terça-feira, maio 31, 2011

O Ódio a Israel

Rodrigo Constantino, O GLOBO

“Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.” (Karl Popper)

As recentes declarações do presidente Obama reacenderam o debate sobre o confronto entre Palestina e Israel. Todos gostam de emitir opinião sobre o assunto, mesmo sem embasamento. Não pretendo entrar na questão histórica em si, até porque isso foge da minha área de conhecimento. Mas gostaria de colaborar com o debate pela via econômica. Do meu ponto de vista, há muita inveja do relativo sucesso israelense. A tendência natural é defender os mais fracos. Isso nem sempre será o mais justo.
O antissemitismo é tão antigo quanto o próprio judaísmo. Os motivos variaram com o tempo. Mas, em minha opinião, não podemos descartar a inveja como fator importante. A prática da usura era condenada pelos católicos enquanto os judeus desfrutavam de sua evidente lógica econômica. Shakespeare retratou o antissemitismo de seu tempo em seu clássico “O Mercador de Veneza”, em que Shylock representa o típico agiota insensível. Marx, sempre irresponsável com suas finanças, usou os judeus como bode expiatório para atacar o capitalismo. O nacional-socialismo de Hitler foi o ponto máximo do ódio contra judeus.
Vários países existem por causa de decisões arbitrárias de governos, principalmente após guerras. Israel é apenas mais um. Curiosamente, parece que somente Israel não tem o direito de existir. Culpa-se sua existência pelo conflito na região, sem levar em conta que os maiores inimigos dos muçulmanos vêm do próprio Islã. O que Israel fez de tão terrível para que mereça ser “varrido do mapa”, como os fanáticos defendem?
Israel é um país pequeno, criado apenas em 1948, contando hoje com pouco mais de sete milhões de habitantes. Ao contrário de seus vizinhos, não possui recursos naturais abundantes, e precisa importar petróleo. Entretanto, o telefone celular foi desenvolvido lá, pela filial da Motorola. A maior parte do sistema operacional do Windows XP foi desenvolvida pela Microsoft de Israel. O microprocessador Pentium-4 foi desenvolvido pela Intel em Israel. A tecnologia da “caixa postal” foi desenvolvida em Israel. Microsoft e Cisco construíram unidades de pesquisa e desenvolvimento em Israel. Em resumo, Israel possui uma das indústrias de tecnologia mais avançadas do mundo.
O PIB de Israel, acima de US$ 200 bilhões por ano, é muito superior ao de seus vizinhos islâmicos. A renda per capita é de quase US$ 30 mil. Apesar da pequena população e da ausência de recursos naturais, as empresas israelenses exportam mais de US$ 50 bilhões por ano. A penetração da internet é uma das maiores do mundo. Israel possui a maior proporção mundial de títulos universitários em relação à população. Lá são produzidos mais artigos científicos per capita que qualquer outro país. Israel possui o maior IDH do Oriente, e o 15º do mundo.
Não custa lembrar que tudo isso foi conquistado sob constante ameaça terrorista por parte dos vizinhos, forçando um pesado gasto militar do governo. Ainda assim, o país despontou no campo científico e tecnológico, oferecendo enormes avanços para a humanidade.
Quando comparamos a realidade israelense com a situação miserável da maioria dos vizinhos, fica mais fácil entender parte do ódio que é alimentado contra os judeus. Claro que fatores religiosos pesam, assim como o interesse de autoridades islâmicas no clima de guerra. Nada como um inimigo externo para justificar atrocidades domésticas. Mas as gritantes diferenças econômicas e sociais sem dúvida adicionam lenha à fogueira.
Como agravante, Israel é uma democracia parlamentar, enquanto a maioria dos vizinhos vive sob regimes autoritários que ignoram os direitos humanos mais básicos. Isso para não falar das gritantes diferenças quanto às liberdades femininas.
Israel não é um paraíso. Longe disso. Seu governo comete abusos que merecem repúdio. Mas perto da realidade de seus vizinhos islâmicos, o contraste é chocante. Será que isso tem alguma ligação com o ódio a Israel e o constante uso de critérios parciais na hora de julgar os acontecimentos na região? O sucesso costuma despertar a inveja nas almas pequenas, vide o antiamericanismo patológico que ainda sobrevive na esquerda latino-americana.
Em tempo: O ministro brasileiro da Ciência e Tecnologia deveria aprender com Israel como produzir tecnologia de ponta, com ampla abertura econômica e investimento em educação, em vez de tentar resgatar o fracassado protecionismo, no afã de estimular a indústria nacional.

29 comentários:

myriam disse...

obrigada pela informação e divulgação do q se passa em Israel só acho q o título poderia ser
A Inveja a israel abs Myriam Glatt

Sabbá disse...

Excelente texto constantino!
Muito bom, esta de parabéns!

Anônimo disse...

Israel também não é nenhum santo.Mas infelizmente ninguém pode falar dos crimes de guerra deles sem ser chamado de nazista.

João disse...

Infelizmente, hoje qualquer "valente" anônimo acusa Israel de "crimes de guerra" sem mostrar nenhuma evidência, muito menos condenação, como se fosse algo corriqueiro. O hamas agradece.

Ariel Krok disse...

Parabéns Rodrigo, colocou todos os pontos nos Iis, literalemente neste caso a inveja mata, imagine se Israel nao tivesse que comprometer mais de 40% de seus gastos com Defesa ? Imagine o crescimento de toda região, de todos os vizinhos se tivessem paz com Israel. Basta ver o crescimento vertiginoso do PIB da Cisjordania nos últimos anos para contatar que com a paz, mesmo que relativa, a prosperidade chega a todos. Se comparar o crescimento da Cisjordania com a Faixa de Gaza então, não há duvidas de como todos estes países só tem a se beneficiar dando uma chance a paz com os Judeus. Parabéns e Obrigado.

Ariel Krok

Amanda Aron disse...

Alem de ser um texto muito bem escrito, e baseado em fatos e muito sensato.

Parabens!

Beto disse...

anonymous: Se acusar Israel não é nazismo então va se preucupar com as outras 47 guerras que ocorrem no mundo neste momento e que matam mais que essa. respondo sua acusacao com uma frase de Ulysses Guimaraes

"A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes."
(Ulysses Guimarães)

Anônimo disse...

resumir tudo a inveja é de um minimalismo tosco e pseudo-intelectual. Vergonha Alheia.

Se o problema é "inveja econômica" A Libia, país em revolução tinha o maior PIB da africa e IDH maior que o do brasil

Mauro Wainstock disse...

O seu brilhante artigo “O ódio a Israel” é um clamor pelo fim do preconceito ao desconhecido; um apelo à premência de se alterar conceitos transmitidos e enraizados através de gerações contaminadas historicamente. Os israelenses, que já conquistaram nove prêmios "Nobel", e foram pioneiros em várias áreas do conhecimento humano, particularmente em ciência e tecnologia, são otimistas de nascimento e persistentes por necessidade, e têm o seu hino, “Hatikvá” (“Esperança”), como lema diário. Parafraseando a ex-premier Golda Meir: “Um judeu não pode dar-se ao luxo de ser pessimista".

Anônimo disse...

E o mais bizarro é que eles ainda confirmam, querem mesmo rebaixar o nível do debate chamando de nazista todo mundo que fala dos crimes de guerra de israel
No mínimo muito suspeito esse amor pelo argumentum ad hominem.

E pra quem fala que não existem evidências:
'Even the secretary general of the United Nations, Ban Ki-moon, normally so cautious about offending sovereign states – especially those aligned with its most influential member, the United States – has joined the call for an investigation and potential accountability. '
http://mondediplo.com/2009/03/03warcrimes

Querem mais? O fósforo branco é uma arma química proibida pela convenção de geneva, uma arma que queima não só por fora mas por dentro do organismo.
E agora fotos de israel usando fósforo branco contra civis em gaza:
http://www.google.com.br/search?num=30&hl=en&safe=off&q=white%20phosphorus%20gaza&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&biw=1600&bih=799&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi

E from wikipedia:
'The Israeli military openly used white phosphorus shells in the Gaza War,[20] which were fired from 155mm artillery guns.'
http://en.wikipedia.org/wiki/White_phosphorus

Charlie disse...

Excelente texto, Rodrigo. Infelizmente faz parte do ser humano transformar a inveja em ódio pelo que dá certo. Sempre imagino como seria o nosso Brasil se tivesse a mesma mentalidade israelense para o trabalho e visão de futuro...
Que pena não poder ler textos isentos e brilhantes como o seu na "grande mídia".

Victor disse...

Prezado Rodrigo,

Moro na Cisjordânia, parte dos Territórios Palestinos ocupados por Israel desde 1967, por isso, acho que posso contribuir um pouco para o debate que se estabeleceu em torno do seu texto.

Você disse que preferia não entrar na questão histórica em si, porque não é essa a sua seara. Me desculpe por observar que você acabou fazendo o que disse que muitos fazem: opinar sem embasamento. Digo isso, porque no caso do conflito entre Israel e Palestina a história é uma questão fundamental. Sem ela, fica muito difícil emitir qualquer opinião justa.

Fiquei um pouco perplexo ao lê-lo, porque em nenhum momento você menciona os palestinos. Me parece que você está com uma versão da história um tanto incompleta. Essa versão, que ignora completamente os palestinos, costumava ser a versão predominante em Israel. Mas nem mesmo em Israel hoje em dia nega-se a existência dos palestinos ou o fato que que eles estavam no território em que hoje está Israel no momento da criação do Estado.

Para aqueles menos familiarizados com a questão, os palestinos são hoje cerca de 11 milhões de pessoas. A maneira mais simples e direta de defini-los é como a população, majoriatariamente árabe, que habitava a região da Palestina, e ainda habita algumas áreas.

Esses onze milhões de pessoas estão assim dividos (esses números são arredondados):
3,7 milhões vivem nos Territórios Palestinos Ocupados (dos quais 2,3 milhões na Cisjordânia e 1,4 milhão em Gaza)
1,5 milhão vive em Israel
cerca de 4 milhões vivem em campos de refugiados na Jordânia, na Síria e no Líbano
e o restante, não tenho o número exato, vive na diáspora, como imigrantes ou refugiados, em diversos países do mundo, a maior parte na Jordânia (70% da população da Jordânia é palestina), o Chile vem em segundo lugar, com 500 mil, outras comunidades importantes são 270 mil no Egito e 250 mil nos Estados Unidos, e até o Brasil tem 60 mil palestinos (a maior parte naturalizada brasileira).

Como é que todas essas pessoas foram parar, cada grupo delas na situação em que se encontra?

Continua...

Victor disse...

A explicação é simples e não é refutada mais nem mesmo pelos historiadores israelenses. O Estado de Israel foi criado em 1948 como resultado da partilha da região definida naquele momento como Mandato Britânico da Palestina. Quando terminou a I Guerra Mundial, o Império Turco-Otomano foi fragmentado e dividido entre as potências vencedoras da Guerra, da mesma forma como aconteceu como Império Austro-Húngaro, derrotado na mesma guerra.

Vários Estados acabaram sendo formados nas áreas administradas pela Grã-Bretanha e pela França, a Síria, o Líbano, a Jordânia (Transjordânia na época) e o Iraque.

A província otomana da Palestina, que tinha como cidades importantes Jerusalém, Belém, Haifa, Nazareth e Jaffa, entre outras, se manteve por um tempo mais longo sob administração britânica, como o nome de Mandato Britânico da Palestina.

Um pouco antes da Guerra, na última década do séc XIX, havia começado um movimento na Europa, que ficou conhecido como Sionismo, que tinha como objetivo principal estabelecer um Estado para acomodar as populações de judeus europeus (os judeus Ashkenazy), que sofriam perseguições em seus países de origem, em particular na Europa do Leste e na Rússia. O sionismo não tinha em primeiro lugar como questão fechada que esse Estado seria criado na Palestina. Cogitou-se mesmo parte da Argentina. E o projeto tinha por base a compra de um território para a constituição do Estado. Claro que a Palestina era também uma alternativa, porque era a terra mencionada na Bíblia como a terra prometida por Deus aos hebreus. Mas não podemos nunca perder de vista o fato de que a Bílbia é um livro religioso, que para efeitos jurídicos não garante a posse daquele território aos descendentes daquele povo que viveu lá dois mil anos antes.

O movimento sionista acabou favorecendo a Palestina, e em fins do séc XIX judeus europeus começaram a emigrar para cá. Foi mais ou menos nessa época que os sionistas começaram a repetir incessantemente um slogan: uma terra sem povo, para um povo sem terra.

Continua...

Victor disse...

Era aí que eu queria chegar. Embora os sionistas tenham usado esse slogan para atrair judeus para seu projeto, não era verdade. A Palestina era ocupada, tinha uma economia relativamente próspera para os padrões dos países agrários da região, e tinham mesmo uma elite altamente educada. Aquelas cidades que mencionei acima, todas elas, produziram elites políticas e intelectuais vibrantes.

Foi justamente assim que o conflito começou, caro Rodrigo, não por inveja, mas por uma resistência legítima da população nativa conta o movimento de imigração que começou naquele período e que não parou de crescer até a época da II Guerra, quando então grandes massas de judeus fugindo do holocausto imigravam para a Palestina.

Agora eu pergunto a você: que povo assistiria a isso de braços cruzados? As populações nativas começaram a resistir, ainda no tempo do Império Otomano, pedindo ao Sultão em Istambul que controlasse a imigração de judeus para a Palestina, e também a venda de terra. O que acontecia é que proprietários absenteístas vendiam suas terras a judeus, e estes expulsavam as populações palestinas que trabalhavam nela. Assim foi se desenvolvendo a animosidade entre as duas populações, os palestinos que viviam naquela região por séculos, desde tempos imemoriais, inclusive desde os tempos dos próprios hebreus (no próximo parágrafo falo disso) e os judeus europeus que mal começavam a chegar, aos poucos, e depois passaram a chegar em massa.

[O que queria elaborar sobre o parágrafo anterior é que a população que vivia ali era o resultado de diversas interações ao longo dos séculos e era formada de um pouco de tudo. Por ali passaram cananeus, hebreus, arameus, filisteus, nabateus, romanos, árabes, europeus (os cruzados francos, que dominaram a região por quase 200 anos) e finalmente os turcos. Um grande problema na análise disso tudo é achar que um povo substituia o outro. Tipo, os hebreus foram expulsos pelos romanos, não sobrou nenhum, aí os romanos, já no período bizantino, foram expulsos, pelos árabes, não tendo sobrado nenhum, que depois foram expulsos pelos franceses, etc, etc.

Só que claro que não é assim. Essas populações coexistiam, se dominavam, interagiam, se misturavam, e por aí vai até hoje. Portanto, a população que vivia ali estava ali desde sempre. O que aconteceu e que talvez desagrade a muita gente hoje é que a maioria daquela população se islamizou, um vez que a região ficou, por quase mil anos (com o intervalo dos dois reinos cruzados) sob domínio de muçulmanos, fossem eles árabes ou turco-otomanos.

Continua...

Victor disse...

Voltando ao século XX, a situação foi-se agravando, ao ponto da Grã-Bretanha decidir se retirar da Palestina e entregar a questão às Nações Unidas.

As Nações Unidas, por sua vez, foi na direção da partilha do território, uma parte para a criação do Estado de Israel e a outra para a criação de um Estado árabe. Em grande medida a direção tomada foi essa, porque em 1917 os ingleses, convencidos dos méritos do movimento sionista, fizeram o que ficou conhecido como a Declaração Balfour, em que a Grã Bretanha, que recém recebera o Mandato da Palestina, se comprometia a criar ali um Estado para os judeus. É importante notar que as populações nativas nunca foram consultadas sobre o assunto. Cabe notar também que a própria declaração Balfour salvaguardava o direito das populações nativas. Veja o parágrafo principal da Declaração:

"His Majesty's Government view with favour the establishment in Palestine of a national home for the Jewish people, and will use their best endeavours to facilitate the achievement of the object, it being clearly understood that nothing shall be done which may prejudice the civil and religious' rights of existing non-Jewish communities in Palestine, or the rights and political status enjoyed by Jews in any other country".

Quando em 1947 a partilha foi votada, trinta anos depois da Declaração Balfour, a população de judeus na região era já de um terço, par dois terços de palestinos. (Não podemos dizer simplesmente árabes. As populações nativas eram majoritariamente árabes, mas havia armênios, gregos, e vários outros grupos, até mesmo judeus, que viviam todos ali desde séculos. E também não podemos dizer que eram todos muçulmanos, porque havia muitos cristãos, de diversas origens, na maioria árabes cristãos.)

Veja como desde o início o que era para solucionar na verdade favorecia mais conflito. Embora a relação demográfica fosse de um para dois, a partilha deu 56% do território para o que seria o Estado de Israel e 44% para o que seria o Estado Árabe. Os países árabes vizinhos, que buscavam defender os direitos das populações árabes que viviam ali, não aceitaram a partilha (o que cá entre nós é compreensível, 56% para apenas um terço! e o restante para os outros dois terços) e a guerra de 1948 começou.

Continua

Victor disse...

Aí começa a explicação para a questão que pus lá em cima: como os palestinos de hoje foram parar onde estão. Durante a guerra, 750 mil palestinos que viviam na parte que ficou para Israel se tornaram refugiados. Isso aconteceu de muitas formas. Muitos decidiram partir, muitos foram expulsos a toque de baioneta e muitos fugiram apavorados com os massacres que estavam acontecendo em cidades palestinas vizinhas. Seja qual for a razão, todos se foram com a intenção de voltar, como costuma acontecer nas guerras, quando acabam. Quantos judeus não voltaram para a Alemanha, a Áustria, a Polônia, quando sentiram que estariam em segurança? Esses 750 mil palestinos nunca puderam voltar e vivem até hoje em campos de refugiados (depois de algumas gerações são a maioria dos 4 milhoes de refugiados palestinos). Vivem em condições muitas vezes deploráveis, sem perspectivas econômicas, sem direitos civis, dependendo da ajuda humanitária internacional. Nunca receberam compensação pelas terras e propriedades que perderam, e que foram usadas em Israel para acomodar os judeus que chegavam.

Ao final da guerra, Israel saiu vitorioso e com grandes nacos adicionais do território que seria do Estado árabe. A nova configuração ficou com 78% da Palestina britânica para Israel e apenas 22% para o Estado palestino. Veja você a tragédia desse povo. Mas essas fronteiras não são mais discutidas. Foram fixadas no armistício acordado entre as partes, com o aval da comunidade internacional.

Mas a história ainda não acabou. Em 1967 nova guerra estourou entre Israel e os países vizinhos, entre os quais a Jordânia, que estava administrando em nome dos palestinos a parte dos 22% conhecida como Cisjordânia, inclusive a parte Oriental de Jerusalém, e o Egito, que estava administrando em nome dos palestinos a outra parte dos 22%, a célebre Faixa de Gaza.

Israel mais uma vez ganhou a guerra e ocupou o restante dos 22%, ainda levando de quebra territórios do Egito, da Síria e do Líbano. E ainda declarou Jerusalém Oriental anexada ao território israelense, e unificada com a parte Ocidental. A diferença entre as duas guerras é que não houve armistício, não se definiram fronteiras, e a comunidade internacional não reconhece a anexação da Jerusalém. Desde 1967, as Nações Unidas adota resolução após resolução conclamando Israel a retornar às fronteiras anteriores a 1967, portanto aos 78% (o que já está bom para que não tinha nenhuma soberania reconhecida naquela região). Mas Israel tem ignorado todas essas resoluçoes, embora seja membro das Naçoes Unidas e devesse cumprir as resoluções da organização. Novos refugiados surgiram dessa guerra, que foram juntar-se aos demais, completando o impressionante número de 4 milhões. E a situação dos palestinos que vivem em Jerusalém Oriental, com os quais convivo diarimente, tornou-se um inferno cotidiano.

Continua

Victor disse...

Da mesma forma que as resoluções da ONU, Israel ignora as provisões da IV Convenção de Genebra, da qual também é signatária, que trata das normas a regular uma situação de ocupação. Segundo a Convenção, o Estado ocupante não pode transferir população do território ocupado para fora do território, e também não pode transferir sua população para dentro do território ocupado. Tais ações são consideradas crimes de guerra. Israel não faz outra coisa desde 1967, com sua política de assentamentos judeus na Cisjordânia (antes em Gaza também) e em Jerusalém Oriental. O número de colonos hoje já passa de 500 mil. Todos ilegais. Sim, 500 mil colonos vivendo ilegalmente, em território tomado ilegalmente, com a proteção das Forças Armadas israelenses, e com o apoio do Governo, contra toda a comunidade internacional.

Israel não cumpre tampouco a decisão da Corte de Haia, que determinou que as partes do muro de separação que invadem o território sejam demolidas. Vc já viu imagem desse muro mostruoso que Israel está construindo para se separar dos palestinos? Procure ver algumas imagens. E para vc ter noção do tamanho da invasão, a fronteira tem cerca de 340 km mas o trajeto do muro tem mais de 700 km...

Agora, para concluir, eu pergunto a você: você ainda acha que se trata de uma questão de inveja porque Israel tem uma população economicamente e intelectualmente mais desenvolvida que seus vizinhos?

Queria ainda dizer a você que há vários outros pontos que podemos discutir se vc quiser, entre os quais os 3 bilhões de dólares que Israel recebe anualmente do Governo norte-americano, e aspectos sobre a democracia israelense, que é democracia de fato apenas para seus cidadãos judeus. Os direitos da população de judeus e da população de árabes israelenses não são os mesmos. E isso, me desculpe, não é democracia. É uma situação de apartheid (e aqui não estou falando de refugiados palestinos, mas de cidadãos plenos de Israel, mas de origem árabe). E também sobre censura e controle de midia, que existem em Israel, o que também não caracteriza um Estado democrático, mas sim um Estado fascista. Podemos elaborar sobre tudo isso se vc quiser.

Eu gostaria que vc publicasse meu longo comentário. Mas se vc não quiser publicar, paciência. Vou lamentar porque vc deixará de compartilhar minha experiência de habitante da Cisjordânia que estudou a história do conflito com os outros comentaristas. Mas tenho a certeza de que sua visão do conflito, se vc me leu até aqui, estará mais completa e menos preconceituosa.

Felicidades!

Jaime disse...

Parabéns, Victor!! O seu texto é que está completo!

Rodrigo Constantino disse...

Israeli Sovereignty Has Benefited Arabs

by Gavriel Queenann

A report recently published by the Palestinian Authority's Central Bureau of Statistics demonstrates Arabs in East Jerusalem, Judea, and Samaria have reaped the benefits of Israeli sovereignty.


According to the report, Israeli control over Judea and Samaria has had an enormous positive impact on civil infrastructure and improved accessibility to basic resources like water and electricity, as well as opening the region to the Israeli labor market, which has brought a significant increase in GDP.
Quality of life
The situation of the Palestinians today is better off than the Arab citizens in many measures, including: The percentage of expenditure on food, the percentage of expenditure on housing, private ownership of houses, ownership of mobile phones, Internet accessibility, population, literacy rate and longevity.
GDP
Israeli 'Occupation' between 1967 and 1993, after which the PA began administering sections of Judea and Samaria under the Oslo Accords, resulted in a rise in per capita GDP from 904 to 3392 NIS. Under the PA this number dropped to 2293 NIS.
Water
Israel supplied almost all Arab communities in Judea and Samaria with water pipes between 1967 and 1993, bringing the number of homes with indoor plumbing to 90%. The total water supply doubled from 64 million cubic meters a year to 120 million as a result of improved water access.
Life expectancy
Arabs in Judea and Samaria have seen a steady increase in life expectancy from 54 to 74 since 1967, close to that of Israelis, and higher than the median life expectancy of 65 in most Arab countries.
Literacy rates
92% of Arabs of Judea and Samaria are literate, compared to a median of 67% for the Arab world as a whole.
Internet penetration
55% of Arabs in Judea and Samaria, benefiting from Israeli high-tech infrastructure, have internet access - a figure significantly higher than almost all Arab nations today.
Prefer Israel
58% of Arab residents in East Jerusalem prefer to continue living under Israeli sovereignty rather than being annexed to PA control.

Victor disse...

Caro Rodrigo,

Podemos continuar o debate. Tenho o maior prazer. Antes de mais nada, queria alertar você para o fato de que apenas por chamar a Cisjordânia de Judéia e Samaria, que são os nomes bíblicos da região, o autor do texto já mostrou claramente de que lado está, e portanto eu já desconfiaria do que ele diz. Mas eu na verdade não discordo por achar que ele ele tem um parti pris. Eu discordo, porque moro aqui e sei que ele está equivocado porque de uma certa forma enfrento grande parte dos problemas que os palestinos enfrentam, embora eu desfrute de uma série de privilégios e proteções por ser estrangeiro, mas mais que tudo simplesmente por não ser palestino.

Eu agora não posso comentar sobre tudo, porque já é bastante tarde aqui, mas eu vou fazer alguns comentários que considero mais urgentes.

Antes de mais nada é importante deixar claro que o relatório a que o autor faz referência, que eu conheço e li por causa de meu trabalho, não chega à nenhuma das conclusões a que o autor chegou. O relatório apresenta apenas os dados, as estatísticas. As conclusões que ele defende são a leitura que ele faz desses números.

Continua...

Victor disse...

According to the report, Israeli control over Judea and Samaria has had an enormous positive impact on civil infrastructure and improved accessibility to basic resources like water and electricity, as well as opening the region to the Israeli labor market, which has brought a significant increase in GDP.

É verdade que os palestinos participaram, antes da construção do muro de separação, do mercado de trabalho israelense. Mas participaram como subempregados, assim como a maioria dos imigrantes são subempregados em todos os países colonialistas, com todas as implicações que isso tem.

Sobre a água, é extremamente controverso o que diz o autor. Grande parte da água que é usada por Israel é tirada da Cisjordânia. Trata-se, portanto, de recursos naturais que pertencem aos palestinos. Para vc ter uma idéia do que estou dizendo, dados, também comprovados, indicam que os 10 mil colonos que vivem em assentamentos (ilegais, quando se fala em assentamentos, nesse contexto, está-se sempre referindo a ocupantes ilegais dos territórios palestinos, de acordo com todas as leis internacionais) - repetindo, apenas 10 mil colonos do Vale do Jordão (que pertence à Palestina, pela partilha de 1947) utilizam em suas culturas agrícolas metade da água que é utilizada pelos demais mais de dois milhões de habitantes da Cisjordânia. E não porque os palestinos seja, ineficientes no seu uso da água, mas porque, como força ocupante, Israel controla os recursos hídricos palestinos, a seu favor, como você pode ver.

Victor disse...

Caro Rodrigo, algo deu errado na última postagem que fiz, sobre educação na Palestina, e perdi tudo. Como está muito tarde aqui, vou deixar para continuar amanhã. Ainda tenho alguns comentárioa a fazer.
Abraço

Jacques Stifelman disse...

Caro Victor. O que voce sugere para entendermos dois pontos ausentes de sua longa explanação: 1) A Jordania foi criada em 1947 , um presente dos ingleses ao rei de uma tribo beduína chamada Hashemita que ficou com grande parte do chamado território palestino. Durante o que voce chamou "administração" jordaniana dos entao nao chamados territorios palestino os judeus eram muito maltratados. Porque voce chama a Jordania de administradora e nao de ocupante? A Jordania foi criada um ano antes de Israel? A Jordania expulsou milhares de palestinos após Arafatt tentar matar o rei no famoso Setembro Negro e estaes foram para o Libano onde sao considerados cidadaos de segunda classe até hoje. A Jordania pode existir sem ser sequer incomodada por argumentos como os seus?2) Mais ou menos 800 mil jjudeus foram expulsos de seus paises e tiveram seus bens confiscados por países arabes vizinhos. Voce ja ouviu algum pais desses oferecer qualquer coisa de volta como compensação ou o retorno das cidadanias? Acho sim que o Constantino aborda um tema pertinente quando menciona a inveja porque Israel tem uma forte relacao historica com o local, muito maior que a Jordania, por exemplo, e fez do que recebeu um oasis democratico e de excelencia academica enquanto ao seu redor tiranos da pior especie massacram o seu proprio povo. Um abraço, Jacques

George disse...

(1) Victor, muito bem explicado do ponto de vista histórico.

(2) Rodrigo, como que a inveja pode ser parte do problema se o sucesso nem existia quando o conflito começou? Aliás, não entendi o raciocínio lógico por trás do artigo, (a) Israel é odiado e (b) Israel é um país economicamente bem sucedido (como vc bem defendeu), por tanto (c) Israel é odiado pq é bem sucedido? Vc apenas formulou uma hipótese. Aonde estão as evidências?

(3) Jacques, parece-me que ódio continua sendo religioso e territorial. Vc está sugerindo como argumento que a Jordânia também deveria ser odiada e só não é pq não teve o sucesso econômico de Israel?! Até agora tudo leva a crer que o conflito entre muçulmanos (que já está em evidência) só não é mais aparente pq eles ainda têm uma causa (por mais deplorável que seja) em comum.

(4) Proponho debatermos duas outras hipóteses (a) As diversidades da região e as consequentes ajudas externas foram os fatores que atribuíram para o sucesso de Israel (e não o inverso). (b) A iniciativa de paz da região deveria partir de Israel já que ninguém aqui contesta que seja o país mais organizado e bem sucedido da região.

NicolaDaemon disse...

Isto é Israel
Limpeza étnica

Israel destruiu mais de 500 aldeias e cidades palestinas.

Recorde mundial (1)

Israel detém o recorde mundial do número de refugiados e deportados ... 4milhões.

Recorde mundial ( 2 )

Israel detém o recorde mundial do número de casas demolidas, 60 mil.

Mais de 500 condenações

Israel é o país com o maior registro de condenação da ONU ... 500

Mais de 100 vetos

Estados Unidos vetaram mais de 100 resolucões do Conselho de Segurança da ONU condenando Israel.

50 mil civis assassinados

Israel já assassinou mais civis inocentes per capita do que qualquer outro país ... 50 mil.

250 mil civis aprisionados

Israel prendeu mais civis per capita do que qualquer outro
país ... 250 mil.

50 mil especiais

Israel tornou mais civis inocentes com deficiência física per capita do que qualquer outro país ... 50 mil.

NicolaDaemon disse...

Israel , um estado Racista, Facista e Segregario:
Sionistas promovem um mundo multicultural e miscigenado mas querem Israel como um estado apenas judeu?

Theresa disse...

The arab spring veio demolir as mentiras que durante anos persistiram sobre a "culpa" de todas as mazelas no Médio Oriente serem de origem judaica ou seja: o Estado de Israel o único país democrata da região.
Se fosse Israel o grande mal da região porque é que todos a sua volta são sociedades atrasadas e dominadas por ditadores fascinoras? Que tem a ver o Estado de Israel com a mentalidade e a submissão do povo arabe?
Não seria Israel a fonte de todos os males? Então? Porque é que hoje o Assad o dono da Síria mata os seus cidadãos diariamente? Ou a tal revolução no Egito que não vai levar a nada, mesmo assim aconteceu? Ou ainda os marroquinos que mesmo sem saber o que é democracia saem a festejar quando o rei do Marrocos diz que irá mudar a constituição? Ou ainda a Libia cujo os rebeldes de hoje serão os Kadaffis de amanhã insistem em ter ajuda do mundo livre e desenvolvido para tirar o mentecapto Kadaffi do poder? Sem esquecer o Yemen um dos paises que faz parte da cesta dos mais atrasados do mundo que vive em protestos de manhã a noite, tambem não esquecendo a Tunisia que luta para ser como a França, como o mundo ocidental, mas sempre sobre as ordens do Corão.
O que tem Israel a ver com a vontade dos arabes em querer viver em plena democracia como o mundo livre? Não seria Israel um exemplo vivo da democracia, uma ilha democratica no meio de um mar revolto e escuro, viver com vizinhos cujo objetivo é acabar com os judeus, esta escrito no Corão que o dever de todo muçulmano é acabar com os judeus.
Esta demonstrado que o probllema do Oriente Médio é a ignorancia do povo, o atraso e a falta de democracia, não Israel, Israel não é a culpada da inexistencia da democracia na região, o problema em si é que um ilha democratica vem dar mal exemplo e isso não agrada a nenhum ditador e ademais o único país onde o mundo realmente pula e avanºa é um país não muçulmano, isso deve doer ainda mais, tem toda a razão Rodrigo Constantino, é nada mais que inveja e ódio.
A plena democracia e o islão são incompativeis, é impossivel, a coexistência da sharia law com a democracia, seria como se Newton não tivesse descoberto a lei da gravidade.

Anônimo disse...

Caro Victor, acho muito bom o dialogo entre as partes. Queria fazer um comentario sobre a ajuda dos USA a Israel.
Quando eu morava em Jerusalem, conheci uma alema voluntaria de uma organizacao em prol dos direitos humanos que veio fazer trabalho voluntario nos territorios ocupados. Apos alguns meses ela contou, decepcionadissima e muito triste, que todos os milhoes de EUROS enviados pela Europa aos lideres (na epoca Arafat etc) nao chegam a populacao palestina e sim direto aos bolsos corruptos dos lideres palestinos. E muito facil culpar os outros e nao se responsabilizar pelos proprios erros.
Abraco
Deborah E.

ricardo lion disse...

Rodrigo Constantino mostrou as conquistas econômicas dos judeus e econômicas e tecnológicas de Israel, mas a maioria dos judeus, como a maioria dos seres humanos. sempre foi pobre. É certo que os judeus se destacaram na prática da usura, justamente por a Igreja Católica tê-la proibido e deixado aos judeus esta prática, mas não creio que desenvolvimento econômico e tecnológico sejam os motivos principais. O autor esqueceu-se da religião. O Cristianismo nasceu do Judaísmo e daí o ressentimento de alguns membros da Igreja e o Islamismo é uma "cópia" (como se isso fosse possível...) do Judaísmo e do Cristianismo, foi inventado 1,500 anos depois do Judaísmo e 650 depois de Jesus. A Palestina, terra dos judeus invadida pelos árabes muçulmanos, representa uma parcela mínima do Oriente Médio, invadido pelos árabes (Mesopotâmia, Norte da África e Europa, de onde foram expulsos depois de quase 800 anos de ocupação da Península Ibérica).
Israel é o pais judeu (religião de Jesus), democrático (direito para todos), civilizado (não há guerra civil, apedrejamento de mulheres, enforcamento de homossexuais em praça pública, assassinato por "honra" de meninas pelos próprios pais e irmãos), etc. da região.