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quinta-feira, novembro 22, 2012

Os inocentes Dirceu e Genoino


Aloísio de Toledo César, Estadão
Se alguém entrar numa penitenciária e conversar com os presos, individualmente, verificará uma situação muito curiosa, até mesmo engraçada: não há ali nenhum culpado. Quando se pergunta ao preso, como todo juiz faz, ao longo da carreira, "qual é a sua bronca?", logo vem a resposta: "Ah, doutor, armaram pra mim, eu num fiz nada".
Se houver insistência quanto ao tipo de crime de que são acusados, quase todos se saem do mesmo jeito: "O meu é o 155", ou o 158, ou o 171, e assim por diante. Quase sempre há dificuldade em obter do preso afirmações como "eu matei", "eu roubei", "eu trafiquei drogas" e outras que tais, porque, afinal, todos se dizem inocentes. Por isso acham preferível dizer o número do artigo do Código Penal pelo qual foram enquadrados, julgados e condenados.
O mesmo poderá acontecer com os condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares quando estiverem na cadeia, porque, conforme eles propagam o tempo todo, nada fizeram de errado e o que ocorreu - na desculpa esfarrapada com se encobrem - foi o julgamento de um partido político vitorioso. Sim, na visão que procuram propagar, o que houve foi tão somente um julgamento político de pessoas inocentes, tão inocentes que talvez pudessem até ser canonizadas.
Enfim, quando José Dirceu, já preso, for indagado a respeito de sua "bronca", depois de reiterar a proclamação de inocência, ele poderá dizer que é o 333, ou seja, corrupção ativa, e o 288, formação de quadrilha. O primeiro prevê pena de 2 a 12 anos e o segundo, de 2 a 5 anos, além de multa, podendo ser aumentada da metade se a vantagem ilícita for também destinada a servidor ou agente público.
Dada a gravidade da conduta, por envolver o então chefe da Casa Civil, o cargo mais poderoso da República após o de presidente, não se pode alegar que tenham sido severas as penas a ele impostas. Para os ministros do STF Ricardo Lewandowski, revisor do processo, e Dias Toffoli, não havia prova alguma contra José Dirceu e José Genoino. Havia, sim, provas contra todos os outros, menos contra esses dois mais poderosos.
Na visão desses dois juízes, os mesmos delitos, decorrentes das mesmas condutas criminosas, foram admitidos para a imposição de penas aos demais réus, mas não a José Dirceu e Delúbio Soares. Isso equivale a dizer que as provas dos autos foram válidas para condenar e para absolver, conforme as pessoas, sugerindo um paradoxal silogismo jurídico, capaz de entortar o cérebro de quem buscar entendê-lo.
Consequência disso está no infeliz surgimento de anedotas que mostram sempre o relator, Joaquim Barbosa, em posição de antagonismo com o revisor, Ricardo Lewandowski. Numa delas, que circula de boca a boca e também pela internet, aparece um preso, na hora do julgamento, pedindo, pelo amor de Deus, para ser julgado por Lewandowski. Apesar de ser tão sério o assunto, o espírito jocoso do brasileiro sempre encontra uma forma de se divertir.
Contribui para tal o comportamento desse ministro, ao causar a impressão de que se opõe deliberadamente aos julgamentos e à forma de julgar do relator, Joaquim Barbosa. Lewandowski parece não se haver dado conta de que está sob a luz dos holofotes e de que milhões de brasileiros acompanham, pela televisão, cada gesto, cada olhar, cada palavra dele.
Sua irritação quando se retirou do plenário do Supremo porque Barbosa alterou a ordem dos julgamentos, prerrogativa do relator, serviu para demonstrar que Lewandowski anda com os nervos à flor da pele. Não se vê o mesmo nervosismo em Gilmar Mendes, em Celso de Mello, em Marco Aurélio nem em nenhum outro.
Essa atitude o diferencia e o deixa numa situação realmente desconfortável perante o julgamento que cada pessoa faz dos ministros daquela Corte. Sim, os ministros estão sendo julgados por cada um de nós e esse ponto é positivo para o reforço de uma instituição que há anos vem sofrendo processo de deboche e desmoralização.
Também ganha com esse histórico julgamento a democracia brasileira. Exemplo disso está no próprio José Dirceu, que, ameaçadoramente, afirma que não se vai calar e que vai continuar lutando. Para sua sorte, ele está no Brasil e aqui vai cumprir pena, porque se estivesse na sua amada Cuba, cujo regime sonhou importar para nós, nunca mais poderia abrir a boca, a não ser para cantar o hino cubano e dar vivas a Fidel Castro.
É curioso observar que o canto de sereia marxista, que encantou gerações e, felizmente, já não seduz, continuou a fazer estragos e vítimas no Brasil. José Dirceu e José Genoino são duas delas. A geração deles, a mesma da presidente Dilma Rousseff, passou anos a fio estudando Marx e discutindo se foi certa ou errada a opção de Stalin ou de Trotsky para substituir o moribundo Lenin.
Até hoje, alguns desse grupo ainda acham que a matança de mais de 10 milhões de adversários, por Stalin, não é fato relevante nem deslustra o encanto do verdadeiro comunismo. Sempre é bom que cada um de nós pergunte a si mesmo se o verdadeiro comunismo é aquele de Cuba, o da China ou o que foi sepultado na Alemanha Oriental, com a queda do Muro de Berlim.
Enfim, pelo jeito, foi por água abaixo o sonho do pequeno grupo que pretendeu usar dinheiro público - dinheiro nosso, arrecadado dos impostos que pagamos - para a aventura consistente em comprar votos no Congresso Nacional, em atos de corrupção e de formação de quadrilha, com o propósito de implantar no Brasil uma República sindical socialista.
Por trás das grades, terão tempo suficiente para refletir. Dirceu e Genoino já cumpriram pena antes, mas, desta vez, a prisão a eles imposta não vem de ditadura alguma, mas do cumprimento da lei, à qual todos estamos subordinados.

Uma estátua para Dirceu

Rogério Gentile, Folha de SP

José Dirceu passou o feriadão na Bahia, onde, num dia, curtiu o sol e a praia com uma belíssima bermuda estampada e, no outro, foi homenageado por companheiros petistas com uma paella e uma saborosa costela de bode.

Em seu merecido descanso, teve tempo de sobra para refletir sobre o julgamento do mensalão e a argumentação do ministro Toffoli contra o emprego de pena de prisão para crimes contra o patrimônio público. Segundo Toffoli, que, por mera coincidência, foi assessor de Dirceu, multas e a recuperação de valores desviados surtem mais efeito "pedagógico" do que prender o responsável.

De fato, é um absurdo obrigar uma pessoa como Dirceu, que "dedicou sua vida ao Brasil e à luta pela democracia", como ele mesmo se descreve, a trocar os prazeres da Bahia pelo sol quadrado de uma penitenciária.

Afinal, coitado, ele não é o primeiro político a desviar recursos públicos e a comprar apoio parlamentar. E, definitivamente, mandar político para a cadeia não faz parte da tradição brasileira. Uma multinha seria mais do que suficiente para servir de exemplo aos demais, não seria?

Até porque não existem tantas provas contra Dirceu. É só uma grande coincidência, por exemplo, ele ter se reunido com Valério e dirigentes do BMG num dia e o banco ter liberado recursos para o mensalão dias depois. Também é só uma casualidade o fato de sua ex-mulher ter recebido favores do operador do esquema.

O problema é que o julgamento, em um tribunal formado em sua maioria por ministros indicados por Lula e Dilma, foi "político", como diz o PT, e permeado pela "paixão", como insinuou a presidente. Convenhamos, os ministros tinham motivos de sobra para castigar o PT, que lhes impingiu um emprego estafante, atulhado de processos e com sessões sonolentas. E o pior, como reclamou Ayres Britto na sua despedida do STF, com salários defasados. Vingança pura, claro. Pensando bem, Dirceu merece ganhar uma estátua.


Comentário: Corre o risco de os quadrúpedes que defendem o chefe de quadrilha José Dirceu não captarem o sarcasmo e divulgarem o artigo, demandando em coro a tal estátua. Essa gente, quando não é apenas canalha (a maioria dos casos), come capim!

sexta-feira, outubro 28, 2011

Brados retumbantes

Nelson Motta, O Globo

A cada ministro que cai ainda ecoam vozes do Planalto repetindo o bordão que a presidente não será pautada pela imprensa, não irá a reboque da mídia, não decidirá sob pressão. Embora todos os escândalos que levaram a quedas de ministros tenham sido levantados justamente pela imprensa. Nunca na história desse governo a mídia e a opinião pública foram surpreendidas com algum ministro demitido por malfeitos flagrados e revelados pelo próprio governo e seus órgãos de controle. Se a imprensa não gritasse, o ministério inicial de Dilma/Lula estaria intacto e, como dizia o ministro Orlando Silva, seria indestrutível. É por isso que o Zé Dirceu e seus colunistas militantes gritam tanto contra a "mídia golpista". Por ser legalista demais.

Daí a obsessão de controlar os meios de comunicação através de conselhos a serem aparelhados por partidos e sindicatos. Inspirada no modelo venezuelano e argentino, uma das bandeiras dessa "democratização da mídia" é a limitação da "propriedade cruzada": quem tem televisão não pode ter rádio, jornal, portal de internet ou canal de TV paga ao mesmo tempo. Apesar da competição acirrada no bilionário mercado publicitário brasileiro, eles querem nos proteger de monopólios imaginários, ignorando que a interação entre várias mídias é hoje uma exigência dos grupos de comunicação independentes, que os viabiliza economicamente. A produção de informação e entretenimento custa, e vale, cada vez mais.

Para manter a TV Globo, seus acionistas teriam que vender suas revistas, rádios e canais pagos. A "Folha de S.Paulo" teria que se desfazer do UOL. A Band teria que escolher entre suas rádios ou TVs. A RBS perderia o "Zero Hora". Coitado do Sarney, teria que abrir mão de sua rede Mirante ou da "Tribuna do Maranhão".

O sonho dirceuzista é ver empresários "progressistas" comprando a CBN, a "Época", o UOL e a Band News, financiados pelo BNDES por supuesto, para "democratizar" as comunicações brasileiras. Como jamais conseguiram criar, mesmo com rios de dinheiro público, um veículo de sucesso e credibilidade, desistiram de tentar fazer, agora querem comprar feito.