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segunda-feira, maio 28, 2012

Comitês de depuração

Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

IMAGINE PARIS entre 1940 e 1944. Ocupação nazista. Agora se pergunte: onde estavam os artistas e intelectuais, franceses ou não, naquele momento? Estes que gostam de posar de arautos da ética, da transparência e do bem.

Claro, houve a "resistência francesa". Se contarmos o número de pessoas cujos pais e avós foram da Resistência Francesa, não teremos franceses suficientes para completar a cota dos resistentes de cada família.

Provavelmente, os resistentes de fato não enchiam dois ônibus. A Resistência Francesa é um dos maiores mitos modernos, assim como a dinamarquesa, a sueca, a holandesa e outras. A falsa coragem não é privilégio de nenhum povo. A maioria conviveu com o nazismo. E conviveria de novo. Raros são os que se revoltam contra situações assim, porque simplesmente temos medo e somos seletivos em nossas prioridades morais -quando existem.

Em situações assim, pensamos primeiro no café da manhã, no almoço e na janta. No emprego, no cotidiano, nas vantagens que podemos ter, dadas as condições em que vivemos. Danem-se as vítimas.
O século 20 criou uma das maiores mentiras da humanidade: a solidariedade abstrata. Aquela que se presta direto do Facebook ou do cardápio orgânico.

Não quero dizer que "tudo bem ser covarde", desculpando nossos atos pela banalização do medo. Basta um só corajoso para a covardia revelar sua face vergonhosa. O que me espanta é a mentira moral que se conta negando a epidemia de covardia em situações como essas. E gente "chique intelectualmente" adora esse tipo de farsa.

Depois de passar o dilúvio, aí aparecem milhares de "resistentes" corajosos para colher os louros que não merecem. Onde estavam Sartre, Beauvoir, Camus, Picasso, Dalí, Mauriac, Colette, Malraux, Gide e outros luminares naqueles anos?

Se você quer saber, leia o maravilhoso livro de Alan Riding, "Paris, A Festa Continuou - A Vida Cultural durante a Ocupação Nazista, 1940-4", publicado pela Cia. das Letras. Trata-se de um painel definitivo do cenário intelectual e artístico da época, revelando detalhes do convívio "pacífico" da casta erudita francesa (e de estrangeiros que lá viviam) com a ocupação alemã.

Não se tratam dos reconhecidos fascistas e antissemitas franceses como Louis-Ferdinand Céline, o grande escritor e médico. Mas sim daqueles que ensaiaram uma resistência cultural tímida (que os alemães nunca levaram de fato a sério) a troco de permanecer vivendo suas vidas comuns de intelectuais e artistas "comprometidos com um mundo melhor" (risadas?).

Até o mercado das artes plásticas viveu um crescimento tímido, mas real, na época.

Não eram "colabôs" de fato ("colaboracionistas", termo usado na França para quem apoiou a ocupação nazista), apenas faziam teatro, escreviam livros, pintavam quadros, faziam música, bebiam vinho. E quando os Aliados libertaram a França, logo se apressaram em "provar" sua condição de membros da resistência "cuspindo" na cara de gente que, muitas vezes, os ajudou porque eram de fato "colabôs" e tinham acesso a favores nazistas.

Os "comités d' épuration" (comitês de depuração) se multiplicaram no pós-guerra e visavam estabelecer a verdade de quem era ou não "colabô".

Os alemães sabiam que, mantendo os salões, os cabarés, as "brasseries", os cafés, as livrarias, as galerias de arte e os teatros em atividade, ajudariam a manter os franceses e estrangeiros cultos "ocupados". Todo mundo sabe que o risco para regimes como o nazista está em quem pega em armas, e não em quem fala delas.

Por que a vergonha da casta artística e intelectual manchou tanto o nome da França? Porque se esperava mais deles.

Segundo Riding, o trauma francês com relação à covardia daqueles que se diziam combatentes do pensamento e da arte pode ter sido causada pelo fato de que, desde a Revolução Francesa de 1789, a França "é uma população educada para reverenciar ideias... Alguns consideram este um dos legados da revolução de 1789, a noção inebriante de que uma ideia traduzida em ação pode produzir uma mudança súbita, radical e idealizada".

Ledo engano.

quinta-feira, maio 03, 2012

Fanatismo e submissão


 Rodrigo Constantino

“Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo como um destino.” (Karl Kraus)

Em 1951, Eric Hoffer escreveu um livro que logo se tornaria um clássico. The True Believer disseca as principais características que levam alguém a aderir a uma seita de forma fanática, dando início a um movimento de massa. O livro ainda é bastante atual, e serve como alerta para as diferentes formas de fanatismo, que acabam sendo bastante semelhantes entre si.

Os movimentos de massa produzem em seus adeptos a disposição de sacrifício pela causa santa, assim como um impulso à ação em conjunto. O entusiasmo, a esperança, a intolerância e o ódio aos que são diferentes representam sintomas deste tipo de fenômeno. Tais movimentos demandam fé cega de seus membros. A submissão é infinitamente mais importante do que o pensamento individual, o questionamento racional. Vale lembrar que Islã quer dizer justamente submissão, e que os dogmas católicos sempre tiveram que ser aceitos por seus crentes sem questionamento (creio porque absurdo).

Segundo Hoffer, todos esses movimentos distintos apelam ao mesmo tipo de mente. Talvez esta tenha sido a principal contribuição de seu livro: mostrar como são parecidos, no fundo, movimentos que na aparência são tão díspares. Apesar de vivermos em uma época “sem deus”, o fato é que vivemos em tempos bastante “religiosos”, onde inúmeras seitas fanáticas proliferam. Por isso é tão importante mergulhar mais na mente típica do fanático.

Os principais tipos de movimento de massa que atraem estas pessoas são religiosos, revolucionários e nacionalistas. Dentre estes, Hoffer considerava o nacionalismo aquele com maior capacidade de duração nos tempos modernos, citando como exemplos as revoluções francesa e russa, que desembocaram no nacionalismo para sobreviver. Nem sempre o advento de tais movimentos será totalmente maléfico. O caso de Ataturk na Turquia demonstra que estas mudanças oriundas de movimentos nacionalistas podem deixar algum legado positivo também. Mas os riscos são sempre enormes.

E o que levaria tanta gente a aderir a tais movimentos? Para Hoffer, um dos principais motivos é a angústia que a autonomia traz consigo para o indivíduo. Temos uma tendência de culpar forças exógenas pelos nossos fracassos, e as pessoas frustradas com suas vidas acabam desenvolvendo um fervor por mudanças radicais. O sentimento profundo de insegurança em relação ao presente faz com que estas pessoas abracem alguma boia de salvação que prometa um futuro melhor. Os movimentos de massa oferecem a sensação de um poder irresistível do grupo monolítico de moldar este futuro maravilhoso.

A liberdade de escolha deposita no próprio indivíduo o peso de seus fracassos. Quanto maior forem as alternativas de escolha, mais espaço há para frustrações. Para Hoffer, muitos se unem aos movimentos de massa para escapar da responsabilidade individual. Como disse um jovem ardente defensor do nazismo, a meta era ficar “livre da liberdade”. Movimentos de massa fornecem aos fanáticos uma forma de dissipar sua individualidade até o ponto de anulá-la por completo. A paixão pela igualdade é também a paixão pelo anonimato. O fanático se transforma em uma massa amorfa igual a todos os demais membros da seita, disfarçando então seu complexo de inferioridade.

Para uma massa dessas, o principal alvo de catequização e conversão é o indivíduo que se sustenta por conta própria, que não depende de algum corpo coletivo que lhe ofereça apoio. A mente independente, blindada de rótulos simplistas e avessa a seitas, o indivíduo criativo que não necessita de um movimento de massa para encontrar algum sentido em sua existência, este é o foco de inveja e ódio dos fanáticos de todas as matizes. Eles precisam destruí-lo, se não forem capazes de convertê-lo. Hoffer aponta que movimentos de massa podem nascer sem deus, mas não sem um demônio: são os bodes expiatórios das seitas, culpados pela desgraça que é o presente. Os judeus dos nazistas, os kulaks dos bolcheviques, os ímpios dos crentes.

Não se comunica com estes fanáticos por meio da razão, e sim da fé extravagante. Eles precisam ser ignorantes acerca das dificuldades envolvidas nesta tarefa vasta e hercúlea, muitas vezes utópica, de criar um novo mundo. A experiência de casos passados atua como um inibidor aos revolucionários, e por isso o desconhecimento da história costuma ser crucial na seleção dos adeptos. Os envolvidos na Revolução Francesa, no bolchevismo e no nazismo eram em sua grande maioria pessoas sem experiência política.

Uma classe média em crise, que acaba de perder parte de seus bens e se encontra frustrada com o presente, representa um terreno fértil para movimentos de massa. Foi assim na Itália fascista e na Alemanha nazista. Um movimento em ascensão prega a esperança imediata, um futuro róseo logo depois da esquina, uma “boa nova” para os escolhidos, que impele seus membros à ação. Movimentos de massa já estabelecidos contam com a promessa de um futuro fantástico, porém distante, para manter acesa a chama da esperança. O Stalinismo era o ópio do povo russo assim como religiões estabelecidas.

O núcleo familiar representa um grande obstáculo a tais movimentos coletivistas. Por isso quase todos eles combateram a família em suas origens. O Cristianismo inicial, segundo o autor, foi um dos movimentos de massa mais hostis ao núcleo familiar. Jesus teria dito que aquele que ama seu pai e sua mãe mais do que a ele não seria digno de ser seu seguidor. O mesmo para aquele que amasse mais seus filhos. Abraão seria o ícone perfeito deste tipo de fanático, ao se mostrar disposto a sacrificar o próprio filho em nome de sua fé. A causa santa vem em primeiro lugar, a família fica em segundo plano.

O ser humano em geral clama pela sensação de pertencimento a algum grupo maior. Suas frustrações alimentam ainda mais o desejo de sumir em meio a uma massa uniforme. O tédio diante da vida, a falta de sentido na existência, tudo isso joga mais lenha na fogueira, empurrando o indivíduo na direção da massa. Um movimento de massa representa o pacote completo que exime o sujeito da responsabilidade de desejar e arriscar por conta própria.

A submissão ameniza o fardo de sua autonomia. Seu fanatismo retira a necessidade de pensar e questionar por conta própria. A “certeza absoluta” da doutrina infalível fornecida pelo movimento conforta a angústia da hesitação. A aventura revolucionária lhe estimula e reduz o tédio de sua vida vazia. A causa fanática alivia seu sentimento de culpa e pecado. O futuro fantástico lhe dá forças para enfrentar o presente medonho, um fardo temporário, um vale de lágrimas e sofrimento até o oásis por vir. O ideal glorioso e indestrutível oferece a força que lhe falta como indivíduo, a eternidade que acalenta sua inexorável mortalidade e aniquilação.

Eric Hoffer não era otimista quanto à possibilidade de persuasão de um fanático. Para ele, o apelo à razão não surtia tanto efeito sobre um fanático. Seus medos e inseguranças lhe comprometem, e sua causa santa é uma necessidade de se segurar a alguma coisa para aguentar a vida. O mais provável seria um fanático se converter, não se convencer. Por isso é comum ver fanáticos pulando de seita em seita. Para Hoffer, é mais fácil para um comunista fanático se converter ao fascismo, chauvinismo ou Catolicismo do que se transformar em um liberal sóbrio com mente aberta. Os ateus fanáticos, que encontram sua razão de ser em deus da mesma forma que os crentes, pois vivem em função de sua negação, entravam para o grupo dos fanáticos de Hoffer.

A propaganda se faz importante para a ascensão do movimento de massa, mas sua sustentação só será possível com base na coerção. Foi apenas após Constantino que o Cristianismo conseguiu se estabelecer. A espada foi crucial para a sobrevivência do movimento, e onde o Cristianismo não foi capaz de dominar o poder estatal, ele raramente conseguiu se manter de forma permanente. O mesmo vale para o Islã. Seu crescimento se deu por conquista no começo, e a conversão foi um subproduto disso em muitos casos. A Reforma deslanchou quando ganhou o apoio de príncipes e governos locais. A ameaça comunista era infinitamente maior quando tinha o suporte de um dos exércitos mais poderosos do planeta.

Além disso, a conquista e a conversão de outras pessoas acabam dando legitimidade ao fanático. Trata-se do conhecido argumentum ad populum. Bilhões de pessoas que acreditam em algo, isso quer dizer que essa crença não pode estar errada! Eles ignoram o alerta de Anatole France, de que “se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida”. Isso também explica porque os fanáticos, apesar de desejarem exterminar uns aos outros, odeiam ainda mais aqueles que não compartilham de fanatismo algum. Um fascista fanático pode até nutrir algum respeito pelo comunista fanático, mas ambos desprezam o homem “sem fé”, sem uma causa santa que o faz disposto aos maiores autossacrifícios, incluindo seu martírio.

Estes fanáticos demandam um líder, alguém que assuma por eles o fardo da responsabilidade. Este líder, segundo Hoffer, deve ter audácia, uma fé fanática na causa santa, e a habilidade de despertar a devoção fervorosa no grupo. A qualidade das idéias em si tem menor relevância. O que importa é o gesto arrogante, o completo desprezo pela opinião dos outros, o desafio ao mundo. Algum grau de charlatanismo é fundamental para a liderança do movimento de massa. Os fatos precisam ser deturpados sempre a favor da seita, tarefa facilitada pela necessidade de crença dos fanáticos. Os fanáticos estão ávidos por obediência ao guru da seita. O crente deve ser acima de tudo uma pessoa obediente e submissa.

Normalmente, o movimento de massa joga descrédito e suspeita sobre o governo estabelecido, mas acaba adotando as mesmas práticas ou até piores uma vez que consegue chegar ao poder. Os revolucionários franceses adotaram o Terror, fazendo a monarquia parecer suave. Os bolcheviques mataram milhões em poucos meses, mais do que o regime dos czares em toda a sua existência.

O filósofo John Stuart Mill lamentou sobre o Cristianismo: “Que os cristãos, cujos reformadores pereceram na masmorra ou na fogueira como apóstatas ou blasfemos – os cristãos, cuja religião exala em cada linha a caridade, liberdade e compaixão... que eles, depois de conquistar o poder de que eram vítimas, exerçam-no exatamente da mesma maneira, é demasiado monstruoso”. A Igreja, uma vez estabelecida e cristalizada, soube ser autoritária e pegar emprestado do Império Romano sua hierarquia e burocracia.  

O que todos os fanáticos condenam em conjunto é a democracia liberal do Ocidente, acusada de decadente e pusilânime. Os indivíduos sob tal regime não estariam mais dispostos ao sacrifício por uma causa santa. A perda de vigor, de fé cega, seria sinal de podridão moral. Sem dúvida há alguma verdade nisso. De fato, as democracias modernas dão sinais de covardia, ainda mais quando comparadas às teocracias islâmicas e seus terroristas fanáticos dispostos a tudo pela causa. Falar em reformas nunca tem o mesmo apelo emocional que falar em revolução, em derrubar todo o sistema podre, passar uma borracha no presente injusto e criar um novo mundo maravilhoso, ou então em resgatar um passado idealizado, um jardim do Éden sonhado.

Mas, como espero ter deixado claro acima, com base no excelente e importante livro de Eric Hoffer, a troca deste marasmo imperfeito por um movimento de massa revolucionário é algo extremamente perigoso. Talvez o mundo precise de alguns fanáticos de vez em quando, que abraçam causas santas com fé cega. Talvez alguns desses movimentos tenham tido efeitos líquidos positivos ao longo da história. Só que é fundamental ter em mente o risco que eles representam. Quando muitos sucumbem ao fanatismo e à submissão sem questionamentos racionais, então a liberdade individual corre sério perigo. Os fanáticos podem querer justamente fugir desta liberdade. Mas ela é crucial para o avanço da civilização.  

terça-feira, janeiro 24, 2012

As lições de Churchill


Rodrigo Constantino, O GLOBO

Winston Churchill faleceu no dia 24 de janeiro de 1965. Este artigo é uma homenagem a este que foi a figura política de maior destaque no século 20. Liderança inquestionável nos turbulentos anos 40, Churchill foi o maior responsável individual pela derrota nacional-socialista na Segunda Guerra Mundial. Não é pouca coisa.
De sua longa vida, podem-se tirar diversas lições importantes. Superação é uma das primeiras palavras que vem à mente. A quantidade de adversidades e obstáculos que surgiram em seu caminho apenas fortalece o mérito de suas conquistas. Churchill não era de desistir, e usava cada tropeço para se reerguer com mais determinação ainda. Para ele, sucesso era a habilidade de sair de um fracasso para outro sem a perda do entusiasmo.
Como todo ser humano, Churchill tinha suas falhas e contradições. Nem sempre foi correto, e errou em suas previsões em importantes situações. Mas todos estes defeitos servem para torná-lo mais humano, e não eclipsam de forma alguma seus tantos acertos, fundamentais para preservar a liberdade naqueles ameaçadores anos.
Uma de suas maiores qualidades como estadista era seu realismo. Enquanto muitos preferiam o falso consolo de esperanças ingênuas, Churchill analisava os fatos com maior frieza. Como escreve Paul Johnson em sua biografia, “Churchill era realista o bastante para perceber que as guerras aconteceriam e, por mais terríveis que fossem, ele preferia vencê-las a perdê-las”. Ele sabia ser pragmático quando necessário, mas sua essência era basicamente a de um liberal, defensor da democracia e também do livre mercado.
Sobre a democracia, aliás, Churchill tornou famosa a idéia de que se trata do pior modelo político, exceto todos os outros. Ele era realista o suficiente para não esperar escolhas democráticas fantásticas, e costumava dizer que o melhor argumento contra a democracia era uma conversa de cinco minutos com um eleitor médio. Esta postura cética é importante para limitar os estragos que podem ocorrer com o abuso de poder do governo, mesmo sob regimes democráticos.
Nas grandes batalhas do século 20, tanto ideológicas quanto físicas, Churchill esteve do lado certo. Ele abominava os monstros aparentados: o comunismo, o nazismo e o fascismo. Considerava a tirania bolchevique a pior de todas. Chegou a afirmar que “o vício intrínseco do capitalismo é a partilha desigual do sucesso”, enquanto “o vício intrínseco do socialismo é a partilha equitativa do fracasso”.
Ainda assim, soube fazer concessões práticas quando a própria sobrevivência dos valores ocidentais estava em jogo. Até mesmo com Stalin ele costurou um pacto para derrotar Hitler, após este trair o ditador soviético. Para Churchill, se Hitler invadisse o inferno até o diabo mereceria ao menos uma palavra favorável.
Churchill havia lido “Mein Kampf” e, ao contrário de tantos que consideravam Hitler apenas um aventureiro iludido, ele acreditou em suas promessas. O “pacifismo” era o credo da moda, mas Churchill soube enxergar melhor a realidade. Isso fez com que a Inglaterra estivesse preparada quando o inevitável ataque nazista ocorreu. O papel de liderança exercido por Churchill neste momento de vida ou morte foi crucial para a vitória inglesa. “Nós nunca nos renderemos”, enfatizou em seu famoso discurso.
Ele era a “personificação do entusiasmo”, como explica Johnson. Sua retórica não era, entretanto, vazia, e suas ações incansáveis colocavam em prática sua mensagem. Sua coragem na liderança da máquina de guerra inglesa comprovava sua fala. Sua confiança era contagiante, e sua determinação, inspiradora. Segundo o historiador Paul Johnson, seria legítimo dizer que Churchill realmente salvou a Inglaterra (e, portanto, o Ocidente).
Além das medalhas militares, Churchill publicou quase 10 milhões de palavras em discursos e livros, pintou mais de 500 telas, construiu pessoalmente boa parte de sua propriedade particular, foi membro da Royal Society, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, foi exímio caçador e jogador de pólo, criou cavalos vencedores e consumiu espantosa quantidade de champanhe, em companhia de seus charutos. Era muito espirituoso, com incríveis tiradas dignas de uma mente rápida e sagaz.
Para Paul Johnson, a vida de Churchill passa ao menos cinco lições importantes: pense sempre grande; nada substitui o trabalho árduo; nunca deixe que erros e desastres o abatam; não desperdice energia com coisas pequenas e mesquinhas; e, por fim, não deixe que o ódio o domine, anulando o espaço para a alegria na vida. Belas lições!

quinta-feira, novembro 24, 2011

É proibido fumar


Rodrigo Constantino, para a revista VOTO

O Senado aprovou um projeto de lei que acabará com os “fumódromos” em locais fechados, mesmo em ambientes privados. O texto, que segue agora para a sanção da presidente Dilma Rousseff, também prevê o aumento na carga tributária dos cigarros, cuja alíquota de IPI será de 300%, além de deixar a cargo do Executivo a tarefa de fixar o preço mínimo para a venda do produto no varejo (o contrabando agradece).

O projeto também torna obrigatório o aumento de avisos sobre os malefícios do fumo no maço de cigarros (como se alguém ainda não soubesse). O Ministério da Saúde acredita que o preço do cigarro subirá cerca de 20% já em 2012 e poderá ficar 55% mais caro em 2015. Estas medidas devem contribuir para reduzir o consumo de cigarros no país. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, comemorou a aprovação por seu Twitter: “Estamos avançando na restrição do tabagismo!”.

A cruzada antitabagista está alcançando patamares alarmantes. Se antes a suposta preocupação era com o impacto da fumaça nos não-fumantes, agora a meta está escancarada: querem abolir o cigarro do mundo! Enquanto os fumantes não forem vistos como párias da sociedade, como doentes que precisam urgentemente de ajuda, os cruzados não vão sossegar. Eles são os portadores da Boa Nova, repletos de boas intenções, que vão impor um estilo de vida mais saudável aos ímpios e fracos.

Em recente artigo na Folha de São Paulo, um dos mais atuantes antitabagistas, Dráuzio Varella, afirmou que o cigarro é um dos piores crimes do capitalismo, pior até que a escravidão! Não obstante o verdadeiro absurdo de inverter tudo e culpar o capitalismo pela escravidão – ou será que quase todas as civilizações antigas eram capitalistas? – chama a atenção o grau de abuso da retórica em que chegam os missionários da saúde total. A nicotina passou a ser o inimigo público número um para essa gente. Varrer o tabaco da face da Terra é a razão da vida destas pessoas.

Não sou psicanalista para procurar motivos inconscientes que movem os adeptos desta cruzada. Talvez muitos tenham sido fumantes inveterados, incapazes de controlar minimamente o consumo do cigarro, e agora querem se vingar dos produtores. Ou quem sabe são apenas almas autoritárias dando vazão ao desejo de controlar vidas alheias. Pode ser ainda o caso de órfãos religiosos que buscam na cruzada da higiene plena um novo sentido para suas vidas após a “morte” de Deus. Realmente não sei dizer o que leva essas pessoas a abraçar esta causa com tanta determinação. Procuro apenas mostrar como estas bandeiras podem ser perigosas no longo prazo.

O regime que foi mais enfático no combate ao fumo e na luta pela saúde perfeita foi o nazismo. Hitler, que aparentemente era um fumante compulsivo na juventude, tornou-se um fervoroso antitabagista que desejava nada menos que a “pureza” do corpo. Detalhe importante: não a de seu corpo apenas, mas sim a de todos os arianos. A propaganda estatal contra o tabaco foi enorme durante o nazismo. Uma revista da época chegou a conclamar os “irmãos nacional-socialistas” a deixar de fumar e beber, pois cada alemão era responsável pela saúde de todos, e nenhum indivíduo tinha o direito de prejudicar seu corpo com drogas. Hitler não fumava, não bebia e era vegetariano. Todos deveriam seguir seu exemplo. Largar o hábito de fumar era um “dever” dos nazistas, e Hitler chegou a dar relógios de presente para associados próximos que tiveram sucesso na empreitada.

Se um indivíduo obsessivo deseja viver em busca de sua “saúde perfeita”, pensando que assim chegará perto de alguma imortalidade qualquer, o problema é dele. Eu, particularmente, acredito que há outros objetivos mais louváveis na vida do que apenas postergar a morte. Mas isso deve ser uma escolha individual. O que parece totalmente absurdo é o desejo de controlar as vidas alheias. Quando o sujeito quer impor o seu estilo de vida aos demais, aí é que mora o perigo. Autoritários que não suportam as preferências dos outros ameaçam a liberdade geral, especialmente quando tais preferências dizem respeito somente às suas próprias vidas. Antes os antitabagistas, mais tímidos, alegavam lutar pela saúde das vítimas passivas do fumo. Agora a máscara caiu: é preciso extirpar o tabaco do mundo.

O Prêmio Nobel de economia, Hayek, foi direto ao ponto quando disse: “É verdade que ser livre pode significar a liberdade de passar fome, cometer custosos erros, ou correr riscos mortais”. Liberdade individual pressupõe direito de escolha, incluindo, naturalmente, as escolhas “erradas”. Ninguém deve me obrigar a ser “feliz” à sua maneira. Até porque se hoje deixamos o governo nos dizer o que podemos fazer com nosso próprio corpo, amanhã ele poderá nos dizer o que fazer com a mente, ou seja, o que “pensar”. Parte da liberdade é escolher ir para o “inferno” do seu próprio jeito. Recusar como meta na vida a busca por uma “saúde plena”, preferindo fazer concessões ao prazer do momento, é uma escolha legítima que cabe a cada um. Abrir mão deste direito é abrir mão da própria liberdade.

segunda-feira, julho 18, 2011

A tentação totalitária

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

VOCÊ SE considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.
Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).
Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.
Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.
A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.
Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.
Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.
Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?
Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.
Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.
Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".
E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 -é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.
Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mal assim".
É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "quero apenas o bem de todos".
Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.
Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".
Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.
E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.
Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.
O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.
Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.
O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.
Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.