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quinta-feira, julho 11, 2013

A voz autoritária

Rodrigo Constantino

O programa "A Voz do Brasil", enfiado ouvido adentro dos brasileiros na hora do rush, é realmente uma excrescência, um resquício dos tempos de ditadura. Resta saber quem terá a coragem de comprar essa briga em defesa dos ouvintes de rádio do país, contra os grupos organizados que mamam na estatal ou os políticos que se aproveitam desse espaço para fazer propaganda.

Hélio Saboya Flho, em artigo no GLOBO hoje, comprou essa boa briga. Eu dediquei um trecho do meu livro "Privatize Já" para mostrar o absurdo da coisa também. Segue um trecho do artigo do Helinho (para os íntimos), que merece reflexão:

Nem os ares da abertura foram capazes de livrar as ondas do rádio desse entulho autoritário. A "Voz do Brasil" atravessou os governos Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma.

Há 15 anos, o então deputado federal pelo PFL de Santa Catarina Paulo Bauer encaminhou à Câmara um projeto de lei propondo o fim da obrigatoriedade de retransmissão do programa em cadeia nacional. Na exposição de motivos citou uma pesquisa do Ibope comprovando que o público ou não ouvia o programa (63%), ou desligava o rádio às dezenove horas de Brasília (37%), restando 5% que tinham por hábito ouvi-lo - habitualidade a ser relativizada por se cuidar de transmissão compulsória.

Ponderou que, com a multiplicação de canais de TV e rádios e com o surgimento da internet, o governo poderia dar ampla veiculação à "Voz do Brasil", frisando que o projeto não visava a extinguir o programa (uma pena), mas apenas tornar facultativa a retransmissão pelas emissoras privadas.

O projeto foi arquivado, não por nossos políticos acreditarem que suas bases colem o ouvido no radinho diariamente às sete da noite para saber das últimas novidades dos três poderes, mas apenas para manterem, ainda que em estado vegetativo, esse anacrônico mecanismo provedor de cargos públicos e sorvedor de recursos idem, baralhados em uma contabilidade nebulosa.

Estão em curso dois projetos de lei sobre o tema: um propõe o tombamento da "Voz do Brasil" como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (!) e a ratificação de seu horário atual, e outro admitindo que a transmissão ocorra entre 19h e 22h.

A questão essencial não é sintonizada: a obrigatoriedade deve ou não ser mantida. Em recente entrevista, o presidente da EBC, Nelson Breve, argumentou o seguinte: "Eu até hoje não vi nenhuma pesquisa de âmbito nacional perguntando para as pessoas se elas querem ou não a continuidade da Voz do Brasil como obrigatória."

Como bom administrador, já deve tê-la encomendado.


E então? Vamos perguntar às vozes das ruas se elas querem continuar sendo obrigadas a aturar esse programa enfadonho bem na hora que retornam do trabalho para suas casas? Plebiscito já!

segunda-feira, setembro 17, 2012

O Fla x Flu de Hélio Saboya Filho

Rodrigo Constantino

O advogado Hélio Saboya Filho escreveu um artigo em O Globo hoje claramente em resposta ao meu "A esquerda caviar". Segundo o advogado, eu estaria fazendo "patrulha" ao acusar de hipocrisia os artistas e intelectuais que pregam o socialismo e defendem o voto em Marcelo Freixo, do PSOL. Diz ele:

Combinação de intolerância com anacronismo, o raso raciocínio tem a "qualidade" de atingir indistintamente esquerda e direita. Transposto para o mundo do futebol equivaleria a se proibir mulambos de torcerem pelo Fluminense e almofadinhas pelo Flamengo.

Ora, meu caro Helinho Saboya (permita-me a intimidade, o senhor pode não recordar, mas foi advogado de minha mulher em nosso divórcio, hoje felizmente desfeito), comparar socialismo e capitalismo com Fla x Flu só interessa mesmo a um lado: o socialista! Não é uma simples questão de preferência, de gosto subjetivo, como gostar mais do azul que do amarelo. Não!

É uma questão de robustez teórica e ampla, farta, infindável validação empírica! O socialismo, onde foi testado, produziu apenas miséria, terror e escravidão. O capitalismo trouxe o progresso, especialmente para os mais pobres. Portanto, quem defende o socialismo defende algo "intolerante e anacrônico", para usar os termos que o senhor imputa à minha pessoa.

Aliás, ao dar o título de "patrulha" ao seu artigo, e citar Regina Duarte durante as eleições que deram a vitória ao Lula, o senhor consegue inverter tudo! A patrulha, quem faz, é o lado de lá. A esquerda dos artistas e intelectuais que operam em coro organizado contra qualquer um do bando que não abraçar a mesma cartilha sensacionalista (e hipócrita). Pergunte ao cantor Fagner, que deu uma entrevista na Veja alguns anos atrás sobre isso.

No mais, Regina Duarte estava certa em seu alerta, ora bolas. O mensalão não te convenceu disso? O Ancinav, o Conselho Nacional de Jornalismo, a tentativa de expulsar um jornalista gringo do país por acusar Lula de "bebum", o aparelhamento de quase toda a máquina estatal, nada disso foi suficiente para lhe abrir os olhos sobre as reais intenções do PT?

Por fim, seu artigo não respondeu a principal acusação que fiz no meu: nem uma palavra sobre a HIPOCRISIA de se pregar o socialismo enquanto se vive do bem e do melhor que só o capitalismo pode oferecer? O senhor realmente não vê nada demais em defender Fidel Castro de Paris, em enaltecer a igualdade material com milhões no banco?

Nesse caso, não posso lhe ajudar muito. Entendo que advogados aprendem a enxergar ambos os lados sempre, e que defender A VERDADE não costuma ser a maior qualidade da profissão. Mas eu, como juiz isento, preciso dar meu veredicto final de forma direta: os ricos defensores do socialismo são uma cambada de hipócritas!