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sábado, julho 20, 2013

Carta ao jovem brasileiro - II


Doutor José Nazar *

Que grito é esse “das ruas”? O que está por traz dele, o que desejam esses “jovens”?
Os especialistas não arriscam a dar uma resposta. Eles acreditam que o tempo poderá explicar o motivo e a razão desse movimento que, ao meu ver, engatinha.
Sabe-se que o país encontra-se mergulhado numa crise de valores morais, políticos e éticos. Há uma insatisfação e uma desconfiança generalizadas. Elas se devem à uma perda da legitimidade das instituições governantes.
Toda crise é sinal de turbulência mas, também, de abertura. Pode levar ao pior mas, quando bem conduzida e isso, tanto no plano pessoal quanto social, pode levar a melhoras estruturais. Isso só ocorre quando os anseios de mudanças diagnosticados, acolhidos, escutados e, quando possível, bem tratados. Há desejo de mudanças.
O diálogo é a verdadeira arte de bem dizer o ato político. Ele cria as brechas necessárias para que se insemine o assentimento à lei.
Mesmo que a mídia repita incessantemente que os jovens brasileiros conseguiram arrastar consigo milhares de famílias da classe média às ruas, unindo suas vozes numa reivindicação de melhores serviços públicos, tais como: educação, saúde, segurança  e transportes, a pergunta insiste: que interpretação dar a esses movimentos?  
Mas há um fator que chama a atenção. Mesmo no auge do clamor das ruas, alguns homens públicos exacerbam uma prática desavergonhada da corrupção. Há uma compulsão à transgressão que tornou-se uma norma: “eu faço porque todos fazem”! E na medida em que, historicamente, há a certeza da impunidade, esses políticos tomam a coisa pública como um bem próprio. Trata-se de uma relação incestuosa, sem culpa, sem lei, sem mediação paterna, uma atualização de questões patológicas da vida privada, obscenamente atuada no público. Parece que esse mal  está no sangue, e tornou-se difícil de ser tratado e extirpado.
Os brasileiros não suportam mais fingir que a corrupção não existe. Fatos evidenciam que essa praga, a corrupção, tornou-se uma doença epidêmica, algo de difícil tratamento. É como um câncer incurável, com metástases, invadindo os tecidos das instituições nacionais, umas mais que outras.
O que está na base desse distúrbio social, desse fenômeno que tem conseguido unir o povo, que se constrói a partir de uma insatisfação generalizada? O que esses jovens desejam em suas fortes movimentações?
É evidente que essas vozes que tomaram as ruas não se dirigem apenas ao poder público. Os gritos são dirigidos às autoridades mas, isso vai mais longe e as exigências convocam cada um dos cidadãos, pais, professores, educadores, a um questionamento.
Por anda a lei, os pais, as autenticidades dos atos? Onde está a legitimidade do ato de governar? Em nome do quê está se governando?
Os jovens são sensíveis à questão da legitimidade. Eles só aceitam limites quando estes partem de um lugar reconhecido por seu compromisso com a verdade de uma dignidade daquele que institui esses limites. Isso quer dizer que o discurso inconsciente, vigorando nas entrelinhas do discurso enunciado, deixa transparecer o verdadeiro e o falso. Todo jovem se apoia na verdade que recebeu dos adultos para adentrar, com dignidade, ao mundo adulto.
O governo está infantilizando o povo brasileiro, arrancando sua capacidade de fazer escolhas autênticas, porque ele julga saber “o melhor para o povo”. Os jovens brasileiros estão numa anorexia a um poder legítimo que abra caminhos dignos de seus desejos. Os que ocupam o poder público esqueceram do vigor de suas próprias aspirações de juventude.
O grito de cada jovem encontra eco na voz que denuncia o desconforto com os atos desencontrados das autoridades brasileiras, que dizem uma coisa e fazem outra!
A função que está sendo profundamente interrogada nessas manifestações é a autoridade paterna. É desta que advém o assentimento às leis que regem as relações humanas, de onde emergem as condições de desejo. A educação é base que construiria valores mais duradouros. É a estrada sólida para alguém trilhar seus sonhos e, no entanto, encontra-se obstruída pela indiferença daqueles que dela deveriam zelar, permitindo a construção de um futuro promissor.
O inconsciente da juventude capta a não legitimidade daqueles que ocupam os lugares máximos da nação. Isso quer dizer que não lhes passa despercebido o fato de que um governo só alcança o reconhecimento verdadeiro do povo quando seu projeto visa ao bem desse povo, e não ao poder pelo poder. Entenda-se, aqui, “o bem” como serviços básicos: educação, saúde, transporte, emprego, segurança de qualidade.    
Jovem manifeste-se, mas com moderação!

* Psiquiatra e psicanalista - Escola Lacaninana de Psicanálise/RJ e ES

sábado, julho 06, 2013

Carta ao jovem brasileiro

Dr. José Nazar *

Dirijo-me a você, jovem brasileiro, não sem correr o risco de ser chamado de ingênuo, de alguém ultrapassado, de um desses que não percebe o que está se passando.
Insisto, desejo lhe dizer algo que julgo de extrema importância: frente à esse momento de turbulência política e econômica vivida por nosso País peço-lhe, meu caro jovem: Acredite! Acredite que é possível uma democracia mais saudável, ética, com valores morais e não moralista, preconceituosa. Ter ideais é próprio do jovem mas, devo lhe prevenir, todo ideal – seja ele uma ideologia política, religiosa ou outra qualquer -, é enganador. Apesar disso, é próprio da juventude se sustentar nos ideais porque eles são a centelha de liberdade da transição da família para o mundo adulto.
Hoje, como em toda história de mudança, você é aquele que clama pelo novo, pela verdade, pela queda do conformismo. Você, meu caro jovem, nos desperta do sono alienado de quem não acredita mais em mudanças. Portanto, jovem, cabe a você a responsabilidade de renovar as esperanças adormecidas em nossa comodidade cotidiana, nossa desesperança por lutar por um Brasil mais justo, que começa com o exemplo de políticos mais dignos de nos representar.
Mudanças virão pela frente, passo a passo, mas alguma coisa certamente já se encontra em andamento. Não é comum alguém se dirigir a um jovem através de uma carta. Sei que você, como tantos outros, receberá essa mensagem com um certo ar de desconfiança. Afinal, sempre há aproveitadores de ocasião para fazer valer suas ideias mirabolantes e perversas, mal intencionadas, no bojo de um movimento justo e sinceramente engajado na direção de uma verdadeira mudança para o País. Acredite, você é o operador das mudanças necessárias para o que está aí! Acredite, mas não se deixe cooptar pelas forças, oportunistas, que querem se aproveitar da legitimidade de um movimento para impor velhas decisões cujo único intuito é a manutenção do poder pelo poder. Reivindiquem um verdadeiro discurso político e não se deixem conduzir pela politicagem barata que, afinal, custa caro para todos, ricos e pobres, jovens e velhos: o preço de uma estagnação social, econômica, política e, porque não, do desejo de cada um.
Se você olhar nos olhos de seus pais verá que estão sem brilho, tomados de um certo medo do que está por vir, cansados de promessas jamais realizadas, oprimidos por impostos cuja razão – serviços – não são justificáveis. A angústia deles é o espelho da situação incompreensível em que se encontra um País que, sob o olhar estrangeiro, teria sido “a bola da vez”. No entanto, o País continua com sua velha política autoritária de infantilizar seu povo, supondo que sabe o que ele precisa, ao invés de perguntar a todos os segmentos sociais, e não somente a um, suas reais e legítimas aspirações. Afinal, não se constrói uma nação apenas distribuindo a renda amealhada com os duros impostos injustificáveis, pagos com o suor do trabalho de muitos. Todos querem um Brasil mais justo porém, este Brasil não pode ser desenhado com as canetadas irresponsáveis daqueles que julgam que o sangue do povo é a boa tinta para seus decretos!
Jovem, queira um País habitado por seres de desejo e não, infantilizados por bolsas que não resolvem a bagagem de miséria, desigualdade, etc., de séculos. É sabido que essas abominações só se resolvem com educação, saúde e serviços de qualidade, mesmo que isso não dê votos à curto prazo. Um país não se constrói quatro, oito, doze anos de governo, mas num projeto contínuo de insistência nos valores de base de uma democracia verdadeiramente voltada para as vozes das ruas onde, afinal, circula o povo.
As crianças que vivem pelas ruas sabem muito bem a importância desse espaço de visibilidade. As ruas margeiam o que está estabelecido e, portanto, são o verdadeiro celeiro de mudanças na medida em que, em seu território, todos e tudo circula.
Os jovens estão sempre um passo à frente de seus pais, porque precisam cavar seu lugar nas instituições vigentes. Por isso, não têm compromisso com os aparelhos que vigoram e, também por isso, têm mais vigor para brigar pelo justo.

* Psiquiatra e psicanalista (Escola Lacaniana de Psicanálise)

quinta-feira, setembro 06, 2012

Saber fazer com o sintoma!

Por Dr. José Nazar

Mas, meu Deus, o que fazer com o sintoma desse homem? Vocês não veem que ele só consegue cantar suas óperas quando está tomando banho no chuveiro! O que fazer, ficamos paralisados, sem nada fazer?

Nada disso, temos de encontrar uma saída para este impasse, pois eu me lembro muito bem que Picasso certa vez disse: “eu não procuro, acho”. Sim, vamos pois achar uma saída, um meio para que esse desejo se realize, para que uma voz venha ser cantada, exaltada, sem medo de um sucesso, em sua revelação pública.
Mas ele só consegue cantar.... 

Ora, bolas, inventa-se alguma coisa, pense, algo deve ser possível. É isso, vamos colocá-lo em cena, cantando as suas mais lindas óperas, tomando banho num chuveiro, em público. Mas que escândalo! 

Quem poderia pensar numa loucura, tão criativa quanto iluminada, senão alguém que, certamente, fora levado em sua vida, a construir algumas saídas tão exuberantes como esta?

O que falar sobre este fantástico deslocamento, disso que leva alguém a ultrapassar suas inibições, rumo ao sucesso de uma realização? O sujeito não vai mais se acovardar diante de seu desejo, ele passa a aprender a fazer um bom uso das suas dificuldades, chega de acomodações!

Esta cena se passa no último filme de Woody Allen, “Para Roma, com amor”, onde ele diz que desejar é preciso. E ela somente foi possível em função do transcurso da vida psicanalítica. O diretor e ator, Woody Allen, submete-se à psicanálise desde sua infância. Por sofrer, ele pode criar, passar para outra coisa.

O seu entendimento do psiquismo humano permitiu a ele mostrar que é possível realizar mudanças significativas na vida de alguém, que é possível fazer algo positivo, criativo, com o sofrimento humano, no sentido de transformá-lo no melhor, mais livre, de enfrentar as angústias, os emperramentos que acometem o sujeito no mais fundo de seu ser, quebrar as amarras dos sintomas, das inibições, olhar no olho do lobo, olho no olho do furacão, dos transtornos que o abatem, aí, sim, ele pode mostrar, com todas as letras, como fazer um bom uso de seu sintoma. Isso que o molestava agora trabalha a seu favor.

O desenrolar do filme transcorre sob o matiz da busca de um certo desejo daquilo que já está ali. Um desejo que mais tarde será colocado, em sua arte de viver, na voz de um pai, que sob o manto de todas as resistências, sociais e familiares, explode ao olhar do público.

O personagem central do filme é um homem, já aposentado, que é obrigado a ouvir os absurdos insistentes da sua mulher, uma psiquiatra, que não faz outra coisa senão repetir uma mesma interpretação: “você está doente, vive associando sua aposentadoria com a morte”. 
Uma crítica séria mas, ao mesmo tempo, ilustrativa de uma realidade humana. Mas, ele estava ali, mais vivo do que nunca, e somente ele pode escutar que, por trás do ambiente cerceado pelos fantasmas de morte, a vida emerge como uma gigantesca fome de viver. É coisa de pai para pai!

Ele e a sua mulher partem para Roma para conhecer o noivo de sua filha e, de saída, sua família. O noivo é um belo italiano, jovem advogado, cujo sintoma é se esconder numa farsa do capitalismo, se acoberta nos bastidores de uma falsa ideologia de esquerda, ligada aos sindicatos trabalhistas. É evidente que o jovem não faz outra coisa senão justificar, com a sua acirrada posição socialista, o grande medo que ele e, portanto, sua família, tinha do sucesso. 

O sucesso do pai que cantava belíssimas óperas no chuveiro tomando seu banho ao entardecer. O sintoma, que se fazia recobrir de medos e fartas justificativas, o sucesso que vivia na sua alma, ao seu lado, dentro de sua casa, e que fazia tanto barulho, que era impossível não escutá-lo... na voz do pai. 

Woody Allen, o aposentado, especialista em óperas, deixa transparecer seu sintoma obsessivo, é lógico, que já por demais analisado, com seus temores de contaminação. O pai do noivo lida diretamente com a morte. Ele é proprietário de uma agência funerária, sua vida caminha às custas da morte, mas seu desejo estava à espera de uma escuta.

José Nazar é psiquiatra e psicanalista.

Artigo publicado no Jornal A Tribuna - ES