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quarta-feira, outubro 10, 2012

O que queremos para os nossos filhos?


Abílio Luiz Ribeiro Alves *

Essa é uma pergunta que nos fazemos quando nos angustiamos com o futuro e a partir do desamparo que experimentamos como sujeitos. Mais um adolescente morre tão precocemente, seria possível evitar essa tragédia? Isso jamais se saberá. O que não nos exime de refletir sobre as razões que levam um jovem a viver os limites do que é suportável.
Haverá hoje uma educação pautada nos resultados, no desempenho ou na adequação, que subtraia a singularidade de uma existência? Somos o que desejamos ser ou o que devemos apresentar como sucesso? Sim, vivemos numa sociedade altamente competitiva que anula a noção de amizade ou solidariedade. Os treinamentos propostos sob o eufemismo de “recursos humanos” são na verdade maneiras de estimular fórmulas de sucesso pessoal que estão longe de levar em conta a diferença e a criatividade.
A criatividade e a emergência de uma diferença são possibilidades pensadas por Freud como alternativas à sonhada felicidade. Se não podemos ser felizes integralmente ou definitivamente, talvez possamos experimentar uma pequena margem de liberdade, quem sabe a de um desejo próprio e singular? O remédio de Freud contra a neurose não era a felicidade, mas o humor e a criatividade. Ele era cético quanto a um estado duradouro da tal felicidade.
JP era um aluno do São Bento como eu fui. Um colégio rigoroso quanto à disciplina e quanto ao desempenho de cada aluno. Eu reconheço todos os benefícios que a formação nesta instituição de ensino me proporcionou. Lembro com muito carinho de colegas e professores. Porém, é um colégio cujo ensino, em pleno século XXI, está restrito aos meninos. Talvez uma questão para ser levantada. Se algumas meninas frequentassem o cotidiano de JP, se ele tivesse um convívio com o jeito feminino de ser, será que alguma coisa pudesse se dar de outra maneira? Talvez sim, talvez não. Mas é um fato, o de que, nos dias de hoje, um homem não só se encontre com o sexo oposto no santo altar. As mulheres estão na cena do mundo e não mais restritas ao lar. Esta é uma das questões particulares desse colégio que frequentei e tenho saudades.
Há hoje um ranking de escolas, o São Bento, tanto quanto algumas outras, é sempre destaque. Eu conheci Homero, Sófocles, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade nesse colégio. Minha querida e inesquecível professora Dona Amélia recitava em lágrimas versos de Drummond. Eu não estudava para o vestibular, estudava para ser gente.
Contudo, há outro aspecto polêmico: os dogmas religiosos. Devo dizer que os valores cristãos influenciaram minha educação e o meu pensamento. Não digo o mesmo da Igreja Católica Apostólica Romana e, muito menos, da Igreja Evangélica cuja institucionalização do cristianismo, suas práticas e discursos me despertam muitas críticas e restrições. Mas, Lacan adiantou que a religião triunfará sobre a ciência. Vou aqui parafraseá-lo quando fala das psicoterapias: “Não é que não ajude, é que leva ao pior”.
Fazer o bem acima de tudo é o que há de pior, pois Freud nos fala do impossível desse mandamento. “Quero o teu bem à imagem do meu”. É isso que queremos para os nossos filhos, que eles sejam aquilo que não fomos. Em outras palavras, desejamos para nossos filhos os nossos fracassos, o que não conquistamos.
Não preparamos nossos filhos para serem sujeitos de um mundo que nos transcenda, queremos que eles realizem nossas frustrações. Pais que somos no desamparo de nossa existência errante, descontínua e faltosa. “Senhor, tende piedade de nós”. Seres que dormem sonos perturbados, enquanto as crianças de nossos sonhos se perdem no desafio de sobreviver neste mundo cão, neste mundo do sucesso material e do sacrifício da diferença_ de uma maneira própria de existir.
O que queremos para os nossos filhos quando os matriculamos numa escola não para aprenderem o novo, a novidade, mas para serem números de uma estatística bem sucedida? “O Colégio PhD....(Sei lá o que?) obteve 90% de aprovação no Vestibular”.  É isso que realmente importa? Isso garantirá o futuro de seu filho? Vamos abrir os olhos, pois crianças e adolescentes caem da janela de seus próprios sonhos e fantasias.
Responsabilidade, empenho e estudo são elementos necessários para alcançar metas, objetivos e etc. Alguns conseguem mais, outros nem tanto. O potencial humano não se mede pela quantidade, mas se apresenta na forma particular como cada um lida com seus limites e dificuldades. O mercado é competitivo, mas não podemos negligenciar valores como respeito e tolerância.
JP se foi precocemente. Poderia ser o meu filho, o seu filho. Poderia estudar em diversas escolas desse mundo altamente competitivo que não quer saber da diferença. Quem sabe haverá um Blade Runner quando nos tornarmos máquinas rebeldes e incapazes de amar?

* Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ

terça-feira, abril 24, 2012

As fraturas da vida

Dr. José Nazar *

Felicidade, isso não existe! As religiões, as neuroses, as drogas, os bens materiais em excesso, tudo isso são artifícios para que você possa continuar vivendo às custas do esquecimento de uma dor, que é própria de sua vida. Desde que nasce, o ser humano é marcado por uma fratura, aquela que é sua marca originária e que ditará sua maneira particular na vida.
Isso lhe causa horror e, por isso, você se defende alimentando-se de amargas ilusões.
Qual é o seu grande medo? Você não quer saber que a morte é real! Por isso mesmo, você se arma, se engana, constrói roupagens para se proteger do medo que esse encontro poderia lhe causar. Isso dificulta sua relação com o desejo.
A realidade é traumática demais. Você utiliza, como proteção, toda sorte de fantasias. Frente ao vazio da existência, você responde a partir de suas fraturas internas, suas crenças excessivas, seus sintomas, suas angústias, suas feridas internas.
Por mais que corra de si mesmo, se refugiando no casulo de seu espelho narcísico, você será marcado por uma divisão na alma, no mais íntimo de seu ser.
A única saída para o humano é tentar se reconciliar com as perdas operadas na vida e procurar aproximar-se de seu desejo, reduzindo danos.
Diante da miséria que o habita, você se reconstrói a partir de um mito individual, para poder se suportar um pouco mais. Suas ilusões são mecanismos para você continuar se enganando frente a espelhos viciados de um amor narcísico. Você foge de quê?
O ser humano é feito de fraturas, de altos e baixos, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Desde que nasce, ele já carrega uma nuvem de sentimentos alternantes, numa verdadeira bi-polaridade. Isso tem a ver com a historicidade familiar de cada um, seus traumas que determinam lembranças agradáveis e ou desagradáveis.
Você tem como saída possível refletir sobre si mesmo, para tornar sua vida menos pior. Pode ser que seja bem sucedido e viva melhor, pode acontecer que você sucumba às suas próprias emoções desconhecidas, e isso leva ao pior!
No aqui e agora ou num futuro próximo, você vai se defrontar com a mordida do lobo. Ninguém escapa da mordida do lobo, que são as fraturas da vida! Isso é certo e seguro. Todo e qualquer ser humano carrega, no mais íntimo de seu ser, uma perda, que é vivida como uma mordida, um arranchamento das garantias e certezas. Somos doentes por natureza, o que permite fazer história. O problema é saber se a fratura é interna ou externa, encoberta ou a céu aberto. Eis a questão! A escolha desse título é intencional, porta um duplo sentido. Por um lado diz que todo ser humano é fraturado e, por outro, aponta para a seguinte questão: a vida encontra sua possibilidade a partir de um corte na carne do sujeito, que o traumatiza. No entanto, estas mesmas fraturas lhe dão vida. Mas, o que é que fratura? São os ditos dos pais, suas boas ou más palavras, isto é, tanto as ditas quanto as silenciadas.
É isso que a psicanálise veio demonstrar: o ser humano é descentrado dele mesmo, o sexo é traumático e, por isso, gera fraturas que não permitem a você estar em paz consigo mesmo e com seus semelhantes. A felicidade não existe... o que há são alguns momentos de alegrias.
O sujeito humano não quer aquilo que deseja. Essa é sua depressão fundamental, a fratura não lhe permite estar em paz, nem consigo nem com o outro!

* José Nazar é psiquiatra e psicanalista (Escola Lacaniana de Psicanálise).