sábado, março 03, 2007

A Estrada para Valhalla



Rodrigo Constantino

"Devemos considerar as coisas concernentes ao nosso conforto e desconforto só com os olhos da razão e do juízo, conseqüentemente, com ponderação fria e seca." (Schopenhauer)

Os vikings tinham uma crença de que somente uns poucos escolhidos iriam para o paraíso, Valhalla, quando morressem. Para ser um desses felizardos, era necessário preencher certos quesitos, como morrer em batalha de forma honrosa. Chegando a Valhalla, o prometido era um eterno e farto banquete, regado de muitas mulheres. Com tal visão embutida desde crianças, os vikings se tornaram um povo guerreiro e violento, verdadeiros adoradores de uma boa e sangrenta batalha. E foi assim que seus líderes controlaram um exército dominador, uma horda de bárbaros conquistadores.

A história do mundo está repleta de casos como este, onde a oferta de um paraíso futuro dita as regras da vida no presente. Sonhos vendidos, promessas maravilhosas e utopias atraentes transformam os homens em meros escravos. Para se obter o prêmio final, a vida eterna, a felicidade plena da humanidade, faz-se necessário seguir como um autômato os dogmas impostos. Normalmente, algum grupo muito seleto dentre os governantes acaba bastante favorecido por tais crenças.

São inúmeros exemplos semelhantes ao de Valhalla, onde os fins justificam os meios, e o homem é visto apenas como algo sacrificável para o objetivo maior. O mais evidente no momento é a jihad islâmica, com uma intensa lavagem cerebral que afirma ser o desejo de Alá ter seus discípulos morrendo como mártires em batalha, para assim ingressarem no eterno paraíso repleto de virgens. E o caso mais estúpido de supressão da lógica num grupo pela busca do paraíso foi o suicídio coletivo liderado pelo reverendo Jim Jones em 1978.

Não é preciso ficar restrito às religiões, cujas promessas baseiam-se normalmente na vida após a morte. O socialismo foi um experimento grotesco que prometia um paraíso nesta vida mesmo, e acabou conquistando os corações dos mais românticos e ingênuos. Novamente, o homem era visto somente como um meio sacrificável para se chegar ao objetivo final. A estrada para a Valhalla socialista custou mais de 100 milhões de vidas, e em vez de encontrarem um farto banquete, viram muita miséria, prateleiras vazias, escravidão e morte.

Enquanto a humanidade não evoluir para uma visão de que o homem é um fim em si, sempre teremos de um lado os oportunistas, cuja arma intelectual é a promessa nobre do paraíso, e do outro a legião de seguidores, que crê no poder divino dos seus líderes e governantes, que deposita fé nos ideais coletivistas e românticos. Uns poucos sempre irão manipular e controlar o resto, usando a promessa do paraíso para a persuasão de alguns e a coerção oficial do poder para dominar os outros mais esclarecidos. Estes podem acabar em Gulags, no paredón ou nas estacas da Inquisição.

Ayn Rand foi uma filósofa que enveredou por esta linha de raciocínio, e toda a sua ideologia está calcada no fato de que o homem e sua felicidade são um fim em si. Sua ética prega e incentiva o egoísmo racional dos homens, apela para o uso da razão, do questionamento permanente. Somente assim o homem pode se libertar, acordar para a realidade, e maximizar sua felicidade enquanto vivo, seguindo objetivamente sua hierarquia de valores individuais. Todo o resto, incluindo os nobres chavões altruístas, não passa da velha estratégia de governantes e poderosos de prometer o Valhalla, relegando os anseios individuais a um valor insignificante perante o grande objetivo coletivo. Um código de ética, de conduta, deveria ser algo obtido através de muita reflexão lógica do que traz mais felicidade para o homem nesta vida, não algo imposto por uma força superior e enigmática, a ser seguido cegamente.

Como disse Gustave Le Bon, a lógica não faz parte da psicologia das massas. Não existe algo como "raciocínio de grupo”. Ter um pensamento independente, usar a lógica para compreender as coisas, é conditio sine qua non para nossa evolução e liberdade. Caso contrário, poderemos ser presas fáceis para os interesses alheios, sempre disfarçados com uma embalagem nobre e romântica. Questionar agride os objetivos dos manipuladores, que vendem ingressos para Valhalla. Para o indivíduo resistir à tentação do caminho mais fácil, deve sempre estar preparado para questionar sinceramente suas crenças. A estrada para o paraíso irá sempre parecer atraente. Afinal, como Schopenhauer disse, "quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa".





sexta-feira, março 02, 2007

Pela Legalização das Drogas


Rodrigo Constantino

"It is true that to be free may mean freedom to starve, to make costly mistakes, or to run mortal risks." (Hayek)

Devemos legalizar as drogas? Essa é uma questão que cada vez recebe mais atenção, posto que fica clara a derrota da guerra contra as drogas, que custa uma fortuna aos contribuintes e não consegue reduzir a criminalidade proveniente do tráfico. Pretendo explicar neste artigo os motivos pelos quais a resposta para a questão é afirmativa. São basicamente dois caminhos distintos para chegar à mesma conclusão: os resultados práticos e os direitos individuais. Antes, entretanto, é importante fazer uma ressalva: a legalização das drogas não é uma panacéia que irá resolver todos os problemas do crime. E não custa lembrar que outros países onde as drogas não são legalizadas não passam necessariamente pelo mesmo surto de violência que o Brasil se encontra, basicamente por causa da impunidade.

O tema polêmico foi alvo de estudo de muitos economistas famosos, a maioria focando na questão do custo e benefício, dos resultados concretos. O prêmio Nobel Milton Friedman, por exemplo, sempre advogou pela legalização das drogas. Ele afirmava que a legalização das drogas iria "simultaneamente reduzir a quantidade de crime e aumentar a qualidade da imposição da lei". Thomas Sowell, também da Escola de Chicago, é outro que defende este caminho, assim como o outro prêmio Nobel, Gary Becker, da mesma escola. Sowell lembra que as políticas são julgadas por suas conseqüências, mas as cruzadas são julgadas por quão bem elas fazem seus defensores se sentir. A guerra contra as drogas virou uma cruzada. Ele diz que não somos deus para viver a vida dos outros ou salvar pessoas que não querem ser salvas. Podemos concluir que a Escola de Chicago em peso defende a legalização das drogas. Mas não são apenas esses os economistas que mantêm tal postura.

Gordon Tullock, outro economista de peso, vai na mesma linha, lembrando que as leis de proibição são difíceis de serem aplicadas, custam caro e geram resultados ineficientes. Robert Barro alerta que a experiência com a proibição mostra que os preços sobem e a atividade ilegal é estimulada, gerando apenas um efeito negativo moderado no consumo, mas impondo custos inaceitáveis em termos de taxas elevadas de criminalidade e expansão da população carcerária. Walter Block alega que um livre mercado de marijuana e outras drogas aumenta o bem-estar econômico. Mary Cleveland foca no fato do mercado negro ser perigoso e acabar atraindo jovens problemáticos com oportunidades limitadas, que acabam se tornando usuários de drogas pesadas.

David Henderson lembra que a maioria dos problemas que as pessoas acham que são causados pelas drogas não são causados por elas em si, mas pelas leis sobre elas. O método moralmente adequado para evitar o consumo de drogas seria a persuasão, não a prisão dos usuários. Robert Higgs considera que o abandono dessa cruzada quixotesca das autoridades contra as drogas iria permitir gastos maiores para a proteção da vida e propriedade, evitando uma invasão aos direitos naturais, que incluem o direito de decidir como usamos – ou abusamos – dos nossos próprios corpos. Randall Holcombe faz coro no argumento de que os males causados pelas drogas costumam vir do fato de serem ilegais, não drogas. Daniel Klein reforça a visão de que a proibição cria um mercado negro que a sociedade não consegue controlar. Jeffrey Miron e Jeffrey Zwiebel concluíram em seus estudos que um livre mercado de drogas provavelmente seria uma política bem superior em relação às adotadas atualmente, como a proibição.

Murray Rothbard também faz a conexão entre vício e crime, lembrando que os crimes são cometidos por viciados levados ao roubo pelo alto preço das drogas causado pela sua própria ilegalidade. Se os narcóticos fossem legais, sua oferta iria aumentar e os altos custos do mercado negro iriam desaparecer, fazendo os preços ficarem baixos o suficiente para eliminar a maioria dos crimes cometidos por viciados.

Quase todos esses argumentos estão voltados para os resultados práticos da proibição das drogas. Mas creio que devemos, acima disso, colocar a questão dos direitos naturais. John Stuart Mill, por exemplo, defendeu a liberdade de consumir álcool e ópio como um dos mais básicos direitos civis. O foco no utilitarismo é extremamente perigoso, podendo levar ao conceito de que os fins justificam os meios. Ora, se fosse considerado que a morte de alguns sujeitos chatos, entretanto pacíficos, fosse aumentar a utilidade geral, o bem-estar da maioria, alguém defenderia o direito de assassinarem esses chatos? Hitler aprovaria essa mentalidade, já que achava que matar judeus seria bom para a nação. Mas Hitler era um monstro. O utilitarismo costuma andar lado a lado com o coletivismo, e transforma indivíduos em animais sacrificáveis. Libertários pensam que a coerção contra aqueles que não iniciaram coerção deve ser eliminada. O que cada um faz com seu próprio corpo diz respeito apenas a si próprio. Não faz sentido jogar na prisão ao lado de assaltantes e assassinos, que violaram os direitos alheios, alguém cujo único "crime" foi ter fumado um cigarro de maconha em sua própria casa.

No fundo, esta postura é totalmente autoritária. Pessoas bem intencionadas, imbuídas de uma missão divina, querem impor aos demais como a vida deve ser vivida. Ora, o cigarro não faz mal à saúde? Mas por que devemos proibir o indivíduo de fumar, se ele assim quiser? Comer demais também faz mal para a saúde, assim como a ociosidade, mas nem por isso vamos criar leis para controlar tais práticas. Eu posso considerar um livro de Marx uma droga bem mais prejudicial ao cérebro que a maconha, mas nem por isso vou defender o uso da coerção estatal para proibir sua leitura. Seria autoritarismo puro. Essa visão de que o Estado deve cuidar dos indivíduos incapazes de escolher por si próprios é paternalista demais. Liberais acreditam na responsabilidade individual, e entendem que cada um sabe melhor o que pretende para sua vida. Se abrirmos precedente para que burocratas ou mesmo a maioria possam escolher por todos o que é o melhor, nada impede que amanhã uma maioria de vegetarianos decida banir o McDonald’s do mundo. Onde ficam os direitos individuais, a liberdade de escolha?

Podemos analisar os jogos de azar como um paralelo interessante às drogas. O jogo do bicho, por exemplo, teve sua origem em 1892, quando João Batista Vieira Drummond, dono de uma chácara com um pequeno jardim zoológico em Vila Isabel, resolveu criar um jogo para levantar recursos e manter os animais e toda a sua estrutura. Eram vendidos bilhetes de sorteios com bichos desenhados. Um negócio honesto, com trocas voluntárias. Mas quando o governo resolve que isso é ilegal, condena todos ao crime, incentivando a corrupção e violência. Isso para não falar que o próprio governo vende jogos de azar! Não gosta da concorrência, e cria um monopólio por lei, fazendo com que o jogo do bicho vire prática criminosa. Devemos respeitar as trocas voluntárias entre adultos responsáveis. O jogo de azar pode viciar e destruir a vida de alguns. Mas não devemos, por causa disso, impedir que uma maioria use com moderação e tenha prazer. Abusus non tollit usum. O abuso de algo não pode tolher seu uso. Ora, até o consumo exagerado de remédios legais pode matar. Vamos proibir a venda de aspirinas ou Prozac por causa disso? O mais importante não é o que é consumido, mas sim como é consumido. Com moderação, até a bebida alcoólica faz bem, ou mesmo a maconha, usada em tratamentos médicos.

O curioso é que muitos defendem a proibição das drogas bebendo sua dose diária de Uísque. Cáspita! Será que ignoram que tal bebida é droga também, que pode viciar e levar à morte se consumido excessivamente? O álcool é, na verdade, droga mais pesada que a maconha, por exemplo. Ou seja, as drogas já são liberadas, mas nem todas. No passado, nos Estados Unidos, já experimentaram proibir todas as drogas. A Lei Seca criou apenas criminosos, como Al Capone. Com seu término, a família Coors é vista com respeito por todos, assim como os brasileiros bilionários sócios da Inbev. O que mudou? A atividade é a mesma: vender bebida alcoólica. Apenas a lei mudou, e foi suficiente para reduzir a criminalidade neste setor. Como dizia Roberto Campos, "tudo o que é rigorosamente proibido é ligeiramente permitido". E é melhor permitir legalmente que criar um mercado ilegal, já que a demanda não desaparece. Como lembrava Mises, "não é porque existem destilarias que as pessoas bebem uísque; é porque as pessoas bebem uísque que existem destilarias".

Alguns aceitam a descriminalização dos usuários ou uma legalização parcial, e propõem algo como os sin taxes, impostos elevados sobre produtos de má reputação, como já ocorre com o cigarro e as bebidas alcoólicas. É a postura de Gary Becker, por exemplo. Mas esses elevados impostos podem não reduzir o mal causado pela proibição, deixando os problemas sem solução real. No mercado de cigarro no Brasil, cerca de um terço vem de contrabando e ilegalidade, devido aos enormes impostos. O mercado negro acaba se mantendo vivo pelo alto custo da legalidade.

Em resumo, seja pela lógica de resultados práticos ou pela defesa da liberdade individual, as drogas deveriam ser legalizadas. Isso iria reduzir a criminalidade e garantir a liberdade de escolha individual. O "argumento" de que consumidores de drogas podem causar danos externos não é válido, posto que o álcool hoje já tem esse mesmo risco, sem falar de outras fontes, como a negligência. Pune-se o ato, não a possibilidade dele ser cometido. No máximo, pode-se considerar um agravante para a penalidade o consumo de drogas, buscando coibir a irresponsabilidade. Mas de forma geral, os defensores da proibição negam que os indivíduos sejam capazes de fazer escolhas conscientes. São todos tratados como mentecaptos, com a exceção do dia do voto obrigatório. A proibição das drogas acaba sendo ineficiente e autoritária, colocando em risco a liberdade individual.

quinta-feira, março 01, 2007

Uma Verdade Inconveniente



Rodrigo Constantino

"Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza." (Sêneca)

O ambientalista mais famoso dos Estados Unidos – quiçá do mundo – é sem dúvida o ex-vice presidente Al Gore. Recentemente premiado com o Oscar pelo seu documentário, An Inconvenient Truth, o ativista ecológico prega medidas urgentes para combater o aquecimento global. Não vem ao caso aqui questionar os alardes que muitos fazem sobre o assunto, ignorando que os próprios cientistas reconhecem um passado incerto mas acabam prevendo um futuro certo de catástrofe. Um caso único onde é mais difícil acertar o que se passou do que está por vir. Também não vem ao caso falar que muitos cientistas são céticos quanto aos alarmes mais terroristas, discordando do relatório da ONU. Por fim, não é o tema deste artigo alertar para a postura fanática de muitos, que tentam impor a verdade que "todos sabem", calando qualquer voz contrária na marra. Essa postura não é científica, mas típica de fanatismo, da nova "religião verde". Mas nada disso importa muito aqui. Este artigo irá tratar apenas da hipocrisia.

Os alarmistas partem de um fato – o aumento da temperatura média no planeta, e chegam ao objetivo que desejam: pedir mais recursos para o governo cuidar do problema e atacar um determinado estilo de vida. Também não é o foco deste artigo mostrar que onde tivemos mais controle governamental, como nos países socialistas, tivemos mais poluição em termos relativos. Basta aqui lembrar que políticos dependem de votos para sobreviver no mundo político, e quanto mais verba e poder, melhor, pois são seres humanos, e não alienígenas abnegados. Seguem os próprios interesses como todos os demais indivíduos. Al Gore é um perfeito animal político, e com ele não poderia ser diferente. Inteligente, percebeu um excelente nicho para concentrar suas forças e ganhar evidência mundial, angariando junto muitos votos. O problema é a seguinte questão: será que ele vive mesmo de acordo com o que prega?

Devido à enorme exposição que ele tem, seria de esperar que sua vida fosse realmente de acordo com suas palavras. Não faz sentido o grande defensor da redução da emissão de carbono e da maior consciência sobre o problema energético ignorar tais pontos no seu dia a dia. Tanto é que consta que sua família utiliza carros híbridos, para não consumir muita gasolina. Souberam fazer propaganda com isso. Ocorre que recentemente foi divulgado que a família de Al Gore consome cerca de vinte vezes mais energia que a média nacional. Vinte vezes! Sua mansão de 20 quartos em Nashville, com piscina aquecida e lanternas de gás no jardim, consumiu cerca de US$ 30 mil em eletricidade em 2006. Seu gasto mensal é mais do que uma família média americana gasta por ano! O grande defensor da causa ambientalista, que adora condenar o estilo de vida moderno, incutindo culpa de criminoso em um indivíduo que apenas dirige um SUV, consome energia suficiente para abastecer 20 famílias médias americanas. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

Os esquerdistas, grandes entusiastas da causa ambientalista para usá-la como ataque ao capitalismo, logo aparecem em defesa de Al Gore, afirmando que não há nada demais em sua conduta. A esquerda sempre age assim: dois pesos e duas medidas. Um empresário rico é condenado como explorador, por exemplo. Mas um milionário que prega o socialismo é tratado como ídolo. Não é o dinheiro que realmente incomoda, mas a forma como foi obtido. Se é um empresário através do livre mercado, oferecendo produtos desejados pelos consumidores e gerando empregos, então deve ser condenado como explorador. Mas se é um artista que vive de verbas estatais falando mal do capitalismo, ou um cineasta que faz filmes para mostrar como o capitalismo é podre enquanto enche o bolso de dinheiro, então não tem problema. A riqueza só é pecado para o capitalista honesto. Se for acumulada durante as pregações socialistas, então não faz mal.

Mas explico esta conduta ambígua típica da esquerda para voltar ao tema principal sobre Al Gore: a hipocrisia. O dicionário Aurélio a define como "afetação de virtude ou sentimento que não se tem", ou então "fingimento, falsidade". O que tem de gente que tenta monopolizar virtudes, propagando aos quatro ventos como defende fins nobres, enquanto na prática não segue tais virtudes! Daria para lotar vários estádios do tamanho do Maracanã. São pessoas preocupadas em posar de grande homem, em conquistar fama ou outros interesses através de uma virtude que reconhecem como virtude, mas não a possuem de verdade. Pessoas que pregam uma vida espartana de suas casa luxuosas; gente que diz que a burguesia fede enquanto vive como um perfeito burguês; artistas que defendem o socialismo enquanto desfrutam de tudo que somente o capitalismo pode oferecer; religiosos que condenam o "bezerro de ouro" de suas ricas igrejas ornamentadas com muito ouro; e políticos que pregam maior conscientização sobre o problema energético enquanto consomem vinte vezes mais energia que a média nacional.

Mas nada disso é hipocrisia, dizem. Ignoram que ações valem mais que palavras. Mataram a hipocrisia, tiraram-na do dicionário. Assim, qualquer um pode condenar o roubo enquanto pratica um assalto, que não há hipocrisia. Qualquer um pode reclamar do luxo dos outros enquanto vive no completo luxo, que não há hipocrisia. E por aí vai. Não é mais necessário viver de acordo com o que prega. Chegamos então a uma verdade realmente inconveniente: o mundo está repleto de hipócritas!

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O Prego do Olavo


Rodrigo Constantino

"If the only tool you have is a hammer, you tend to see every problem as a nail." (Abraham Maslow)

Após minha "cruzada" contra o fanatismo religioso, o "filósofo" Olavo de Carvalho adotou uma postura totalmente lamentável, preferindo me atacar de tudo que é jeito, inclusive os mais pérfidos e desonestos. Não ligo. A sua completa falta de caráter, que ficou clara durante os "debates", me convenceu finalmente da sua total insignificância. Mas creio que ainda é útil citar seu nome para uma análise sintomática do que pode ocorrer quando a fé religiosa fala mais alto que a racionalidade. Não faria isso caso achasse que a confusão que fazem entre esses conservadores religiosos e os verdadeiros liberais não faz mal para a causa liberal. Faz, e muito.

Antes, é preciso lembrar que Olavo, um grande ícone desse conservadorismo fanático, já foi um comunista fanático. Ou seja, trocou de deus, mas não de fanatismo, tampouco de modus operandi. Para aquele que possui apenas um martelo, tudo lhe parece um prego, como afirma a epígrafe acima. E Olavo enxerga seu prego, o comunismo, em tudo. James Forrestal, que foi Secretário de Defesa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e um ferrenho anti-comunista, acabou tendo um colapso nervoso e foi internado num hospital. Como tudo indica, cometeu suicídio depois, pulando da janela. Dizem que ele via comunista em todo lugar, e sentia-se constantemente perseguido. De fato, o comunismo era – e ainda é – um perigo real. Não acho que devemos dar como certa a morte dessa ideologia monstro que carrega tantos cadáveres nas costas. Muitos ainda defendem tamanha barbárie. Mas lembro do caso para reforçar a tese de que paranóicos costumam olhar para qualquer lugar e ver apenas a mesma coisa. Lado a lado com a paranóia estão as teorias de conspiração, justamente porque oferecem ao paranóico uma "explicação" simplista de um mundo complexo, e ele pode assim ver seu fantasma como causa de tudo ruim que ocorre no mundo. Até eu, um ferrenho crítico do socialismo, fui acusado de esquerdista na comunidade de Olavo, apenas por ser ateu. Olavo adora uma teoria conspiratória, e tanto absurdo acaba ofuscando o que tem de decente no meio.

Bill Clinton, que tem um viés mais esquerdista para o padrão americano, mas seria tachado de liberal pelo critério brasileiro, já foi acusado de ser uma espécie de agente comunista infiltrado nos Estados Unidos para ajudar o governo chinês. As "evidências" apresentadas não poderiam ser mais fracas. O que será que Olavo tem a dizer do conservador Bush, que agora propõe um acordo com a Coréia do Norte ainda mais vantajoso que o proposto por Clinton? Seria agora o tão comum pragmatismo político? Ou será que Bush também "avermelhou" e está sendo financiado pelo PCC? Fico imaginando o que Olavo e sua turma estariam falando se fosse Bill Clinton a oferecer tal acordo. Conspiração é assim: qualquer coisa, por mais boba que seja, é quase uma prova irrefutável de que os fantasmas estão arquitetando um golpe mundial.

Mas esta longa introdução foi apenas para chegar ao ponto que segue. No meio de um desses "debates" com Olavo, na comunidade do Orkut que leva seu nome, ele pediu que eu apontasse ateus mais bondosos que santos. Meu exemplo foi Bill Gates, um ateu que fez um bem enorme para a humanidade, principalmente enquanto acumulava sua fortuna, já que ela foi fruto de trocas voluntárias que geraram muita riqueza para seus consumidores. Eu afirmei que Bill Gates fez mais pelo mundo do que todos os membros da comunidade rezando juntos para deus. Não custa lembrar ainda de suas bilionárias doações, ou o fato dele ser o maior financiador das pesquisas pela cura da malária. Mas eis a resposta que Olavo de Carvalho me deu:

"Para variar, você está errado. Tudo o que Bill Gates fez foi encher o cu de dinheiro usando as técnicas inventadas por Tim Berners-Lee, um católico que as criou com a intenção explícita de dar à humanidade um meio de resistir aos dominadores globalistas ateus. Quanto aos atos de suposta benemerência de Bill Gates, são praticamente todos em favor da ONU e sua rede de ONGs -- é o globalismo ajudando o globalismo. O lobo ajudando o lobo."

Creio que sequer seja necessário comentar uma coisa dessas. Mas farei mesmo assim. Em primeiro lugar, Tim Berners-Lee não era católico. Vejamos o que ele mesmo diz: "I had a religious upbringing which I rejected as a teenager: in my case it was a protestant Christian (Church of England) upbringing. I rejected it just after being "confirmed" and told how essential it was to believe in all kinds of unbelievable things". Ele retornou à religiosidade após ter filhos, mas para algo chamado Unitarian Universalists. Eis o que o próprio diz sobre sua nova religião: "Unitarian Universalists are people who are concerned about all the things which your favorite religion is concerned about, but allow or even require their belief to be compatible with reason. They are hugely tolerant and decidedly liberal". Muitos membros dessa "religião" se consideram humanistas, agnósticos ou mesmo ateus. Não obstante, nada consta sobre Lee ter criado a World Wide Web com o intuito de dar à humanidade um meio de resistir aos "dominadores globalistas ateus". Não sei se Olavo apenas chuta tudo para alimentar sua paranóia ou usa de má-fé.

E o ponto mais importante deste artigo, que considero crucial para distinguir conservadores de liberais, é quando Olavo deixa transparecer seu viés anti-capitalista, usando inclusive uma expressão totalmente chula para o acúmulo de riqueza de Bill Gates. Ora, um liberal sabe desde Adam Smith que a busca dos interesses particulares faz o bem comum através da "mão invisível". Os conservadores, imbuídos do preconceito cristão contra a riqueza, acabam condenando este "egoísmo" benéfico. Não é por acaso que tantos usam a mesma fonte, o "livro sagrado", para defender o socialismo. Também não é por acaso que a CNBB está infestada de esquerdistas, para não falar da Teologia da Libertação. Crentes não gostam muito do lucro e da riqueza. Acham que um frei que distribui pílulas de papel fez mais pelos homens que um empresário rico que oferece um produto inovador, gerando milhões de empregos e criando riqueza. Colocam a fé acima dos resultados concretos, ignorando que as intenções nunca são totalmente reveladas, enquanto as conseqüências das ações são bem concretas. Assim, Bill Gates merece um tom de repúdio por ter criado a Microsoft e ficado rico, sendo que suas doações ainda são condenadas por ser parte de uma conspiração para ajudar o "globalismo ateu". Bill Gates é um lobo, e Frei Galvão é um santo!

Acho que fica claro a incompatibilidade entre conservadores e liberais. Mas para quem ainda não está convencido, creio que essa outra pérola olaviana sobre Karl Popper, o defensor da Grande Sociedade Aberta, pode ajudar:

"Fora do estrito domínio da metodologia, onde sua contribuição é apenas razoável, Popper é um amador."

Pois é: Popper é um amador; Bill Gates é um lobo do movimento globalista ateu; Ayn Rand é uma burra sendo que Olavo mal conhece sua obra e não aponta a burrice; e não podemos esquecer de Newton, que teria espalhado o vírus da burrice pelo Ocidente, segundo Olavo. A esquerda deita e rola com tudo isso – e muito mais, usando alguém como Olavo para manchar a imagem de toda a direita, levando por tabela os liberais. Sei que nem todos os conservadores são como Olavo. Mas que fique bem claro aqui: liberais não são conservadores!

domingo, fevereiro 25, 2007

A Pílula Milagrosa


Rodrigo Constantino

“Duas mãos trabalhando fazem mais que milhares rezando.” (Anônimo)

Está para ser canonizado pelo Papa Bento XVI Frei Galvão, que será o primeiro santo brasileiro. De acordo com relatos da época em que viveu, de 1739 a 1822, o frade franciscano encontrou um rapaz gritando de dor causada por um cálculo renal. Frei Galvão teria escrito num pedaço de papel uma oração, inspirado por Nossa Senhora, e teria enrolado esse papel na forma de um pequeno canudo, dado ao enfermo, que deveria então engolir em três pedaços o papel. O homem teria expelido a pedra e sarado. Um milagre! Será mesmo?

Chama-se milagre aquilo que a ciência ainda não conseguiu explicar. Curas sem óbvia explicação aparente, atribuídas a alguma divindade. Mas creio que devemos aplicar um pouco de Karl Popper nisso, buscando a refutação do suposto milagre em vez de sua confirmação. Não custa lembrar que a epilepsia, hoje perfeitamente compreendida pela ciência, já foi vista como intervenção divina no corpo nos tempos de Alexandre O Grande e Júlio César. Será que nossa atual ignorância é motivo suficiente para atribuir uma cura desconhecida a algum milagre divino?

Ainda hoje são produzidas pelo Mosteiro da Luz e distribuídas aos fiéis milhares de pílulas com a oração escrita pelo religioso. Tanto a revista Veja como Época trazem, como matéria de capa, o assunto, colocando em evidência alguns casos extraordinários que são creditados ao milagre das pílulas. Um filho que nasceu depois de uma gestação difícil ou a cura de um caso de hepatite. Mas Popper iria perguntar quantos casos fracassaram com o consumo da pílula, ou quantos outros casos tiveram curas ainda inexplicáveis sem pílula alguma. Eis a postura de quem realmente busca a verdade. Não vale afirmar que os casos de fracasso, infinitamente maiores que os de sucesso, ocorreram por falta de fé verdadeira dos pacientes. Ou que os demais casos raros de cura sem explicação também são obras divinas, mesmo que em doentes ateus. Assim estaríamos diante de uma tautologia, onde o crente está sempre certo, pois não é possível refutar seu próprio conceito de milagre divino.

Sei que esta postura cética costuma incomodar muitos que precisam acreditar no milagre. Mas aceito o fardo de chato por considerar que a postura contrária, de crer automaticamente no milagre, gera efeitos negativos à sociedade. O principal deles, a meu ver, é a passividade. Stephen Covey coloca isso de forma direta quando afirma que “pegar força emprestada de fora constrói fraqueza, porque isso alimenta dependência em fatores externos para fazer as coisas acontecerem”. Em outras palavras, quando alguém realmente acredita que um pedaço de papel e uma reza são tratamentos mais eficazes que aqueles da medicina convencional, pode-se deixar de buscar o método que realmente oferece maior probabilidade de cura. Não é preciso ficar apenas no campo da medicina, ainda que este seja um dos mais relevantes de todos.

Podemos verificar a passividade que a fé de que o Santo Expedito irá realmente resolver as causas urgentes pode gerar nos fiéis. Se um santo vai resolver meus problemas, posso ficar mais acomodado e batalhar com menos afinco para resolvê-los por conta própria. Ou então a crença de que o Santo Antônio irá de fato arranjar um companheiro para a noiva em potencial, que fica na esperança de que um príncipe encantado irá bater à sua porta. Não é por acaso que os principais clientes de tais superstições são pessoas desesperadas, apelando para qualquer coisa que possa aliviar o sofrimento. Ocorre que normalmente o término do sofrimento depende da própria pessoa, não de santos.

Se alguém vira santo porque realizou algumas curas que a ciência ainda não pode explicar, o que deveriam virar aqueles que realizam milhares de curas explicáveis pela ciência? Os testes de novos remédios costumam contar com um percentual de placebos, dados a uma parte das cobaias. De tempos em tempos, alguns dos que tomaram o placebo demonstram uma cura similar aos que tomaram o remédio verdadeiro. Mas para o remédio ser aceito, é preciso que seu poder de cura seja real, com elevado grau probabilístico. Afinal, se não fosse esse o caso, bastaria dar açúcar para todos e esperar os “milagres” aparecerem. Não é assim que se faz ciência, por sorte dos consumidores enfermos.

Compare-se o milagre de uma ou outra cura aleatória que a ciência ainda não explica com a cura quase certa daqueles que tomam um remédio testado por laboratórios. Qual é o mais importante? Não é um milagre que qualquer um possa comprar por poucos centavos uma Neosaldina e com quase certeza acabar com uma irritante dor de cabeça? Não é um verdadeiro milagre que a Pfizer, em busca do lucro, tenha colocado à disposição de milhões de pessoas uma pílula azul que elimina o problema da impotência? Santa Pfizer! Enfim, o verdadeiro milagre não é o fato de que vários laboratórios, em busca do lucro, acabem ofertando tantos remédios no mercado, possibilitando maior conforto e qualidade de vida para tanta gente?

Mas parece que as pessoas atribuem maior valor às intenções que aos resultados. Agnes Gonxha Bojaxhiu, mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá, é citada por muitos como exemplo de dedicação altruísta. Mas será que podemos comparar os resultados concretos que suas ações geraram com aquilo que o ateu individualista Bill Gates fez pela humanidade, gerando milhões de empregos mundo afora, que possibilita uma vida mais digna para essas pessoas? Isso sem falar dos seus bilhões gastos em filantropia, como os investimentos para a cura da malária. Quem merece mais o título de santo? Não dizem que no inferno pululam as boas intenções? Por que então devemos valorizar mais um suposto altruísta que pouco faz pelo mundo em vez de um egoísta que gera resultados fantásticos para a humanidade? Tenho um pouco de dificuldade para entender esta lógica, que coloca supostas intenções, sempre incertas e desconhecidas, acima de resultados concretos e objetivos.

Tudo bem, o Brasil terá seu primeiro santo. Mas que os brasileiros entendam que a pílula milagrosa mesmo não é aquela de papel e oração, mas sim aquela que o laboratório oferece, após rigorosos testes, para curar de fato os enfermos.

O Ente Abstrato


Rodrigo Constantino

“O Estado é a grande ficção através da qual TODO MUNDO se esforça para viver às custas de TODO MUNDO.” (Frédéric Bastiat)

Considero um dos maiores defensores que a liberdade já teve o francês Frédéric Bastiat. Sua curta vida não o impediu de deixar uma obra fantástica sobre o Liberalismo, especialmente pela sua incrível objetividade de argumentação. Bastiat derrubou muitos sofismas econômicos, e defendeu a separação entre Estado e economia. Este artigo tem como objetivo resumir sua visão básica sobre o Estado.

Para Bastiat, o Estado é tratado como um personagem misterioso, extremamente solicitado e invocado para a solução dos males que assolam as pessoas. Acabar com a miséria, gerar empregos, garantir a segurança, proteger indústrias, fomentar o crédito, educar os jovens, socorrer os idosos, incentivar as artes, enfim, para praticamente tudo que há demanda, o Estado surge como uma panacéia, capaz de resolver todos os problemas. As ações benévolas do Estado representam aquilo que se vê, enquanto os custos muitas vezes representam aquilo que não se vê. Para quem não entende corretamente a ligação entre causa e efeito, ainda mais ao longo do tempo, nada mais natural que exigir do Estado sempre mais e mais, ignorando as nefastas conseqüências disso.

O homem repudia o sofrimento e a dor. Contudo, é condenado pela natureza ao sofrimento da privação, se não partir para o trabalho. Mas muitos preferem tentar descobrir uma forma de se aproveitar do trabalho de outrem. Daí surge a escravidão, a espoliação, as fraudes. Com o desaparecimento da escravidão, não desaparece a infeliz “inclinação primitiva” que trazem em si os homens para lançar sobre outros o sacrifício necessário para a satisfação e o prazer próprios. Bastiat afirma: “Existem ainda o tirano e a vítima, mas, entre eles, se coloca um intermediário que é o Estado, ou seja, a própria lei”. E para Bastiat, essa espoliação legal é ainda mais imoral que a escravidão, que pelo menos era mais direta e clara.

Assim, todos acabam se dirigindo ao Estado, alegando que entre o trabalho e os prazeres não está havendo uma proporção satisfatória. Para restabelecer o equilíbrio desejado, pretendem avançar um pouco nos bens de outra pessoa. O Estado será o veículo usado, o intermediário. O objetivo é alcançado com tranqüilidade de consciência, já que a própria lei terá agido por eles, que terão as vantagens da espoliação sem os riscos de tê-la praticado, ou sem o ódio que ela gera nas vítimas. Brincam que a diferença entre um político e um ladrão é que, o primeiro, nós escolhemos, enquanto o segundo nos escolhe. As brincadeiras têm um fundo de verdade.

Essa “personificação” do Estado tem sido no passado e será no futuro uma fonte fecunda de calamidades e de revoluções. O povo está de um lado, o Estado do outro, como se fossem dois seres distintos. O Estado tem duas mãos: uma para receber, outra para dar. Conforme Bastiat, a mão rude e a mão delicada. A ação da segunda subordina-se necessariamente à da primeira. Como dizia Roberto Campos, “o bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito”. Afinal, “o que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar”. Isso se explica, segundo Bastiat, “pela natureza porosa e absorvente de suas mãos, que retêm sempre uma parte e às vezes a totalidade daquilo que tocam”. O que é realmente impossível é o Estado devolver ao povo mais do que ele tomou, como se pudesse criar riqueza do nada.

Dessa forma, coexistem no povo duas esperanças e no governo duas promessas: muitos benefícios e nenhum imposto. Por serem esperanças e promessas contraditórias, não podem se realizar nunca. Bastiat questiona: “Não estará aí a causa de todas as nossas revoluções?”. Pois entre o Estado que esbanja promessas impossíveis e o povo que sonha coisas irrealizáveis, surgem os ambiciosos e vendedores de utopias. O povo passa a acreditar nas promessas utópicas, mas estas nunca se concretizam. A contradição é eterna: se o governante quiser ser filantropo, é forçado a permanecer fiscal. Antes de oferecer qualquer coisa ao povo, tem inexoravelmente que tirar dele antes. A idéia de que o Estado deve dar muito aos cidadãos e tirar deles muito pouco é absurda e perigosa. Mas como alerta Bastiat, os “cortejadores de popularidade” são peritos na arte de mostrar a mão delicada, mas esconder a mão rude.

Tudo exigir do Estado e nada dar é “quimérico, absurdo, pueril, contraditório e perigoso”. Bastiat pergunta: “Como é que o povo não vai fazer revolução em cima de revolução, se ele estiver decidido a só parar quando houver realizado esta contradição: nada dar ao Estado e dele receber tudo?”. Mas esses utópicos fogem desta contradição justamente pela abstração do Estado, como se ele pudesse ser algo diferente da soma dos cidadãos que compõem a nação. Para os socialistas, existe um estado natural de abundância. Nunca compreenderam direito o conceito de escassez. Basta empurrar as demandas existentes para o ente abstrato chamado Estado, que tudo irá ficar maravilhoso. Teremos o paraíso terrestre!

Para os outros que entendem a mensagem de Bastiat, no entanto, o Estado não é ou não deveria ser outra coisa senão “a força comum instituída, não para ser entre todos os cidadãos um instrumento de opressão e de espoliação recíproca, mas, ao contrário, para garantir a cada um o seu e fazer reinar a justiça e a segurança”. Ou seja, o Estado deveria existir para garantir a propriedade privada e as trocas voluntárias num ambiente de liberdade. Nunca para praticar a espoliação legal, que nada mais é que escravidão velada.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Os Saudosistas


Rodrigo Constantino

"O hábito de culpar o presente e admirar o passado está profundamente arraigado na natureza humana." (David Hume)

Um dos campos onde a saudade por um passado idealizado mais mexe com as pessoas é o da moralidade. Há um sentimento bastante comum de que nunca antes a humanidade esteve tão desapegada de valores morais como no presente. Ocorre que isso vale para o passado também. Muitos antigamente tinham o mesmo tipo de impressão, e assim sucessivamente. Mas será que os valores morais da humanidade estão mesmo em declínio desde os primórdios? Será que cada vez mais os indivíduos se tornam seres imorais? Ou será que esta imagem é apenas fruto de uma característica comum da natureza humana, de enaltecer o passado e condenar o presente, sendo normalmente mais catastrófico ainda com as previsões do futuro?

Em seu livro Moral Freedom, Alan Wolfe diz que “toda geração acha a moralidade das gerações anteriores melhor que a sua própria”. Ele usa como exemplo a imagem da Era Vitoriana, tida hoje por alguns como o ícone da moralidade. Mas o que dizer da sátira de Anthony Trollope, The Way We Live Now, escrita em 1875 justamente para expor uma Inglaterra repleta de jogadores bêbados, financistas corruptos e amantes incompetentes? Será que podemos mesmo encarar a Era Vitoriana como a retidão moral vis-à-vis a atualidade? Em quais aspectos o mundo era moralmente superior naqueles tempos?

Podemos comparar as duas épocas em uma área onde muitos conservadores costumam usar para atacar o suposto declínio moral dos nossos dias: o divórcio. Muitos afirmam que as crescentes taxas de divórcio são forte evidência – senão prova – do total desapego aos sólidos valores morais. Mas que valores seriam esses? A lealdade acima de tudo, inclusive da felicidade? A submissão da mulher que permanece casada porque seria vítima dos mais pérfidos comentários? O apego ao conceito cristão de matrimônio, transformando dois indivíduos em um até que a morte os separe, mesmo que a vida seja infeliz? A obediência da mulher aos pais, do tempo em que sequer tinha a liberdade para escolher seu próprio marido? Pois por esta ótica, não vejo declínio algum, mas sim uma evolução moral, que garante maior liberdade de escolha para os envolvidos no casamento, que deve ser visto como algo bom e sempre voluntário, e não um sacrifício.

O Ato de 1857 na Inglaterra sobre o divórcio foi um pequeno passo rumo à liberdade, mas muito tímido ainda. Um marido poderia pedir o divórcio por adultério, mas uma mulher teria que provar não só o adultério, como maus tratos e uso de crueldade. Será que isto é moralmente superior ao que temos hoje, mesmo que sejamos obrigados a conviver com maiores taxas de divórcio? As pessoas não têm o direito de buscar a felicidade à sua própria maneira? Com o advento da independência financeira feminina, muitos casamentos acabam simplesmente porque as mulheres não são mais obrigadas a aturar certas coisas que consideram inaceitáveis. Isso não é algo bom, que deveria ser celebrado? Desde quando ficar casado a qualquer custo é algo decente e moralmente correto? Devemos enaltecer os tempos onde maridos autoritários abusavam da escravidão velada da mulher, atendendo as demandas sexuais com cortesãs enquanto as esposas ficavam submissas em casa?

Que fique claro que deposito bastante importância na família e no papel que esta instituição desempenha na sociedade. É bom para os filhos que tenham os pais juntos no mesmo lar, se possível. Mas nem de perto é essencial para a criação de adultos felizes. Muito melhor ter pais separados que se entendem bem do que marido e mulher brigando dentro de casa, sob os olhares assustados dos filhos. Mesmo sem briga, os filhos sentem se houver desprezo ou indiferença entre os pais, e a dura verdade será melhor do que a mentira hipócrita. Um pai pode ser ótimo para seu filho, mesmo separado da mãe, e vice-versa. Jamais aceitaria ficar com uma mulher somente por causa de um filho. Minha felicidade vem em primeiro lugar, e creio que para a felicidade do próprio filho é fundamental que os pais sejam indivíduos felizes.

No fundo, acredito que a ampliação do leque de escolhas dos indivíduos é que incomoda muitos saudosistas. O puritanismo hipócrita, por exemplo, costuma ser fruto da inveja que esses puritanos sentem daqueles que conseguem ser felizes atendendo os anseios do corpo, sem cair num vazio espiritual por conta disso. Que mal há em alguém querer ser feliz ao máximo nessa vida, a única que existe com certeza, sem desejar encará-la como um sacrifício para algo mais? Os conservadores freqüentemente alegam que esta postura leva ao niilismo, ao hedonismo que deixa um vácuo interior. Mas os indivíduos não precisam aderir ao carpe diem e viver cada dia como se fosse o último da vida, para focarem na maximização da própria felicidade nesta vida. Afinal, somos seres racionais, e podemos tentar calcular o valor do amanhã, pesando sempre o presente e o futuro em nossas escolhas.

O hedonismo seria a doutrina que prega que o bem é qualquer coisa que lhe dá prazer e que, portanto, o prazer é um padrão para a moralidade. Dizer que o prazer momentâneo deve ser o padrão da moralidade significa dizer que quaisquer valores que você escolhe, consciente ou inconscientemente, racional ou irracionalmente, são corretos e morais. A vida será então guiada por sentimentos ao acaso, não pela mente. Alguém que segue de forma tão arbitrária e randômica a felicidade dificilmente irá alcançá-la. Podemos, entretanto, constatar que o bem pode ser definido por um padrão racional de valor, que o prazer não é uma primeira causa, mas apenas uma conseqüência, que somente o prazer que procede de um julgamento racional de valor pode ser considerado moral. Desta forma, estaríamos ainda buscando a maximização do prazer e da felicidade, mas de forma racional. Isto me parece algo bem mais correto do ponto de vista moral que seguir uma doutrina de sacrifício individual em nome de um bem maior qualquer.

O mundo parece estar caminhando cada vez mais para este tipo de princípio moral, onde cada indivíduo pode focar em sua própria felicidade. Como todo aumento da liberdade de escolha, isso deverá gerar conseqüências indesejadas também, da mesma forma que a democracia imperfeita pode levar ao arrependimento em certas ocasiões. Mas nem por isso vamos desejar a volta aos tempos das monarquias, ditaduras ou teocracias. Pelo mesmo motivo, não vejo razão para o saudosismo de tempos onde o moralmente correto era a ausência da liberdade de escolha individual.











terça-feira, fevereiro 20, 2007

A Guerra Fria



Rodrigo Constantino

“Regimes plantados com baionetas não deitam raízes.” (Ronald Reagan)

O professor de história em Yale, John Lewis Gaddis, compilou em um curto livro os principais fatos sobre a traumática Guerra Fria, que marcou a segunda metade do século XX. Como o próprio autor destaca em História da Guerra Fria, o mundo “é um lugar melhor pelo fato de o conflito ter-se travado da forma como o foi e ser vencido pelo lado que o venceu”. Gaddis julga com objetividade o que se passou, compreendendo que de fato havia um lado lutando pelos valores corretos e outro lado representando o “Império do Mal”, como chamou Reagan.

Venceu a Segunda Guerra uma coalizão cujos membros mais importantes já estavam em guerra, ao menos ideológica e geopolítica. Aquela vitória “exigiria que os vencedores deixassem de ser o que eram ou desistissem de muito do que esperavam atingir com aquela guerra”. Os cidadãos dos Estados Unidos proclamavam, com razão, que viviam na mais livre sociedade da face da Terra, enquanto os bolcheviques haviam adotado a concentração de autoridade como forma de derrubar inimigos e consolidar uma base para exportar a revolução pelo resto do mundo. A URSS era, ao final da Segunda Guerra, “a sociedade mais autoritária da face da Terra”. O embate que se travava era, portanto, entre esses dois modos contrastantes de ver o mundo. De um lado a liberdade individual e a democracia, e do outro o autoritarismo estatal e o terror. E em 1945, ainda não estava claro, para muitos, qual seria a onda do futuro.

Nas próprias palavras de Gaddis: “Ambas as ideologias que definiam aqueles dois mundos se destinavam a oferecer esperança: para isto, antes de mais nada, serve uma ideologia. Uma delas, no entanto, para funcionar veio a depender da instalação do medo. A outra não precisava deste recurso. Neste ponto está a assimetria ideológica fundamental da Guerra Fria”. Não é por acaso que o lado que precisou erguer um muro para impedir a própria saída do povo foi o comunista.

A postura soviética era claramente ofensiva, enquanto os americanos ficaram a maior parte do tempo na defensiva. “A meta de Stalin não era restaurar o equilíbrio de poder na Europa”, como diz Gaddis, “mas dominar o continente tão completamente quanto Hitler quisera”. Roosevelt e Churchill insistiram repetidamente com Stalin para que permitisse eleições livres nos estados bálticos, na Polônia e noutras áreas da Europa oriental. Na Conferência de Yalta, Stalin concordou em fazê-lo, mas sem a menor intenção de cumprir o prometido. Como Roosevelt disse pouco antes de sua morte, “Stalin quebrou todas as promessas feitas em Yalta”.

O enorme telegrama que George Kennan, respeitado membro do serviço diplomático na embaixada americana em Moscou, enviou para o Departamento de Estado em 1946 tornou-se o fundamento da estratégia dos Estados Unidos em relação à União Soviética por todo o restante da Guerra Fria. Nele, Kennan insistia que a intransigência de Moscou não resultava de qualquer iniciativa do Ocidente, mas decorria das necessidades internas do regime stalinista e nada poderia ser feito num futuro previsível para alterar este quadro. “Os líderes soviéticos tinham que tratar o mundo exterior como hostil porque isso lhes dava o único pretexto para a ditadura sem a qual não sabiam governar”. Seria necessária então uma contenção de longo prazo das tendências expansivas russas.

Praticamente todas as guerras “quentes” que ocorreram durante a Guerra Fria foram iniciativas do lado comunista, tentando expandir suas fronteiras e colonizar outros países. Os americanos e seus aliados entravam em cena para impedir esse imperialismo, defendendo os invadidos. Mas não houve confronto militar direto soviético-americano, nem mesmo em função da Coréia, ainda que provas recentes levaram a crer que Stalin autorizou o emprego de aviões de caça soviéticos, pilotados por soviéticos, sobre a península coreana, onde engajaram caças americanos pilotados por americanos. Mas o fato é que o temor do uso de bombas atômicas em larga escala funcionou como um freio entre as duas grandes potências, impedindo um confronto direto oficialmente. Como constatou Churchill, “é para a universalidade da destruição potencial que devemos olhar com esperança e até mesmo confiança”.

Um dos episódios mais tensos da Guerra Fria foi a crise dos mísseis em Cuba. Khruschev encarava a instalação de mísseis em Cuba principalmente como uma tentativa de propagar a revolução pela América Latina. Kennedy e seus auxiliares encararam a instalação dos mísseis, da qual tomaram conhecimento apenas em outubro de 1962, como a mais perigosa de uma longa série de provocações que remontavam às ameaças dos dirigentes do Kremlin à Inglaterra e à França durante a crise de Suez, seis anos antes. Foi um dos momentos mais delicados da Guerra Fria, e Gaddis considera que “o que evitou que ocorresse uma guerra no outono de 1962 foi a irracionalidade do terror absoluto que tomou conta de ambos os lados”.

O professor John Gaddis não ignora, de forma alguma, os erros cometidos pelos americanos durante a Guerra Fria. A própria criação da CIA e suas atividades clandestinas são citadas, levando-se em conta o debate que o assunto gerou dentro dos próprios Estados Unidos. Até que ponto o realpolitik era aceito? Até onde cabia a máxima maquiavélica de que o homem virtuoso precisa aprender a não ser virtuoso, de acordo com as necessidades? Como conciliar os valores domésticos com a política externa mais pragmática? Podemos condenar as atividades da CIA com o benefício do retrospecto, mas seria injusto não levar em conta o cenário da época, com a real ameaça comunista batendo à porta com força. Esta ambivalência moral, entretanto, não significava equivalência moral, já que os Estados Unidos nunca julgaram necessário violar direitos humanos na escala em que a União Soviética e seus aliados tinham praticado. Mas felizmente a Grande Sociedade Aberta venceu, e um presidente americano foi forçado a renunciar por escândalos e mentiras, mostrando que os fins não justificavam os meios, e que o império da lei ainda valia.

Nos últimos capítulos, Gaddis fala dos grandes líderes que surgiram, dentro de um contexto histórico, para acelerar o processo de desmantelamento do comunismo e término da Guerra Fria. Figuras como Reagan, Thatcher, Walesa, Václav Havel e João Paulo II seriam peças fundamentais no desfecho desta fase sombria que viveu a humanidade. Compare-se a estes nomes figuras pitorescas como Mao Tse Tung, Stalin, Pol Pot, Kim Il-Sung, Fidel Castro, Ho Chi Minh e Ceausescu, e não resta dúvidas de que um lado lutava pela liberdade e valores decentes da humanidade, enquanto o outro representava o mal encarnado, o terror e a violência. Gorbachev recebeu muitos méritos pela queda soviética, mas na verdade tentara salvar o socialismo tomando emprestadas idéias capitalistas. Nunca abandonou de verdade o ideal socialista, ainda que não estivesse disposto a usar a força para sustentá-lo. Como um não vive em o outro, Gorbachev acabou contribuindo para o fim da União Soviética.

Segundo Gaddis, “a Guerra Fria pode bem ser lembrada como o ponto a partir do qual força militar, o elemento definidor de ‘poder’ nos cinco séculos anteriores, deixou de sê-lo”. Afinal, “a União Soviética se desfez com todo seu poder militar, inclusive a capacidade nuclear, perfeitamente intacto”. A Guerra Fria, não obstante todas as suas atrocidades, podia ter sido muito pior. “Começou com uma volta do medo e terminou com um triunfo da esperança”.

O triste é saber que muitos torciam pelo lado errado, e até hoje não perdoaram os americanos por terem vencido a Guerra Fria. Este socialismo envergonhado é uma das causas do antiamericanismo patológico que vem crescendo desde então. Seus defensores irão perder, uma vez mais.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

A Carta de Dawkins



Rodrigo Constantino

“Faith is the commitment of one's consciousness to beliefs for which one has no sensory evidence or rational proof; a mystic is a man who treats his feelings as tools of cognition.” (Ayn Rand)

Em O Capelão do Diabo, Richard Dawkins dedica a última seção a uma carta que escrevera para sua filha quando esta completou dez anos de idade. Pela simplicidade da linguagem, mas importância do conteúdo, considero interessante expor aqui alguns trechos desta carta, já que penso de forma bastante parecida e tento educar minha filha nesta mesma linha. Dawkins diz: “Eu sempre quis encorajá-la a pensar, sem dizer a ela o que pensar”. Costumo fazer o mesmo com minha filha, evitando a doutrinação e tentando estimular o questionamento. Quando ela pergunta se viramos anjos quando morremos, por exemplo, respondo que não sei, que alguns acreditam que sim e outros pensam que não, mas que o mais importante é ela não deixar de questionar, não aceitar uma resposta pronta, e também focar mais na vida que na morte. Isso é bem diferente de um pai que responde um enfático “sim”, fechando todas as portas de reflexão para uma criança ainda imatura. Mas vamos aos trechos de maior destaque na carta de Dawkins.

Os cientistas quase sempre agem como detetives, partindo de uma intuição de que algo pode ser verdadeiro – que chamamos de hipótese – e buscando evidências através basicamente de observações. Dawkins alerta sua filha contra três razões indevidas para acreditar no que quer que seja: tradição, autoridade e revelação. Estas três fontes de “conhecimento” são bem distintas deste método científico da busca pela verdade.

Como diz Dawkins, “as crenças tradicionais em geral se iniciam a partir de quase nada”. Talvez alguém simplesmente as invente, como tantas histórias e fábulas conhecidas. Mas “depois de terem sido transmitidas durante alguns séculos, o mero fato de serem tão antigas faz com que pareçam especiais”. As pessoas acreditam em certas coisas somente porque acreditaram nelas durante séculos. Isso é tradição. Como lembra Dawkins, “coisas distintas são ditas às crianças muçulmanas e às crianças cristãs, e nos dois casos elas crescem absolutamente convencidas de que estão certas e que as outras estão erradas”. Dawkins conclui: “Se inventarmos uma história que não é verdadeira, transmiti-la ao longo de muitos séculos não a tornará nem um pouquinho mais verdadeira!”. As tradições têm sua importância, sem dúvida. Mas não há motivo algum para que não possamos – ou mesmo devamos – questioná-las, buscar suas origens, e checar se são verdadeiras.

Como um caso que vem à mente, podemos falar dos muçulmanos, que não podem beber vinho. A bebida fazia parte da vida cotidiana de Meca no século VI, mas em 632, dez anos após a morte de Maomé, o vinho fora completamente banido de todos os países onde o Islã ditava as regras. O único verso do Alcorão em que se baseia a proibição do vinho foi ditado em função de um incidente ocorrido em Medina, quando os discípulos de Maomé bebiam após a ceia. Houve um desentendimento entre dois destes discípulos, que acabou num golpe que feriu um deles superficialmente. Maomé não gostou, e após consultar Alá, concluiu que o vinho era um veículo do Satanás, que procurava a inimizade e o ódio entre as pessoas. Maomé prescreveu quarenta chibatadas para quem violasse sua injunção contra o vinho, e seu sucessor, o califa Omar, aumentou para oitenta o número. Existem centenas de milhões de consumidores de vinho a menos no mundo hoje, e tudo por causa de uma briga entre dois discípulos provavelmente embriagados de Maomé, no século VII. Será que faz sentido seguir esta tradição sem sequer questionar os motivos dela? Para alguns, o vinho é sagrado, para outros, o caminho do inferno. E muitos aceitam essas “verdades” somente pelo peso da tradição. Dependendo de onde nasceram, sem escolha alguma, podem adorar ou detestar uma bebida, sem motivo racional algum.

O outro alerta de Dawkins é contra a autoridade, significando que acreditamos em algo somente porque alguma pessoa importante nos disse para fazê-lo. Dawkins cita como exemplo a figura máxima da Igreja Católica, o Papa, que passa a adquirir um ar de infalibilidade somente por se tornar Papa. Somente em 1950 um Papa disse oficialmente aos católicos romanos que eles deveriam acreditar que o corpo de Maria subiu ao céu. Mas será que isso se torna mais ou menos verdade apenas porque alguma autoridade resolveu afirmar assim? Dawkins reconhece que mesmo na ciência, “algumas vezes não é possível que vejamos as evidências nós mesmos e, nesse caso, temos que acreditar na palavra de alguém”. Mas é algo bem mais confortante do que a fé necessária na autoridade religiosa, já que as pessoas que escreveram os livros viram as evidências e qualquer um tem a liberdade de examiná-las a qualquer momento, já que são objetivas. Em contrapartida, nem mesmo os padres afirmam que existem evidências para a história sobre o corpo de Maria voando em direção ao Céu. São duas situações bem diferentes.

O terceiro alerta é contra a revelação, que Dawkins descreve como o sentimento que algumas pessoas religiosas têm no seu interior, de que alguma coisa deve ser verdade, muito embora não tenham evidência alguma disso. “Todos nós temos sentimentos dentro de nós de tempos em tempos; às vezes eles se mostram corretos e outras vezes não”, ele diz. Pessoas diferentes podem ter sentimentos opostos e assim fica impossível descobrir quais são os sentimentos corretos. Sentimentos interiores precisam ser sustentados por evidências, “caso contrário simplesmente não devemos acreditar neles”. Os cientistas usam sentimentos interiores a todo o momento, mas para transformarem isto em ciência precisam encontrar sustentação nas evidências, caso contrário não há valor científico.

A carta é endereçada a uma criança, mas acredito que muitos adultos deveriam refletir sobre sua mensagem. Creio que devemos deixar o desfecho com o próprio Richard Dawkins:

“A próxima vez que alguém lhe disser algo que soe importante, pense consigo mesma: ‘Será que esse é o tipo de coisa que as pessoas provavelmente sabem porque há evidências? Ou será que é o tipo de coisa em que as pessoas só acreditam por causa da tradição, da autoridade ou da revelação?’ E, quando alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não dizer a ela: ‘Que tipo de evidência há para isso?’ E se ela não puder lhe dar uma boa resposta, espero que você pense com muito cuidado antes de acreditar numa só palavra.”

domingo, fevereiro 18, 2007

A Vaidade de Olavo



Rodrigo Constantino

“The true teacher defends his pupils against his own personal influence.” (Amos Bronson Alcott)

O “filósofo” Olavo de Carvalho, que havia anunciado ser impossível debater comigo por causa de minha ignorância e que não iria perder tempo com um “moleque idiota”, já escreveu cinco longos artigos atacando a minha pessoa. Para filtrar argumentos entre aqueles adjetivos tão chulos é preciso espremer bastante, e mesmo assim pouco sai. Ele reclama que eu estou fugindo de um debate proposto por mim mesmo, mas na verdade estou apenas evitando o show que Olavo tanto gosta de oferecer a seus seguidores. Quase todo “debate” com Olavo acaba com um xingamento tosco envolto numa expressão em latim, para dar um toque de erudição. Estou lidando com um “adolescente crescido”, um “filósofo” que fica xingando os outros dos mais baixos nomes e que ainda usa como “argumento” as mensagens que recebeu de admiradores atacando a minha pessoa. O argumentum ad populum , quem diria?, passou a ser um dos preferidos de Olavo.

Alguém que já conhecia Olavo melhor que eu comentou no meu blog que o homem estava realmente mordido por causa de uma correção que fiz sobre a língua portuguesa. Eu pensei que era besteira, que um filósofo jamais seria tão tolo, e que a sua reação era mesmo fruto do fanatismo religioso. Mas depois foi ficando mais claro que havia verdade nisso. De fato, basta observarmos que o título da série de longos artigos atacando minha pessoa é Rodericus Constantinus Grammaticus, com o subtítulo O Homem do Mim. Para quem não sabe, isto se deve ao fato de Olavo ter escrito “entre eu e você” em uma mensagem para mim, e eu ter apontado que o correto seria “entre mim e você”. Bastou isso. Para um homem cuja vaidade é maior que o mundo, foi algo insuportável. Olavo ainda mentiu depois, afirmando em sua comunidade de Orkut que eu fiquei “pisando e repisando o mesmo ponto com obsessividade compulsiva e fazendo-se de [seu] professor de redação”. Mentira. Eu fiz a correção uma única vez, e foi o suficiente para despertar a ira de Olavo. A seguir ele insistiu na mentira: “É claro que não fiquei brabo com a correção do ‘mim’, embora a achasse estilisticamente inadequada”. Não ficou “brabo”, mas disse, faltando com a verdade, que eu foquei nisso obsessivamente, e ainda deu importância ao fato a ponto de virar o tema do título dos seus artigos? Talvez ele não esteja mentindo quando diz que fiquei repisando o mesmo ponto. Talvez seja apenas auto-engano. Vai ver que ele realmente ficou vendo isso o tempo todo, em qualquer lugar que olhasse. Freud explica. E um de seus mais fervorosos admiradores ainda se deu ao trabalho de criar um tópico apenas para apontar os meus erros de português!

Voltaire dizia que a “tolerância é a conseqüência necessária da percepção de que somos pessoas falíveis”, já que “errar é humano, e estamos o tempo todo cometendo erros”. O filósofo Karl Popper, quem Olavo chegou a desqualificar como fonte séria para alguma coisa, endossa esta postura, e sempre defendeu a tolerância e a falibilidade humana. Popper estimulava seus alunos a questionar livremente suas premissas nas aulas, criando um ambiente aonde apontar os erros do mestre fosse algo bastante natural. Compare-se isso ao que Olavo parece fazer com seus alunos, e vemos o abismo que separa ambos. Os seguidores de Olavo parecem incapazes de questionar o mestre, de apontar suas falhas, de criticá-lo abertamente. Receberam o jocoso apelido de “olavetes” não foi à toa. Como crianças desamparadas, ficam torcendo para o “guru” detonar o oponente, não à base de sólidos argumentos, mas sim com adjetivos que sequer podem ser reproduzidos aqui. Trata-se de um comportamento típico de seitas, onde o “líder iluminado” está sempre com a razão, e quando acusa outro de fazer algo que ele mesmo faz com tanta freqüência, recebe os aplausos das focas adestradas, incapazes de enxergar o que ocorre de fato. É desta maneira que Olavo consegue denunciar as falácias dos esquerdistas, enquanto as aplica com maestria sem que seus admiradores notem. Olavo conseguiu até mesmo criticar o meu suposto “tom de superioridade infinita”. Será que falta espelho na casa do “filósofo”?

Em um novo artigo, Disfarçando o Mico, Olavo mente mais um pouco ao afirmar: “Enviou tantas mensagens para todos os lados (inclusive para a minha página pessoal no Orkut), que acabou ganhando dos orkutianos o apelido de Spamtantino”. Nada poderia estar mais longe da verdade! Este “carinhoso” apelido me foi dado pelos esquerdistas, que sempre preferiram atacar a minha pessoa a argumentar. Deve-se ao fato de eu utilizar o Orkut como veículo de divulgação dos meus artigos, colocando o link para eles em inúmeras comunidades diferentes. Em resumo: quem criou o apelido que Olavo agora tenta usar para me desqualificar foram justamente os membros da comunidade “Olavo nos Odeia”, um grupo de esquerdistas imaturos que detesta Olavo e prefere atacar pessoas a debater idéias. Cada vez mais fico convencido que são dois lados da mesma moeda, que são, no fundo, bem parecidos, trocando apenas o sinal.

Por fim, Olavo chegou ao ponto de colocar mensagens que recebeu de admiradores me atacando. Creio que Olavo e sua turma perderam a capacidade de olhar para fora, algo muito comum em seitas. Tentam “vencer” os debates no grito, e não conseguem nem mesmo olhar a reação que esta conduta lamentável tem gerado fora do rebanho. Se eu fosse escrever artigos com a quantidade de mensagens que recebi lamentando a postura do “filósofo” e me dando razão, seria preciso praticamente um livro. Ainda assim, a quantidade não faz a qualidade, e o número de adeptos jamais fez uma causa ser verdadeira por tal critério. Mas comento isso apenas para mostrar como eles se fecharam em seu mundo, entorpecidos com as trocas mútuas de bajulações. Já dizia Nelson Rodrigues: “A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose; os admiradores corrompem”. Em uma linha parecida foi Norman Vincent, ao afirmar que “o mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”.

Olavo foi alçado ao patamar de “líder iluminado” por seus seguidores, e isso o cegou. Sua vaidade é tanta que perdeu o costume de ser criticado por pessoas que concordam com muitas de suas idéias. E quando é alvo de um “fogo amigo”, que não é proferido por comunistas, fica perdido, desnorteado, partindo para o ataque pessoal. Inverte tudo, chegando a afirmar que eu estou humilhado e enraivecido. Será que é a minha conduta que demonstra raiva? E termina me classificando como um “mico em pele de jumento”. Quem diria que a correção de um erro de português pudesse mexer tanto assim com alguém?! Creio que a vaidade de Olavo é ainda maior que seu fanatismo religioso.