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quinta-feira, julho 11, 2013

A África é aqui

Rodrigo Constantino

Deu no GLOBO: Governo tratora oposição e aprova perdão de dívida de U$ 278,6 milhões do Congo

Governo e oposição travaram um duro embate no plenário na votação do projeto de resolução, do Executivo, que permitiu o perdão e reescalonamento da dívida de US$ 352,6 milhões do Congo, um dos quatro países que o Brasil está tirando da inadimplência, para que o BNDES possa financiar empreendimentos de empresas brasileiras nesses países. O PSDB , DEM e senadores do PDT e PMDB acusaram o governo congolês de ser uma ditadura corrupta, que tem crescimento superior a alguns estados pobres do Brasil. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) pediu verificação de quórum, mas a anistia foi aprovada por 39 votos dos governistas, contra 21 da oposição e duas abstenções.

O perdão será de US$ 278,6 e o resto, será reescalonado a perder de vista.

- A presidente Dilma quer beneficiar ditadores, governos corruptos que tem a mesma prática do governo daqui, de proteger mensaleiros. Estão acostumados a esconder coisas para fazer a gente de bobo e idiota - protestou Jarbas Vasconcelos.


O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) disse que o perdão passou por descuido na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) . Ele pediu também explicações sobre empréstimos secretos do BNDES para Cuba e Angola.

- O governo do PT está fazendo generosidades com o chapéu do povo brasileiro a ditaduras sangrentas e corruptas, que esmagam sua população, com denúncias de lavagem de dinheiro no nosso país. Com isso abre perspectiva para o BNDES continuar oferecendo empréstimos a essas nações, o que mais grave - protestou Álvaro Dias.

- Essas operações se transformaram em relações comerciais que não vem acompanhadas das devidas explicações. Estamos também buscando informações sobre operações do BNDES que estão sob o carimbo do sigilo para Cuba e Angola - completou o presidente do PSDB, Aécio Neves (MG).

No comando da tropa de choque governista, estavam os líderes Wellington Dias (PT-PI), Eduardo Braga (PMDB-AM), José Pimentel (PT-CE) e Vanessa Graziottin (PCdoB-AM).

- Pode ser que naquela época era um regime de ditadores, mas as relações comerciais do Brasil são interessantes. Temos que parar com essa coisa tupiniquim. Temos produtos em condições de exportar. Temos que ter um olhar especial para esses países - defendeu Wellington Dias.

O líder do Democratas, José Agripino (RN), lembrou que há milhares de pequenos produtores rurais no Nordeste tendo suas terras tomadas pelo governo, porque não consegue reescalonar suas dívidas com bancos oficiais. E esse mesmo critério de anistia não é aplicado a eles.

- Está se perdoando dívidas de países que crescem muito mais do que o Nordeste. Eu gostaria imensamente que as dívidas dos pequenos produtores rurais do semiárido tivessem o mesmo tratamento quando os oficiais de Justiça batem a sua porta para tomar suas terras - disse Agripino.

Eduardo Braga apelou para a pobreza dos países africanos:

- Não é possível que vamos penalizar um povo tão humilde e necessitado como o povo africano!

- Se é questão de ajudar os necessitados, que tal ajudar o povo do Nordeste que passa por uma das piores secas da sua história? A gente deveria primeiro defender os nossos pobres - rebateu Jarbas.

- Está todo mundo endividado aqui no Brasil e o cara do Congo, da conga sei lá, comprando apartamento milionário no Rio de Janeiro vai ter sua dívida perdoada? Não temos que perdoar nada! - protestou o senador Ivo Cassol (PP-RO).

Sem sucesso, com maioria esmagadora no plenário, o governo aprovou o perdão da dívida do Congo. O primeiro de uma fila, dos prometidos por Dilma em sua passagem pela África.

Comento: A postura do governo é, claramente, um acinte, um ataque ao pobre povo brasileiro, que trabalha duro, por cinco meses do ano, somente para pagar impostos. Isso significa transferir recursos dos brasileiros humildes para empresários ou ditadores ricos. O governo brasileiro quer comprar o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, assim como ajudar alguns poucos e grandes empresários brasileiros que fazem negócios com países africanos. 

Mascarar esses reais interesses pérfidos sob o manto do altruísmo e da solidariedade é uma afronta. Pobreza nós temos aqui de sobra; não precisamos ir para a África para vê-la. Perdoar a dívida desses países é abrir mão do dinheiro que pertence ao povo brasileiro, não ao PT. Isso sem falar que nem mesmo tal ato, tão defendido por gente como o cantor do U2 Bono, nem mesmo ajuda os africanos. 

Ao contrário: isso apenas reforça a idéia de que esses governos africanos não são bons devedores, e que, portanto, não merecem novos créditos. Ninguém ganha com isso, à exceção do PT, de meia dúzia de grandes empresários, e dos ditadores corruptos da África. A África é aqui. E o PT faz de tudo para perpetuar essa condição...

segunda-feira, setembro 05, 2011

A África de Naipaul

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

QUER CONHECER um pouco sobre a África? Leia V. S. Naipaul. Recomendo. Aliás, o Nobel recomenda. Mas Nobel não basta. Saramago foi Nobel e sempre o achei um chato. Seu livro sobre Caim é um desfile de bobagens e desinformações sobre a Bíblia. Qualquer um que conheça um pouco desse clássico da literatura hebraica antiga perceberá que Saramago não entendia nada sobre o assunto.
Leia "A Máscara da África - Vislumbres das Crenças Africanas", publicado no Brasil pela Companhia das Letras. O livro traz a narrativa da recente visita de Naipaul a alguns países da África. O resultado é um jornalismo sofisticado em detalhes e reflexivo tanto na forma quanto no conteúdo.
O intrigante, hoje em dia, é que muito "inteligentinho" acha que combater o preconceito é inventar mitos de bondade e pureza sobre o "outro". Naipaul é um antídoto contra essa doença infantil.
Aliás, algo que surpreende Naipaul com relação à África é o fato de que muitos povos de lá não tinham alcançado a escrita antes de entrar em contato com muçulmanos e cristãos (ou seja, "ontem"), quase todo seu passado é mito e quase nada é história. É mais ou menos como viver em delírio constante quanto ao seu passado, sem saber o que de fato foi real e o que foi apenas devaneio.
É comum tratar Naipaul como "eurocêntrico", o que, por si só, já é uma boa recomendação, pois significa que a moçada politicamente correta, que exerce essa censura sem caráter, não gosta dele.
Não há nada no livro que nos remeta a "preconceitos", mas há, sim, muita coisa que revela a tristeza que ainda assola a África e que sempre existiu, mesmo antes dos absurdos que os brancos fizeram por lá. A grande mentira sobre a África é que os brancos tornaram-na violenta, pobre e infeliz. Não, ela é assim há muito tempo. Mas os europeus tampouco ajudaram.
Hoje em dia, é comum obrigar alunos a estudar a história da África. Pergunto-me como isso é feito. Temo que a África seja compreendida como um doce de coco que só não é melhor por culpa dos malvados brancos.
Não, todos os homens são maus, pouco importam cor, sexo, raça ou crença. Alguns poucos se destacam pelo bem. É verdade que esgotos, estradas e a recusa embutida nos sacrifícios humanos ajudem um pouco a você deixar de ser um bárbaro.
O livro de Naipaul dá atenção especial às crenças africanas. A catequese cristã e a islâmica destruíram o tecido das crenças ancestrais de muitos africanos, os deixando nem lá nem cá.
Por exemplo, queimar pessoas vivas foi um hábito dos povos africanos até "ontem". Ou melhor dizendo, até "hoje".
Matar, despedaçar, cortar órgãos e queimar pessoas por razões religiosas (e outras) sempre foi uma prática comum entre povos de Uganda, por exemplo. Em grandes quantidades.
Sim, eu sei que europeus também fizeram isso. Lembra o que eu disse acima sobre os homens serem maus? Mas a questão aqui não é essa, mas, sim, combater o "preconceito" de que a miséria material e moral africanas tenham sido criadas pelos europeus.
O encontro de culturas que não conheciam a roda até "ontem" (é isso aí...) com os colonizadores europeus (que nunca tiveram nada de bonzinhos) criou países à deriva.
Exemplos de tragédias cotidianas entre populações pobres numa mesma edição de um jornal ugandense:
1 - "Homem queima dez pessoas numa cabana". Um homem briga com sua mulher, joga gasolina e toca fogo. Entre as dez pessoas, sete eram crianças.
2 - "Meu marido foi cortado em pedaços com um machado na minha frente". Além de matar o marido, o assassino cortou uma mão da mulher; enquanto despedaçava a vítima, acusava-a de poligamia, daí a suspeita de que algo de cristianismo x "paganismo" estava em jogo na "disputa".
3 - "Acusada de queimar filho vivo". Esse parece ser um gosto da "cultura ugandense" mais "primitiva": queimar gente viva; o filho de 18 meses estava num saco com as pernas atadas.
Fora as manchetes, a bruxaria é comum até hoje. Diretores de escolas podem ser mortos por serem acusados de bruxaria e irmãos podem matar sua tia de 42 anos, além de arrancar sua mandíbula e sua língua com o intuito de fazer mágica. Até hoje, a bruxaria é "oficial" em muitos lugares da África.
Puro neolítico?