Rodrigo Constantino, O GLOBO
“O que me preocupa não é o grito dos maus; é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King Jr.)
Diz-se que um sapo jogado num recipiente fervendo pula e sobrevive, mas, se a temperatura da água subir gradualmente, ele permanece até se esturricar. Por pena do batráquio, nunca fiz o teste. Mas, aceitando sua veracidade, o brasileiro parece um sapo escaldado: acostumou-se a ser cozinhado lentamente sem reagir.
Se um suíço caísse de paraquedas por aqui e olhasse em volta, ficaria horrorizado. Imaginem uma conversa de bar entre um suíço que acaba de chegar ao país e um típico brasileiro:
– Seu país é muito belo. Mas que sufoco aquele aeroporto, não? Sem falar das estradas. O que acontece?
– É que falta dinheiro para o governo.
– Mesmo arrecadando quase 40% do PIB em impostos?
– O governo tem outras prioridades: o trem-bala, a construção de Belo Monte, os subsídios do BNDES para grandes empresas e estádios de futebol. Por isso que a Infraero, estatal que controla os aeroportos, não investe o suficiente.
– E o governo vai gastar bilhões com coisas supérfluas enquanto a infraestrutura do país encontra-se em frangalhos? Se a Infraero é incapaz de atender a demanda, por que ela não é privatizada?
– A presidente até sinalizou nesta direção. Mas é que este governo sempre condenou as privatizações. Os petistas acreditam num Estado-empresário, locomotiva do progresso.
– Em pleno século 21? Que coisa! Mudando de assunto, notei que a imprensa mostra diariamente inúmeros escândalos de corrupção. As cadeias devem estar repletas de políticos, certo?
– Que eu saiba, não há político algum preso.
– Nem aqueles “mensaleiros”? Mas eu vi que um poderoso ex-ministro foi acusado de “chefe de quadrilha”. Ele continua solto?
– Nem foi julgado ainda.
– Mas o “mensalão” não foi em 2005?
– Pois é.
– Que absurdo! Na Suíça ele estaria cumprindo pena há anos! Isso é a “banalização do mal”. Será que crime e impunidade são vistos como coisas normais por aqui?
– Todos fazem mesmo. Além disso, nós precisamos é de mais “justiça social”.
– Isso é muito perigoso! É o “ovo da serpente” quando a população fica complacente com o crime e não responsabiliza o indivíduo por seus atos. Mas vi que o povo ainda tem alguma capacidade de mobilização. Não tiveram marchas populares recentemente?
– Sim. Marcha das vadias, dos gays e pela legalização da maconha.
– Quer dizer então que a criminalidade ocorre à luz do dia, a impunidade é total, a infraestrutura está podre mesmo com impostos abusivos, e o povo vai às ruas pelas vadias, gays e maconha? Nada contra estas causas em si. Mas não te parece um despautério?
– Pode ser.
– Vocês não conseguem mais se indignar? Perderam as esperanças? Lembre-se: basta que as pessoas de bem nada façam para o mal triunfar. O preço da liberdade é a eterna vigilância. Uma sociedade de cordeiros desarmados terá sempre um governo de lobos. Vocês estão brincando com fogo!
– Mas nós temos o carnaval, o futebol e a praia.
– Desde os romanos sabemos dos riscos do “pão e circo”. Escravos miseráveis tinham o Coliseu para se manterem entretidos e, com isso, ignorar os abusos dos governantes. Mudando radicalmente de assunto: explica essas tomadas que vi pelo país todo, e que não tem em nenhum outro lugar do mundo.
– O governo decidiu um padrão novo de tomada e é obrigatório para todos, por questão de segurança.
– O governo escolhe até as tomadas? Segurança não há, porque notei que muitos usam adaptadores vagabundos. Aliás, é espantoso o grau de intervenção do governo central no Brasil. Nunca ouviram falar no federalismo?
– Vagamente.
– São aqueles cantões que decidem as coisas públicas de forma bem descentralizada e próxima do cidadão.
– Este modelo de vocês pode até funcionar melhor, mas não tem o “calor humano” brasileiro.
– Nós somos uma nação meio “fria” mesmo. Não temos o “jeitinho” e a malandragem dos brasileiros. Em compensação, temos uma renda per capita acima de 40 mil dólares, baixa criminalidade, corrupção quase inexistente, inflação praticamente nula, elevada expectativa de vida e ótimos indicadores sociais. Sem falar do respeito às liberdades individuais e à propriedade privada. Para quem busca fortes emoções, a Suíça não é o local mais adequado. Talvez o Iraque, a Venezuela ou o Brasil. Já para quem busca tranqüilidade, paz, liberdade e prosperidade...
– Mas quem precisa disso tudo quando se têm as Olimpíadas e a Copa do Mundo? Eu tenho orgulho de ser brasileiro!
Nisso, entrou um sujeito no bar e gritou:
– Mãos ao alto que isso é um assalto!
“Haja emoção”, pensou o suíço.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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terça-feira, julho 26, 2011
terça-feira, junho 28, 2011
Em defesa da chatice
JOÃO PEREIRA COUTINHO, Folha de SP
A SUÍÇA é chata. Diz a sabedoria popular. E acrescenta, com horror: um país que só produz relógios e chocolates não pode ser excitante.
Podemos sempre replicar: depende dos relógios e depende dos chocolates. Sem falar dos queijos. Já provou, leitor?
Mas não contesto. Chata, sim, chatíssima, sobretudo se a compararmos com lugares mais animados -a Somália, por exemplo.
Talvez por isso eu goste tanto dela. É um princípio pessoal: só viveria em países onde ninguém se intromete na vida de ninguém. Esse vício tem nome: liberdade. E muitos procuraram liberdade na chatíssima Suíça, lugar de exílio, labor e inspiração para incontáveis fantasmas.
Jorge Luis Borges morreu há 25 anos nesta mesma cidade de Genebra, onde estou. Ignazio Silone passou por cá. Charles Chaplin também viveu por estas bandas.
O norte da Europa, globalmente considerado, sempre foi isso: a última paragem dos renegados. Enquanto o sul perseguia ou queimava judeus, heréticos vários, livres pensadores políticos, o norte recebia-os. E tolerava-os. Sem os condenar.
Por isso que acompanhei com interesse o julgamento do parlamentar holandês Geert Wilders, aqui ao lado, em Amsterdã. Não por causa de Wilders, personagem que me é indiferente e um pouco repulsivo.
O que me interessava saber era se, em 2011, o norte da Europa continuava a ser esse espaço bem chato de liberdade e tolerância, onde é possível dizer as maiores barbaridades sem sentir o chicote da censura. Questão pessoal: eu posso um dia precisar desse espaço.
Mas relembremos o filme: Geert Wilders não é figura "consensual", como se diz. "Populista", "provocador", "fascista", "boçal" -os adjetivos e polêmicas abundam.
Tudo porque Wilders, em filmes ou discursos, gosta de descer o pau no Islã.
Diz ele: "O Islã é uma religião de violência e guerra". Diz mais: "O Alcorão é comparável ao "Mein Kampf", a autobiografia programática de Hitler e do nazismo". Diz ainda: "A Europa deve proteger o seu espaço público, evitando a "islamização" que é imposta por uma imigração muçulmana sem controle".
Pergunta sacramental: Geert Wilders tem razão no que diz?
Responder a essa questão é começar pelo lado errado.
Sim, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, é possível desmontar cada um dos argumentos radicais do homem.
Reduzir a religião islâmica a sua dimensão bélica é um erro grosseiro e tão fundamentalista como as leituras fundamentalistas dos mais fundamentalistas. Comparar o Alcorão ao "Mein Kampf" é não entender a natureza histórica, filosófica e rácica do nazismo.
E, sobre os perigos da imigração muçulmana, não é possível misturar a vasta maioria de muçulmanos que procura na Europa um porto de abrigo com as franjas mais perigosas e radicais -que existem e persistem, e que são um perigo verdadeiro para o Ocidente.
Mas tudo isso é secundário. Porque o problema principal é saber se Geert Wilders tem o direito de expressar opiniões fortes, desagradáveis e até equivocadas.
Aliás, não apenas a Wilders; a dúvida é extensível a todos aqueles que, antes dele e seguramente depois dele, navegaram e continuarão a navegar as mesmas águas: as águas da blasfêmia e da heresia.
O tribunal de Amsterdã não teve dúvidas: as palavras de Wilders podem ser fortes. Mas uma sociedade que não tolera palavras fortes será uma comunidade de cidadãos fracos: de gente que acabará por impor uma mordaça mental, em nome de sensibilidades particulares políticas, religiosas, morais.
A absolvição de Geert Wilders não é apenas uma vitória para ele ou para a "liberdade de expressão".
É uma vitória para a Europa ou para uma certa Europa que, depois de guerras longas motivadas por diferentes concepções religiosas, entendeu que a única forma de garantir um "modo de vida" comum passava por não perseguir as diferentes "paixões" em confronto.
Wilders não gosta do Islã. Muitos muçulmanos não gostam de Wilders. Não é grave. Grave seria se o impasse só pudesse ser quebrado pela morte de uma das partes.
Chamem-me antiquado, mas eu prefiro a chatice do impasse a qualquer excitação sanguinária.
A SUÍÇA é chata. Diz a sabedoria popular. E acrescenta, com horror: um país que só produz relógios e chocolates não pode ser excitante.
Podemos sempre replicar: depende dos relógios e depende dos chocolates. Sem falar dos queijos. Já provou, leitor?
Mas não contesto. Chata, sim, chatíssima, sobretudo se a compararmos com lugares mais animados -a Somália, por exemplo.
Talvez por isso eu goste tanto dela. É um princípio pessoal: só viveria em países onde ninguém se intromete na vida de ninguém. Esse vício tem nome: liberdade. E muitos procuraram liberdade na chatíssima Suíça, lugar de exílio, labor e inspiração para incontáveis fantasmas.
Jorge Luis Borges morreu há 25 anos nesta mesma cidade de Genebra, onde estou. Ignazio Silone passou por cá. Charles Chaplin também viveu por estas bandas.
O norte da Europa, globalmente considerado, sempre foi isso: a última paragem dos renegados. Enquanto o sul perseguia ou queimava judeus, heréticos vários, livres pensadores políticos, o norte recebia-os. E tolerava-os. Sem os condenar.
Por isso que acompanhei com interesse o julgamento do parlamentar holandês Geert Wilders, aqui ao lado, em Amsterdã. Não por causa de Wilders, personagem que me é indiferente e um pouco repulsivo.
O que me interessava saber era se, em 2011, o norte da Europa continuava a ser esse espaço bem chato de liberdade e tolerância, onde é possível dizer as maiores barbaridades sem sentir o chicote da censura. Questão pessoal: eu posso um dia precisar desse espaço.
Mas relembremos o filme: Geert Wilders não é figura "consensual", como se diz. "Populista", "provocador", "fascista", "boçal" -os adjetivos e polêmicas abundam.
Tudo porque Wilders, em filmes ou discursos, gosta de descer o pau no Islã.
Diz ele: "O Islã é uma religião de violência e guerra". Diz mais: "O Alcorão é comparável ao "Mein Kampf", a autobiografia programática de Hitler e do nazismo". Diz ainda: "A Europa deve proteger o seu espaço público, evitando a "islamização" que é imposta por uma imigração muçulmana sem controle".
Pergunta sacramental: Geert Wilders tem razão no que diz?
Responder a essa questão é começar pelo lado errado.
Sim, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, é possível desmontar cada um dos argumentos radicais do homem.
Reduzir a religião islâmica a sua dimensão bélica é um erro grosseiro e tão fundamentalista como as leituras fundamentalistas dos mais fundamentalistas. Comparar o Alcorão ao "Mein Kampf" é não entender a natureza histórica, filosófica e rácica do nazismo.
E, sobre os perigos da imigração muçulmana, não é possível misturar a vasta maioria de muçulmanos que procura na Europa um porto de abrigo com as franjas mais perigosas e radicais -que existem e persistem, e que são um perigo verdadeiro para o Ocidente.
Mas tudo isso é secundário. Porque o problema principal é saber se Geert Wilders tem o direito de expressar opiniões fortes, desagradáveis e até equivocadas.
Aliás, não apenas a Wilders; a dúvida é extensível a todos aqueles que, antes dele e seguramente depois dele, navegaram e continuarão a navegar as mesmas águas: as águas da blasfêmia e da heresia.
O tribunal de Amsterdã não teve dúvidas: as palavras de Wilders podem ser fortes. Mas uma sociedade que não tolera palavras fortes será uma comunidade de cidadãos fracos: de gente que acabará por impor uma mordaça mental, em nome de sensibilidades particulares políticas, religiosas, morais.
A absolvição de Geert Wilders não é apenas uma vitória para ele ou para a "liberdade de expressão".
É uma vitória para a Europa ou para uma certa Europa que, depois de guerras longas motivadas por diferentes concepções religiosas, entendeu que a única forma de garantir um "modo de vida" comum passava por não perseguir as diferentes "paixões" em confronto.
Wilders não gosta do Islã. Muitos muçulmanos não gostam de Wilders. Não é grave. Grave seria se o impasse só pudesse ser quebrado pela morte de uma das partes.
Chamem-me antiquado, mas eu prefiro a chatice do impasse a qualquer excitação sanguinária.
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