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quinta-feira, agosto 02, 2012

Giannetti na Folha


"Falta ao país vocação para a poupança", avalia economista
Para Eduardo Giannetti, Brasil repete padrão histórico de estimular gastos sem investir para aliviar os gargalos
Professor aponta ainda a "arriscada dependência" do consumo externo em que país se apoia
Gabo Morales/Folhapress
CAROLINA MATOS
DE SÃO PAULO
A falta de poupança interna, que restringe a capacidade de investimento do país em pilares essenciais ao crescimento de longo prazo -como educação e infraestrutura-, é o grande entrave ao desenvolvimento econômico.
A avaliação é de Eduardo Giannetti, 55, economista, filósofo e professor do Insper.
O problema, histórico, está camuflado por uma superfície de expansão do consumo e longe de ser resolvido.
"A nova classe média demanda eletrodomésticos, mas a energia elétrica é cara e falta em muitos locais", diz.
O mesmo contrassenso pode ser observado de várias formas: cresce o interesse dos consumidores por carros, faculdades e imóveis, mas falta investimento em vias, ensino de qualidade e saneamento básico.
Ainda na avaliação do economista, no cenário de crise na Europa e desaceleração da China, está mais arriscada a dependência da economia brasileira em relação à demanda externa por commodities, como alimentos e metais. A seguir, trechos da entrevista exclusiva à Folha.
Falta de vocação
A economia brasileira é muito parecida com um personagem do conto "O Empréstimo", de Machado de Assis, que tem vocação para a riqueza, mas não para o trabalho. O país tem a vocação do crescimento, mas não a da poupança.
O Brasil tenta repetir a estratégia adotada para sair da crise em 2008 e 2009, só que o contexto agora é muito diferente. Há um comprometimento da renda das famílias com dívida, que já não têm a mesma condição de comprar.
Além disso, aquele deslumbramento inicial da nova classe média com as possibilidades de consumo começa a dar sinais de fadiga. O que o Brasil precisa é pensar com muito mais cuidado em como aumentar a poupança e o investimento [em torno de 17% e 19% do PIB em 2011, respectivamente], e não o consumo.
Capacidade de produção
Um dos dados mais preocupantes da economia hoje é que a formação de capital fixo [maquinário e instalações das empresas] caiu. Esse é um dos fatores que têm levado o Produto Interno Bruto a crescer pouco. Agora, para atender a demanda interna, vai ser preciso, portanto, fazer o PIB crescer por investimento.
Toda a economia tem o chamado "speed limit", que é o limite de velocidade que ela pode alcançar e manter sem gerar desequilíbrios macroeconômicos, como a disparada da inflação.
As melhores estimativas do "speed limit" do Brasil hoje ficam entre 3,5% e 4% ao ano. Mas o fato é que estamos, pelo segundo ano consecutivo, abaixo dessa faixa. Neste ano, muito provavelmente, com um número próximo a 2%.
Dependência externa
De 2004 a 2011, o PIB brasileiro cresceu, em média, 4% ao ano. Mas a absorção doméstica, que é o gasto total do Brasil [setores público e privado], cresceu, em média, 5% ao ano. Ou seja, todo ano, o gasto aumentou um pouco mais do que a produção.
Dois fatores permitiram que isso acontecesse sem gerar, por exemplo, uma pressão inflacionária. Primeiro, uma melhora dos termos de troca do Brasil: o preço dos produtos que vendemos para o mundo, principalmente das commodities, aumentou mais que o preço do que importamos, como insumos e máquinas.
O outro fator foi que, depois de anos em que tivemos superavit em conta-corrente [resultado das transações do país com o exterior], passamos a ter deficit em conta-corrente, que, hoje, é da ordem de 3% do PIB. Esse segundo componente é a poupança externa, dinheiro que o mundo passou a transferir para nós.
Só que não vai dar para continuar com o consumo crescendo a não ser que a gente passe a ter deficit cada vez maior em conta-corrente, pois não vamos mais contar com a melhoria dos termos de troca.
Se o preço das commodities se mantiver onde está, já será um ótimo cenário, pois o perigo é que ele caia, diante da crise na Europa e da desaceleração da China, importante consumidora.
E aí vamos para um território muito perigoso: no caso de qualquer parada no financiamento externo, o país vai para a beira do abismo. É o risco do abuso da poupança externa.

terça-feira, maio 15, 2012

Governo esquizofrênico

Rodrigo Constantino, O GLOBO

A cruzada do governo pela queda da taxa de juros representa um fim nobre, mas com instrumentos inadequados. Ninguém pode celebrar as enormes taxas cobradas pelos bancos. Mas o governo erra feio na escolha dos alvos.

O juro nada mais é que o preço do capital, e costuma ser definido pelo encontro entre sua oferta e demanda. Quanto maior for a oferta disponível de capital na economia, menor será seu preço. E esta oferta depende basicamente da poupança existente, que serve como lastro para empréstimos bancários. Os bancos atuam como intermediários entre poupadores e investidores ou consumidores financiados.

No Brasil a poupança é muito baixa em relação ao que é produzido. O principal responsável por isso é o próprio governo, que arrecada e gasta quase 40% do PIB. Sobra pouco para se poupar no país. Como o governo não aceita reduzir seus gastos, resta pegar poupança externa emprestada para permitir o crescimento tanto dos investimentos como do consumo. Mas há claros limites a esta estratégia.

Ela dura somente até os estrangeiros aceitarem exportar capital para o Brasil. Só que esta entrada de recursos, que a presidente Dilma chamou de "tsunami monetário", pressiona o câmbio, apreciando o real frente ao dólar. A indústria nacional reclama, faz lobby em Brasília, e o governo reage com intervenção na moeda e protecionismo. Só que isso, por sua vez, produz mais inflação aqui.

O governo pretende controlar inúmeras variáveis econômicas com instrumentos limitados, gerando consequências indesejadas. Cada nova medida produz mais efeitos não intencionais, demandando nova intervenção. Cria-se um verdadeiro emaranhado complexo com os tentáculos estatais pela economia.

Os empresários acusam o golpe e retraem investimentos, e os bancos, preocupados com o aumento da inadimplência e com os excessos no crédito, decidem reduzir seu crescimento.

Mas como uma das metas do governo é o crescimento do PIB no curto prazo, este recuo é inaceitável. O que faz o governo então? Reduz seus gastos? Aprova reformas estruturais que aumentem a produtividade da economia? Não. Isso tudo dá muito trabalho.

O governo prefere comprar uma briga com os bancos, e mandar o setor baixar as taxas na marra. E ai de quem reclamar! O governo é dono de 40% do mercado por meio dos bancos públicos, e ainda conta com outros mecanismos de pressão.

Aqui aproveito para fazer um alerta contra o risco autoritário. O governo, com postura arrogante, teria exigido dos bancos uma retratação pública após uma nota da Febraban criticando as medidas estatais. Que país é este que não permite mais o contraditório? Os bancos não podem mais discordar das medidas do governo?

Reduzir os juros a fórceps vai gerar apenas mais inflação. O que nos remete finalmente à esquizofrenia do governo. Há outros fatores que justificam os juros altos: o enorme compulsório que os bancos são obrigados a manter parados no Banco Central sem retorno adequado; os bilionários desembolsos do BNDES, que responde por um quarto do total do crédito no país, a taxas de juros subsidiadas (abaixo até da inflação); e o excesso de burocracia que reduz a concorrência no setor.

Ou seja, o próprio governo cria distorções que fazem com que a taxa final de juros permaneça elevada, e depois escolhe os bancos como únicos bodes expiatórios para o problema que ajudou a criar.

É como um sujeito ocioso e obeso, que come doces sem parar, culpar o doceiro por seus problemas de saúde. O governo plantou as sementes do problema, e não adianta atacar apenas o sintoma sem olhar para suas verdadeiras causas.

Há ainda outro sinal claro de esquizofrenia. Não faz muito tempo, o então presidente Lula acusava os banqueiros pela crise financeira mundial. Os banqueiros gananciosos teriam concedido crédito demais, o que produziu a bolha que estourou. Ironia das ironias, eis que agora o governo Dilma reclama que os nossos banqueiros querem conceder crédito... de menos!

O crédito no Brasil vem crescendo a taxas perto de 20% ao ano. Como não tivemos reformas estruturais, é claro que isso vai bater na inflação em algum momento. Na verdade, a inflação já está acima do centro da meta, que já é bastante elevado. E o crescimento econômico vem caindo.

Corremos o risco de ter estagflação ou então uma bolha de crédito no país, fomentada pelo próprio governo e seu banco central subserviente (seu presidente se entrega quando chama Dilma de "presidenta" em nota oficial). Depois não vai adiantar culpar os "loiros de olhos azuis" e os banqueiros gananciosos pela crise...

sexta-feira, maio 04, 2012

A cruzada contra os juros


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Após negar com veemência que iria mexer na poupança, o governo Dilma mudou (e complicou) as regras de remuneração desta opção popular de investimento. A partir de agora, a remuneração da poupança depende da Selic. O governo tomou esta medida para poder seguir com a trajetória de queda dos juros. Como a poupança, isenta de imposto, tornara-se mais competitiva que os fundos DI, que aplicam nos títulos públicos indexados à taxa Selic, o governo se viu forçado a mexer na poupança para não perder o mercado que financia seus títulos.

O resumo da coisa toda, de forma simplificada, é o seguinte: o cenário externo abriu uma janela de oportunidade para que países como o Brasil reduzam os juros, atraindo poupança externa para fechar a conta. O governo tem aproveitado esta janela com vontade, e já derrubou a taxa Selic para 9% ao ano. Os “spreads” bancários continuam elevados, por vários motivos estruturais, então o governo resolveu impor sua redução por meio dos bancos públicos, que correspondem a 40% do mercado. Mas agora o limite para quedas maiores dos juros está na concorrência com a poupança. Nova marretada para permitir taxa menor.

Só há um pequeno detalhe nesta cruzada do governo contra os juros: o risco inflacionário. É verdade que o quadro mundial, com países desenvolvidos pagando taxa de juro real negativa, permite esta “ousadia” (irresponsabilidade) do governo por algum período. Mas o governo não fez uma única reforma estrutural que aumentasse a produtividade do país, tampouco reduziu seus gastos para permitir o aumento de oferta da poupança doméstica.

Logo, todo o crescimento de crédito, que tem sido acima de 15% ao ano por vários anos, não encontra lastro nos fundamentos econômicos. Quando a economia ameaça desaquecer, o governo resolve então injetar mais crédito de forma artificial, sendo que a inflação já se encontra acima do centro da meta, que por sua vez já é bastante elevada. Para um povo consumista como o nosso, isso é um convite para financiamentos arriscados. A inadimplência, mesmo com todo mundo empregado, já começa a subir de forma preocupante.

Enquanto o cenário externo seguir favorável a países emergentes com vastos recursos naturais, a farra poderá continuar sem grandes impactos negativos. Mas não se enganem: uma bomba-relógio está sendo montada, uma bolha creditícia está sendo inflada pelo próprio governo. Quando ela estourar, lembrem-se de que não foi culpa dos bancos, do mercado ou do capitalismo, mas sim de um governo que deseja estimular o crescimento econômico no curto prazo com medidas artificiais em vez de fazer o duro dever de casa das reformas.   

quarta-feira, março 21, 2012

Dilma cobra mais investimentos

Vídeo onde comento o absurdo que é a presidente Dilma chamar os grandes empresários para cobrar mais investimentos, como se bastasse vontade para tanto. É de uma ignorância econômica assustadora, e ao mesmo tempo sintomática da mentalidade brasileira.

quinta-feira, março 08, 2012

Falta poupança e a culpa é do governo

O GLOBO

Paulo Levy, economista do Ipea, defende que o país crie mais estímulos para o investimento do que para o consumo. "A taxa de investimento é insuficiente para crescer 4,5% de forma sustentada". E lembra ainda que é preciso adotar políticas para conciliar redução de desigualdade e expansão: "O país redistribui renda e sufoca o crescimento".

O GLOBO: O desempenho da economia em 2011 requer ainda mais cortes de juros?

PAULO LEVY: Os resultados do PIB e da produção industrial não deveriam alterar a rota sinalizada pelo Banco Central. O PIB ficou compatível com a inflação elevada e a política monetária atua pelo lado da demanda, que, mesmo robusta, não é problema. Com isso, a decisão certa seria cortar juros por mais uma ou duas reuniões, podendo levar a Selic para 9% ou 9,5% ao ano, patamar baixo para os critérios brasileiros.

Mas a política monetária olha para a inflação...

LEVY: A inflação está declinante e deve, em maio, ficar em torno de 5,2% no acumulado em 12 meses. A partir daí, com estímulos à demanda e o desempenho dos serviços, os preços devem subir, menos que em 2011. Então, seria a hora de parar e esperar.

O governo enfrenta dilemas macroeconômicos? Qual deveria ser a sua prioridade?

LEVY: A variável chave é poupança. Países com crescimento elevado têm taxa de poupança elevada. Caso de China e Coreia do Sul. No Brasil, a contribuição do governo para a poupança nacional é negativa: ele despoupa. Como mudar isso? Aumentando o peso dos investimentos e reduzindo o peso relativo dos gastos correntes.

Nossa taxa de investimento é baixa?

LEVY: A taxa de investimento é insuficiente para crescer 4,5% de forma sustentada. Só mesmo com 24%, 25% do PIB (no quarto trimestre foi de 19,3%). O certo seria criar estímulos para o investimento crescer mais que o consumo. Hoje, há uma visão oposta e equivocada. Na China, o investimento é 47% do PIB; na Coreia, 30%. O Brasil tenta avançar no consumo e no investimento ao mesmo tempo. Isso não é factível.

Como segurar o consumo diante de uma classe média ávida por consumir?

LEVY: Há uma camada da população que tem necessidades básicas a atender. E isso gera uma pressão forte sobre o consumo, o que reduz a taxa de poupança da economia e gera desequilíbrios. É preciso adotar políticas que permitam conciliar redução de desigualdade com crescimento. caso contrário, o país redistribui renda e sufoca o crescimento. E isso tem vida curta.