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terça-feira, julho 02, 2013

Gasparzinho, o fantasma camarada

Rodrigo Constantino


O governo de Portugal confirmou nesta segunda feira que Vítor Gaspar deixou o cargo de ministro de Finanças do país. Gaspar foi o autor do programa de ajuda de Portugal, no valor de 78 bilhões de euros. 
De acordo com o jornal português Público, o presidente Passos Coelho, ao saber do pedido de demissão manifestou-se dizendo que “sublinha o elevado sentido de estado manifestado pelo doutor Vítor Gaspar no desempenho das suas funções, que exerceu em prol da defesa do interesse nacional durante um período de elevadíssima exigência para o país e sempre com espírito de total dedicação e lealdade”.
O veículo informou que, em sua carta de demissão, Gaspar critica a falta de coesão interna do governo e assume "ter chegado a hora de sair da pasta das Finanças, depois de terminada a sétima avaliação da troica, aprovado o Orçamento Rectificativo e confirmada a extensão dos prazos dos empréstimos europeus a Portugal".
A pressão popular:
O transporte público em Portugal ficou praticamente paralisado nesta quinta-feira devido à convocação de greve geral de um dia feita pelas duas maiores centrais sindicais do país. A greve é um protesto contra as medidas de austeridade que resultaram em desemprego recorde e na pior situação econômica desde os anos 1970.
As centrais esperam que a quarta greve geral em dois anos pressione o governo a tomar medidas de incentivo ao crescimento e a relaxar o aperto de cinto que levou aos maiores aumentos de impostos vistos nos últimos anos. 
"Esperamos uma participação importante dos trabalhadores, que enfraquecerá ainda mais o governo", disse Armenio Carlos, secretário-geral da  Confederação Geral de Trabalhadores de Portugal (CGTP), um dos principais sindicatos do país, ligado ao Partido Comunista e que exige a renúncia do governo e a convocação de eleições legislativas antecipadas. A outra central sindical é a União Geral de Trabalhadores (UGT), vinculada ao Partido Socialista.
Os portugueses estão sofrendo com as medidas de austeridade, não resta a menor dúvida, e é compreensível a revolta popular. Dito isso, a solução não está em relaxar o aperto e partir para novas rodadas de aumento de gastos públicos, justamente a razão do problema. Gaspar virou símbolo de tudo que há de terrível na economia, incorporando a bandeira da austeridade, vista como pecado atualmente. Mas tal como o Gasparzinho do desenho animado, ele é um fantasma camarada: parece assustador, mas no fundo é seu amigo.
Recomendo aos patrícios a leitura do livro "Portugal na Hora da Verdade", de Álvaro Santos Pereira. O economista e Ministro da Economia e Trabalho coloca o dedo na ferida, quando diz:
Lamentavelmente, os nossos défices orçamentais são crônicos, persistindo quer em períodos de forte crescimento econômico, quer inclusivamente após a nossa adesão ao euro. Qual é o problema? O problema é que os défices têm de ser financiados e, mais cedo ou mais tarde, pagos. Por isso, uma das conseqüências dos défices orçamentais é fazer crescer a dívida pública de um país. No fundo, tudo se passa como num orçamento familiar: se continuarmos a gastar acima dos nossos rendimentos, a única maneira de mantermos os nossos gastos e hábitos de consumo é pedir emprestado. O mesmo acontece com o Estado: quando as receitas estatais (os impostos, etc.) são menores do que os gastos (isto é, quando há défice orçamental), o Estado tem de se endividar para suprimir a diferença. Ou seja, a dívida pública é a irmã gêmea dos défices orçamentais. E é exatamente isso que tem acontecido em Portugal: nos últimos anos, os défices orçamentais crônicos e crescentes têm feito aumentar substancialmente a dívida pública nacional.
A receita proposta é a típica liberal, mas que pode ser chamada de bom-senso da dona de casa também: cortar despesas e vender ativos (privatizar). Infelizmente, isso é muito mais fácil falar do que fazer. Como os ajustes necessários são muito dolorosos no curto prazo, a revolta popular cria um clima propício para as greves e a pressão de oportunistas de plantão com propostas milagrosas - e inviáveis. 
Resta saber quem vai vencer esse cabo-de-guerra. Pelo visto, a ala que quer postergar o encontro com a dura realidade ganhou mais um round agora, com a renúncia do ministro Gaspar. Se mais batalhas contra o caminho da austeridade forem vencidas pelos socialistas e sindicatos, Portugal terá, no fim do dia, perdido a guerra, e o sofrimento será ainda maior no futuro.
PS: Lá, como cá, parece que alguns só conseguem levar as coisas na brincadeira, o que é uma lástima, pois a situação é realmente grave.




sábado, maio 25, 2013

Austeridade sim, ora pois!


Rodrigo Constantino

Deu no GLOBO: Milhares de portugueses foram às ruas neste sábado, pedindo a renúncia do governo cujas políticas de austeridade na opinião deles exacerbam a recessão no país. “Fora governo” e “Contra a exploração e o empobrecimento” eram algumas das frases dos manifestantes, no ato convocado pelo principal sindical nacional, a Central Geral dos Trabalhadores de Portugal (CGTP).

- Temos de fazer o que for possível para nos livrar desse governo — disse o secretário-geral da entidade, Armênio Carlos.

Na opinião dos manifestantes, as medidas de austeridade “punem os pobres, mas beneficiam os ricos”. O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho era chamado de “ladrão” pelos manifestantes, entre eles servidores públicos, desempregados e aposentados.

   - Viemos a Lisboa dizer ‘chega’. O governo está cortando tudo, até as pensões —disse Antônio Amoreira, da cidade do Porto.

Pesquisa publicada neste sábado no jornal “Público” mostra que 57% dos portugueses desejam a dissolução do Parlamento e novas eleições.

As medidas de austeridade anunciadas no início de maio geraram revolta no país, entre elas a aposentadoria só aos 66 anos, e não aos 65 como hoje, o corte de 30 mil empregos no funcionalismo e a redução da carga horária (e dos salários) de funcionários públicos de 40 horas semanais para 35 horas.

A economia portuguesa recebe desde maio de 2011 um pacote de € 78 bilhões da União Europeia, mas em troca o governo se comprometeu a tomar medidas de austeridade. Neste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) português deve encolher 2,3%. O desemprego, por sua vez, deve chegar ao recorde de 18,2%.

Comento: Entendo o sofrimento de nossos queridos patrícios, mas tomem muito cuidado com os sindicatos e com os funcionários públicos. Eles estão a manipular a opinião pública, revoltada com a situação ruim, mas sem a devida compreensão dos problemas. Não adianta culpar os ricos, tampouco é certo transformar o conceito de austeridade em palavrão. O inchaço do governo é o grande responsável pelos problemas, e não é possível ignorar isso para sempre. A escolha dura que os portugueses têm a fazer é sofrer agora e garantir um futuro melhor para os filhos e netos, ou postergar os ajustes necessários e ampliar a dor futura. Fingir que não existe tal escolha é escolher a segunda opção. Os sindicatos vão celebrar no primeiro momento, preservando suas regalias; os funcionários públicos vão continuar gozando de privilégios; o desemprego não vai aumentar no curto prazo. Mas tudo depois será muito pior, com mais desemprego ainda, mais recessão, mais sofrimento. Que os colegas de Portugal saibam tomar a decisão acertada e evitar o sensacionalismo dos políticos demagogos e dos sindicatos poderosos. 

domingo, abril 15, 2012

O estado no seu devido lugar

Trechos da entrevista de Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, a Duda Teixeira, nas páginas amarelas da revista VEJA:

"O protecionismo, por mais que pareça dar oportunidades imediatas aos grupos nacionais, é pouco eficiente a médio e longo prazo. Quando se diminui a exposição do país à competição externa, os consumidores são obrigados a pagar um preço mais elevado por um determinado nível de consumo ou de realização de serviços. Ora, se uma parte desse gasto for liberada para a compra de outro produto ou para investimentos, a economia no seu conjunto ganhará mais. Portanto, mais vale privilegiar a competição internacional do que proteger os nossos campeões internos."

"Os desequilíbrios existentes em Portugal são resultado de más decisões tomadas por nós mesmos. Usamos mal o dinheiro, selecionamos mal os projetos de obras públicas, aumentamos os impostos para gastar em serviços de pouco valor, não flexibilizamos suficientemente o mercado de trabalho, não abrimos a economia..."

"As medidas de austeridade que estamos adotando não são a origem do problema. São parte da solução."

"O objetivo é tirar o estado da economia, acabar com o estado patrão, dono de empresas. Pretendemos atrair capital novo para Portugal, recebendo empresas que podem ter relevância para internacionalizar a nossa economia e tornar nossas empresas mais competitivas."

"Os portugueses sentem que o estado não foi um bom gestor de empresas. O custo delas para o país e para os contribuintes é muito elevado."

"O fato de Portugal ter entrado na zona do euro facilitou o financiamento de obras e tornou a seleção dos projetos frouxa e pouco exigente. Como resultado, Portugal ganhou uma rede de estradas muito além das nossas necessidades. Não há tráfego que justifique todos os investimentos feitos na malha viária. Desperdiçamos muito dinheiro em projetos sem retorno financeiro. Sucessivos governos também aumentaram as despesas com gasto de pessoal e serviços sociais, como educação, aposentadorias e seguro-desemprego, que hoje equivalem a toda a receita tributária. O resto é déficit. Se quisermos um país mais competitivo, o que só pode surgir do lado privado, teremos de reduzir o peso do setor público."

"Temos de deixar a economia respirar, ser mais aberta ao capital externo, mais focada nos mercados globais."

Comentário: Se o primeiro-ministro vai ou não conseguir adotar as reformas necessárias, eu não sei. Mas sem dúvida ele tem o diagnóstico correto do problema. E não apela para bodes expiatórios, tampouco reclama que a dolorosa austeridade é parte do problema, como fazem outros populistas europeus. O caso português é importante de se entender, pois ele parece muito com a situação de certo grande país tupiniquim, hoje ainda na fase da bonança insustentável. Gastos sociais crescentes, investimentos sem retorno financeiro (trem-bala? estádios de futebol?), fechamento dos mercados com mais protecionismo, escolha dos "campeões" locais, enfim, a ex-colônia segue os passos da ex-metrópole, e podem anotar: o destino será o mesmo!

sexta-feira, março 23, 2012

Portugal é a próxima Grécia?

Rodrigo Constantino

A revista alemã Der Spiegel perguntou ao gestor da PIMCO, El-Erian, se Portugal seria a segunda Grécia em 2011. Ele respondeu de forma direta: "Yes, unfortunately that will be the case". A revista discorda, e argumenta que as reformas estão acontecendo de forma muito mais rápida em Portugal, que teria condições de evitar o destino do calote grego. Como pontos positivos, Portugal conseguiu reduzir o défict de 9,8% para 4,5% do PIB, as medidas de austeridade desfrutam de maior apoio popular, a economia já está saindo da recessão, e o país possui algumas empresas competitivas, ao contrário da Grécia.

O veredicto ainda não saiu. O futuro é incerto. O que se sabe, entretanto, é que os excessos da era da bonança precisam ser ajustados, e que o ajuste será doloroso para os portugueses. Alguns jovens já começam a migrar para outros países em busca de oportunidade de emprego. Em artigo no Globo ano passado, eu expliquei melhor a situação de Portugal, fazendo inclusive um paralelo com o Brasil. A desgraça de nossos patrícios serve como alerta para os brasileiros. É melhor prevenir do que remediar, como diz o ditado.

sexta-feira, julho 01, 2011

O blog sai de férias



















Prezados leitores e leitoras, este blog sai de férias merecidas por uma semaninha. Vou visitar a terra de Cabral, trocar dois dedos de prosa com nossos patrícios em Lisboa. Pretendo aproveitar para ver in loco o estrago que o welfare state causa nos países (como se fosse preciso sair do Brasil para isso - puro pretexto!). A crise lusitana não é nenhuma brincadeira de criança, e espero que os "primos portugas" consigam enfrentar a dura realidade e reformar seu governo inchado. Prometo que entre uma punheta e outra (de bacalhau, ora pois!) tentarei atualizar o blog. Mas confesso que minhas prioridades serão outras, bem diferentes. De qualquer forma, nos vemos na volta!

PS: Dia 4 de julho é meu aniversário, e terei "fugido" para Portugal. De presente dos estimados leitores, peço apenas que reflitam e divulguem a mensagem que consta na criação dos Estados Unidos, cuja independência faz aniversário no mesmo dia. Os "pais fundadores" acreditavam em certos valores que eu muito aprecio, especialmente a liberdade individual.