domingo, outubro 14, 2007

Os Mitos Históricos


Rodrigo Constantino

“Não é suficiente dizer que a história é juízo histórico, é necessário acrescentar que todo juízo é um juízo histórico ou, simplesmente, história.” (Benedetto Croce)

Um dos mais influentes mitos sobre a história diz respeito à idéia de que o capitalismo, em sua infância, não passou do advento de um sistema possível pelo sofrimento de vários indivíduos que antes viviam confortavelmente. A relevância disso surge porque a experiência passada – ou o que entendemos por ela – é o pilar das crenças acerca das políticas e instituições que defendemos no presente. O que consideramos ter sido seus efeitos no passado molda nossas visões sobre a aprovação ou desaprovação de diferentes instituições. Conforme diz Hayek, os mitos históricos têm, provavelmente, desempenhado um papel tão importante na formação de opiniões quando os fatos históricos. A busca honesta pelos fatos históricos, separando-os dos mitos propagados, se torna um objetivo indispensável para quem deseja a verdade.

Logo de cara, deparamos com a questão delicada sobre quais perguntas merecem ser feitas, já que o julgamento de valor individual influencia até isso. Aquele que ignora este desafio de interpretação sob a luz de valores pessoais irá provavelmente se iludir, tornando-se vítima de seus próprios preconceitos inconscientes. Quem acredita ser possível reunir diversos fatos passados e então traçar conexões causais dos complexos eventos sociais sem o uso de uma teoria prévia, está fadado ao curso da ilusão. Explicações “óbvias”, como lembra Hayek, freqüentemente não passam de superstições aceitas, que não recebem a devida reflexão. A imagem de que o surgimento do capitalismo, como sistema descrito pelos socialistas, se deveu à exploração de uma classe de proletários, pode ser visto como um bom exemplo de tais superstições. Um exame mais cuidadoso dos fatos refuta facilmente esta crença.

A aversão emocional ao capitalismo, tão difundida ainda hoje, está relacionada a esta visão de que o crescimento da riqueza através da ordem competitiva produziu uma redução no padrão de vida dos mais fracos da sociedade. Será mesmo verdade isso? O fato é que a vida sempre foi dura para a grande maioria, e antes do advento do capitalismo, nem mesmo havia a esperança de melhoria. A população ficara estagnada por muitos séculos, até começar a aumentar vertiginosamente. O proletariado que o capitalismo é acusado de ter “criado” não era uma proporção da população que teria existido sem este sistema e que foi degradado por ele; era um adicional populacional que pôde crescer justamente pelas inúmeras oportunidades de empregos que o capitalismo possibilitou. É evidente que os motivos não foram altruístas, como ainda hoje não o são. Ainda assim, era um momento único na história onde um grupo de pessoas considerava de seu próprio interesse usar seus lucros de forma a fornecer novos instrumentos de produção a serem operados por aqueles que, sem eles, não poderiam produzir a própria subsistência.

O capitalismo trouxe consigo, portanto, enorme avanço material para muitos. O que um operário pode desfrutar de conforto material hoje era algo inimaginável até para nobres no passado. Este aumento na riqueza despertou a demanda por novas aspirações antes impossíveis de se imaginar. Aquilo que por séculos foi visto como um estado natural e inevitável passava a ser encarado como incongruente com as novas oportunidades oferecidas. Claro que a vida dos novos operários não era nada fácil. Ninguém ousaria negar este fato. O ponto é que poucos se questionam sinceramente como era a vida antes da revolução industrial. Como vivam de fato os camponeses? Ainda que as várias horas trabalhadas nas fábricas fossem degradantes – especialmente vistas pelo conforto do progresso atual – a verdade é que a migração era vista como vantajosa para aqueles que abandonavam o campo. Era um avanço para eles! Entre trabalhar várias horas e morrer de inanição, não resta muita dúvida qual a escolha preferível. Não parece honesto comparar uma realidade dura com uma alternativa inexistente, utópica, fantasiosa. Muitos repudiam o fato de mulheres e até crianças terem ido trabalhar nas fábricas, mas ignoram que era um ato voluntário, pois a alternativa era ainda pior. O capitalismo veio para salvar estes miseráveis, não para explorá-los. Muitos dos que puderam condenar os abusos depois nem sequer estariam vivos, não fosse o progresso da industrialização. Como ingratos, cospem no prato que comeram.

A história dos Estados Unidos corrobora com esta análise. A nação já foi praticamente toda ela agrícola, e hoje uma minúscula parcela da população trabalha no meio rural. A migração para as indústrias e, depois, para o setor de serviços, foi natural, ou seja, voluntária. A maior produtividade do trabalho nas indústrias permitiu maiores salários para os operários, que desejavam migrar do campo para as cidades. O mesmo pode ser observado atualmente na revolução industrial que a China vive. Milhões de camponeses tentam abandonar os campos para trabalhar horas e horas nas indústrias, por salários que, do ponto de vista ocidental, parecem uma exploração, mas que para esses chineses significa um salto considerável frente à realidade atual, herança socialista. Os chineses que trabalham nas indústrias recebem, em média, até três vezes mais que os trabalhadores rurais. As multinacionais que instalam fábricas na China e são acusadas de exploradoras costumam pagar ainda mais.

Os salários dependem, evidentemente, da produtividade do trabalho. Não se melhora a condição de vida dos trabalhadores por decretos estatais. Se assim fosse, não haveria mais miséria no mundo. De fato, há mais miséria justamente onde esta mentalidade, de que cabe ao governo decretar as conquistas trabalhistas, predomina. Os ganhos dos trabalhadores dependem de sua produtividade, e esta normalmente depende do grau de liberdade econômica do país. O capitalismo, com sua revolução industrial e inovações tecnológicas, atua como o grande aliado dos trabalhadores. Máquinas não são inimigas do emprego. Pelo contrário: são seus grandes aliados! Ao menos é o que mostra a lógica econômica, sustentada pelos fatos históricos. Resta decidir se os fatos são mais importantes, ou se são os mitos históricos, que pintam o capitalismo como grande inimigo dos trabalhadores. A verdade ou a superstição: façam suas escolhas.

sexta-feira, outubro 12, 2007

O Nobel da Paz


Rodrigo Constantino

Acaba de ser anunciado o mais novo vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2007. Ninguém menos que Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos. O prêmio foi por seu trabalho de divulgação mundial das mudanças climáticas do planeta, cuja obra mais famosa foi seu documentário Uma Verdade Inconveniente, onde supostamente apresentou evidências para sustentar a acusação de que o homem é o grande culpado pelo aquecimento global.* Todos aqueles que abraçam com fé a causa celebraram a notícia. Eles acreditam que esse prêmio colocará ainda mais na pauta de debates a questão do aquecimento. Tomara que sim! Mas receio que o debate verdadeiro não seja do real interesse de muitos que aderiram a este eco-terrorismo, assim como desconfio que um Nobel da Paz em nada ajude o lado desses “ambientalistas”. Explico.

Em primeiro lugar, seria útil entender a origem do Prêmio Nobel da Paz. Em 1889, os irmãos Nobel, do ramo de petróleo, completaram um duto de 42 milhas através de uma montanha na Rússia. O que fez toda a diferença pela conquista foi o uso de 400 toneladas da dinamite criada por Alfred Nobel. Quando Ludwig Nobel morreu, alguns jornais europeus o confundiram com o irmão Alfred, que foi reportado como morto. Lendo seu obituário prematuro, Alfred ficou abalado ao descobrir que era condenado como um criador de munições, o “rei da dinamite”, um sujeito que tinha feito uma fortuna através da morte de vários inocentes. Ele resolveu então reescrever seu testamento, deixando seu dinheiro para a criação de prêmios que iriam perpetuar seu nome da forma mais honrosa possível. Tinha início então uma seqüência de prêmios que objetivava, na verdade, criar uma boa imagem perante o público, fazer propaganda de ações “politicamente corretas” que as massas vissem com bons olhos. A dinamite era substituída pelo Nobel da Paz!

A lista de vencedores do Prêmio Nobel da Paz conta com gente séria e merecedora de reconhecimento, sem dúvida. Martin Luther King Jr. é um exemplo que vem à mente, entre outros. Por outro lado, alguns nomes da lista simplesmente não fazem sentido algum. Por exemplo: o que o ex-presidente americano Jimmy Carter está fazendo nessa lista? Um presidente que, na melhor das hipóteses pode ser chamado de medíocre, enquanto na pior delas pode ser visto como alguém negligente diante da ameaça comunista, merece o Prêmio Nobel da Paz por qual motivo? A justificativa fala em seu esforço pelos “direitos humanos” e para promover o desenvolvimento social no mundo. O que?! Se durante o seu governo tudo o que ele conseguiu foi atrasar o desenvolvimento americano, ele merece um prêmio por pregar utopias esquerdistas mundo afora? Não vamos esquecer que recentemente até o presidente Lula foi cogitado como um possível candidato ao prêmio, por ficar falando bravatas na ONU sobre impostos para combater a fome mundial. Um presidente de um país ainda repleto de pobres, dando aulas aos ricos sobre como solucionar a fome no mundo. É fantástico! É um caso típico para o Nobel da Paz: discursos lindos que nada fazem de concreto e positivo na prática. Pelo contrário...

Outro agraciado pelo prêmio foi Kofi Annan, ex-secretário geral da ONU. Annan comandou a ONU durante o programa de Petróleo-por-Comida, para lidar com a ameaça do Iraque. Hoje se sabe que este programa foi um verdadeiro antro de corrupção, favorecendo os barões do petróleo, os ditadores e seus amigos. O filho do próprio Kofi Annan foi citado como um dos favorecidos pelo esquema multibilionário. E por falar em corrupção, lembramos de comunismo, que nos remete a outro estranho vencedor do prêmio: Gorbachev. Líder da União Soviética durante sua acelerada decadência, Gorbachev recebeu o prêmio pelo fim da Guerra Fria. Não é Reagan, vejam bem!, quem merece o prêmio, mandando Gorbachev derrubar aquele nefasto muro e investindo no setor militar de forma a debilitar os devaneios soviéticos. Nada disso! O prêmio foi para aquele que, internamente, discursava sobre medidas para salvar o comunismo na Rússia. Um comunista, herdeiro do regime mais genocida que existiu no planeta, foi Nobel da Paz. Se Picasso ganhou o Prêmio Lênin da Paz, depois de fazer uma litografia com a famosa pomba para o Congresso Mundial da Paz em Paris, como presente para o carniceiro Stalin, nada mais me choca. Alguns “pacifistas” poderiam estar tranquilamente em Guantánamo!

Mas isso não é tudo. Creio que o pior mesmo, o mais estarrecedor de todos, foi quando o Prêmio Nobel da Paz foi parar nas mãos de ninguém menos que Yasser Arafat, o então líder do grupo terrorista OLP. Arafat e paz são duas palavras que simplesmente não se misturam, tal como água e óleo na prática. Os atos terroristas da OLP ocorriam com o financiamento que Arafat conseguia no exterior, enquanto sua mulher e filha vivam confortavelmente em Paris. Arafat, apesar da propaganda enganosa, fez de tudo para evitar um acordo de paz com Israel. Quando Israel cedia em praticamente todas as exigências palestinas, Arafat demandava mais, ou seu grupo terrorista iniciava nova onda de ataque à inocentes. A paz não interessava muito aos terroristas, por motivos óbvios. Um sujeito como Arafat receber o Nobel da Paz era o golpe fatal que restava para desmoralizar de vez este prêmio.

E eis que chegamos em 2007, com Al Gore sendo o novo vencedor do Nobel da Paz. Os “ambientalistas” que odeiam o progresso capitalista comemoram bastante. Ponto para a causa dos que demandam mais e mais controle do governo em nome do combate ao aquecimento global. Será mesmo? Não sei quanto a estes “melancias” – verdes por fora e vermelhos por dentro, mas eu não gostaria de receber um mesmo prêmio que Yasser Arafat recebeu. Diga-me com quem andas que te direi quem és. Algumas companhias desse prêmio dão calafrios! Mas algo me diz que os mais fanáticos seguidores da causa de Al Gore não se importam nada em ter Arafat no rol dos vencedores do mesmo prêmio. Pelo contrário: eles gostam! É, no fundo, faz sentido...

* Para quem realmente tem interesse em se informar sobre o tema aquecimento global, evitando conclusões precipitadas e dogmáticas sem a devida reflexão, sugiro o documentário The Great Global Warming Swindle, cujo link no YouTube é: http://www.youtube.com/watch?v=1JCVjg7H94s

quarta-feira, outubro 10, 2007

A Mensagem de Greenspan


Trechos extraídos da Introdução de A Era da Turbulência, de Alan Greenspan:

Sobre a reação ao atentado de 11 de Setembro, defendendo uma solução de baixo para cima:

"Eu não tenho dúvida de que a resposta mais adequada não consistiria em gestos grandiosos, dispendiosos e precipitados. Em épocas de grandes emergências nacionais, todos os congressistas se sentem obrigados a apresentar projetos de lei; os presidentes também são pressionados a agir com rapidez. Nessas condições, é possível que se adotem políticas públicas imediatistas, ineficazes e até contraproducentes, como o racionamento da gasolina imposta pelo presidente Nixon durante o primeiro choque de petróleo da OPEP, em 1973, que, naquela primavera, gerou filas diante de postos de abastecimento em algumas áreas do país."

"Aos poucos, passei a acreditar que a maior força da economia americana era sua resiliência – a capacidade de absorver rupturas e de recuperar-se dos choques – por meios e em ritmo que jamais seria possível imaginar – muito menos impor."

As causas da resiliência americana:

"Nas últimas duas décadas, a economia americana se tornou cada vez mais resiliente a choques. A desregulamentação dos mercados financeiros, a maior flexibilidade dos mercados de trabalho e, mais recentemente, os grandes avanços da tecnologia da informação aumentaram nossa capacidade de absorver rupturas e de nos recuperarmos do choque."

Crítica ao meio político:

"O pacote que finalmente emergiu em março de 2002, além de atrasado em alguns meses, tinha pouco a ver com o bem-estar geral – não passava de uma mixórdia constrangedora de fisiologismo partidário. No entanto, a economia ajustou-se a si mesma."

Ataque ao protecionismo:

"As barreiras tarifárias caíram nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, em conseqüência do reconhecimento geral de que o protecionismo anterior à guerra resultara em espiral descendente do comércio – em face da reversão da divisão internacional do trabalho, que contribuiu para o quase colapso da atividade econômica mundial."

O planejamento central:

"O momento definitivo do capitalismo de mercado, contudo, foi a queda do Muro de Berlim, em 1989, revelando a situação de ruína econômica que predominava no outro lado da cortina de ferro, muito além das expectativas dos mais esclarecidos economistas ocidentais. O planejamento central se escancarou como fracasso irremissível, fator que, reforçado pela desilusão crescente em relação às políticas econômicas intervencionistas das democracias ocidentais, contribuiu para a expansão discreta do capitalismo de mercado em boa parte do mundo."

Baixa inflação:

"Os mecanismos de mercado que equalizam os níveis globais reais de poupança e de investimento reduziram de maneira marcante as taxas de juros reais. (...) Em outras palavras, a oferta de dinheiro em busca de retorno ou rendimento cresceu muito mais rápido que a demanda por investimentos. Combinada com a globalização, com os aumentos de produtividade propiciados pelas inovações tecnológicas e com o deslocamento das forças de trabalho das economias sob planejamento central para os mercados competitivos, esse excesso de poupança contribuiu para reduzir as taxas de juros e as taxas de inflação em quase todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento."

Fed e Ouro:

"A política monetária dos bancos centrais não foi a principal causa do declínio persistente da inflação e das taxas de juros de longo prazo. (...) No entanto, ... nenhuma dessas forças tende a ser permanente. É difícil eliminar a inflação num mundo com moedas fiduciárias."

Livre comércio:

"O restabelecimento no último quarto de século dos mercados abertos e do livre comércio arrancou da pobreza acabrunhante muitas centenas de milhões de pessoas. (...) Resumindo em uma linha a história do último quarto de século, o enredo sucinto será a redescoberta do poder do capitalismo de mercado."

Mão Invisível:

"A difusão do império da lei comercial e, sobretudo, da proteção do direito de propriedade fomentou o espírito empreendedor em todo o mundo, o que, por sua vez, levou à criação de instituições que agora orientam anonimamente parcela cada vez maior da atividade humana – versão internacional da ‘mão invisível’ de Adam Smith."

Keynes:

"O intervencionismo keynesiano ainda era o paradigma esmagadoramente dominante naquela época, embora já estivesse em fase de declínio. (...) Os malfadados controles de salários e preços do presidente Nixon, em 1971, se incluem entre os últimos vestígios do intervencionismo do pós-guerra no mundo desenvolvido."

Império da lei:

"Não me lembro de nenhuma situação em que a expansão do império da lei e o aprimoramento dos direitos de propriedade não contribuíram para o aumento da prosperidade material."

A grande escolha:

"Em face da integração crescente da economia global, os cidadãos do mundo se defrontam com uma escolha árdua: de um lado, abraçar os benefícios mundiais dos mercados globais e das sociedades abertas, que arrancam as pessoas da pobreza e as lançam na escalada em busca de melhores qualificações, como meio de melhorar seus padrões de vida, ao mesmo tempo em que se mantêm atentas às questões fundamentais de justiça; de outro, rejeitar essa oportunidade e aferrar-se ao nativismo, ao tribalismo, ao populismo e a todos os demais ismos, em que se refugiam as comunidades, quando se vêem sitiadas em sua própria identidade e não conseguem perceber melhores escolhas."

E isso tudo apenas na introdução! O livro promete...

segunda-feira, outubro 08, 2007

Egoísmo Racional à Venda!




Ainda tenho exemplares de Egoísmo Racional para vender. O preço é R$ 20, com frete incluído. Quem tiver interesse, basta enviar um email para constantino.rodrigo@gmail.com

Grato,

Rodrigo

domingo, outubro 07, 2007

O Vale das Quimeras


Rodrigo Constantino

“Sem um capitalismo de primeira linha não pode existir bem-estar ou, menos ainda, um Estado beneficente.” (Mauricio Rojas)

Com a queda do Muro de Berlim e do império soviético, abrindo as cortinas de ferro para o mundo e mostrando o fracasso do socialismo, os socialistas órfãos se viram desesperados atrás de alguma ideologia nova. Foram encontrar refúgio no Estado de Bem-Estar Social, a “terceira via” que preserva a fé num governo benevolente e clarividente, desconfiando ainda da iniciativa privada. Particularmente na América Latina, esta crença encontrou inúmeros adeptos. Num estado de frustração e de carências sociais, a tentação de acreditar numa varinha mágica que, num piscar de olhos, crie tudo que nos falta é quase irresistível. Bastaria “vontade política” para que o governo, através de um ato generoso, resolvesse os males que nos assolam. Tais ilusões criam enormes expectativas quanto ao “messias salvador”, e a frustração apenas aumenta com seu fracasso inevitável. O atalho milagroso acaba sendo uma via sem saída da demagogia populista.

A Suécia é um ícone sempre citado pelos adeptos desta “terceira via”. Entretanto, há muita informação ignorada sobre o modelo sueco. O novo livro de Mauricio Rojas, um chileno naturalizado sueco, que é membro do Parlamento da Suécia e foi professor de história econômica da Universidade de Lund, vem justamente resgatar fatos importantes comumente esquecidos pelos fervorosos defensores do modelo de welfare state sueco. O Instituto Liberal presta um grande serviço ao país traduzindo A Suécia Depois do Modelo Sueco, onde Rojas explica a transição do modelo de um Estado beneficente para um Estado possibilitador. Rojas lamenta a crença naquilo que é, na verdade, um mito: “Triste destino esse de ter fé em quimeras políticas em vez de acreditar naquelas instituições da liberdade econômica que deram, primeiro à Europa Ocidental e aos Estados Unidos, e depois a um número cada vez maior de países, um bem-estar que nem sequer em sonhos se teria podido imaginar há dois séculos atrás”. Para o autor, o modelo sueco é “a última utopia de uma esquerda que depois da queda dos totalitarismos comunistas foi ficando com as mãos cada vez mais vazias”.

O próprio povo sueco já vem abandonando faz algum tempo esse modelo maximalista do Estado beneficente. Os seus custos foram elevados demais, mesmo para um país de população pequena – apenas nove milhões de pessoas - e educada, que não sofreu as conseqüências devastadoras das guerras que destruíram os demais países da Europa. Além disso, a herança do que podemos chamar de período liberal da história da Suécia, que vai desde a instauração da plena liberdade de indústria e comércio em 1864 até o início da hegemonia social-democrata em 1932, foi o que possibilitou uma expansão tão assustadora do governo na vida do povo, oferecendo mais e mais à custa de pesados impostos. A carga tributária total, por exemplo, duplicou entre 1960 e 1989, passando de 28 para 56 por cento da renda nacional. Mas algum dia o fardo seria excessivo demais. E este dia de ajustes necessários já chegou.

Uma das conseqüências mais óbvias do avanço estatal na economia foi a rápida expansão da economia planificada à custa da economia de mercado. A partir de 1950, praticamente todo emprego líquido criado na Suécia se deu no setor público. O aumento da burocracia e a concomitante queda da liberdade econômica logo geraram resultados nefastos. A Suécia, que era o quarto país mais rico do mundo em termos de renda real per capita em 1970, ocupou em 2003 o 14º lugar no ranking da OCDE. Entre 1975 e 2003 a economia sueca cresceu 68% enquanto a norte-americana aumentou 141%. A estagnação era um resultado inexorável da gradual asfixia do setor privado. As grandes empresas suecas, em sua maioria, são empresas que já eram grandes no passado. O modelo sueco, focado demais na igualdade, não deixava muito espaço para a mobilidade.

Além disso, deve-se ter em mente o alerta que Hayek fez, afirmando que a mudança mais importante que um controle extensivo do governo produz é uma mudança psicológica, uma alteração no caráter das pessoas. A vida dos cidadãos suecos se viu amplamente politizada, já que a liberdade de escolha estava severamente restrita. O meio de conseguir as coisas era o meio político, da barganha e da luta por privilégios. O monopólio estatal sobre a organização de serviços básicos como educação, saúde e assistência social fez com que as decisões mais íntimas das famílias fossem submetidas à influência política. Teve até um caso de um idoso que entrou na justiça defendendo seu “direito” de ter prostitutas pagas pelo governo! O ressentimento entre jovens – que assumem a conta – e idosos aumenta exponencialmente. Esta realidade contrasta absurdamente com um provérbio curiosamente sueco, que diz que “o melhor lugar para achar uma mão que ajude é no final do seu braço”. O paternalismo excessivo cria inúmeros parasitas.

A passividade diante de um Estado paternalista que “cuida” dos cidadãos nos mais variados aspectos cria um moral hazard brutal na sociedade. Os escândalos de corrupção cresceram de forma impressionante, chocando a nação. Em caso sintomático envolveu quase uma centena de funcionários do poderoso monopólio estatal da venda de bebidas alcoólicas, cuja chefe era nada menos que a esposa do primeiro-ministro.

Outra seqüela importante do welfare state acaba sendo a xenofobia, já que os beneficiados pelo esquema de privilégios temem a invasão de imigrantes pobres em busca das mesmas regalias grátis. Com pesados impostos, os mais ricos e produtivos acabam fugindo para países mais amigáveis, levando ao conhecido brain drain, enquanto vários imigrantes necessitados tentam entrar no país para aproveitar vastos serviços públicos gratuitos. Nas vizinhas escandinavas, como Noruega e Dinamarca, já existem partidos xenófobos influentes, que fizeram da “questão da imigração” o tema fundamental. Este crescente sentimento de reclusão é uma realidade preocupante nos países com inchado welfare state.

A partir de 1990 os ventos começariam a soprar em nova direção na Suécia. O abandono sucessivo do modelo de Estado beneficente ocorreu durante esta década. A crise econômica estava em patamares preocupantes, e a taxa total de desemprego subiu de 2,6% em 1989 para 12,6% em 1994. A crise fiscal que se seguiu foi extremamente aguda. O déficit público explodiu, alcançando 12,3% da renda nacional em 1993. A exclusão em bairros marginais assustou uma população acostumada com um elevado grau de igualdade. Em 1991 era eleito para primeiro-ministro Carl Bildt, do Partido Conservador. Pela primeira vez a social-democracia foi derrotada por uma coalizão que manifestava abertamente o desejo de mudar profundamente o sistema vigente.

Entre as várias reformas adotadas, está o saneamento das contas fiscais através da redução do gasto público, que chegou a cair mais de quinze pontos percentuais em relação à renda nacional. A dívida pública baixou de 80 para 53 por cento da renda nacional entre 1994 e 2000. Além disso, a liberdade de escolha foi radicalmente ampliada, como no caso da educação, utilizando-se os vouchers desde 1992, garantindo a liberdade dos pais dos alunos para decidir onde colocar seus filhos para estudar. Do lado da oferta, houve uma ampla liberdade de estabelecer escolas independentes e de competir com o setor público. O sistema de pensão também foi reformado, e foi estabelecido o direito de decidir com plena liberdade a aplicação de uma parte da poupança entre uma grande variedade de fundos. O capitalismo era estimulado assim, despertando interesse popular inusitado pelas variações na bolsa de valores. O Riksbank, banco central sueco, passou a focar na estabilidade de preços com uma meta de inflação de apenas 2%. Inúmeras privatizações ocorreram também, reduzindo a intervenção estatal em importantes setores. Segundo o World Fact Book, da CIA, as firmas privadas já são responsáveis por 90% da produção industrial do país.

A pluralidade e diversificação são inimigas do igualitarismo, que nos remete ao “fordismo”, cuja filosofia pode ser expressa por Henry Ford ao dizer que os consumidores poderiam livremente escolher o automóvel de sua preferência, desde que fosse um Ford Modelo T de cor preta. Colônias de insetos gregários não combinam com liberdade de escolha individual. O povo sueco vem se mostrando cada vez mais cansado desta perda de liberdade. O custo da suposta igualdade ficou elevado demais. No vale das quimeras, onde o governo garante uma vida “digna” a todos sem muito esforço, o resultado na prática é sempre um rio de lágrimas. Para Mauricio Rojas, este modelo paternalista se tornou incompatível com o desenvolvimento da sociedade, e “hoje já pertence ao mundo das recordações e dos mitos”. *

* Outra fonte muito boa de informação sobre a realidade sueca pode ser encontrada no artigo The Sweden Mith, do economista Stefan Karlsson, publicado no Mises Institute. Nele, o economista, que trabalha na Suécia, mostra como o afastamento de guerras desde 1809 foi um dos fatores mais importantes no relativo sucesso da Suécia, assim como as reformas de livre mercado adotadas nos anos 1860. Entre 1870 e 1950, a Suécia se transformou num dos países mais ricos do mundo. Mas entre 1950 e 1975, os gastos do governo subiram de 20% para 50% do PIB. As mudanças tornaram o país menos competitivo em termos globais. A moeda, o krona, acabou sendo desvalorizada. A inflação começou uma escalada contínua. Portanto, usar a Suécia como ícone de sucesso do modelo de welfare state é uma falácia. Na verdade, a Suécia enriqueceu por conta tanto do liberalismo como de sua neutralidade militar, e o inchaço estatal plantou as sementes do relativo fracasso. Reformas liberais têm sido adotadas para reduzir o estrago causado pelo tamanho do Estado. Correlação não é causalidade. A Suécia desfruta de boa qualidade de vida a despeito do welfare state, não por causa dele.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Tropa de Elite


Rodrigo Constantino

Finalmente vi o tão falado filme Tropa de Elite, no dia da estréia oficial nos cinemas. Gostei muito. O que mais me impressionou no filme foi seu realismo, a forma direta como trata de delicados temas – como o da violência carioca. Após ver o filme, parece-me incompreensível o rótulo de “fascista” que muitos esquerdistas deram ao filme. Sim, entendo que tudo aquilo que não é socialista vira “fascista” ou “nazista” para essa turma. Não obstante o fato de que na prática é tudo farinha do mesmo saco – socialismo, comunismo, fascismo e nacional-socialismo, todos antiliberais e coletivistas – fica a constatação de que o filme não tem absolutamente nada que nos remeta ao fascismo. A não ser, claro, que ser contra a extinção do “caveirão” seja sinônimo de fascismo...

O filme mostra um Capitão Nascimento vivendo angústias pessoais, e não um monstro que adora torturas. O filme não faz apologia à tortura hora alguma, como alguns disseram. Ele apenas relata a vida dura dos policiais do Bope, e a podridão que é o sistema policial na cidade. Em resumo, ele descreve uma realidade lamentável da cidade “maravilhosa”, onde todo o sistema funciona para se perpetuar, incluindo policiais corruptos, traficantes, políticos e consumidores de drogas da classe média e alta. A tropa de elite da PM é tratada como um pequeno grupo ainda blindado contra a corrupção que devorou o restante da polícia, graças provavelmente ao sentimento de honra de seus membros. O ambiente hostil, cujo câncer da corrupção já chegou ao estágio de metástase, não colabora nem um pouco com a adoção de práticas corretas no combate ao crime. Isso não quer dizer que os métodos aplicados pelo Bope sejam dignos de aplausos. Apenas mostra como a realidade é: guerra é guerra. E o Rio vive, especialmente nesses locais, uma verdadeira guerra civil, com a total ausência do império da lei.

Um suíço vendo o filme ficaria chocado, com razão. E é importante pensar nisso, pois nos força uma reflexão: a que ponto nós chegamos?! Como sapos escaldados, vamos nos acostumando com a escalada da violência, achando normal a situação deplorável da cidade. Mas de vez em quando, como se despertos de um pesadelo, a revolta e indignação chegam a tal patamar que um Capitão Nascimento, assassino de assassinos, passa a ser visto com complacência – quando não admiração. É como um grito de desespero, colocando para fora nossa angústia. As favelas viraram verdadeiras fortalezas do crime, desde quando Brizola as tornou intocáveis pela polícia. Se antes era relativamente fácil extirpar o câncer, fica cada vez mais complicado fazer isso agora. A mentalidade de que bandidos são “vítimas da sociedade” não ajuda nada. As ONGs como a Viva Rio, que vivem pregando a paz enquanto atacam a polícia e defendem os bandidos, tampouco contribui. E o fato de ONGs desse tipo terem sido tratadas como hipócritas no filme, assim como os ricos que pedem paz entre uma carreira de cocaína e outra, ajudou bastante para os ataques que recebeu da “esquerda festiva carioca”. Defender o fim da ação policial nos morros não é solução!

Eu sou um defensor da legalização das drogas. Não encaro isso como uma panacéia para nossos males, lembrando que vários países possuem consumo de drogas proibidas, mas nem por isso vivem no caos em que vivemos. Mas vejo a proibição das drogas como uma das grandes causas da violência, origem do tráfico. O Capitão Nascimento passa a mesma idéia no filme, quando desabafa que está de “saco cheio” de ter que subir morro e ver as crianças que morrem por conta do tráfico só porque os “playboys” querem enrolar um baseado. Entre Al Capone e os acionistas da Inbev, eu fico com a segunda opção, sem dúvida. Não consigo entender porque alguns preferem dar dinheiro para o PCC, Comando Vermelho e FARC em vez de dar lucros para uma Souza Cruz da vida, que gera empregos formais e paga impostos. A maconha deveria ser vendida por empresas deste tipo, não por traficantes.

Dito isso, a mensagem do filme, que trata como hipócritas os consumidores de drogas riquinhos, permanece válida. Afinal de contas, essas drogas estão proibidas, e este fato faz toda a diferença. Afinal, consumi-las realmente abastece os traficantes, dando munição para eles, contribuindo para a morte de inocentes na guerra do tráfico. Os defensores da legalização devem atuar no campo das idéias, buscando mudar este quadro. Mas enquanto isso não ocorre, devem entender que cada baseado aceso é mais bala de fuzil na mão de traficante assassino. Creio que esse é um motivo e tanto para abandonar o consumo até este ser legalizado.

Por fim, gosto sempre de lembrar da máxima de que cinema é a maior diversão. Muitos filmes tentam passar mensagens políticas ou ideológicas, faz parte do negócio. Mas no fim do dia, um bom filme, em minha opinião, é aquele que diverte como um bom entretenimento. Por isso gosto dos filmes de ação de Hollywood, com orçamento milionário, muitas explosões e perseguições inacreditáveis de carros. E neste quesito, Tropa de Elite merece uma ótima nota. O filme prende o expectador na cadeira, atento a cada cena eletrizante. As cenas são bem realistas. A violência está presente, mas não em doses absurdas. E cá entre nós: a violência existe mesmo em nossa cidade e em nossas favelas. Será que retratar a vida como ela é virou coisa de “fascista” agora? Pelo menos o filme despertou um debate saudável sobre os temas. E quem não gosta de debates sim, são os verdadeiros fascistas!

terça-feira, outubro 02, 2007

A Sociedade Aberta


Rodrigo Constantino

“Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.” (Karl Popper)

O filósofo Bertrand Russell definiu a obra-prima de Sir Karl Popper, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, como “um trabalho cuja importância é de primeira linha e que deve ser largamente lido por sua crítica de mestre aos inimigos da democracia, antigos e modernos”. O livro faz um ataque contundente a Platão, assim como uma análise mortal de Hegel e Marx. Creio que um dos grandes valores do livro é levar o debate político para a divisão entre coletivistas e individualistas, ao invés de esquerda e direita. Popper combate duramente os autoritários coletivistas, independente do espectro político. Seu foco é a transição da sociedade tribal, ou sociedade fechada, para uma sociedade aberta. Na primeira, há uma submissão às forças mágicas, enquanto a última “põe em liberdade as faculdades críticas do homem”.

Um dos maiores inimigos da sociedade aberta é o historicismo. Para Popper, “o futuro depende de nós mesmos, e nós não dependemos de qualquer necessidade histórica”. Os historicistas, ao contrário, acreditam ter descoberto leis históricas que permitem profecias sobre o curso dos acontecimentos históricos. Os homens não seriam donos do próprio destino, segundo esses pensadores. Esta postura alivia os homens do ônus de suas responsabilidades, pois não importa o que façam, o futuro já está definido. Como exemplo está a doutrina do “povo escolhido”, ou o determinismo econômico de Marx. A doutrina historicista costuma ser profética, conduzindo à rejeição da aplicabilidade da ciência e da razão aos problemas da vida social. Em última instância, é a doutrina do poder, da dominação e da submissão.

Como sinônimo desse modelo, temos o tribalismo, ou seja, “a ênfase sobre a suprema importância da tribo, sem a qual o indivíduo nada é em absoluto”. O coletivismo, seja ele de classe, raça, credo ou nação, fica acima do indivíduo, que nada significa. Esse tribalismo tem como traço marcante uma rigidez social, sendo a vida determinada por tabus sociais e religiosos. Cada um tem seu lugar definido, um lugar “natural”, que lhe foi destinado pelas forças que regem o mundo. A sociedade ideal de Platão, exposta em A República, atesta isso, defendendo a divisão entre castas. Popper diz: “Em combinação com a idéia historicista de um destino inexorável encontramos freqüentemente um elemento de misticismo”. Popper demonstra aberta hostilidade para com o historicismo, convicto de que ele é “fútil, senão pior do que isso”. Com base na tradição tribal coletivista, as instituições não deixam campo à responsabilidade pessoal. Essa sociedade mágica, tribal ou coletivista seria a sociedade fechada, enquanto uma sociedade aberta ou democrática seria aquela “em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais”. Platão, ao ir contra tudo isso segundo a leitura de Popper, foi tachado por este de “partidário do totalitarismo”. *

Para Popper, a transição da sociedade fechada para a aberta “pode ser descrita como uma das mais profundas revoluções por que passou a humanidade”. O comércio seria um dos maiores perigos para a sociedade fechada, forçando sua abertura. Por isso vemos tanta hostilidade ainda hoje, por parte dos coletivistas, em relação ao comércio global. A queda da sociedade fechada gera tensões, criadas pelo esforço que a vida em uma sociedade aberta continuamente exige, através da necessidade de ser racional, de cuidar de nós mesmos e de aceitar responsabilidades. A comunidade tribal é o refúgio dos receosos, o lugar de segurança contra os “inimigos hostis”, o desconhecido. Seria o análogo a uma família para uma criança, que sabe qual papel deve desempenhar, já que lhe é imposto.

Na Guerra do Peloponeso, entre Esparta e Atenas, Popper encontra o berço dessa transição, com os espartanos representando a vida tribal e os atenienses esboçando uma abertura ao indivíduo livre e racional. Entre os princípios da política espartana estavam a proteção contra as influências estrangeiras que pudessem pôr em perigo a rigidez dos tabus tribais, a independência do comércio externo, o anti-universalismo de não se misturar com os inferiores e a dominação dos vizinhos. Em Atenas, ao contrário, vários pensadores já defendiam os pilares básicos da sociedade aberta, com uma nova fé na razão, na liberdade e na fraternidade dos homens. Para Popper, esta é a única possível fé da sociedade aberta. Seus principais inimigos são justamente os misantropos e os detratores da razão humana. Aqueles que sonham com uma unidade, beleza e perfeição, com um coletivismo utópico, demonstram um sintoma do espírito de grupo do tribalismo. “Nunca podemos retornar à alegada inocência e beleza da sociedade fechada”, afirma Popper. O sonho de um céu não pode ser realizado na terra.

Quando começamos a confiar em nossa razão, a usar nossos poderes de crítica, “não poderemos retornar a um estado de submissão implícita à magia tribal”. O paraíso está perdido para aqueles que experimentaram da Árvore do Conhecimento. Uma tentativa de regressar à Idade de Ouro leva à Inquisição, à Polícia Secreta e a um banditismo romantizado. Popper diz: “Não há mais volta possível a um estado harmonioso da natureza; se voltarmos, então deveremos refazer o caminho integral – devemos retornar às bestas”. Para permanecermos humanos, só existe o caminho da sociedade aberta. Popper conclui: “Devemos marchar para o desconhecido, o incerto e o inseguro, utilizando a razão de que pudermos dispor para planejar tanto a segurança como a liberdade”.

* Platão, em A República, traça o que seria o Estado ideal, ainda que não exeqüível na prática. Há um claro viés coletivista, colocando os indivíduos como nada mais que instrumentos para a felicidade da “República”. Caberia aos sábios determinar as regras, aniquilando as escolhas individuais. Normalmente, o coletivista parte do pressuposto que ele estará sempre do lado legislador, criando as regras e decidindo o rumo da felicidade alheia. Temos passagens bastante autoritárias no livro: “Deixaremos ao cuidado dos magistrados regular o número dos casamentos, de forma que o número dos cidadãos seja sempre, mais ou menos, o mesmo, suprindo os claros abertos pelas guerras, enfermidades e vários acidentes, a fim de que a república nunca se torne nem demasiado grande nem demasiado pequena”. Ou ainda: “Os filhos bem nascidos serão levados ao berço comum e confiados a amas de leite que terão habitações à parte em um bairro da cidade. Quanto às crianças enfermiças e às que sofrerem qualquer deformidade, serão levadas, como convém, a paradeiro desconhecido e secreto”. O ataque contra a liberdade individual não acaba por aí: “As mulheres gerarão filhos desde os vinte até os quarenta anos; os homens logo depois de passado o primeiro fogo de juventude, até os cinqüenta e cinco”. Platão foi muito além, defendendo o fim das propriedades dos guerreiros, e deixando todas as decisões importantes para os poucos sábios. Essa outra passagem deixa claro que a República estaria muito acima, em grau de importância, dos indivíduos: “Assim, em nossa República, quando ocorrer algo de bom ou de mau a um cidadão, todos dirão a um tempo meus negócios vão bem ou meus negócios vão mal”. Tamanho coletivismo iria influenciar a Utopia de Thomas More, assim como Cidade do Sol, de Tommaso Campanella. Tais idéias, quando tentadas na prática, resultaram no infeliz experimento soviético.

domingo, setembro 30, 2007

O Coletivismo de Rousseau


Rodrigo Constantino

“As piores dificuldades dos dias presentes, sou levado por vezes a pensar, surgem cada vez menos da falta de visões e mais das visões embusteiras.” (Irving Babbitt)

O professor de literatura francesa em Harvard, Irving Babbitt, foi um dos principais líderes do movimento intelectual denominado Novo Humanismo, que combateu as escolas de opinião marxista, instrumentalista e naturalista. De forma simplificada, esse humanismo acredita que o homem é um ser distinto, regido por leis peculiares à sua natureza, leis essas diferentes das válidas para as coisas. Os inimigos da verdadeira natureza humana, segundo essa linha de pensamento, seriam os sentimentalistas, que colocam o homem sujeito às forças dos impulsos e das paixões, os materialistas pragmáticos, que tratam os homens como meros macacos depurados, e os coletivistas, que reduzem a personalidade humana à mediocridade coletiva. Babbitt rejeita todas as filosofias deterministas da História, tanto aquelas que reduzem o homem a um fantoche de Deus, quanto as que fazem dele uma marionete da natureza. Os livros de Babbitt foram direcionados contra esses grupos, incluindo Democracia & Liderança, publicado em 1924. Um foco especial é o pensamento de Rousseau, que será também o tema tratado aqui.

O que mais distingue Rousseau na história do pensamento, para Babbitt, é que ele deu as respostas erradas para as questões corretas. Rousseau foi, de longe, o teórico principal da democracia radical. Para Babbitt, os líderes genuínos sempre existirão, e “a democracia se torna uma ameaça para a civilização quando busca livrar-se dessa verdade”. A noção de que as maiorias numéricas, supostamente refletindo a “vontade geral”, podem substituir as lideranças é “apenas um conceito pernicioso”. Babbitt resgata Confúcio para reforçar a importância das lideranças, para o bem ou para o mal: “A virtude do líder é como o vento; a do povo, como o capim; isso porque é da natureza do capim inclinar-se ao sabor do vento”. Rousseau irá falar às massas, não através da razão, mas pelas emoções. Segundo ele mesmo, o estado de natureza não é um estado de razão. Ao contrário, o homem que pensa é um “animal depravado”. O homem sujeito apenas aos instintos naturais seria “o mais virtuoso e o que oferece a menor resistência aos impulsos simples da natureza”. Para Rousseau, tanto a guerra como a razão resultam da sofisticação social.

Rousseau ataca duramente os ricos, comparando-os aos “lobos vorazes que, tendo uma vez provado a carne humana, recusam qualquer outro tipo de alimento, e, depois da prova, desejam apenas devorar homens”. A invenção da propriedade privada seria, para Rousseau, o primeiro e decisivo passo para esse pecado, sendo fonte das maldades sociais. O mito da bondade natural não se sustenta sob o escrutínio mais breve dos fatos, mas lisonjeia os que estão na parte mais baixa da hierarquia social. O evangelho rousseauniano tem como efeito inevitável, segundo Babbitt, “fazer orgulhoso o homem pobre e, ao mesmo tempo, fazer com que ele se sinta vítima de uma conspiração”. Ouve-se, através das palavras de Rousseau, “a voz do plebeu irado e invejoso que, em nome do amor, está fomentando o ódio e a luta de classes”. Em Emile há quase uma confissão: “O que era mais difícil de ser destruído dentro de mim era uma misantropia orgulhosa, uma certa acrimônia contra os ricos e os felizes do mundo, como se eles estivessem nessa situação à minha custa, como se sua alegada felicidade tivesse sido usurpada de mim”.

A visão idílica de Rousseau, condenando a civilização e pregando a idéia do “bom selvagem”, iria conquistar inúmeros adeptos, sempre através das emoções – normalmente a inveja ao sucesso alheio. A prática dessa visão de mundo resultou em Robespierre. Enquanto Locke influencia a Revolução Americana, Rousseau deixa como herança a sangrenta Revolução Francesa, seguida do Grande Terror. Nas palavras de Babbitt, “quando o real se recusa a dar lugar ao ideal, é fácil persuadir os simplórios de que o fracasso não se deve ao ideal em si, mas a alguma trama”. Isso fica mais claro quando vemos tantos socialistas até hoje culpando os revolucionários em questão pelo contundente fracasso soviético, em vez de enxergar os pilares podres na própria ideologia. Experiência atrás de experiência comprova o que a razão já deixa claro, mas nada disso é suficiente para despertar o eterno sonhador. Cuba, Camboja, Coréia do Norte, China, União Soviética, nada é culpa do socialismo em si, mas dos homens que ali tomaram o poder.

Há um enorme desejo de acreditar, o que se aproxima da loucura. Babbitt escreve: “Em alguns meios é tido como certo que quase qualquer opinião se justifica se for defendida com veemência suficiente. Não se pode deixar de pensar que, talvez, os melhores exemplos de sinceridade dessa espécie estejam nos hospícios; e que grande parte da sinceridade de Rousseau, sua convicção, por exemplo, de que era vítima de uma conspiração universal, cai nesse tipo”. E acrescenta: “O valor da sinceridade só pode ser estimado com referência à questão prévia da verdade e do erro”. Muitos seguidores de Rousseau mostram-se igualmente convictos. São os “sinceramente enganados”, aqueles que desejam tanto acreditar num ideal, que ignoram qualquer fato contraditório para salvar a crença.

O contrato social de Rousseau pode ser reduzido a uma só cláusula: “A completa alienação de todos os seus direitos por parte dos abrangidos pelo contrato em prol da comunidade inteira”. O indivíduo não tem nenhuma garantia contra o abuso do poder ilimitado da comunidade. O “povo soberano” não tem responsabilidade perante ninguém. Ele é Deus! Na prática, a vontade geral significa uma maioria numérica num momento determinado qualquer. Se o indivíduo vai contra essa vontade, a maioria simplesmente a impõe a ele, “forçando-o a ser livre”. Foi com esse engenhoso artifício que Rousseau se livrou do problema que atormenta diversos pensadores políticos: “como salvaguardar a liberdade do indivíduo ou das minorias contra uma maioria despótica e triunfante”. Na democracia radical de Rousseau, a verdade é que a vontade individual não vale nada. Os indivíduos, como tal, não têm direitos protegidos da tirania da maioria. Incitando a inveja dessa maioria, Rousseau se mostra um revolucionário no pior sentido possível. Nas palavras de Madame de Staël, ele não inventou nada, mas incendiou tudo. E, infelizmente, as chamas desse incêndio continuam queimando até hoje a liberdade individual.

quinta-feira, setembro 27, 2007

A Libertação do Homem


Rodrigo Constantino

"A vida não examinada não vale a pena ser vivida." (Sócrates)

Um dos grandes filósofos ingleses que enriqueceram o debate de idéias no século XX foi Michael Oakeshott, que demonstrou interesse por diversos assuntos, como política, história, educação e religião. Sua obra sobre filosofia política, On Human Conduct, parte da premissa de que a ação humana é um exercício de inteligência em atividades de escolha, mostrando semelhança em vários aspectos com a obra-prima de Mises, Human Action. Aqui o foco será seu texto sobre a educação liberal, A Place of Learning, onde ele mostra que o homem é aquilo que aprende ser, através da própria reflexão num ambiente favorável ao aprendizado.

A mente é a atividade inteligente pela qual o homem pode compreender e explicar processos, é a autora não apenas do mundo inteligível onde os homens vivem, mas também de sua relação autoconsciente com este mundo. O homem é livre para buscar este autoconhecimento, sendo responsável por seus pensamentos e ações. A possibilidade de ser inteligente abre espaço para a possibilidade de ser estúpido, e talvez isso afaste tantos dessa busca pelo conhecimento, levando-os à crença de algum determinismo qualquer como fuga. Mas os homens não podem alegar que suas palavras são colocadas em sua boca por algum deus ou que não passam de descargas elétricas do seu cérebro: elas têm significados pelos quais cada um é responsável por julgar se faz ou não sentido. A simples tentativa de fuga expõe sua impossibilidade, já que somente a mente pode se arrepender por ter que pensar. A liberdade de pensamento exige a responsabilidade pelo que se pensa.

Para Oakeshott, o que distingue um ser humano, o que constitui um ser humano são seus pensamentos, crenças, dúvidas, sua compreensão da própria ignorância, seus desejos, preferências, escolhas, sentimentos, emoções e propósitos, assim como a expressão deles através de suas ações. A condição necessária para tudo isso é que o homem deve aprender tais coisas. Ele diz: "O preço da atividade inteligente que constitui o ser humano é aprender". E este aprendizado necessário é algo que cada um de nós deve e só pode fazer por conta própria. O aprender humano é bem diferente do processo natural de adaptação de organismos como reação ao meio-ambiente e às circunstâncias. Não é um aprender passivo, mas um compromisso autoconsciente. Não é uma reação induzida pela pressão externa, mas uma tarefa auto-imposta inspirada pela noção da própria ignorância e de quanto há para aprender. É um desejo pela compreensão. Para um ser humano, então, aprender é um compromisso por toda a vida, e o mundo onde ele habita é o local de aprendizado.

Uma grande parte da conduta humana é direcionada à exploração de recursos no planeta para a satisfação de desejos e necessidades. Esse aprendizado é individual, sempre. Não é uma abstração chamada "Homem" que pode realizar a cura de uma doença, por exemplo, mas algum médico individual que aprendeu com alguns professores a tarefa em questão. Oakeshott afirma que não há algo como "aprendizado social" ou "compreensão coletiva". São indivíduos que aprendem. Oakeshott reconhece a importância deste tipo de aprendizado, mas está muito mais preocupado com outro tipo, qual seja, as aventuras no autoconhecimento humano. A isso ele chama de "educação liberal", pois está liberada da distração dos negócios que buscam a satisfação das demandas imediatas. Sua compreensão da liberdade decorre da visão de que o homem não está condenado à "dança macabra das necessidades e satisfações". A vida não se resume a "obter e gastar". Não estamos presos intelectualmente ao aqui e agora.

Eis onde entra o fundamental papel da cultura, segundo Oakeshott. O autoconhecimento humano seria inseparável do aprendizado na participação daquilo chamado "cultura", ou seja, uma continuação de sentimentos, percepções, idéias, compromissos, atitudes etc. Não faz sentido, para o filósofo, falar em homem "culturalmente condicionado", já que o homem é sua cultura, e aquilo que ele é ele teve que aprender a ser. O aprendizado liberal é aprender a responder aos convites das grandes aventuras intelectuais nas quais os seres humanos expuseram suas várias compreensões do mundo e de si mesmos. A cultura não seria, então, uma miscelânea de crenças, percepções e idéias, mas pode ser reconhecida como uma variedade distinta de línguas de compreensão. Oakeshott faz uma analogia com vozes, como se cada componente cultural desses fosse uma expressão diferente de uma compreensão de mundo, um idioma diferente, e a cultura seria a união dessas vozes, como numa conversação.

Existem constantes ameaças a esta educação liberal. Uma delas vem da "socialização" do aprendizado. Trata-se de uma doutrina que, porque o aqui e agora está cada vez mais uniforme do que já foi, defende que a educação deve reconhecer e promover essa uniformidade. Para Oakeshott, esta á uma das mais insidiosas de todas as corrupções, pois ataca o cerne do aprendizado liberal. O mundo moderno estaria repleto de acontecimentos, mas não muitas experiências memoráveis. Seria um fluxo contínuo de trivialidades sedutoras que não invocam reflexão, mas participação instantânea. As pessoas pulam de uma conformidade da moda para outra, de um guru do momento para o próximo. Há a repetição de slogans e "pontos de vista" embalados de forma profética, mas sem embasamento. Os ouvidos estão cheios de sons na Babel atual, convidando às reações instintivas.

É importante lembrar que Oakeshott escreveu esse artigo em 1975, época em que as universidades estavam vivendo uma grande transformação neste sentido de busca pelo interesse imediato, pela necessidade da profissão, mesmo em sua London School of Economics, na qual era professor. Mas o alerta continua válido, talvez mais que nunca. Essas circunstâncias são hostis à educação liberal, aquela que desamarra o indivíduo das necessidades urgentes do aqui e agora, levando-o a escutar a conversa na qual os seres humanos desde sempre buscam se compreender enquanto humanos. A busca pelo conhecimento prático é crucial para reduzir o desconforto dos homens na natureza. Os ganhos materiais advindos do avanço no conhecimento humano são fantásticos, e devem ser comemorados, sem dúvida. O progresso da medicina, por exemplo, permitiu que a expectativa de vida dobrasse em poucos séculos. Mas não podemos deixar de lado a questão essencial: qual vida?

Os seres humanos não são máquinas que processam alimentos com o único objetivo de sobreviver e procriar. Somos capazes de muito mais que isso. Oakeshott tentou nos lembrar justamente disso, combatendo o materialismo excessivo da modernidade. A libertação do homem vem através desta busca pelo autoconhecimento. Sem isso, somos apenas símios repetindo gestos de forma automática. Oakeshott reforça, então, a lição socrática exposta na epígrafe. Devemos sempre examinar qual vida desejamos viver.