terça-feira, agosto 10, 2010

A Bajulação Corrompe

Rodrigo Constantino, O Globo

“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose; os admiradores corrompem.” (Nelson Rodrigues)

Os principais observadores da natureza humana sempre tiveram receio do estrago que a vaidade excessiva pode causar. Gostamos de elogios, enquanto criamos mecanismos de defesa contra as críticas. O autoengano pode ser uma estratégia útil para a sobrevivência, como diz Eduardo Giannetti em seu livro sobre o tema: “O enganador autoenganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”. O enganador embarca em suas próprias mentiras, e passa a acreditar nelas com veemência. Fica mais fácil convencer os demais assim.
Justamente por isso a adulação popular ajuda a criar monstros perigosos. As piores tiranias foram aquelas com amplo apoio do povo, como Hitler e Mussolini atestam. Aqueles que passam a se cercar somente de bajuladores, enquanto concentram poder e conquistam as massas, acabam blindados contra todo tipo de crítica. Os conselheiros mais sábios ficam impotentes diante da reverência das massas e fazem alertas em vão. De tanto escutar que é uma espécie de “messias salvador”, o demagogo pode acabar acreditando. Aí reside o maior risco para a sociedade.
Em “Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith alertou que nas cortes de príncipes, onde sucesso e privilégios dependem, não da estima de inteligentes e bem informados, mas do favor de superiores presunçosos e arrogantes, a adulação e falsidade prevalecem sobre mérito e habilidades. “Em tais círculos sociais”, conclui ele, “as habilidades em agradar são mais consideradas do que as habilidades em servir”. Quando o mais importante é agradar o poderoso governante, a primeira coisa a ser sacrificada será a sinceridade.
Infelizmente, esta é a realidade brasileira. A popularidade do presidente Lula está nas alturas. Boa parte da imprensa – com honrosas exceções – parece filtrar todas as notícias através de uma lente benigna em prol dele, os intelectuais o tratam com incrível condescendência, e até mesmo um filme foi feito para o “filho do Brasil”. Há uma espécie de salvo-conduto que lhe permite abusar das contradições e arroubos demagógicos. O presidente adquiriu uma imunidade que nenhum cidadão teria em seu lugar. Qualquer outro seria julgado de forma severa por aquilo que o presidente Lula diz sorrindo. Um “efeito Teflon” protege o presidente, já que nenhuma sujeira gruda em sua pessoa.
O problema é que essa bajulação ajuda a despertar a megalomania do presidente, alimentando sua vaidade de forma incrível. O poder corrompe, e o excesso de poder concentrado em alguém vaidoso e sem escrúpulos corrompe ainda mais. Nunca antes na história deste país um presidente contou com tanta indulgência dos críticos. Lula está perdoado por qualquer pecado antes mesmo de ele ocorrer.
Ele pode se aliar aos mais antigos caciques da política nacional, beijar a mão deles, e tudo é perdoado pelo povo. Ele pode aderir às piores práticas políticas, passar a mão na cabeça dos réus de formação de quadrilha do seu partido, que poucos terão coragem de subir o tom das críticas. Ele pode abraçar os piores ditadores, chamá-los de “camaradas”, que poucos ousarão atacá-lo com firmeza. Quando se trata do presidente Lula, então tudo faz parte do “jogo democrático”. Até Jesus Cristo teria que se aliar a Judas para governar o Brasil, não é mesmo?
“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”, disse Norman Vincent. Quando um povo perde sua capacidade de indignação, o caminho da servidão está aberto. A postura mais crítica é fundamental para se evitar abusos do poder. Quando as pessoas se deixam levar pelas emoções – ou pelo bolso –, a decadência moral da sociedade está iminente.
Se os brasileiros desejam construir uma nação mais próspera, justa e livre, então se faz necessário respeitar princípios éticos básicos. O país precisa de um governo de leis isonômicas, incompatível com a carta branca concedida aos governantes carismáticos. A má-conduta deve ser punida, independente de seu autor. Ninguém está acima da lei, e os fins não justificam os meios. O cinismo não é uma virtude. A ética não pode ser jogada no lixo, em troca de migalhas.
Precisamos resgatar certos valores que parecem cada vez mais abandonados, antes que seja tarde demais. Devemos enaltecer o espírito crítico. Quem tem boca vaia Roma – e Brasília também.

8 comentários:

Anderson disse...

Rodrigo,

Você tem toda razão.

Seu artigo resume muito bem o quadro político que o Brasil vive hoje.

Espírito crítico, discernimento. Esse é o caminho, não vejo outro.

Abs.
Anderson Bortolai

Anônimo disse...

Caro Rodrigo,
Os títulos dos posts de seu blog deveriam ser links para os próprios posts de modo que possamos passar o link para um artigo específico para outra pessoa. Fica mais fácil difundir determinado artigo seu.
Sei que existe um link para enviar o artigo por email, mas as vezes desejamos apenas copiar e colar o link em um MSN da vida ou escrever em um texto.

Rodrigo Constantino disse...

Ao lado direito da página vc consegue o link apenas do artigo.

Esse aqui, por exemplo:

http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2010/08/bajulacao-corrompe.html

Débora Leal disse...

Apoiadíssimo! Vamos fazer barulho!

ntsr disse...

Rodrigo, as vezes parece que tu vive no mundo da lua

'Se os brasileiros desejam construir uma nação mais próspera, justa e livre'

Quem disse que eles querem isso? Só o que eles querem é passar num concurso e o resto que se exploda

'Ninguém está acima da lei'

A essa altura do campeonato tu ainda acredita nisso?Vai ser dilma lá,nunca me iludi, pelo menos vai ser um governo engraçado pq ela é uma sem noção total.
E depois o lula volta.

Vergilio disse...

Em quem vamos confiar? Por que não abrem as portas de todas as cadeias e penitenciarias e soltam todo mundo, pelo menos tornaríamos o sistema isonômico e todos passariam a ser iguais constitucionalmente.
Depois não sabem porque o Brasil é subdesenvolvido e ruim de inovação ( e é ruinzinho mesmo), pois quem vai querer negociar com quem não é confiável?

Lula, Dilma, Sarney, Genoíno, Orlando Silva, aquela ex-ministra da igualdade racial dos cartões corporativos, o sr. ministro da coluna machucada que deixa de ir trabalhar 100dias, mas está com a saúde perfeita para ir a festas e bares, e assim tantos outros da mesma camarilha.
Tá certo, político é político, mas espera aí, qual a “função utilidade” do Lula e a dos outros? O que eles querem é ficar no poder. Para isso, manipulam tudo (qualquer coisa, qualquer fala, qualquer evento, qualquer político ou partido) para apelar aos seus eleitorados, que gosta dessas bravatas patetas e patéticas.
Lembram da “idéia torta”, daquela fala macabra, patética e ignorante do apedeuta presidente sobre a crise que era culpa dos “brancos de olhos azuis”, segundo ele. Os pobres (”olhos não azuis”, naturalmente), que nunca participaram da globalização, são suas maiores vítimas. Como é que pode?
Obs.: Para quem não sabe, “Função utilidade” é um termo técnico usado não por engenheiros, mas por economistas. Significa:”aquilo que se deseja maximizar“. Observando o comportamento de pessoas durante um período suficientemente longo, você talvez consiga fazer a engenharia reversa da função utilidade delas. Aquilo para o que viveram. Aquilo que buscaram do fundo de suas almas.
Se você fizer a engenharia reversa do governo Lula e sua camarilha, poderá concluir que o que eles buscavam era maximizar o benefício próprio.
Imagine que você viva em 2100. Ao examinar as políticas do governo Lula no início do século, ao dissecar suas práticas, suas medidas, suas ações, seus discursos, suas ênfases, suas manifestações públicas, a que conclusão você chegaria? Entre 2003 e 2010 qual foi a função utilidade do governo Lula?
Considere o Bolsa família, o PAC (e a mãe do PAC também), a ”marolinha”, o mensalão, as políticas do Banco Central, a política econômica, a escolha dos aliados (antes picaretas, hoje “irmãos”), o trato com a oposição, os discursos nos fóruns internacionais, a relação com a imprensa, com os chamados movimentos sociais, com o PT, com o Sarney, com o Renan…
Faça a engenharia reversa do governo Lula. Qual a função utilidade dele? O que Lula queria desde sempre?
A engenharia reversa de Lula mostra que sua função utilidade é manter o poder. O que ele busca é maximizar as chances de continuar mandando. A engenharia reversa de seu governo, desde o primeiro dia, mostra que, detalhe por detalhe, Lula é uma máquina de fazer marketing. Nada em suas ações e declarações é gratuito, tudo tem a ver com sua função utilidade, ou seja manter o poder.
Temos que admitir: Ninguém na política brasileira foi tão competente em marketing quanto Lula.
Sabe o que é marketing: “marketing é a arte de fazer as pessoas comprarem o que você tem para vender”. No caso de Lula, o que ele tem para vender não é um sistema de idéias, nem uma doutrina; não é um partido, nem uma (vá lá)” visão de mundo”, pois ele já superou essas mundanices, isso é para os outros. O que Lula tem para vender é ele e ele mesmo.Dá para confiar num bicho deste? Continuem dando asas à cobra, continuem gostando de serem enganados e votando errado para verem as consequências.
Nota:
1- Lula, ao abandonar seus discursos anteriores à eleição de 2002, virou um portentoso sucesso de marketing (é patético ver seus supostos adversários se esforçando para não dar a impressão de que o estão criticando).
2- Quando alguma coisa vira sucesso de marketing, essa coisa não é, necessariamente, nem boa nem má. É apenas competente em se fazer comprar.
PORTANTO, CUIDADO EM DAR ASAS ÀS COBRAS.

Burocratoparasita da União disse...

Lula: "graças a Deus que os bancos estão lucrando". É a máxima do corrupto diante dos juros mais altos do mundo.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, na tarde desta segunda-feira, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a busca pela lucratividade dos bancos. Segundo ele, as instituições que não dão lucro não afetam somente elas próprias, mas a sociedade toda.

"Graças a Deus, os bancos estão lucrando. Quando o banco não ganha dinheiro, ele dá mais prejuízo ainda."

Redação Terra

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O Brasil é um concentrador de renda pior que a Bolívia, pior que o Haiti. Porque um governo ladrão é agente deste processo, executor desta grande sacanagem social. Este governo é uma chaga, o governo mais corrupto do mundo.

fejuncor disse...

As altíssimas taxas de juros estagnaram os investimentos e o Brasil mergulha num processo de retrocesso inédito, BUROCRATO. Se ele acha que este desastre é graças a Deus... Será que os bancos vão continuar lucrando indefinidamente com este processo de delapidação da economia? Ou será que só na Europa e na América do Norte a leviandade causa desastres?

Com a palavra, a história.