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quinta-feira, julho 11, 2013

A estranha lógica de Stiglitz

Fonte: Telegraph
Rodrigo Constantino

Em artigo traduzido no GLOBO hoje, Joseph Stiglitz ataca as rodadas de negociação de livre comércio, pois elas seriam instrumentos de interesses corporativos contra os reais interesses dos cidadãos. Estes, segundo Stiglitz, são melhores atendidos por meio de subsídios estatais que colocam outros valores acima dos comerciais. Vejam esse trecho, volto depois:

O ponto mais geral, a que já se aludiu, é que os acordos de comércio colocam tipicamente os interesses comerciais à frente de outros valores – o direito a uma vida saudável e à proteção do ambiente, para nomear apenas dois. A França, por exemplo, exige uma “exceção cultural” nos acordos de comércio que lhe permita continuar a apoiar o seu cinema – o que beneficia todo o mundo. Este e outros valores mais amplos deveriam ser não-negociáveis.

Na verdade, a ironia é que os benefícios sociais de tais subsídios são enormes, mesmo que os custos sejam negligenciáveis. Alguém acredita realmente que um filme de arte Francês represente uma ameaça séria a uma grande produção cinematográfica para o verão de Hollywood? E no entanto a cobiça de Hollywood não conhece limites, e os negociadores comerciais da América não fazem prisioneiros. E é precisamente por isso que estas questões deveriam ser retiradas da mesa antes do início das negociações. De outro modo, haverá braços torcidos, e existe um risco real de que um acordo sacrifique valores básicos a interesses comerciais.

Se os negociadores criassem um regime genuíno de comércio livre que colocasse o interesse público em primeiro lugar, dando às opiniões de cidadãos vulgares pelo menos tanto peso como o dado às dos lobistas empresariais, eu poderia esperar que o acordo que deles emergisse iria fortalecer a economia e melhorar o bem-estar social. A realidade, contudo, é que temos um regime comercial controlado que coloca os interesses empresariais em primeiro lugar, e um processo de negociações que é antidemocrático e não-transparente.

A possibilidade de emergir das próximas conversações um acordo que sirva os interesses dos Americanos vulgares é baixa; as perspectivas para os cidadãos vulgares de outros países são ainda piores.

Não sei se o leitor compreendeu direito, mas eu tentarei explicar: o cinema francês, segundo Stiglitz, é um valor incrível para a humanidade; mas o público pagante não necessariamente concorda, pois, quando livre para escolher, acaba indo ver os enlatados de Hollywood. Logo, o governo francês precisa proteger seus produtores de cinema, para beneficiar o público, que, lembrando uma vez mais, prefere ver os filmes americanos. Entenderam?

A lógica de Stiglitz é a mesma de todo autoritário: o que eu considero melhor deve ser pago pelos outros, caso eles sejam ignorantes demais para entender a superioridade das minhas escolhas. Quem defende subsídios, protecionismo e barreiras comerciais, e não o faz pelo simples interesse de lucrar com a falta da concorrência, está partindo justamente desse tipo de premissa autoritária. Quer impor goela abaixo dos demais as suas preferências.

O problema é que cada um tem suas próprias escolhas, e quando há o instrumento à disposição, ele poderá ser capturado por qualquer grupo de interesse. No Brasil, vemos o estado subsidiando até mesmo funk! Será engraçado ver Stiglitz defender a importância disso para a "humanidade". 

Você pode adorar filmes franceses, ou filmes iranianos. Pode detestar os filmes de Hollywood. Mas quem deve escolher é o indivíduo, o público votando com seu próprio bolso. Haverá nichos para gostos específicos, mais refinados até, se for o caso. Só não é correto obrigar o mais pobre a bancar o luxo do rico, forçar o "bruto" a pagar a conta do "intelectual". Isso é absurdo. Isso é autoritário. Isso é esquerda. Isso é Stiglitz!

PS: Alguns brasileiros usam o mesmo discurso, para garantir privilégios nacionalistas, como podemos ver aqui. E nesse artigo para a Folha, eu explico o risco de proselitismo ideológico quando o mecenas é o estado. Definitivamente, a livre escolha individual sem subsídios e protecionismo estatal é o melhor caminho.

terça-feira, abril 30, 2013

Pode um intelectual gostar da Disney?

Rodrigo Constantino

Janer Cristaldo transformou nosso pequeno debate de Facebook em artigo, tendo, claro, a palavra final. É justo. Ele afirma, logo no título, que não se fazem mais intelectuais como antigamente. E eu respeito sua opinião. Pode até ser verdade. Afinal, de certa forma somos todos filhos de nosso tempo, em parte. Gostaria apenas de dizer duas coisas: 

1) não respondo pelos meus seguidores, e não aprovo chamarem o outro de "senil" apenas por discordar de sua opinião;

2) mantenho minha visão de que é possível, sim, ter angústias profundas, mergulhar em pensamentos rebuscados, ler ótimos livros e escutar música de primeira, e depois trocar o chapéu, vestir a roupa de "homem comum" e se divertir com a última baboseira high tech de Hollywood ou na montanha-russa da Disney com a filha. 

Eu não acho que para ser um intelectual é preciso ser carrancudo e ranzinza, ainda que concorde que não dá para ser o oposto, aquela "happy people", alguém que SÓ quer saber de distrações vazias, de futebol, carnaval e novelas. São coisas diferentes.

Não sei se o Janer tem filhos, mas esse debate me remeteu ao grande historiador Paul Johnson, que define intelectual como alguém que ama as idéias mais do que as pessoas. Quando estou dando um lupin na montanha-russa do Hulk e vendo o sorriso de felicidade estampado no rosto de minha filha, isso é algo muito bom, que não pode ser comparado ao prazer de ler um angustiante Camus ou Kafka. São coisas bem diferentes, e lamento que, para alguns, uma coisa impeça a outra. 

Enfim, respeito a opinião de Janer, mas ainda acho que poderíamos, eu e ele, trocar dois dedos de prosa profunda sobre o impacto da igreja nas instituições moralizantes da humanidade, e fazer isso logo depois de ver o último filme do Batman. Por que não? 

PS: Dando o benefício da dúvida ao Janer, eu confesso ter dificuldade de imaginar Luiz Felipe Pondé, um filósofo que eu admiro, ao lado do Mickey. Acho que ele vomitaria em cima do Pateta (rs). Mas, como concluiu o próprio Janer, você não pode fugir de quem você é, e minha personalidade, meu estilo, minha visão de mundo, são diferentes. Neles, o humor banal encontra algum espaço, até para suavizar o peso da angústia com as coisas mais sérias. Mas, cada um é cada um. E viva as divergências saudáveis!

terça-feira, outubro 02, 2012

Castrolândia


Rodrigo Constantino, O GLOBO

Michael Moore, Jack Nicholson, Oliver Stone, Steven Spielberg, Francis Coppola, Robert Redford, Danny Glover e Sean Penn: o que todos eles têm em comum, além da fama e da fortuna? São bajuladores da mais longa, cruel e assassina ditadura do continente.
Cuba ainda desperta fortes emoções em muito inocente útil mundo afora. Por isso devemos celebrar o lançamento, pela Leya, do livro “Fidel: O tirano mais amado do mundo”, de Humberto Fontova.
Exilado em Miami, Fontova é também autor de “O Verdadeiro Che Guevara”. Não deve ser fácil ver os gringos tratando como heróis esses que dizimaram e escravizaram seus familiares, transformando sua nação em um feudo miserável.
A reverência ao meio século de totalitarismo cubano mostra que alardear boas intenções vale mais do que atos concretos. A retórica “altruísta” dos revolucionários serve como salvo-conduto para todo tipo de crime comum. Em nome da utopia socialista, vale tudo. Os “nobres” fins justificam os meios mais nefastos.
Muitos falam dos “avanços sociais” na saúde e na educação. Como se isso, mesmo que fosse verdade (não é), absolvesse todos os crimes hediondos do ditador adulado por Hollywood.
Cuba não era um prostíbulo americano antes de 1959. Era um país com ampla classe média, com o terceiro maior consumo de proteína no hemisfério ocidental, a segunda renda per capita da América Latina (maior que a Áustria e o Japão), e a taxa de mortalidade infantil mais baixa da região.
Sua taxa de alfabetização já era de 80% em 1957, e o mais importante: os cubanos tinham cerca de 60 opções de jornais diários para escolher. Compare-se a isso a realidade hoje, com um único jornal, monopólio estatal, que reproduz somente aquilo que o ditador deseja. Nas salas de aula, os alunos “aprendem” sobre as maravilhas do socialismo, e depois precisam enfrentar a realidade infernal da ilha-presídio. Educação?
Em 1958, Cuba tinha nove cassinos, e apenas 5% do capital investido no país eram americanos. Se muitos turistas buscavam diversão na ilha, vários cubanos também viajavam para Miami. Hoje, milhares de cubanos estão dispostos a nadar no meio de tubarões para tentar a liberdade nos Estados Unidos, tudo para fugir do “paraíso” socialista onde “nenhuma criança dorme na rua”.
Para piorar o quadro, Havana recentemente passou Bangcoc como “capital do sexo infantil no mundo”. Possui ainda as maiores taxas de suicídio e aborto da região, fruto da miséria e do desespero. Isso apesar dos mais de US$ 100 bilhões de subsídios que a antiga União Soviética mandou para Fidel. Chávez assumiu a mesada, mas fica tudo concentrado na “nomenklatura” escolhida pelo Líder Máximo.
Há também uma segregação racial na ilha, com 80% dos presos sendo negros, contra menos de 1% da cúpula do poder. Homossexuais são perseguidos. Os “progressistas” da esquerda caviar não suportariam viver um dia sequer em “A Ilha do Doutor Castro” (outra leitura recomendada). Cuba virou importante rota de tráfico de drogas, com claros sinais de envolvimento do governo, assim como um quintal para terroristas antiamericanos.
Raúl Castro escreveu em 1960: “Meu sonho é jogar três bombas atômicas em Nova York”. Seu irmão chegou a arquitetar planos para efetivamente lançar bombas na cidade, que felizmente fracassaram.
Fidel, retratado como humanitário pelos idiotas, já demonstrava sua paixão pela violência desde jovem. Em seu livro “Cuba sem Fidel”, Brian Latell diz: “Já com 20 anos de idade, Fidel considerava a prática de assassinatos e a provocação de situações caóticas meios justificáveis e aceitáveis para ver materializados seus interesses pessoais”.
Mas eis que o tirano ainda conquista corações ingênuos por aí. Alguns podem alegar que a Guerra Fria acabou, que o socialismo morreu, e que digo o óbvio. Nelson Rodrigues sabia que “somente os profetas enxergam o óbvio”.
O leitor duvida? Então por que ainda temos partidos que pregam o socialismo, enaltecendo o regime cubano, como faz o PSOL de Chico Alencar e Marcelo Freixo? Por que nossa presidente chama Cuba de “país-irmão” na ONU, criticando o embargo americano (parece que ser “explorado” pelos ianques é algo bom, afinal), mas é incapaz de fazer uma crítica ao regime ditatorial dos Castro? 
Não se engane. A esquerda carnívora ainda vive, e tem em Fidel um guru. Aguardem o dia de sua morte para ver a patética comoção. Daí a importância do livro de Fontova, um antídoto para essa doença que ainda encontra terreno fértil abaixo da linha do Equador, com a ajuda dos nossos “intelectuais” e dos famosos de Hollywood.