O público e o privado *
A revolução audiovisual de nosso tempo derrubou as barreiras que a censura opunha à livre informação e à discordância crítica, e, graças a isso, os regimes autoritários têm muito menos possibilidade do que no passado de manter seus povos na ignorância e de manipular a opinião pública. Isso, evidentemente, constitui um grande progresso para a cultura da liberdade e devemos aproveitá-lo. Mas daí a concluir que a prodigiosa transformação das comunicações, representada pela internet, autoriza os internautas a saberem de tudo e a divulgarem tudo o que ocorre sob o sol (ou sob a lua), fazendo desaparecer de uma vez por todas a demarcação entre o público e o privado, há um abismo que, se abolido, poderia significar não uma façanha libertária, mas pura e simplesmente um liberticídio que, além de minar as bases da democracia, infligiria duro golpe na civilização.
Nenhuma democracia poderia funcionar se desaparecesse a confidencialidade das comunicações entre funcionários e autoridades, e nenhuma forma de política nos campos da diplomacia, da defesa, da segurança, da ordem pública e até da economia teria consistência se os processos que determinam essas políticas fossem expostos totalmente ao público em todas as suas instâncias. O resultado de semelhante exibicionismo informativo seria a paralisia das instituições, tornando mais fácil para as organizações antidemocráticas travar e anular todas as iniciativas incompatíveis com seus desígnios autoritários. A libertinagem informativa não tem nada a ver com a liberdade de expressão; ao contrário, é seu exato oposto.
[...]
Não se trata, pois, de combater uma "mentira", mas realmente de satisfazer a curiosidade mórbida e malsã da civilização do espetáculo, que é a de nosso tempo, em que o jornalismo (como a cultura em geral) parece desenvolver-se guiado pelo objetivo único de entreter. O senhor Julian Assange, mais que um grande lutador libertário, é um bem-sucedido entertainer ou animador, o Oprah Winfrey da informação.
* Trecho do capítulo com este nome do livro "A civilização do espetáculo", de Mario Vargas Llosa
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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sábado, julho 13, 2013
terça-feira, julho 09, 2013
Herói da liberdade?
Rodrigo Constantino
Segundo o site G1, o legislador russo Alexei Pushkov divulgou em seu Twitter, antes de apagar a mensagem, que Snowden aceitou a oferta de asilo da Venezuela. Diz a matéria:
Segundo o site G1, o legislador russo Alexei Pushkov divulgou em seu Twitter, antes de apagar a mensagem, que Snowden aceitou a oferta de asilo da Venezuela. Diz a matéria:
O presidente da comissão das Relações Exteriores da Duma (câmara baixa do Parlamento russo), Alexei Pushkov, disse nesta terça-feira (9) no Twitter que o americano Edward Snowden aceitou a oferta de asilo feito pelo governo daVenezuela."Como era esperado, Snowden aceitou a oferta do presidente (venezuelano Nicolás) Maduro sobre asilo político", disse. Pouco depois, o post foi apagado, segundo a agência Reuters.Simultaneamente, o porta-voz da Presidência russa, Mitry Peskov, evitou fazer qualquer comentário, e acrescentou que todas as perguntas deveriam ser feitas ao parlamentar.Depois, Pushkov explicou, também via Twitter, que havia sido informado da resposta positiva de Snowden à oferta venezuelana de asilo ao acompanhar informações da televisão estatal russa Vesti 24.
O Wikileaks já negou a informação. Mas sabemos que suas alternativas são buscar asilo em algum país com bem menos liberdade do que os EUA que ele denunciou. Assange, afinal, está sob os cuidados da embaixada do Equador até hoje, protegido por um governo bolivariano.
O que Snowden fez é motivo de muita controvérsia. Até que ponto é justificável trair seu governo para revelar algum abuso de poder do mesmo? Até que ponto é louvável divulgar informações sigilosas de seu empregador? Os fins justificam os meios? Enfim, o tema é complexo mesmo.
O que Snowden fez é motivo de muita controvérsia. Até que ponto é justificável trair seu governo para revelar algum abuso de poder do mesmo? Até que ponto é louvável divulgar informações sigilosas de seu empregador? Os fins justificam os meios? Enfim, o tema é complexo mesmo.
Mas uma coisa eu sei: não dá para compartilhar da adoração que alguns libertários têm por gente como Snowden ou Julian Assange, do Wikileaks. Por que será que eles investem seus ataques mais ao governo americano do que qualquer outro governo? E por que será que eles buscam refúgio justamente sob os piores regimes autoritários e antiamericanos?
Alguém em sã consciência diria que o governo americano é a grande ameaça à paz mundial, às liberdades individuais? Sim, o governo americano tem poder demais, e abusa dele. Merece ser vigiado, pois o preço da liberdade é a eterna vigilância. Não se pode cochilar, pois sempre há o risco de invasão de privacidade.
Mas me parece um foco muito mal calibrado essa obsessão contra o governo americano, por gente que diz lutar em nome da liberdade, e logo depois corre para as saias de tiranetes que desrespeitam totalmente as mesmas liberdades. Tamanha incoerência desqualifica por completo esses "heróis".
terça-feira, agosto 21, 2012
Tomates e ovos podres
João Pereira Coutinho, Folha de SP
Julian Assange aparece na janela da embaixada do Equador, em Londres. Prepara-se para falar às massas. Não consegue. Uma quantidade generosa de tomates e ovos podres atinge o seu rosto adolescente e pretensamente rebelde. A multidão aplaude. Os jornalistas também. Acabou o circo.
Envergonhado com a humilhação, Assange regressa para dentro da embaixada. Depois de um duche (frio) e de um café (forte), o foragido australiano decide ser homem pela primeira vez na vida e entrega-se às autoridades inglesas. Segue-se a extradição para a Suécia.
"The end."
Foi mais ou menos por essa altura que eu acordei. Assange ainda falava. Imbecilidades sobre imbecilidades. Infelizmente, ninguém jogou tomates ou ovos podres na cara dele. Deprimi.
Na janela da mesma embaixada, o fundador da Wikileaks vestia o traje de grande mártir da liberdade de expressão -- um insulto para qualquer jornalista sério -- e pedia aos Estados Unidos para pararem a "caça às bruxas" contra o Wikileaks.Na cabeça alucinada e apedeuta de Assange, o comportamento de Barack Obama só é comparável à perseguição anticomunista movida pelo Estado americano a alguns dos seus cidadãos em finais da década de 1940.
A comparação deveria ser repulsiva para qualquer criatura com erudição e neurônios. As perseguições anticomunistas do senador Joseph McCarthy foram uma deriva securitária lamentável contra supostos inimigos ideológicos que Washington suspeitava estarem infiltrados no serviço público, no ensino ou na indústria do espetáculo.
As ações de Julian Assange são diferentes: goste-se ou desgoste-se, houve uma revelação objetiva de documentos secretos do governo americano. As vítimas do macartismo eram inocentes. Assange não é inocente.
Mas esse nem sequer é o ponto. Na janela da embaixada do Equador, em Londres, esteve um homem procurado pela Justiça sueca por alegadas agressões sexuais contra mulheres.
E a Suécia, convém lembrar aos amnésicos, é uma democracia europeia civilizada, onde a investigação judicial é séria, os direitos humanos são respeitados --e as garantias de um julgamento justo também. A Suécia não pretende deter e julgar Assange por seus pecadilhos com a Wikileaks. Deseja detê-lo e julgá-lo pelos seus alegados crimes contra duas mulheres em 2010.
Curiosamente, crimes desses costumavam inflamar as feministas de carteirinha. Não mais. Será que o antiamericanismo de Assange perdoa tudo?
Em caso afirmativo, um conselho ao leitor: violar uma mulher pode não ser grave desde que você seja um inimigo declarado da política americana.
Claro que, a pairar sobre esta grotesca novela, existe um equívoco e uma farsa.
O equívoco, alimentado pelo próprio Assange, resume-se em poucas linhas: se houver extradição para a Suécia, a Suécia poderá extraditar Assange para os Estados Unidos onde ele seria julgado por espionagem (um crime punível com a morte).
A hipótese não passa de um delírio teórico e qualquer aluno principiante de direito internacional sabe por que: o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não permite processos de extradição para países onde existe a séria possibilidade de aplicação da pena capital. Não é a Justiça americana que Assange teme. É apenas a Justiça sueca.
Finalmente, a farsa. E dois nomes sobre ela: Rafael Correa. Honestamente, serei mesmo a única pessoa a sentir genuína náusea quando o presidente do Equador surge em cena como um grande defensor da liberdade de expressão?
Por motivos puramente antiamericanos, o Equador resolveu conceder asilo a Julian Assange. Mas, se Assange fosse verdadeiramente um defensor da liberdade de expressão, ele recusaria os favores de um país onde essa liberdade é artigo raro.
Será preciso lembrar aos colegas de ofício os constantes atropelos que o governo de Quito comete sobre jornalistas críticos do presidente?
O mundo midiático, na sua estupidez bovina, continua a olhar para Julian Assange como um herói da "transparência" e da luta contra o "imperialismo".
Seria preferível optar por tomates e ovos podres. Assange não passa de um foragido vulgar e de um manipulador de massas talentoso.
sábado, agosto 18, 2012
O pavão Assange
Álvaro Pereira Júnior, Folha de SP
Do jeito que ele gosta, Julian Assange ocupa o centro do noticiário mundial. Quando escrevo, o australiano ainda está na embaixada em Londres do Equador, país que lhe concedeu asilo. Mas o governo britânico não deixa que ele saia. Quer despachá-lo para a Suécia, onde Assange é réu em dois casos de abuso sexual.
Assange foi um dos fundadores, em 2006, do site WikiLeaks, especializado em receber e divulgar informações confidenciais. Da cientologia aos defensores do aquecimento global, passando por governos e corporações, muita gente apanhou com a divulgação de documentos secretos por essa tropa combativa. Assange montou um esquema de sonho para um ególatra: no WikiLeaks, todo mundo é anônimo, menos ele.
Os nomes dos informantes são segredos. Os principais colaboradores são conhecidos apenas pelas iniciais. Mas, ele, Assange, dá entrevistas, escreve artigos, assume com gosto o papel de messias da transparência total.
Transparência que ele próprio não pratica. O WikiLeaks funciona em meio a paranoia e segredos, à moda de uma seita. E Assange sempre escondeu sua história de vida. Só em 2010 o repórter Raffi Khatchadourian, da revista "New Yorker", descobriu algumas coisas: padrasto violento, mãe hippie contestadora e nômade (até os 14 anos de idade, Assange mudou 37 vezes de casa).
O WikiLeaks fez estragos importantes e merecidos desde o começo. Mas Assange só assumiu o papel de celebridade mundial em 2010, quando procurou revistas e jornais respeitados de EUA e Europa para investigar toneladas de documentos secretos da diplomacia americana.
Foi uma grande sacada. Trouxe o WikiLeaks, até então uma operação de "fringe", para o domínio da mídia respeitável. Usou a perícia de jornais como "Guardian" e "New York Times" de mergulhar em documentos, detectar o que tem interesse jornalístico e transformar isso em reportagens.
Mas, como disse Fernando Rodrigues na Folha de 15/8, também decretou o início do fim do Wikileaks: "Os meios de comunicação tradicionais aprenderam o caminho. Vários já usam sistemas on-line, recebem dados e preservam as fontes".
A organização se esgotou, mas Assange obteve a fama.
Em abril passado, participei de uma feira de televisão, em Cannes. O glamour e a visibilidade não se comparam, mas local e estrutura são os mesmos do famoso festival de cinema.
A fachada do Palais des Festivals estava coberta por um cartaz imenso, anunciando "The World Tomorrow", um "talk show" apresentado por Assange no Russia Today, RT, canal bancado pelo Kremlim para ser tipo uma Fox News "alternativa".
O programa ia ao ar do apartamento dele. Entrevistado do primeiro dia: Hassan Nasrallah, do grupo terrorista Hizbollah.
Seguiram-se outros do mesmo naipe, até chegar a vez de Rafael Correa, presidente do Equador, país que acabou lhe oferecendo asilo. O paladino da liberdade era acolhido por um perseguidor de jornalistas.
Inescapável, também, a ironia de o cofundador do WikiLeaks ganhar espaço no RT, sustentado por Vladimir Putin, de notório histórico de "transparência".
Mais irônico ainda que, justo na semana em que se decide o destino de Assange, o mesmo governo Putin que lhe dedica tantas mesuras tenha voltado forças contra três meninas do coletivo anarcopunk Pussy Riot.
Em fevereiro, as "punkettes" do Pussy Riot invadiram a catedral do Cristo Salvador, em Moscou. Dançando e pulando, cantaram um rock tosco exigindo a saída de Putin.
As três foram a julgamento, sob risco de cana brava por vandalismo. Escrevo antes do veredicto. E leio no site da "Economist" que, quarta passada, o trio teve direito a considerações finais. Foi um discurso histórico de Maria Alyokhina, Yekaterina Samutsevich e Nadezhda Tolokonnikova (esta última de uma beleza desconcertante, "riot girl" do Volga).
Assim descreveu a revista: "Elas falaram de arte, de liberdade, da busca por significados, tudo pontuado por referências aos Evangelhos, aos 'Ensaios' de Montaigne e à 'humildade ontológica'".
Nada disso faz parte da visão de Julian Assange.
Idi Amin acabou na Arábia Saudita, Anastasio Somoza se exilou no Paraguai, carrascos da Segunda Guerra vieram parar na Bolívia, na Argentina e no Brasil.
Se não for preso no caminho do aeroporto, Julian Assange, que parecia arauto de uma revolução jornalística, entra para o rol dos exilados em destinos exóticos. Uma espécie de pária, mas um pária famoso. Deve estar feliz.
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