Rodrigo
Constantino
Os
governos europeus estão aceitando a flexibilização das metas de austeridade
acordadas no Tratado de Maastrich. Até a Alemanha, suposto bastião da
austeridade fiscal, tem concordado com essa medida. O ministro das Finanças, Wolfgang
Schauble, ao menos quer condicionar tal afrouxamento às reformas trabalhistas,
mas entende que esse é o caminho, até porque o modelo americano, mais liberal,
levaria a uma revolução na Europa, segundo ele.
Pode
ser que sim. Afinal, décadas de “welfare state” produzem o nefasto costume de
esperar sempre mais benesses estatais. Privilégios são fáceis de garantir,
basta uma canetada do governo; mas são difíceis de cumprir no longo prazo, pois
como sabia Margaret Thatcher, o socialismo dura até durar o dinheiro dos
outros. E nesse modelo, com incentivos inadequados para a produção de riquezas, invariavelmente o dinheiro desaparece, foge
para locais mais amigáveis aos negócios.
As
regras do Tratado de Maastrich serviam como camisa de força para governos
perdulários, algo freqüente na Europa. Mas, com uma visão míope voltada apenas
para o curto prazo, as autoridades pretendem ignorar tais amarras e usar os
gastos públicos para alavancar o crescimento econômico. Falsa dicotomia: o
governo não produz riqueza; ele apenas tira do setor privado e transfere para o
setor público, que quase sempre gasta mal, seguindo critérios políticos em vez de
econômicos, e muitas vezes com desvios corruptos pela ausência do escrutínio
dos donos desses recursos.
Logo,
acreditar que a gastança estatal produz crescimento é ignorar as leis econômicas
e da natureza humana, além da experiência histórica. Ao rasgar as regras de
Maastrich, os países da zona do euro podem estar cruzando seu Rubicão, um
caminho sem volta. É mais fácil tirar o gênio da garrafa do que recolocá-lo lá
dentro. Os keynesianos sempre lembram as medidas anticíclicas quando é para
expandir o governo, nunca para retraí-lo. Mas a conta precisa ser paga,
inexoravelmente.
Com
impostos absurdamente elevados, inúmeros privilégios para o setor público,
déficits fiscais fora de controle, endividamento público extremamente elevado,
e leis trabalhistas engessadas, a Europa vive uma espécie de esclerose
econômica. Não é à toa que o desemprego, especialmente dos mais jovens
inexperientes, está em patamares preocupantes. O tecido social fica esgarçado.
É um terreno fértil para aventureiros de plantão, para populistas e demagogos
que vendem soluções mágicas – e desastrosas.
A
Europa tem um legado fantástico para o mundo, e sérias manchas no currículo
também, como o fascismo, o nazismo e o comunismo. Espero que a região consiga
atravessar essa crise e sobreviver, sem uma decadência muito acentuada. Para
adicionar insulto à injúria, há o grave problema da islamização crescente,
alimentada pelo multiculturalismo que segrega em vez de assimilar esses
imigrantes.
O
modelo de estado de bem-estar social precisa ser drasticamente revisto. Os
europeus precisam abandonar a visão de que o estado é um ente abstrato, que
obtém seus recursos de Marte e distribui benesses de forma altruísta. Nada mais
falso. O caminho necessário é doloroso, mas fundamental para salvar a região. A
austeridade não é o inimigo; é um remédio amargo, mas crucial. A Europa precisa
de mais setor privado e menos estado. Espero que não seja tarde demais para dar
essa guinada.

