segunda-feira, julho 15, 2013

O estatismo nos planos de saúde

Rodrigo Constantino

Deu no GLOBO sobre planos de saúde: Pacotes empresariais são até 149% mais baratos que cobertura individual

Planos coletivos empresariais de saúde (contratados pelas empresas para seus funcionários) custam, na média das coberturas oferecidas no mercado, a metade do valor cobrado pelos planos individuais (contratados pelas famílias), de acordo com um levantamento feito pela Mercer Marsh Benefícios para o GLOBO.
Na faixa etária de 34 a 38 anos, a diferença de preço é ainda mais acentuada. Considerando a cobertura mais básica, que prevê abrangência regional, acomodação em enfermaria e reembolso de R$ 74,86 por consulta médica, o plano pode sair a R$ 245,89 nos planos individuais e R$ 98,65 nos empresariais, o que significa uma diferença de 149%.

O total de beneficiários dos planos coletivos cresceu 231% entre 2000 e 2012 e este segmento já representa 77% do mercado, com 37 milhões de pessoas. Os planos coletivos ficaram mais populares desde maio do ano passado, quando passou a ser permitida a manutenção em planos empresariais de aposentados e ex-funcionários demitidos sem justa causa, desde que tenham contribuído com mensalidades.


O mercado de "seguro de saúde" no Brasil foi totalmente destruído pelo excesso de intervenção estatal. Explico os principais pontos:


  • Seguro - Quando fazemos um seguro de casa ou automóvel, qual é a nossa ideia? Não utilizá-lo! Ele serve justamente contra sinistros, contra catástrofes importantes. Mas ninguém faz um seguro de automóvel para manutenção mensal, para troca de óleo, para gastos esperados no dia a dia de quem possui um carro. Essa era a ideia original de um seguro de saúde. Pagamos para o caso de uma emergência. Só que hoje, por regras do governo, um plano de saúde cobre todo tipo de consulta básica, de rotina, do cotidiano. É óbvio que isso criou distorções enormes no setor. Imagina se os seguros de carro tivessem que cobrir qualquer visita ao mecânico, por qualquer probleminha ou suspeita de problema. Esse seguro tenderia a encarecer, cada vez mais, e os usuários teriam um incentivo de abusar dele. Um simples barulhinho? Seguro! E, com o passar do tempo, ele ficaria absurdamente caro, inviabilizando o serviço para indivíduos mais humildes, até porque quem pagaria o grosso seriam as empresas. E, na PJ (pessoa jurídica), sabemos que há menos cuidado ainda por parte dos trabalhadores no uso adequado do serviço. Logo, o "seguro" de saúde passa a ser incorporado no salário, de forma indireta, e seu uso passa a ser relaxado, desleixado, o que só aumenta seu preço. Um sistema perfeito para grandes grupos seguradores, que monopolizam o mercado;
  • Discriminação - Na era do politicamente correto, é proibido discriminar, seja por sexo, idade, gênero, o que for. Só que seguros trabalham com estatística, com grandes números. Claro que um jovem tem mais probabilidade de causar um acidente de carro do que um adulto. Claro que um idoso tem mais chance de ficar doente e precisar de recursos da medicina do que um jovem. Enfim, gerir um plano de saúde é discriminar com base em grupos, categorias, classes comportamentais. Só que isso é cada vez mais difícil, pois o governo não permite. Quando as empresas são obrigadas a tratar todos iguais, e ainda por cima oferecer inúmeros itens por obrigação estatal, claro que elas vão cortar por cima, ou seja, vão cobrir os piores perfis como se fossem a média. Se alguém quiser fazer um plano específico mais barato, sem tantas coberturas, e tiver um perfil menos arriscado, ele simplesmente não será capaz disso! O governo obriga as empresas a colocá-lo em um pacote mais amplo, que abrange muito mais coisa e um perfil mais arriscado. Resultado: o plano não atenderá sua demanda específica.
Em resumo, esse é um setor que sofre demasiada intervenção estatal. Aquilo que era para ser um produto como outro qualquer no mercado, passou a ser ultra-regulado. Imaginem se a venda de alimentos fosse feita dessa forma, tendo que atender a um enorme grupo geral, sem nichos específicos, sem demanda e oferta caso a caso. Como seria? Sem dúvida não haveria a mesma quantidade enorme de produtos, para todos os gostos e bolsos. Pois é. E ainda reclamam que praticamente não há mais planos de saúde individuais. Por que será?

5 comentários:

Anônimo disse...

Só não entendo é como alguma coisa pode ser 149% mais barata que outra. Por acaso, no plano mais barato o segurado recebe alguma coisa? É usado como cobaia?

Rogerio Silva disse...

Tem mais um grande problema no seguro saúde, Rodrigo. Como não se pode precificar doenças e tratamentos, fica mais ou menos assim. Você pode contratar um seguro de 50 reais por mês (um dos mais baratos que existe) e quando for internado para fazer uma quimioterapia o tratamento pode custar 100 mil, 300 mil, ou até muito mais do que isso. Comparando com o seguro de carro, como você mesmo lembrou, é o mesmo que ter um fusca, fazer um seguro, mas quando bater, a seguradora te dar uma Mercedez ou uma Ferrari. A conta não fecha. O modelo ideal deveria ser compartilhado: contrata-se um seguro básico, que te garanta uma determinada quantia por internação ou procedimento, e o resto deveria se compartilhado com o paciente. Problemas básicos? Deveria ser solucionados pelo governo, via SUS. Isso seria mais justo, na minha opinião.

Eliane Bonotto disse...

A ideia é essa mesmo, quase nenhum governo controlando o mercado. Mas na teoria, pois na prática, sabemos que não é assim.
Para termos menor intervenção do Estado nos planos de saúde, precisaríamos ter atendimento de saúde pública decente.
Eu, por exemplo, não precisaria pagar um monte de dinheiro por um plano de saúde para poder ter acesso a consultas médicas periódicas, o que é o certo a se fazer, consultas profiláticas. Mas isso se eu pudesse fazer minhas consultas rotineiras numa clínica da família ou seu equivalente, normalmente, com um médico que me veja como sua cliente, exatamente como é feito com os médicos em consultórios particulares.
Como isso não será realidade mesmo para a geração da minha filha, infelizmente ainda teremos de conviver por um bom tempo com os planos de saúde caríssimos e com o governo dizendo o que eles devem fazer.

IvanFR disse...

O sucesso dos "planos coletivos" e "empresariais", a meu ver, é consequência dos preços na maior parte das vezes inacessíveis dos "planos individuais"...

Qual a parcela (porcentagem) da população economicamente ativa que pagar mensalmente, em média, 400 reais de plano de saúde? Isso sem contar o fato de que muitos dos planos individuais também cobram coparticipação em consultas e exames, o que aumenta ainda mais o custo. Se se tratar de idoso então, o valor não sai por menos de 1.000 por cabeça.

Será que a "nova classe média", tão festejada pelo governo petista, teria condições de arcar com esses custos ?

Daí o relativo sucesso dos planos coletivos e empresariais....

Diogo disse...

Prezado Rodrigo Constantino, acompanho com certa regularidade seus artigos e comentários, comungando com grande parte dos ideais e posicionamentos expostos em seus textos. Gostaria de ressaltar, contudo, que é importante aprofundar-se um pouco mais sobre determinados temas para exarar opiniões como essa, levando-se em consideração, inclusive, sua competência e seu poder de influenciar opiniões (à exemplo das opiniões expostas em alguns comentários).
Da mesma forma que não é legítima uma opinião formulada exclusivamente baseada em uma notícia ou "pesquisa" realizada pela "Carta Capital" ou qualquer veículo de esquerda, deve-se ter o mesmo cuidado com as informações vinculadas exclusivamente pelas entidades privadas e as mídias por ela controladas.
Apenas à título de informação, os planos individuais estão sendo suprimidos do mercado justamente por conta da ausência de regulamentação do Estado no que diz respeito aos reajustes e a possibilidade de rescisão unilateral do contrato, e não por conta dos valores estipulados no contrato inicial. Até porque os reajustes de contratos coletivos chegam a atingir mais de 800% do valor inicialmente fixado, e os contratos individuais tem seu percentual de reajuste anualmente estipulado pela ANS (variando entre 7% a 9%).
Os cargos de gestão da ANS são, em grande parte, ocupados por "ex"-gestores das operadoras de planos de saúde, e a atuação da agência é incapaz de fazer cessar os abusos praticados em desfavor dos consumidores.
Tenho plena ciência de seu posicionamento liberal, do qual também comungo, mas em nenhum sistema de governo pode ser permitido que uma massa de consumidores seja enganada por grandes organizações. Não existe "estatismo" na saúde suplementar, existe uma atuação induzida pelos interesses empresariais de uma agência imersa no jogo das grandes organizações.
Por fim, não poderia existir pior exemplo do que aquele narrado por Rogério Silva. Isto porque o contrato de plano de saúde consiste justamente na transposição do risco financeiro de futuros tratamentos médicos, cuja probabilidade de ocorrência é calculada com base em cálculos atuariais, e diluída entre todos os contratantes de determinada operadora. Ou seja, de acordo com o que foi contratado, não importa o valor do tratamento, deverá a operadora custear todos os valores necessários à recuperação da saúde e manutenção da vida do usuário, pois é justamente neste ponto que reside a natureza "securitária" da relação estabelecida com o consumidor.
Desta forma, apesar de respeitar e admirar seu trabalho, acredito que, quanto ao presente post, algumas informações importantes deveriam ter sido analisadas antes da formulação de uma opinião concreta quanto ao tema. Por mais liberal que seja, não é possível ostentar uma defesa coerente de empresas que enganam e abusam dos consumidores.