terça-feira, outubro 30, 2012

Capitalismo sem doping


Rodrigo Constantino, O GLOBO

Lance Armstrong foi banido do esporte pela União Ciclística Internacional por acusação de doping. Ele perdeu seus sete títulos da Volta da França, assim como oito patrocínios nos últimos meses. Antes um exemplo para muitos, o atleta agora se vê em desonra. O público não tolera uma competição desleal nos esportes.
Infelizmente, o mesmo não ocorre quando se trata de economia. Muita gente acha natural que o governo crie privilégios e incentivos, beneficiando certos empresários. O governo Dilma parece ter adotado com gosto o manual nacional-desenvolvimentista de seleção dos campeões nacionais, como na era Geisel.
Algumas empresas agraciadas por critérios arbitrários recebem incentivos que destroem a essência do capitalismo, que é a livre concorrência. Barreiras protecionistas, cotas nacionais, empréstimos do BNDES com juros subsidiados, ligações espúrias com as estatais, enfim, há diversas formas de se manipular o mercado, análogas ao uso de doping nos esportes. Mas poucos reclamam.
O bilionário Eike Batista fala abertamente deste "capitalismo de compadres" como se fosse algo positivo. Em entrevista recente, o empresário disse que o governo deveria investir mais em suas empresas. Seu grupo EBX já recebeu mais de R$ 8 bilhões do BNDES em quatro anos. São taxas camaradas, a que toda a torcida do Flamengo gostaria de ter acesso.
Em uma espécie de surto megalomaníaco ao estilo Lula, Eike Batista chegou a afirmar: "Alguém vai ter que fazer uma estátua para mim em algum lugar". Não quero ser injusto aqui: Eike tem lá seus méritos. É corajoso em suas empreitadas, não tem vergonha de sua riqueza, algo importante em um país que considera o sucesso uma "ofensa pessoal". Mas sua simbiose com o governo não permite que ele seja visto como um ícone do capitalismo. Ao menos não do modelo liberal.
Eike Batista representa o capitalismo de Estado, assim como seu colega da lista de bilionários da Forbes, Carlos Slim. São casos de inegável sucesso, mas com forte turbinada estatal. Típico da América Latina, cuja presença do Estado na economia ainda é muito grande, criando incentivos perversos onde o lobby vale mais do que o mérito e o investimento em competitividade.
Outro caso escandaloso é o da JBS, que já recebeu mais de R$ 10 bilhões do BNDES, agora sócio da empresa. Em 2005, ela faturava menos de R$ 4 bilhões por ano. Em 2010, o faturamento já passava dos R$ 55 bilhões. A "Boibras" se tornou um gigante graças ao empurrão do governo. Em contrapartida, ela foi um dos maiores doadores corporativos para a campanha de reeleição de Lula em 2006.
Esses grandes empresários latino-americanos não podem ser comparados a gente como Steve Jobs (Apple), Michael Dell (Dell), Larry Ellison (Oracle), Jeff Bezos (Amazon), Bill Gates (Microsoft), Larry Page (Google) e Mark Zuckerberg (Facebook). Estes empreendedores não contaram com o doping estatal.
Não por acaso, são todos do setor de tecnologia, onde há menos intervencionismo. Seu sucesso foi decorrente apenas de trocas voluntárias com seus clientes.
Claro que o sistema faz toda diferença do mundo. Em um país como o Brasil, onde uma canetada da presidente pode selar o destino de um setor inteiro, qualquer empresário grande precisa manter boas relações com o governo. Além disso, se existe o BNDES, claro que todos vão fazer de tudo para entrar na lista de beneficiados. Faz parte do jogo. O que está errado são as regras do jogo por aqui.
Por isso acho injusto culpar somente os empresários que mamam nas tetas estatais. A culpa maior é do nosso modelo, com poder demais concentrado no Estado. Se, por um lado, é preocupante ver Eike Batista transformado em ícone do capitalismo, também é exagerado demonizá-lo (ainda que ele mereça duras críticas). Não é fácil ser um grande empreendedor no Brasil sem as muletas estatais. Eles existem, e são verdadeiros heróis. Mas trata-se de algo raro.
O que precisamos, portanto, é alterar as regras do jogo. Precisamos de bem menos governo, e bem mais mercado livre. Acima de tudo, como defende Luigi Zingales em seu excelente livro "A Capitalism for the People", nós precisamos criar um ambiente de pressão social contra privilégios estatais. É preciso recuperar os valores éticos que rejeitam a ideia de que o importante é vencer, custe o que custar.
Um atleta pego com doping cai em desgraça. Um empresário que depende das vantagens do estado deve ser visto como um concorrente desleal, não um exemplo a ser seguido. Precisamos de regras iguais para todos. Precisamos de um capitalismo sem doping.

10 comentários:

Victor disse...

Falar que precisamos de menor governo é fácil, agora, o difícil é reduzir o tamanho do governo, com tantos grupos de interesse interessados em ter um governo grande, sem contar que caso conseguíssemos isto, blindar o governo das "ações" de lobistas não é algo fácil.

Pablo Moron disse...

e o Povo gosta do papaizinho, não vejo muita solução não.

Anônimo disse...

vou no twitter esfregar esse artigo nas ventas do petralha eike batista

Anônimo disse...

Caso alguém não tenha visto, um exemplo da democracia petista ficou registrado em vídeo => http://goo.gl/AKDps

Anônimo disse...

Sou o anônimo do 4:29 PM. Postei o link errado. Aqui vai o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=-SS1VCksR_M

Anônimo disse...

Além de tudo isso, os fartos empréstimos do BNDES provém do Tesouro, ou seja, do recolhimento dos impostos, pagos por nós.
Dinheiro não remunerado, pois as empresas devolvem ao BNDES a juros baixos, subsidiados.
Somos um Grande Condomínio muito mal administrado.

Salvatti disse...

Excelente post.

Dellano disse...

O lobby protecionista é muito forte! Infelizmente estamos retornando aos anos 70, quanto ao comércio exterior. Este nao é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas do mundo todo em geral. Quem paga o pato são os consumidores que são obrigados a sustentar setores econômicos ineficientes!

Anônimo disse...

condomínio? vc ta louco?
Nós somos escravos mesmo.Temos que fazer tudo que o governo mandar

amauri disse...

Bom dia Rodrigo!
Bancos aumentarem o dinheiro sem lastro nao é doping tambem?
abs