(?) está fora de lugar em V Blog. Os leitores quando vem aqui vêm para ler e debater as V idéias, não às dele que são permanentemente conflitantes com as Vossas. Respeito que ele tenha idéias próprias sobre os temas tratados. Que ele abra seu próprio Blog para expô-las adequadamente uma vez que, usando o Blogger para isso, ele só cause confusão ao tratamento dado por V. Ou talvez seja isso que ele pretenda...

Everardo disse...

Denis Diniz,as mercadorias são trocadas por dóllar, que não é a moeda do Brasil nem da Venezuela. O subsídio, por sua vez, é prática que a matriz não suporta (nos outros) mas pratica, porque se assim não fizer estará encarando a economia real. Assim, os valores das mercadorias não são reais nem justos, são artificiais, contra os mais pobres. Esse sistema artificial não corresponde ao mercado que pregam (livre), portanto, a "mão invisível" a que se referem opera numa economia fundamentada na mentirinha, entendeu? São os donos do dinheiro, e não os das mercadorias, que atribuem valor aos bens. É na troca que se artificializa o mercado.

Alan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eneida disse...

"Rodrigo, você está ciente que nem todo gasto do Governo é com bem-estar social?"


E acrescento: A questão da CORRUPÇÃO como um dos fatores dos elevados gastos de certos estados. Aqui no Brasil, a sangria de dinheiro público chega a ser estupidamente escandalosa. As notícias estão aí p/ não me deixar mentir. São centenas de milhões de reais p/ lá, centenas de milhões de dólares p/ cá, e no fim das contas, sempre sobra p/ o povo, q paga seus impostos(ricos e pobres, q fique bem entendido), e não tem o devido retorno do "investimento" compulsório q faz através dos impostos que lhe é cobrado.

Aprendiz disse...

Adamos

Muitos anos atrás, discuti com um parente sobre uma notícia de jornal, a repeito de um país escandinavo que passava por uma crise, em virtude de aumento do déficit público. Na época, eu pensava mais ou menos como você, tinha simpatia pela social-democracia. Argumentei o seguinte:
O défict público não torna-se impagavel de imediato, demora muitos anos. Portanto, o gasto em excesso do governo é uma pequena parcela do gasto total (em média). Após alguns anos, o próprio serviço da dívida torna-se maior que o excesso de gastos, e comanda o aumento da dívida. Ora, um pequeno excesso poderia ser evitado, desde o começo, com um pouco de gasto a menos, o que não mudaria fundamentalmente a caráter geral do orçamento público. Mas esse pequeno gasto a menos, anualmente, teria evitado que o governo se endividasse. Logo, um governo poderia ser social-democrata e não produzir dividas desastrosas. Poderia inclusive não produzir dívida nenhuma.

Hoje, vendo a questão de forma mais ampla, penso de forma diferente. As doutrinas esquerdistas carregam um certo "espírito" de irracionalidade, de criação de problemas. Mesmo não sendo tecnicamente obrigatório que um regime esquerdista (o social-democrata) enfrente crises de dívida, a dinâmica da política esquerdista é que comanda o processo. E a política esquerdista é uma política de mistificações e irracionalidades. Pessoas que acreditam num protagonismo muito grande do estado, tendem a incha-lo além da sua capacidade de financiamento. Onde quer que o orçamento exploda (no mundo civilizado) é a crença no protagonismo do governo que dirige o processo.

Everardo disse...

Samuel, você propõe um relacionamento democrático! Um blog só para claques e PS.
Você pensa em disputar o título de maior adulador?