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terça-feira, julho 09, 2013

Herói da liberdade?

Rodrigo Constantino

Segundo o site G1, o legislador russo Alexei Pushkov divulgou em seu Twitter, antes de apagar a mensagem, que Snowden aceitou a oferta de asilo da Venezuela. Diz a matéria:


O presidente da comissão das Relações Exteriores da Duma (câmara baixa do Parlamento russo), Alexei Pushkov, disse nesta terça-feira (9) no Twitter que o americano Edward Snowden aceitou a oferta de asilo feito pelo governo daVenezuela."Como era esperado, Snowden aceitou a oferta do presidente (venezuelano Nicolás) Maduro sobre asilo político", disse. Pouco depois, o post foi apagado, segundo a agência Reuters.Simultaneamente, o porta-voz da Presidência russa, Mitry Peskov, evitou fazer qualquer comentário, e acrescentou que todas as perguntas deveriam ser feitas ao parlamentar.Depois, Pushkov explicou, também via Twitter, que havia sido informado da resposta positiva de Snowden à oferta venezuelana de asilo ao acompanhar informações da televisão estatal russa Vesti 24.
O Wikileaks já negou a informação. Mas sabemos que suas alternativas são buscar asilo em algum país com bem menos liberdade do que os EUA que ele denunciou. Assange, afinal, está sob os cuidados da embaixada do Equador até hoje, protegido por um governo bolivariano.

O que Snowden fez é motivo de muita controvérsia. Até que ponto é justificável trair seu governo para revelar algum abuso de poder do mesmo? Até que ponto é louvável divulgar informações sigilosas de seu empregador? Os fins justificam os meios? Enfim, o tema é complexo mesmo. 
Mas uma coisa eu sei: não dá para compartilhar da adoração que alguns libertários têm por gente como Snowden ou Julian Assange, do Wikileaks. Por que será que eles investem seus ataques mais ao governo americano do que qualquer outro governo? E por que será que eles buscam refúgio justamente sob os piores regimes autoritários e antiamericanos? 
Alguém em sã consciência diria que o governo americano é a grande ameaça à paz mundial, às liberdades individuais? Sim, o governo americano tem poder demais, e abusa dele. Merece ser vigiado, pois o preço da liberdade é a eterna vigilância. Não se pode cochilar, pois sempre há o risco de invasão de privacidade. 
Mas me parece um foco muito mal calibrado essa obsessão contra o governo americano, por gente que diz lutar em nome da liberdade, e logo depois corre para as saias de tiranetes que desrespeitam totalmente as mesmas liberdades. Tamanha incoerência desqualifica por completo esses "heróis". 

segunda-feira, maio 20, 2013

Piada de português

Rodrigo Constantino, para o blog português Blasfémia

Eu sou do tempo em que todos contavam piadas de português, loiras, judeus, bichinhas, e estes, normalmente, eram os que mais riam de tais piadas. A capacidade de fazer humor com a própria situação, com as caricaturas de seu próprio grupo ou classe ou nação, parece-me característica fundamental de uma sociedade madura e livre.

Mas eu dizia que sou de outro tempo, que parece anos-luz de distância. Ocorre que nem cheguei aos 40 anos! Isso demonstra o quão rápido foi a deterioração do quadro. Vivemos, hoje, na era do politicamente correto, onde “almas sensíveis” querem tolher a liberdade de expressão, pois se sentem no direito de não serem “ofendidas” enquanto grupo.

Um bom exemplo desse sintoma preocupante se deu por agora, quando o programa de humor “CQC” foi alvo de um inquérito policial por fazer piadas de português. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de São Paulo está investigando a denúncia de que o programa teria ofendido a honra da comunidade portuguesa com piadas. Isso sim é uma piada! E de muito mau gosto...

O líder do “CQC”, Marcelo Tas, tocou no ponto nevrálgico da coisa: “Estamos entrando em uma fase surrealista com relação à liberdade de expressão, está na hora de o país debater isso. Só espero que isso não deságüe em censura”. Infelizmente, nós já vivemos sob censura! A praga do politicamente correto corrói nossa sociedade há anos, e tal como um câncer em metástase, avança sobre as células da liberdade cada vez mais rápido.

Participei com Marcelo Tas, Leandro Narloch e Reinaldo Azevedo de um painel justamente sobre a liberdade de expressão e o politicamente correto, há cerca de dois anos, em evento organizado pelo Instituto Millenium. Na ocasião, “brinquei” com Tas, alertando que temia pelo futuro de sua profissão em um mundo cada vez mais hostil ao humor. Como fica claro, eu tinha razão e fui até profético. Só não esperava que fosse tão cedo assim.

Os humoristas correm risco quando a afetação das “minorias” torna-se algo majoritário. É triste, muito triste, ver que essa “marcha das minorias oprimidas” tomou conta de tudo, e que o senso de humor é mais uma vítima desse movimento intolerante e autoritário, com cores fascistas.

Walter Block disse: “É fácil ser um defensor da liberdade de expressão quando isso se aplica aos direitos daqueles com quem estamos de acordo”. A liberdade de expressão é testada quando não estamos de acordo, até mesmo quando nos sentimos ofendidos. Afinal, se há algo como o direito de não se sentir ofendido, é melhor suspender de vez a liberdade de expressão, pois alguém sempre será ofendido pelo contraditório.

Basta pensar nas religiões e nos fanáticos religiosos, assim como nas ideologias. Será que os fundamentalistas islâmicos têm o direito de não serem “ofendidos” com a “blasfêmia” dos infiéis? O Ocidente avançou mais e preserva melhor as liberdades individuais, e por isso mesmo temos tanta gente fazendo piada com a fé alheia, ou até mesmo ataques virulentos àquele que, para milhões de crentes, era Deus em pessoa.

Podem ser ofensas gratuitas, desrespeitosas, coisa de idiota. Mas os néscios devem ser livres, pois se rejeitarmos tal premissa, nós cairemos em um governo totalitário, com um grupo de censores decidindo o que é estúpido, e o que pode ser dito. Eu prefiro pecar pelo excesso do outro lado, mesmo que isso implique em piadas grosseiras, em humor negro, em falta de sensibilidade. Melhor isso à ditadura do politicamente correto, que asfixia nossa liberdade, nossa criatividade, nosso fundamental senso de humor para sobreviver e viver melhor em um mundo já tão duro e, tantas vezes, sem sentido.

Portanto, espero que esse artigo possa servir para a reflexão de nossos queridos patrícios. Infelizmente, não tenho tantas esperanças. Afinal, desde quando português consegue interpretar direito um texto elaborado como esse? Ora pois!

sexta-feira, abril 05, 2013

Sua reputação não lhe pertence


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Sexta-feira, dia de buscar notícias boas para esse comentário. Eu poderia falar da entrevista do ministro Guido Mantega na Globo News, com Miriam Leitão, mas isso seria depressivo demais. Vimos um ministro com voz embargada, na defensiva, mentindo descaradamente, jogando a culpa de seus fracassos para bodes expiatórios, e negando os problemas existentes na economia. Não! Vamos falar de coisa boa!

O Congresso aprovou, finalmente, a lei que permite biografias não autorizadas no Brasil. Ainda falta tramitar pelo Senado e ser sancionada, mas é um ótimo começo. É absolutamente ridículo vetar o direito do escritor de escrever sobre alguma figura pública sem a sua autorização. Até porque biografia autorizada não é biografia; é propaganda. Biografia que se preza é sempre não autorizada, para ser o mais imparcial possível.

Nelson Motta escreveu em sua coluna de hoje no jornal O Globo sobre o assunto, relatando que já sofreu na pele com essa lei absurda. Como ele diz, seguindo essa lógica tosca, “não teríamos biografias nem de Hitler, bastaria seus herdeiros reivindicarem seus direitos no Fórum do Rio de Janeiro”.

Como disse Walter Block em seu provocativo e excelente livro Defendendo o Indefensável: “É fácil ser um defensor da liberdade de expressão quando isso se aplica aos direitos daqueles com quem estamos de acordo”. As pessoas, especialmente aquelas que são figuras públicas, precisam entender que seus atos lhes pertencem, mas não a opinião que os outros têm desses atos. A nossa reputação pertence aos demais, ao público.

Aquilo que for difamatório e mentiroso deve ser julgado, punido se for o caso, e suspenso. O ônus da prova cabe a quem acusa. Mas para isso já existem leis. O que é absurdo é proibir alguém de emitir opiniões ou relatar fatos comprovados sobre pessoas famosas. Isso é patético.

Viviane Mosé, no programa “Liberdade de Expressão” da CBN, defendeu a lei atual, pois cada um deveria ter o direito de contar sua própria história. Falso! Cada um que conte a sua versão, mas que outros gozem da mesma liberdade. A fama é uma faca de dois gumes. Não dá para ter apenas o bônus. Entrou na chuva é para se molhar.

Temos o direito de ler opiniões críticas e relatos não autorizados sobre a vida das celebridades, dos políticos, das pessoas famosas. Nos Estados Unidos isso é a coisa mais comum do mundo. Celebremos esse avanço, que já vem muito tarde, aqui no Brasil. Quem não deve, não teme.

Para finalizar, cito Thomas Sowell: “Você não pode impedir que as pessoas digam coisas ruins sobre você; tudo que você pode fazer é transformá-los em mentirosos”. Não é mesmo, Luis Nassif? Não é verdade, Paulo Henrique Amorim?