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quarta-feira, julho 24, 2013

Guerra entre gerações

Rodrigo Constantino

O Papa Francisco está no Brasil para falar da juventude. Esse foi o tema da coluna de Miriam Leitão hoje no GLOBO. Os jovens sofrem com a falta de um futuro promissor como nunca antes visto. Há o problema cultural, de degradação de valores, e há os riscos de violência. Sem falar da questão gravíssima do desemprego. Esse foi, aliás, o foco do artigo da colunista. Curiosamente, ela não cita o welfare state uma única vez. Vamos aos fatos:

O desemprego de jovens chega ao ponto calamitoso de 54% na Espanha. Na Grécia, quase 60%, em Portugal, 42%. A média da Europa supera 20%. Fora dessa devastação, só a Alemanha, com 7%, um número melhor do que o do Brasil, que, em maio, registrou 13,6% de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos. A taxa geral do país foi 5,8%.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um estudo recente mostrando que a taxa mundial de desemprego entre quem tem 15 e 24 anos está em 12,6%. Ao todo, são 73,4 milhões de jovens sem emprego. Como as estatísticas só registram os que procuram trabalho, o número é pior porque muitos jovens nem procuraram. O desalento, a gravidez precoce, as drogas são algumas das causas. Um estudo do Ipea registra que em 2010 havia oito milhões e oitocentos mil jovens brasileiros, de 15 a 29 anos, que nem estudavam nem trabalhavam.


Mas por que esse desemprego tão alto, especialmente entre os jovens? A jornalista não arrisca uma resposta, e não menciona "estado de bem-estar social" hora alguma. Só que esse é o cerne da questão: os países desenvolvidos vivem, atualmente, uma guerra entre gerações, e os jovens saem perdendo. Principalmente quando a demografia joga contra.

As crescentes "conquistas" trabalhistas, por exemplo, acabam criando uma enorme barreira de entrada no mercado de trabalho. Os jovens, mais inexperientes, com produtividade menor (pois estão começando suas carreiras), não conseguem competir de igual para igual com os mais velhos, já estabelecidos em seus empregos. Como o custo de demissão é gigantesco, e como o treinamento custa caro, as empresas acabam optando pelos funcionários já empregados.

Salário mínimo, férias remuneradas, vales de tudo que é tipo, tudo isso vai blindando quem já possui emprego à custa de quem pretende entrar no mercado de trabalho. Os sindicatos poderosos são verdadeiras máquinas de proteção daqueles com empregos, em detrimento dos que procuram empregos. Esses são, na maioria dos casos, os mais jovens.

Para piorar, todos os outros gastos explosivos do estado de bem-estar social, que tendem a aumentar com o envelhecimento populacional, recaem sobre os mais jovens indiretamente, por meio de mais impostos. Para sustentar um mecanismo previdenciário que é uma grande pirâmide Ponzi, o governo precisa avançar sobre o bolso de todos, arrecadando parcelas enormes do que é produzido. Esse custo pesado penaliza os mais jovens.

Em resumo, são várias causas dessa situação preocupante em que a juventude se encontra hoje. Uma delas, sem dúvida, tem caráter econômico, e sua origem está no modelo de welfare state. Para bancar tantas regalias dos mais velhos, os mais jovens precisam pagar o pato. O estado de bem-estar social acabou criando um clima de guerra entre as gerações. A saída é resgatar os valores liberais, que depositam a responsabilidade por seu futuro no próprio indivíduo.

quinta-feira, junho 20, 2013

Geração 0800

Rodrigo Constantino

Vivemos na era da Geração 0800, do "tudo grátis". Após tanto tempo de welfare state, quase todos passaram a crer que os bens e serviços caem dos céus, que "alguém" deve bancar isso tudo em nome do bem-geral, e esse alguém é sempre o governo, como se seus recursos não viessem de cada um de nós.

Por isso esse discurso insistente de "direitos", como se, ao nascermos, já tivéssemos "direito" a inúmeros bens e serviços que dependem do esforço alheio. O nosso "direito" a um transporte público "gratuito" significa o dever de outros trabalharem e pagarem por isso. Normalmente, essa forma de ofertar esse importante serviço é cara (nada tão caro quanto serviços gratuitos do governo) e ineficiente.

O Movimento Passe Livre representa essa visão boba e ignorante sobre o funcionamento da economia, com seu viés socialista. O socialismo não funciona! Ele dura até acabar o dinheiro dos outros, como dizia Thatcher. A Geração 0800 precisa acordar para essa realidade, e demandar menos estado, não mais. Trabalhar dá trabalho. Mas viver à custa de benesses estatais é muito pior!

Segue um artigo meu de 2006 sobre o assunto, para elucidar melhor meus pontos.

Dos Direitos

Os direitos constituem um conceito moral aplicável aos indivíduos num contexto social. Não faz sentido falar em direito no caso de um ser isolado numa ilha. Direitos estão ligados ao relacionamento entre indivíduos, protegendo a liberdade de cada pessoa dentro do grupo. É fundamental atentar para o fato de que não há algo como um direito da sociedade, dado que esta nada mais é que o somatório de indivíduos. Será, portanto, o guia moral determinante dos direitos, a liberdade individual, permitindo que cada ser humano seja dono de si, livre para pensar e agir, e protegido da coerção física externa.

Essa visão é bastante recente, e praticamente inexistente na história da humanidade. Desde os direitos divinos dos reis, a teocracia do Egito, o ilimitado poder da maioria em Atenas, o poder arbitrário dos imperadores romanos, a monarquia francesa, o welfare state de Bismark na Prússia, as câmaras de gás dos nazistas na Alemanha e os gulags dos comunistas russos, algum tipo de “ética” altruísta-coletivista dominava os sistemas políticos. O “bem público” ofuscava a liberdade individual. Foi apenas na criação dos Estados Unidos que tivemos a primeira sociedade moral da história, eliminando a idéia de que o homem é algo sacrificável para algum fim maior. A Declaração da Independência Americana iria introduzir a idéia de que cada indivíduo deve ser livre, e o governo deve existir apenas para garantir essa liberdade.

O direito para cada indivíduo deve ser de natureza positiva, garantindo sua liberdade para agir de acordo com seu próprio julgamento, seus objetivos particulares, sua escolha voluntária e sem coerção. Para seus vizinhos, os seus direitos não impõem nenhuma obrigação exceto de caráter negativo: a proibição de violarem os seus direitos. Existe basicamente um método para se violar o direito individual, que é via força física. E são dois os potenciais agentes para isso: os criminosos e o governo. A grande conquista americana foi justamente separar ambos, proibindo o segundo de se tornar uma versão legalizada do primeiro. O Bill of Rights não foi escrito para proteger os indivíduos dos demais indivíduos, mas sim do governo. Em qualquer civilização existente, os criminosos sempre foram uma minoria. É o governo que pode causar um mal incalculável, e por isso precisa ter seu poder limitado. O próprio guardião dos direitos individuais pode se transformar na maior ameaça ao indivíduo.

Mas com o tempo, até nos Estados Unidos esse conceito de direito foi sendo deturpado. Os políticos foram conquistando mais poder, e através do populismo, foram garantindo “direitos” que ferem diretamente a liberdade individual, pois demandam necessariamente a escravidão de alguma contraparte. A plataforma política do Partido Democrata em 1960, por exemplo, explicitava uma lista de “direitos” como emprego bem remunerado, salário adequado para prover comida e roupas decentes, preço justo para os produtos agrícolas, casa decente para as famílias, saúde adequada, boa educação e seguro desemprego. Enfim, uma nobre lista, mas ignorando uma simples pergunta: às custas de quem? Empregos, comida, roupas, casas, medicamentos e educação não nascem do nada na natureza, são bens e serviços produzidos por homens. Quem deve então assumir o dever de produzi-los gratuitamente para que outros tenham tal “direito”? Milton Friedman já dizia que “não existe almoço grátis”, e para o governo prometer “direitos” desse tipo, precisa arbitrariamente escravizar uma parcela da população, coisa claramente rejeitada pelos “pais fundadores” da nação americana. O “direito” de um homem que exige a violação dos direitos de outro não pode ser considerado um direito.

Outros exemplos tornam essa distinção mais clara. O direito a liberdade de expressão diz que cada homem tem o direito de expressar suas idéias sem o risco de repressão ou punição, mas não significa que outros são obrigados a oferecer uma estação de rádio, um palco ou um jornal para que o indivíduo expresse suas idéias. O direito a vida significa que cada um pode se sustentar pelo seu esforço pessoal, mas não diz que outros devem provê-lo com suas necessidades básicas. Qualquer ato que envolva mais de uma pessoa necessita de consentimento voluntário de cada participante. Cada indivíduo tem a liberdade de fazer sua própria decisão, mas nenhum tem a liberdade de forçar sua decisão aos demais. Não há algo como “direito” a emprego, mas sim à troca livre, ou seja, o direito de alguém aceitar um emprego se outro decidir lhe oferecer tal emprego. Não pode existir um “direito” a um salário ou preço justo, apenas o direito de cada cidadão escolher quanto pretende pagar pelo trabalho ou produto do outro.

As duas grandes vantagens de se viver em sociedade são o conhecimento e a troca. O homem é o único animal que transmite e expande seu estoque de conhecimento de geração para geração. Todo indivíduo desfruta de um benefício incalculável pelo conhecimento descoberto por outros. E o outro enorme ganho é a divisão de trabalho, que permite que um homem devote seu esforço a um campo particular de trabalho e troque com os demais que se especializaram em outras áreas. Essas são, basicamente, as vantagens da sociedade, e é condição necessária para o desenvolvimento delas a presença da liberdade individual. Não foi por acaso que os americanos avançaram em dois séculos o que outras nações não conseguiram em milênios.

A função precípua do governo deve ser somente a de garantir os direitos individuais. Saindo da teoria para a prática, isso significa dizer que o governo deve ter o monopólio da força para impor as leis, que serão impessoais e objetivas. Uma sociedade não pode viver direito com leis subjetivas, que dependem da arbitrariedade do burocrata, que seja aplicável ex post facto. O indivíduo pode fazer qualquer coisa que não esteja legalmente proibido, enquanto o oficial do governo não deve fazer nada que não esteja legalmente permitido. O povo deve ser governado por leis, não por homens. Fora isso, o governo será o árbitro em disputas entre indivíduos de acordo com as leis objetivas, forçando o cumprimento dos contratos. Em resumo, se o homem possui o direito moral de ser livre, deverá caber ao governo o papel de polícia, para proteger os indivíduos dos criminosos, de forças armadas, para proteger os cidadãos de invasores estrangeiros, e de juiz, para arbitrar disputas entre indivíduos baseadas nas leis objetivas. E nada mais!


sexta-feira, maio 24, 2013

Multiculturalismo + Welfare State = Desgraça

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

A Suécia entra no quinto dia seguido de motim, com dezenas de carros em chamas e lojas destruídas nos subúrbios de Estocolmo. O pretexto foi a morte de um imigrante que teria problemas mentais, causada pela polícia local. A revolta contra a polícia é enorme. A imagem da Suécia como paraíso igualitário está mais chamuscada do que nunca.

Há muitos mitos sobre o sucesso sueco. O país ficou rico sob o modelo mais liberal, e após o avanço do estado de bem-estar social, o país chegou a “quebrar” no começo dos anos 1990. Várias reformas liberais colocaram a nação na rota da prosperidade novamente, mas o peso estatal segue muito elevado. Apesar de uma população pequena, relativamente homogênea e bem educada, os custos do modelo podem ser sentidos. Há desemprego crescente, e a imigração se tornou um problema.

O casamento entre o “welfare state” e o multiculturalismo pode ser fatal. O primeiro cria inúmeros privilégios, e a população logo aprende que quem não chora, não mama. Imigrantes desejam viver no país para usufruir da “carona grátis”, das mordomias sustentadas pelos pesados impostos dos que trabalham. Isso pode produzir xenofobia. Já o segundo cria segregação, ao recusar a idéia de valores universais melhores, e rejeitar a noção de que o imigrante é que deve assimilar a cultura de quem o recebe, e não o contrário.

Some-se a isso o fato de boa parte desses imigrantes ser muçulmana, e se tem um barril de pólvora. A “islamização” crescente da Europa, com o relativismo cultural dos próprios europeus, incapazes de objetivamente reconhecer a superioridade de sua cultura (afinal, o fluxo migratório mostra justamente que os imigrantes concordam com isso), gera um clima perigoso de segregação.


O “welfare state” completa a equação problemática, ajudando a criar desemprego para os imigrantes e a revolta de quem paga a conta. Parece uma situação insustentável. Em equação simples: Multiculturalismo + Welfare State = Desgraça. Questão de tempo apenas... 

quinta-feira, maio 23, 2013

Concorrência entre governos faz bem

Rodrigo Constantino

“Nós não podemos aceitar que certo número de companhias se coloque em situações para evitar o pagamento de impostos de maneira legal. Nós devemos coordenar ações em nível europeu, harmonizar nossas regras e apresentar estratégias para acabar com essa prática”, disse o presidente socialista francês, François Hollande. O assunto veio à tona após a descoberta de que a Apple teria usado mecanismos legais para reduzir o pagamento de impostos.

O que queria o socialista? Que as empresas não tentassem minimizar pelas vias legais seus pesados impostos para sustentar o falido “welfare state” e as boquinhas de políticos? Ou talvez que usassem meios ilegais para tanto, como fazem justamente poderosos políticos, alguns apontados em escândalos recentes dentro do próprio governo Hollande?

Certo está o senador Republicano Rand Paul, que fez um duro ataque ao próprio Congresso americano, em defesa da Apple. Ele questionou se algum membro do Parlamento ali presente, por acaso, não fazia o que era possível pela lei para pagar menos impostos. Depois, lembrou que o grande responsável por isso são os próprios políticos, que criam inúmeros impostos e gastam US$ 4 trilhões dos “contribuintes”. “Querem um culpado pela situação? Que tragam um enorme espelho para o Congresso”, clamou corajosamente Rand Paul.

Quando empresas atuam num ambiente de livre concorrência, o maior beneficiado é sempre o consumidor. Afinal, a empresa precisa buscar sempre maior eficiência para sobreviver, e isso normalmente implica em menores preços finais, decorrentes dos ganhos de produtividade.

Curiosamente, esta lógica não se aplica à concorrência entre governos, segundo muitos economistas. Eles chamam de “guerra fiscal” a competição entre governos na busca por investimentos produtivos, deixando claro o tom negativo da disputa. Por trás disso, reside uma mentalidade de que menos imposto é algo ruim, ou seja, que recursos nas mãos do governo são mais bem utilizados que nas mãos privadas. Não há nem lógica econômica, nem evidência empírica para sustentar esta visão.

A globalização tem gerado incríveis avanços para a humanidade. Entre eles, uma das grandes mudanças positivas é justamente a maior competição entre governos. Com a maior mobilidade de capitais, as empresas podem transferir suas sedes para qualquer nação, mantendo a produção nos países mais competitivos. Isso força uma busca por maior eficiência por parte dos governos, levando a menores impostos e burocracia, caso contrário haverá grande perda de investimentos.

O federalismo dentro de um país é algo bom. Gera concorrência entre estados e o eleitor pode votar com o pé. A mesma lógica se aplica em nível global, entre países. Governos gastam muito mal, pois os incentivos não são adequados, e a corrupção é sempre maior. Portanto, qualquer coisa que contribua para reduzir a receita tributária é positiva, pois somente isso vai impor limites nos gastos públicos.

Nesse contexto, fica claro que o termo “guerra fiscal” só interessa mesmo aos consumidores de impostos, não aos seus pagadores. Faz mais sentido falar em “competição fiscal”, e todos os consumidores sabem que a competição é seu maior aliado. David Cameron, o primeiro-ministro conservador britânico, está certo quando diz: “Eu acredito em impostos baixos para os negócios, porque temos que encorajar investimentos. Eu quero que o Reino Unido seja vencedor na corrida global”.


Essa corrida é boa para todos, à exceção dos parasitas do estado. Hollande, como todo socialista, pensa o contrário: ele quer impedir a corrida, para que as lesmas paquidérmicas possam desfrutar do trabalho alheio sem o incômodo das ágeis lebres. Por isso detestam concorrência. A Apple merece nosso apoio; Hollande e demais socialistas, nosso repúdio. Viva a concorrência!

terça-feira, maio 21, 2013

Um abismo moral


Rodrigo Constantino

Um dos valores mais caros aos liberais e conservadores, em oposição aos esquerdistas, é justamente a responsabilidade individual. Os liberais e conservadores acreditam que o paternalismo estatal produz uma sociedade infantilizada, acomodada, vitimizando-se o tempo todo, pois aprende rápido que, sob o “estado de bem-estar social”, quem não chora não mama.

Dois exemplos concretos ilustram o abismo moral entre uma posição e outra. Um deles ocorreu no Brasil, o outro em Portugal. Trata-se de uma comparação reveladora, e chocante para muitos anestesiados que ignoram a distância intransponível entre essas visões de mundo.

O caso brasileiro está aqui, nessa entrevista concedida por uma das beneficiadas do programa “Bolsa Família”. Esta senhora, que não parece sequer sem condições para se alimentar bem (até demais), reclama que a esmola, digo, o benefício estatal não é suficiente nem para comprar uma calça para sua filha de 16 anos. O preço da calça? Módicos 300 reais!

Note-se o grau do absurdo a que a coisa chegou: uma pessoa achar que é dever da “sociedade” fornecê-la recursos suficientes para comprar uma calça de grife, talvez para sua filha não passar vergonha no baile funk com as coleguinhas.

Por outro lado, o caso português pode ser visto aqui, quando um jovem com os mesmos 16 anos da menina da calça cara explica a importância da responsabilidade individual, de não esperar que os outros façam as coisas por você. Quando ele é confrontado por uma senhora com discurso bastante sensacionalista, alegando que os trabalhadores ganhavam pouco, ele dá uma resposta que é ovacionada, calando e constrangendo a populista: “Melhor do que estar desempregado”.

Em outras palavras, o jovem patrício entende que o melhor programa social chama-se emprego, e que nada dá mais dignidade ao ser humano do que se sustentar por conta própria, sem precisar de esmolas estatais. Compare-se essa atitude com aquela da senhora brasileira, reclamando que sua esmola não é suficiente para comprar bens de luxo. É um abismo moral que os separa.

Ambos inseridos na mesma cultura ibérica, que estimula a malandragem, a busca de vantagens na coisa pública. Mas que distância entre eles! O que vale, no final das contas, é a atitude individual. Sempre a atitude individual.

quinta-feira, maio 09, 2013

A matemática de Verissimo


Rodrigo Constantino

Em sua coluna de hoje, Verissimo voltou a fazer o que mais gosta: distorcer os fatos para vender sua ideologia estatizante e atacar o liberalismo. Ele usou, de forma um tanto pérfida – como de costume, um acontecimento verdadeiro para concluir algo absolutamente falso. Non sequitur.

Qual o fato verdadeiro? Havia alguns erros de cálculo nas várias planilhas dos respeitados estudos de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, que constam no livro Oito Séculos de Delírios Financeiros (“This Time is Different”). E qual a conclusão de Verissimo, o sabichão de economia? Que isso anula totalmente a conclusão dos autores, qual seja, a de que a austeridade fiscal é parte importante da receita de cura das crises econômicas no longo prazo.

Eis a forma sensacionalista que o cronista descreve a coisa: “A certeza de que com o tempo a austeridade se justificará, demonstrada claramente nas contas erradas da dupla, só conseguiu transformar ‘austeridade’ em palavrão, nos países em que a maioria da população continua pagando, com desemprego e miséria, pelos desmandos dos seus governos e a ditadura do capital financeiro, responsável pela crise”.

Haja cara-de-pau! Em primeiro lugar, a crise não foi causada pela “ditadura do capital financeiro”, que sequer existe e não passa de mais um fantasma criado pela mitologia canhota, um bode expiatório para culpar pelas burradas dos próprios governos estatizantes. A crise tem todas as impressões digitais dos governos nas cenas dos crimes. Juros artificialmente baixos, gastos públicos excessivos, excesso de regulação (sim, os setores no epicentro da crise eram os mais regulados), e por aí vai.

Em segundo lugar, Verissimo pega um erro que não altera o resultado final da pesquisa para desqualificar o próprio conceito de “austeridade”. Será que o “matemático” Verissimo realmente pensa que o governo pode gastar mais do que arrecada infinita e impunemente? Será que ele pensa, de fato, que é o governo que cria prosperidade por meio de gastos públicos? O Brasil já deveria ser uma potência econômica de causar inveja a países como Suíça, Cingapura, Austrália e Nova Zelândia, certo? O que deu errado?

O “economista” Verissimo afirma que a austeridade não está dando certo em lugar algum do mundo, e cita como exemplos Grécia e Espanha. Mas será que o homem não sabe que foi justamente a gastança irresponsável dos governos desses países, principalmente do grego, que gerou a grave crise em primeiro lugar? Será que Verissimo pretende nos explicar de onde vem os recursos para que governos possam gastar tanto sem efeitos nefastos? Do céu? Das árvores? De Marte? Das impressoras do Banco Central?

No final do artigo, Verissimo ainda encontrou uma oportunidade para bater em Thatcher, o terror dos socialistas. Ela foi jocosamente chamada de “Mrs. Austeridade” pelo cronista, que usou as pompas fúnebres bancadas pelo governo para atacá-la. Mausoléu de ditador comunista não incomoda gente como o Verissimo, mas um singelo reconhecimento pelo legado da maior estadista que a Inglaterra já teve é um disparate, que negaria todo seu histórico de austeridade e combate ao cancerígeno “welfare state”.

O título do artigo de Verissimo é “Dois + dois = ?”. Para liberais, a resposta é uma só: 4. Mas sabemos qual a resposta para ele: 8, ou talvez 10, quiçá 12! Por que um governo deveria ser austero, gastar menos do que arrecada? Isso é coisa de “neoliberal” insensível, que não liga para os pobres. Verissimo é diferente, um sujeito bom, sensível, nobre, e por isso ele defende a gastança estatal irresponsável. Qual o problema de imprimir dinheiro e sair gastando para ajudar os pobres?

Um “neoliberal” chato diria que é a inflação, o mais nefasto imposto sobre os pobres. Mas isso é detalhe. O importante mesmo é colocar Thatcher e seus seguidores como os representantes do Capeta na Terra, e tecer loas aos socialistas que monopolizam as virtudes e só entregam caos social, desgraça e miséria. A tragicomédia da vida pública...   

terça-feira, abril 30, 2013

O brioche estragado

Carta Mensal da MP Advisors


"Se me perguntarem qual a fatalidade de nossa época, responderia que são as esquerdas.”

Nelson Rodrigues

Após a derrocada da URSS, Coréia do Norte, Leste Europeu e Cuba, alguns ainda persistem no erro.  O ser humano continua apostando num modelo que deu errado, a despeito de Darwin. Nesta carta, beberemos um pouco das águas da consultoria Gavekal para falar sobre o momento atual da França, que parece rumar para uma segunda recessão pós-crise de 2008. Faremos também um paralelo dos problemas do modelo econômico francês com o modelo para o qual o governo brasileiro caminha a cada dia que passa.

Vamos ser claros: a França de François Hollande está no meio de uma paralisia política, moral e econômica.  O desemprego alcança novas máximas, a confiança no governo entre os empresários se deteriora, a produção industrial afunda, bem como o consumo privado, que já cai para os patamares de pós-crise 2008.

O desenho rígido do sistema do euro indica que países como a França irão experimentar um brutal ajuste cíclico como nos tempos do padrão ouro (onde não se podia imprimir ou desvalorizar a moeda). Os compatriotas de Asterix chegaram longe no experimento coletivista de bem estar social e agora rumam impávidos para o abismo.

As crises daquela época (padrão ouro) seguiam um padrão bem estabelecido: começavam com investidores animados com os bons retornos aumentando cada vez mais as suas apostas, bancos afrouxando os seus padrões de crédito, dificuldade de distinguir os reais empreendedores dos charlatões e analistas comentando que 'desta vez é diferente'. Isso ocorreu entre 1995 e 2007.

Depois vinha o pânico, com alguns investidores realizando que o retorno esperado não era mais aquele e vendendo suas posições, causando medo e movimentos súbitos no mercado Fase de algumas falências.  Isso foi o que houve no biênio 2007-2008.



Na sequência, a fase de alívio com taxas de juros baixas, ajudas do governo e preços dos ativos retornando ao que eram antes da crise anterior. Então, as pessoas, erroneamente, concluem que a vida voltou ao normal. Isso foi vivido entre 2008 e 2012.

A fase que vem a seguir, em especial na França, é de depressão secundária, quando os investidores realizam que afinal o retorno dos investimentos continua bem baixo e, portanto vendem seus ativos.  Os estudiosos da época do padrão ouro falam que essa fase pode durar entre três e cinco anos.  A desvalorização da moeda, a única saída viável, está fora de cogitação pela estrutura do euro. 

Mas se o problema é de desenho do euro, porque afinal a França é que vai primeiro para o abismo?  Boa pergunta e começamos respondendo com o adágio popular (para os europeus) de que "muitas casas na Espanha, muitas fábricas na Alemanha e muitos funcionários públicos na França". O gasto público na terra de Amélie Poulain representa 57% do PIB.  Você não leu errado, é isso mesmo! Quase 2/3 do PIB vem do setor público.

É muita gente sendo sustentada por poucos. Como se sabe, o 'estado' não cria riqueza e nada produz, ele apenas redistribui (com extrema corrupção e ineficiência) uma parte de quem produz para aqueles que não produzem (por incapacidade, doença ou por preguiça mesmo). Na França, há uma relação de dois 'malandros' sendo sustentados por um 'trabalhador'. Não tem como dar certo, não é verdade?

O ciclo vicioso funciona assim: uma 'elite' captura o estado e cresce cada vez mais. Para sustentar a farra, novos impostos são criados, reduzindo a capacidade de investimento dos empreendedores, que, por sua vez, têm lucros menores e naturalmente pagam menos impostos.  Com a arrecadação em queda o que fazem os 'saqueadores' que tomaram conta do estado?  Aumentam mais os impostos e contraem mais dívida (pública) para financiar o rombo.

Chega ao ponto em que até o mais pacífico dos servos protesta, como foi o caso de Gérard Depardieu que recentemente se naturalizou russo para não ter que pagar 75% de imposto de renda.  E veja que ele foi duramente criticado por não ser 'patriota' e 'fraterno'.  Trata-se do parasita se revoltando contra o hospedeiro que resolve tomar um vermífugo. No gráfico anexo, a lenta agonia do empreendedor na França.

O irônico desse desenho político, é que na medida em que você aumenta o número de 'beneficiados', mais fácil fica de se perpetuar no poder através do voto da maioria.  Funcionários públicos, bolsistas, cotistas e alguns empresários que gostam da letra 'X', naturalmente tendem a perpetuar o sistema que lhes permite ganhar a vida sem muito esforço.  Por hora, o que há é um sistema onde o setor público saqueia continuamente o setor privado.  Esse assalto institucionalizado naturalmente cria um ciclo de queda econômica sem fim. O resultado disso será o sucateamento da indústria, fuga de cérebros para o exterior, recessão, inflação e desemprego nas alturas.

Esse avanço do estado francês sobre os empreendedores ocorre tanto em governos de 'esquerda' quanto de 'direita'.  Sarkozy, a despeito de ter um senso estético melhor do que o de Hollande, na prática tocou a mesma música. O problema é cultural, ou indo mais fundo: trata-se da falência moral de uma sociedade. As elites francesas de fato acreditam que a tecnocracia comunista é melhor do que o capitalismo, e essa crença é aceita por grande parte da população.  A música vai tocar até que o financiador dessa dívida continue aceitando isso e também até que o último empreendedor francês arrume as suas malas para Palo Alto, Nova York ou Cingapura. Um dia a farra termina.

E o que isso tem a ver com o Brasil?  Acho que não precisa ter muita imaginação para traçarmos um paralelo com os charmosos franceses.  Temos muito do que eles tem.  Um 'estado' voraz e saqueador do setor privado, baixo crescimento, inflação, uma cultura 'esquerdizante', uma dívida pública que só cresce, uma indústria decadente, muitos 'direitos', poucos 'deveres' e uma demografia que daqui para frente teremos cada vez mais menos gente trabalhando e mais gente aposentada.  Além disso, ainda temos corrupção endêmica e um nível educacional péssimo. 

De positivo o Brasil tem uma capacidade (espero, ainda) de corrigir suas rotas e seus descaminhos.  Caso não mudemos o nosso passo, seguiremos para o abismo, só quem sem a educação, charme, vinho e o TGV dos franceses.

segunda-feira, julho 09, 2012

America Already Is Europe


I'm often asked if I think America is trending toward becoming a European-style social democracy. My answer is: "No, because we already are a European-style social democracy." From the progressivity of our tax code, to the percentage of GDP devoted to government, to the extent of the regulatory burden on business, most of Europe's got nothing on us.
In 1938—the year my organization, the American Enterprise Institute, was founded—total government spending at all levels was about 15% of GDP. By 2010 it was 36%. The political right can crow all it wants about how America is a "conservative country," unlike, say, Spain—a country governed by the Spanish Socialist Workers Party for most of the past 30 years. But at 36%, U.S. government spending relative to GDP is very close to Spain's. And our debt-to-GDP ratio is 103%; Spain's is 68%.
At first blush, these facts seem astounding. After all, Spanish political attitudes differ dramatically from our own. How can we be slouching down the same debt-potholed, social-democratic road as Spain? There are three explanations, all of which point to a worrying future for America.
First, the American left is every bit as focused on growing government and equalizing incomes as the Spanish left. Despite arguments from liberals that tax increases on "millionaires and billionaires" are necessary for fiscal prudence, they are little more than a way to meet the single-minded objective of greater income equality.
President Obama's proposal to eliminate the Bush-era tax cuts for households making over $250,000 a year would, on a static basis, reduce the deficit by only 5% annually. That still leaves 95% of the deficit to be paid by the middle class.
Getty Images
Similarly, the so-called Buffett Rule, which would apply a minimum income tax rate of 30% on individuals making more than $1 million a year, is supposed to help bring our budget into line but would raise annually about $4 billion—about as much as Americans spend on Halloween and Easter candy.
The second force leading us down the social-democratic road is cronyism. America possesses a full-time bipartisan political apparatus dedicated to government growth and special deals for favored individuals and sectors. For example, the farm bill that just passed the Senate contains around $100 billion in subsidies, mostly for large, corporate farms that do nothing to improve nutrition or food security. Or witness the recently reauthorized Export-Import Bank, which doles out about $20 billion annually in corporate welfare.
Third, and most importantly, while a majority of Americans are neither leftists nor corporate cronies, they aren't paying much attention to the political system. We often hear that more than 85% of Americans disapprove of the job Congress is doing. But, according to the 2000 Social Capital Community Benchmark Survey, only 25% of American adults can correctly name both of their U.S. senators, and 51% can name neither. If I don't know who my senator is, I am unlikely to know much about his bridge to nowhere.
In a way, separation from politics is a charming part of the American DNA. There is a story (probably apocryphal) that when Thomas Jefferson was asked to describe a typical American, he thought for a moment and said, "A man who moves west the first day he hears the sound of his neighbor's ax."
We're not literally moving west any more, but in the Tocquevillian tradition our lives are directed less by Washington politics and more by everyday jobs, church socials and soccer practices. As the leader of a think tank dedicated to public policy, I would love it if Americans were as obsessed with policy as I am. But let's be realistic: Most people don't have the time or inclination to contemplate the potential damage each government-spending predation—each tiny political sellout of our values—could cause.
Still, according to a recent Gallup survey, 81% of Americans are dissatisfied with the way the nation is being governed. Since Gallup started asking that question in the early 1970s, dissatisfaction has never been higher.
And Rasmussen polls find that consistently two-thirds to three-quarters of Americans say our country is on the "wrong track." They may not know exactly why, but most Americans believe their government is changing our nation for the worse.
What is the answer? We caught a glimpse of it in 2010, when a movement of ethical populism—the tea party—mobilized millions of Americans to read the United States Constitution and demand politics that reflect the majority's values. And while woefully misguided in its diagnoses and policy solutions, the Occupy Wall Street movement was at least right to protest the malignant cronyism in our economy. That energy must re-emerge in 2012 and become a permanent part of our political landscape.
In 1787, Benjamin Franklin was asked what sort of government our new nation would have. His famous answer was, "A Republic, if you can keep it." When he said this he was envisioning a monarchist alternative, not today's noxious brew of leftism, cronyism and general inattention to public policy. But Franklin's maxim is still valid today.
Mr. Brooks is president of the American Enterprise Institute and the author of "The Road to Freedom: How to Win the Fight for Free Enterprise" (Basic Books, 2012).

quarta-feira, julho 04, 2012

Fim da utopia

João Luiz Mauad, O GLOBO

São inúmeras as explicações para os atuais problemas europeus. Uns apontam para a rigidez com que o BCE administra o Euro, outros para especulação dos mercados ou para a moderna engenharia financeira. Até mesmo o surrado espantalho neoliberal aparece de vez em quando como culpado. Embora evidências saltem aos olhos, essas análises constumam ignorar que, muito além de mera crise monetária ou de crédito, o que está em xeque é o próprio modelo de bem estar social, sob o qual sucessivos governos, tanto à direita quanto à esquerda, têm financiado “direitos” generosos com altos impostos e pilhas enormes de dívidas. Tudo isso sem que as economias do velho continente consigam crescer o bastante para manter a farra.

Malgrado sua concepção eminentemente coletivista, a experiência social-democrata que floresceu na Europa Ocidental após a Segunda Guerra manteve o modelo econômico capitalista, pelo menos no sentido de que a propriedade privada dos meios de produção era permitida, ainda que altamente concentrada nas mãos de poucos. O arquétipo do “capitalismo selvagem” foi substituído por um sistema híbrido, que combina grandes conglomerados industriais e financeiros, freqüentemente patrocinados e tutelados pelo Estado, uma agricultura altamente subsidiada, além de empresas miúdas – quase sempre comerciais ou de prestação de serviços. Para completar, a hipertrofia dos governos formou um enorme contingente de funcionários públicos que, em alguns países, chega perto de 50% da população economicamente ativa.

O apogeu da social-democracia européia ocorreu em meio à Guerra Fria, num período marcado pela limitação à livre movimentação de pessoas, capitais e produtos, quase sempre mediante rígidos controles burocráticos e barreiras tarifárias. Com queda do Muro de Berlim e a aceleração do processo de globalização, conseqüência direta da profusão de novas tecnologias que permitiram a movimentação muito mais dinâmica da informação, dos capitais, dos produtos e do próprio trabalho, as sociedades européias se viram, da noite para o dia, numa sinuca de bico, obrigadas a promover uma reavaliação profunda do modelo, algo até então impensável.

E não é para menos: enquanto a taxa de natalidade não pára de cair e os velhos vivem cada vez mais, os gastos com saúde e aposentadorias ficam cada vez mais caros. Por outro lado, a relação entre trabalhadores ativos e inativos segue diminuindo rapidamente. Tudo isso em meio ao baixo crescimento econômico que já dura décadas. Uma eventual mudança de rumo, entretanto, não deixará de ser traumática, notadamente para aqueles que se acostumaram com privilégios “sociais” abundantes e pouco trabalho.

Uma das primeiras a entender que as políticas da social-democracia precisavam ser revistas foi Margareth Thatcher, que compreendia a natureza daquela armadilha econômica em seus dois aspectos principais. Em primeiro lugar, não é possível manter um mercado de trabalho baseado na estabilidade do emprego, especialmente em vista da evolução tecnológica que cria e destrói ofícios e profissões numa velocidade tremenda. Em segundo lugar, as instituições de proteção social, concebidas fundamentalmente para compensar o fracasso individual, fomentam de modo inexorável a ineficiência, num mundo globalizado cada vez mais competitivo.

Thatcher concluiu, há trinta anos, que as premissas do “marco social” – que imperou a partir da 2ª Guerra – haviam sido derrubadas e, a menos que o modelo então vigente se transformasse profundamente, seria varrido pelo furacão da globalização. As reformas liberais que seu governo produziu, no entanto, se deram algum fôlego à economia britânica por algum tempo, já foram completamente revertidas pelos governos esquerdistas que o sucederam - preocupados, como sempre, não com os baixos índices de crescimento e produtividade, mais com a utopia do “bem comum”.

Evidentemente, a falência do “welfare state” não se dá de forma uniforme. Dependendo das instituições e da cultura de cada país, ela é mais lenta ou mais rápida. O modelo é mais resistente nos países nórdicos, germânicos e anglo-saxãos - ancorados numa ética severa, na primazia da responsabilidade individual e na valorização do trabalho - do que nos países mediterrâneos, mais chegados ao patrimonialismo e à cultura de privilégios. Mas não se iludam: a médio prazo, mesmo esses países precisarão promover mudanças liberalizantes que tornem suas economias mais dinâmicas e competitivas.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Europe's Entitlement Reckoning


Editorial do WSJ

From Greece to Italy to France, the welfare state is in crisis.

In the European economic crisis, all roads lead through Rome. The markets have raised the price of financing Italy's mammoth debt to new highs, and on Tuesday Silvio Berlusconi became the second euro-zone prime minister, after Greece's George Papandreou, to resign this week. His departure may keep the world's eighth largest economy solvent for the time being, but it hardly addresses the root of the problem.

In Italy, as in Greece, Spain and Portugal and eventually France, the welfare-entitlement state has hit a wall. Successive governments on the Continent, right and left, have financed generous entitlements with high taxes and towering piles of debt. Their economies have failed to grow fast enough to keep up, and last year the money started to run out. The reckoning has arrived.

If the first step in curing an addiction is to acknowledge it, there is little sign of that in Europe. The solutions on offer are to spend still more money, to have the Germans bail out everybody else, or to ditch the euro so bankrupt countries can again devalue their own currencies. France's latest debt solution includes raising corporate, capitals gains and sales taxes.

Yet Europe's problem isn't the euro. If it were, Hungary, Iceland and Latvia—none of which use the euro—would have been spared their painful days of reckoning. The same applies for Britain. Europe is in a debt spiral brought about by spendthrift, overweening and inefficient governments.

This is a crisis of the welfare state, and Italy is a model basket case. Mario Monti, who is tipped to lead a new government of technocrats, once described the Italian economy as a case of "self-inflicted strangulation." Government debt is 120% of GDP, making Italy the world's third largest borrower after the U.S. and Japan. Its economy last grew at more than 2% a year in 2000.

An aging and shrinking population is a symptom, but not a leading cause, of the eurosclerosis. A fifth of Italy's 60 million people are 65 or older and make increasingly expensive claims on state-paid pensions and other benefits. In fast-growing Turkey, only 6.3% fit that demographic. Italian women have on average 1.2 children, putting the country's birth rate at 207th out of 221 countries.

But the bulk of the responsibility lies with politicians. Mr. Berlusconi, Italy's richest man, promised a shake up each time he ran for office (in 1994, 1996, 2001, 2006 and 2008). He was the longest serving premier in post-war Italy, from 2001 to 2006, controlled parliament and could have pushed through reforms. He didn't. Promises to lower taxes and hack away at regulations and protections for Italy's powerful guilds—from taxi drivers to pharmacists to journalists—were broken.

"It is not difficult to rule Italy," Benito Mussolini once said, "it is useless." The so-called concertazione, or concert, of Italian coalition politics that brings together numerous parties in the Parliament makes for unstable and indecisive governments. So does the fear prominent in many European countries that any serious reform will provoke street protests. An unhappy byproduct of a welfare state is that it creates powerful interests that will fight to the last to preserve their free lunch, no matter the cost to the country.

But now hard choices can no longer be postponed. And the solution to Europe's debt crisis must begin with reforming, if not dismantling, the welfare state. Europe rose from the economic grave in the 1960s, it rode the Reagan-Thatcher reform wave to more modest growth in the 1980s-'90s, and it can grow again. A decade ago, Germany was called the "sick man of Europe," bedeviled by Italian-like economic problems. But a center-left coalition, supported by trade unions and German society, overhauled labor and welfare codes and set the stage for the current (if still modest) export-led revival in Germany.

The road from Rome may now lead to Paris, Madrid and other debt-ridden European countries. But this is no cause for U.S. chortling, because that same road also leads to Sacramento, Albany and Washington. America's federal debt was 35.7% of GDP in 2007, but it was 61.3% last year and is rising on an Italian trajectory. The lesson of Italy, and most of the rest of Europe, is never to become a high-tax, slow-growth entitlement state, because the inevitable reckoning is nasty, brutish and not short.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Jovens e indignados


Rodrigo Constantino, para a revista VOTO

"Um dos tristes sinais de nosso tempo é que nós temos demonizado quem produz, subsidiado aqueles que se recusam a produzir, e canonizado aqueles que se queixam." (Thomas Sowell)

Movimentos de protesto têm se espalhado por vários países. Nos Estados Unidos, o “Tea Party” cresceu de forma impressionante, e agora surgiu o “Ocupar Wall Street”, com viés de esquerda. Na Europa, várias passeatas têm ocorrido nos países em crise, sendo as mais violentas na Espanha e agora na Grécia. As inspirações são diferentes em cada caso, mas, em comum, há uma enorme raiva canalizada contra o “sistema”. Eles falam em nome dos “excluídos”, contra os privilegiados. E pregam o radicalismo.

Muitas demandas e queixas dessa “massa de ressentidos” são legítimas, ainda que seja difícil separar o joio do trigo. Há uma mistura muito grande, e nem sempre coerente, em tais protestos. Sobra ataque ao capitalismo, à globalização, ao setor financeiro, aos governos, enfim, atira-se para muitos lados distintos, mas o diagnóstico não costuma ser preciso. Palavras de ordem e slogans substituem reflexões mais aprofundadas.

Uma crise desta magnitude atual sempre tem inúmeras causas. Devemos evitar a tentação do reducionismo, em busca de bodes expiatórios simples. Sem dúvida há a impressão digital dos governos em todas as cenas de crime. Mas até onde o governo não é um reflexo do povo? Wall Street e os grandes bancos também abusaram, e merecem duras críticas. Mas o abuso não deve tolher o uso, e atacar o sistema financeiro como um todo é estupidez ideológica. Os bancos centrais também erraram feio, e seu papel deve ser revisado. Mas não há panacéia aqui também.

Eis o que eu queria dizer: apesar de conter demandas legítimas e a raiva ser justificável, este clima crescente carrega sementes perigosas para a democracia. A revista britânica “The Economist”, que fez uma reportagem de capa sobre o fenômeno, trouxe importante alerta: As pessoas estão certas de estarem com raiva, mas também é certo estar preocupado com onde o populismo pode levar a política. Como dizia Nelson Rodrigues, “a multidão é inumana porque não tem cara”.

Literalmente. Basta ver a quantidade de gente mascarada nos protestos. A máscara do conspirador Guy Fawkes, que pretendia explodir o Parlamento inglês no começo do século 17, ganhou o mundo, popularizada pelo filme “V de Vingança”. Uma turba revoltada é sempre uma ameaça às liberdades. O ambiente fica fértil para “soluções mágicas”. Os oportunistas de plantão vestem o manto de salvador da pátria e oferecem milagres. Este é o maior risco que vejo nesses protestos.

Há um agravante: a quantidade de jovens nas passeatas. O jovem apresenta naturalmente uma tendência maior ao radicalismo e às crenças utópicas. Ele é contra a autoridade por natureza; precisa confrontar o “pai” para estabelecer sua identidade. E, convenhamos, o mundo moderno anda mal das pernas quando se trata de impor limites aos jovens. Pais culpados, que não sabem dizer “não” e tentam ser “coleguinhas” dos filhos, delegando a educação ao estado, este não é um quadro animador.

Mas há um fator mais prosaico que explica parte desta revolta atual: o imenso desemprego entre os jovens. Nos Estados Unidos são mais de 17% de desempregados abaixo de 25 anos. Na União Européia essa taxa fica na média de 20%, sendo que na Espanha chega a impressionantes 46%. Quando quase metade dos jovens procura, mas não encontra emprego, pode ter certeza de que o clima vai esquentar. E os pais destes jovens têm boa parcela de culpa nisso.

As gerações anteriores foram plantando as sementes deste caos atual. Como crianças mimadas, passaram a crer que o estado de abundância é o natural, e que basta exigir do governo seus “direitos” que tudo fica bem. O “welfare state” é a maior evidência de que Bastiat estava certo quando, já em 1850, afirmou que “o estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos”.

Para os jovens, este modelo é especialmente cruel, pois cria inúmeras barreiras ao mercado de trabalho, visando à “proteção” dos trabalhadores (aqueles já empregados). Um salário mínimo, por exemplo, vai prejudicar justamente os jovens menos produtivos, que aceitariam ganhar salário menor nesta fase da vida, mas são impedidos pelo governo. O elevado desemprego dos jovens é apenas mais uma conseqüência não-intencional das bandeiras altruístas de esquerda.

Ninguém sabe como esta revolta toda vai acabar, nem tenho bola de cristal para tentar prever. Pode ser que em alguns casos ela leve a reformas decentes; pode ser que em outros casos leve ao despotismo, após uma fase mais anárquica. Ainda é cedo para dizer. Mas, o que podemos adiantar é que épocas que combinam elevada deterioração de valores morais com ampla crise econômica costumam ser explosivas.

Quando vejo milhões de jovens indignados tomando as ruas do mundo todo, confesso que tenho calafrios. Fecho com Nelson Rodrigues, uma vez mais: “Esse misterioso ‘jovem’, vago, difuso, impessoal, sem cara, sem caráter, só me convence como um monstro”.

quarta-feira, julho 20, 2011

Are We Entering Into Revolutionary Times?

GaveKal Research

In "A Study of History", Toynbee explains that the role of a society's elite is to rise to the challenges of the times, and find solutions fitting to those times, even if this involves a radical break with the past. Meanwhile, the modus operandi for most leaders is to try and maintain the status quo, and restore the "old order" that prevailed before the disruption. But if the problems are large enough, this does not work, and the same challenges reappear until either a solution is found (e.g., the European Union project as the solution to Franco-German rivalry), the elite is replaced by a new elite (i.e., revolution), or the country, system or civilization disappears (e.g., end of the Soviet Union). Now if one buys into Toynbee's grid of reference (and a number of us do), then it is possible that welfare states everywhere around the world are entering revolutionary times.

Indeed, eighteen months ago when we drew our first decision tree to review the possible scenarios for a denouement in the Greek crisis, we indicated that the worst possible outcome would be the "fudge." But of course, this is what we got and a year and a half later, we are none the wiser as to who will carry the losses on the Greek loans that everyone knows have been wasted. Worse yet, Spain and Italy are now coming into play.

Over that period, a number of our papers have been centered on the idea that negative real rates, increases in government spending, devaluations and transfers of debt from banks to taxpayers would not work. Worse yet, the very low nominal rates of the past decade have led to a huge expansion of what can be best described as "social clientelism," i. e., governments wasting money as never before in peace time through social transfers to "buy" votes. We now seem to be reaching the logical end to this process, though there are few signs emanating from the elite of a will to tackle this issue (witness how the French socialists and centre right are patting themselves on the back for agreeing to reduce the French budget deficit to -3% of GDP by 2013 if GDP growth continues to remain above trend -- as if the market will give French technocrats that kind of time and leeway!).

Now if today's elites cannot fathom confronting the imbedded benefits of civil servants and pensioners anymore than Louis XVI could take on the privileges of French aristocrats, then following Toynbee's grid, we have to fear that elites will be changed forcefully.

Of course, this is exactly what the US Tea Party is all about which is why we find the movement encouraging; at the very least, it offers a democratic alternative. Meanwhile, in Europe, where the economic and budgetary situations are arguably worse in a number of countries, nothing has emerged on the political scene. When a challenge as pressing as the one Europe is currently facing is obvious for all to see and yet nothing is done as politicians try to stay the course until the next election (for what?), this leaves an open field to the demagogues.Of course, demagogues are a great European tradition when the going gets tough. Historically, foxes are replaced by lions in the US and the UK, by demagogues elsewhere. We fully expect that coming elections across the Western world will produce some hair-raising outcomes.