domingo, outubro 31, 2010

Vitória de Pirro

Rodrigo Constantino, para a Revista Voto

Após a batalha de Ásculo contra os romanos, o rei de Épiro, Pirro, teria dado uma declaração que se tornou famosa. Ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército, ele teria dito que com mais uma vitória daquelas estaria acabado. Desde então, a expressão "vitória de Pirro" é usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais. Uma vitória com ares de derrota.

É exatamente isso que foi a vitória de Dilma Rousseff nesta eleição. O esforço para elegê-la, especialmente por parte do presidente Lula, sacrificou tantos valores, tantos princípios, que sua vitória só pode ser considerada um fracasso. Se Marina Silva “perdeu ganhando”, pois seu capital político saiu fortalecido com sua postura e seus vinte milhões de votos, então Dilma “venceu perdendo”. A que custo o PT conseguiu se manter no poder? A resposta resumida é bastante clara: ao custo de enfraquecer bastante nossa jovem democracia.

O presidente Lula foi o grande responsável por isto. Sua postura durante as eleições foi típica de um populista de olho somente no poder, custe o que custar. Um estadista saberia se manter mais afastado do embate eleitoral, lembrando ser o representante de todo o povo da nação, e não um simples chefe de partido. Um estadista, enfim, estaria de olho nas próximas gerações, lutando pelo fortalecimento de nossa democracia. Lula passou muito longe disso, focando somente nas eleições.

O presidente não só ignorou as funções de seu cargo, como foi o mais empolgado garoto-propaganda de sua candidata, ainda que para isso tenha ignorado diversas leis e as regras básicas de um jogo limpo. O uso da máquina estatal como instrumento partidário foi simplesmente escandaloso. Não obstante, o presidente Lula ainda desceu o nível, ridicularizou as leis eleitorais, banalizou a agressão sofrida pelo candidato tucano por manifestantes petistas, enfim, deu claros sinais de que o velho sindicalista das bravatas estava de volta. Tudo pelo poder.

O PT soube explorar o terrorismo eleitoral também, alegando de forma mentirosa que José Serra iria acabar com o programa Bolsa Família, ou que privatizaria a Petrobras. A tática de “acusar” os tucanos de privatistas, usada em toda eleição pelo PT, demonstra como a mentira é um método sistemático do partido. Afinal, o próprio PT fez diversas concessões ao setor privado, até mesmo no setor petrolífero, e incluindo empresas estrangeiras.

A bilionária OGX, de Eike Batista, só existe porque o governo Lula vendeu concessões de exploração do pré-sal. Se o PT fosse oposição, esta seria a típica arma usada para conquistar nacionalistas retrógrados e “acusar” o opositor de privatista. Como o PT é governo, então prefere jogar a coerência para escanteio. Perde o país, que continua preso numa corrente ideológica que joga contra o progresso.

A base aliada do PT também é prova de como o discurso ético do partido foi totalmente abandonado. Na verdade, a bandeira ética já havia sido totalmente destroçada com o “mensalão”. Restou focar apenas na economia mesmo. As velhas oligarquias nordestinas estavam todas com o PT. Para piorar, os inúmeros escândalos de corrupção, alguns envolvendo Erenice Guerra, braço-direito de Dilma que comandava a Casa Civil, foram simplesmente ignorados pelos eleitores, como Dirceu fora em 2006.

Este completo abandono da questão ética representa um enorme perigo para nossa democracia. A crença de que são “todos iguais”, que o próprio PT tentou espalhar, acaba sendo perigosa. Passa a ser uma carta branca aos corruptos, mesmo que pegos com a boca na botija. Atualmente, nenhum petista tem a mínima condição de defender uma bandeira ética, sem cair no ridículo. Perde a democracia, quando os eleitores mandam às favas a ética em troca de migalhas. Votar com o bolso, sem levar em conta aspectos éticos, representa dar passos na direção da servidão. A China cresce muito mais que o Brasil, e nem por isso devemos aplaudir seu regime ditatorial político.

Em suma, vencer uma eleição não deveria ser a única meta de um partido. Ao menos não de um partido que pretende colaborar com o regime democrático no país. Infelizmente, o PT vem dando claros sinais de que topa tudo por poder. O presidente Lula, após esta eleição, ficou mais parecido com Hugo Chávez, caudilho venezuelano que é seu camarada e que conseguiu destruir de vez a democracia em seu país, apesar de Lula ter dito que há “excesso de democracia” por lá. Foi Aécio Neves quem resumiu de forma sucinta: “O presidente Lula sai menor do que entrou desta eleição”. E eu acrescentaria: nossa democracia também.

6 comentários:

Edmar B C disse...

Infelizmente a verdade é que independente de quem ganhou, só teremos mudanças significativas com a divisão do pais, e após a divisão a criação de leis rigidas quanto a entrada de pessoas vindas dos estados digamos subdesenvolvidos que hoje sustentamos com projetos como o bolsa esmola, dentro outros. O problema é o seguinte, é mais facil gerar dezenas de filhos e ser sustentado pelo governo do que ir procurar um emprego. A cena que qualquer um pode constatar ao passar pelas estradas que cortam estes estados é a mesma, os pais ficam jogando baralho e tomando pinga na beira da estrada e colocam os filhos para ficar pedindo dinheiro. Levar a vida assim é facil. Na verdade meus amigos, precisamos colocar alguem com coragem para colocar em pratica a idéia que a maioria da população dos estados mais desenvolvidos do nosso pais partilham que é a divisão do nosso pais.

flavio disse...

Qero so ve o qe isso vai da ! ;/

fejuncor disse...

Por que o espanto? Se o povo não elegesse ela, o Brasil não seria o que é, ora...

João Luis Meloni disse...

Rodrigo,

como você pode chamar de vitória de Pirro a eleição de Dilma se a base aliada conquistou a maioria do congresso e dos governadores? Agora faltou realismo.

Concordo com você que a democracia saiu ferida. Lembremos que a democracia foi suprimida pelo regime militar, que empurrou milhares de jovens patriotas, incluindo José Serra e Dilma Roussef, à clandestinidade, invocando fantasmas da guerra fria. Hoje, quando se invocam estes mesmos fantasmas e se argumenta levianamente que Dilma e outros que lutaram contra o regime militar assassino queriam na verdade implantar uma outra ditadura no país, esquecendo todo o contexto daquela época, fere-se novamente a democracia. Fere-se com as mesmas armas da TFP e da UDN: as mentiras, os textos apócrifos, as montagens fotográficas, os boatos, a santarronice, a farsa da bolinha e papel (cadê o exame de corpo de delito?).

O restante do seu texto deve ser visto em perspectiva. Do meu ponto de vista, o presidente não fez mais do que defender a democracia ao denunciar a bolinha de papel. Não houve uso da máquina estatal; o presidente não é máquina e nem é estatal. A campanha de Dilma não fez mais do que a obrigação ao lembrar que José Serra é um homem maquiavélico, que desfaz compromissos assumidos durante campanha e que portanto poderia muito bem acabar com a bolsa família e privatizar o pré-sal. A história das declarações dos partidos PSDB e DEM indica justamente nestas direções e você não pode negar isso.

Quanto ao discurso ético, temos duas hipóteses: ou durante o governo FHC não havia corrupção e no governo Lula houve muita, ou então durante o governo Lula houve muita investigação e durante o governo FHC não havia nenhuma. "Engavetador geral da república" significa algo pra você? E as CPIs engavetadas no estado de São Paulo? E a compra de votos para a reeleição do FHC? E o "mensalão tucano"? Prefiro acreditar em um diferencial nos níveis de investigação do que em um diferencial nos níveis de corrupção. É mais realista. E aí, existe um diferencial, sim, não são todos iguais.

"vencer uma eleição não deveria ser a única meta de um partido". Sua ingenuidade me surpreende. Justamente porque vencer eleições é, efetivamente, a única meta de um partido, que precisa existir oposição. Como você pode dizer que Lula é parecido com Hugo Chavez? O que foi que ele fez pra merecer isso? Aprovou a reeleição? Distribuiu a verba publicitária apenas para os 3 ou 4 jornais que o apoiaram? Este foi o FHC, Rodrigo, não o Lula.

(Você deveria pesquisar como Lula democratizou a distribuição de verbas publicitárias, regionalizando-as e multiplicando por 10 o número de jornais que as recebem)

Não sei se vai valer a pena ter escrito isso. Acredito que você queira, com este blog, estimular a discussão, mas para isso é preciso ter idéias diferentes. Talvez eu seja censurado, veremos isso amanhã.

Abraços, democráticos,
João.

ntsr disse...

Exatamente.Faltou comentar que a dona dilma perdeu no sul, no sudeste e no centro oeste, só ganhou mesmo por causa dos analfabetos.
Não é coincidência que os parasitas políticos que mais defendem um governo gigante sejam também os que mais adoram gente estúpida.
Como o Obama.

ntsr disse...

E n sei se essa vitória enfraqueceu eles tanto assim, por um lado mostrou que a maior parte do povo brasileiro não ta nem aí pra democracia e pra honestidade