quinta-feira, abril 13, 2006

O Despertar Chinês



Rodrigo Constantino

A ideologia é uma máquina que trucida fatos quando estes incomodam. Por décadas, a China foi um país escravo do socialismo. Tudo que a “revolução cultural” de Mao conseguiu foi muita miséria, terror e escravidão. O “grande salto” era um pulo do precipício. Algo começava a mudar na era mais pragmática de Deng Xiaoping, onde a cor do gato importava menos que caçar o rato. Desde então, as reformas adotadas distanciaram um pouco a China da utopia comunista. Esta pequena aproximação do capitalismo já foi suficiente para uma enorme revolução, que trouxe mais riqueza para um povo tão sofrido.

Claro que a China ainda está longe de ser um ícone do capitalismo. A herança comunista ainda pesa muito sobre os ombros da população. A alocação de recursos ainda é bastante ineficiente por conta da influência política. A ausência de liberdade econômica tolhe muito a criatividade empresarial. Vários “abacaxis” ainda terão que ser digeridos ao longo do tempo, fruto do legado comunista. Mas o fato é que privatizações ocorreram, direitos de propriedade foram reconhecidos, investimentos estrangeiros foram bem recebidos, fronteiras comerciais foram abertas e o lucro deixou de ser o caminho para o inferno. As decisões passaram a ser delegadas aos governos locais, descentralizando o poder e estimulando a competição por investimentos. A participação estatal nos negócios caiu 13 pontos percentuais, para 33%, desde 1998. Bastaram estas mudanças de caráter liberal para lançar a China em uma nova trajetória.

Ainda falta um longo caminho a ser percorrido. A China conta com cerca de 20% da população mundial mas corresponde a apenas 3% do consumo global. Mas, na margem, profundas mudanças começam a ocorrer. Acordaram o gigante que hibernava no pesadelo comunista. A economia vem crescendo a taxas bastante elevadas, próximas de 10% ao ano. O dragão tem fome!

Alguns números demonstram bem o significado desse despertar chinês, ainda repleto de desafios pela frente. São algo como 300 mil milionários chineses atualmente, enquanto quase metade da população ainda trabalha na agricultura. O ganho anual médio na indústria chega a US$ 3.000 enquanto na agricultura corresponde a 10% desse valor. A parcela de manufaturados no total do PIB vem aumentando, hoje já em 32%. Do total mundial, a China já responde por quase 10% da produção de manufaturados, contra algo perto de 1% em 1950. A produção de veículos saiu de 2 milhões em 2000 para mais de 5 milhões em 2004. Boa parte desse avanço deve-se à entrada de multinacionais, “explorando” os trabalhadores chineses, pela ótica marxista. Os trabalhadores chineses agradecem tal “exploração”. Desde 2001, algo como 10 milhões de chineses foram contratados por empresas estrangeiras, que pagam salários maiores que a média local.

Uma pesquisa do Gallup mostrou recentemente o verdadeiro “grande salto” chinês. De 1994 para 2004, a proporção de casas com aparelho de TV colorida dobrou, para 82%. O total de casas com refrigerador saiu de 25% para 41% no mesmo período. Eram apenas 3% das casas com microondas em 1994, comparado a 18% em 2004. A quantidade de casas com telefone saltou de 10% para 63%. Em termos de computadores, o salto foi de 2% para 13%, ainda que o governo controle o conteúdo. O consumo chinês ainda é tímido. Mas os avanços têm sido fantásticos.

O investimento direto na China tem sido cerca de US$ 50 bilhões por ano. O superávit comercial ultrapassou os US$ 100 bilhões. Empresas como Nokia, Ericsson e Phillips já contam com 10% da receita provenientes da China. O país acumulou mais de US$ 1 trilhão em reservas internacionais, passando o Japão e atingindo o primeiro lugar no mundo. A China é o maior comprador na margem das principais commodities industriais. Antes do despertar chinês era viável simplesmente ignorar o mastodonte. Atualmente, todos precisam levar em conta o destino chinês em suas avaliações estratégicas. Jack Welch, ex-CEO da GE, fez questão de frisar isto em sua autobiografia. O mundo jamais será o mesmo após a tardia revolução industrial chinesa.

quarta-feira, abril 12, 2006

Falsa Dicotomia



Rodrigo Constantino

Muito se fala sobre um necessário trade-off entre inflação e desemprego. Uma das curvas mais famosas em economia é a de Phillips, que trata justamente desta relação: menos desemprego, mais inflação. Alban Phillips realizou um estudo empírico em 1958, cujos resultados logo foram abraçados pelos neo-keynesianos, felizes em argumentar que o governo poderia então controlar o nível de emprego com suas políticas. A princípio, Phillips tratava da relação entre aumento de salários e desemprego, mas as conclusões foram extrapoladas para a inflação e o desemprego. Esta mentalidade perdura até hoje, quando muitos economistas apresentam esta suposta dicotomia, exigindo uma escolha entre menos desemprego ou menos inflação. Mas será que tal relação é realmente válida?

Na década de 70, muitos países experimentaram uma estagflação, mistura de elevada inflação com elevado desemprego. Isso colocou a curva de Phillips em xeque. O nobel de Chicago, Milton Friedman, foi um dos que melhor explicou o fenômeno, lembrando que a inflação é basicamente um problema monetário, de excesso de circulação de moeda. Ele chamou a curva Phillips de uma ilusão. A escola austríaca também demonstrou, com sólido embasamento, que o desemprego era fruto de restrições criadas pelo próprio governo, não permitindo o livre funcionamento do mercado de trabalho. Murray Rothbard chegou a afirmar que a relação proposta pela curva Phillips era inversa, na verdade. Mas os adeptos de Keynes não desistiriam facilmente.

A curva foi adaptada, e o conceito de NAIRU (non-acelerating inflation rate of unemployment) foi criado, dando a entender que a partir de um certo nível de desemprego é que a inflação seria detonada. Tamanha é a influência do NAIRU que até mesmo o Fed, banco central americano, utiliza bastante seu conceito. Entretanto, a crença nesta teoria seria duramente abalada com os dados americanos, com cada vez menos desemprego sem correspondente aceleração da inflação. Para muitos, o nível do NAIRU seria em torno de 5,5% de desemprego. A taxa atual já está em 4,7% e nada da inflação explodir. Muitos economistas, perplexos, buscam novas explicações para o acontecimento “bizarro”.

Não pretendo me alongar no debate teórico sobre a relação entre inflação e desemprego. O tema é polêmico e há muita controvérsia ainda. Mas considero útil trazer o debate à tona, assim como dados empíricos recentes, já que não são poucos os economistas que condenam as rígidas metas de inflação no Brasil, como se um pouco mais de inflação fosse desejável para reduzirmos o desemprego. Erram o alvo. Os “desenvolvimentistas” são os principais proponentes desta dicotomia, a qual considero falsa. Podemos crescer de forma acelerada, reduzindo drasticamente o desemprego, sem que a inflação incomode. Afrouxar as metas de inflação não é o caminho. Reduzir os gastos públicos, aprovar reformas estruturais, atacar a burocracia e abrir mais o nosso comércio sim. Vários países seguiram esta trajetória e colheram os frutos, crescendo aceleradamente, sem inflação. Enquanto isso, outros mantiveram as armadilhas criadas pelo excesso de Estado e buscaram um crescimento calcado na maior tolerância com a inflação. O resultado foi infinitamente pior. Em alguns casos, catastrófico até.

Levantei dados de 40 países desde 1995 até 2004, usando a The Economist como fonte. A taxa média de desemprego no mundo neste período foi de 6,9%. A inflação média nos últimos 5 anos ficou em 3,8%. Não há praticamente correlação alguma entre a taxa média de desemprego e a inflação no período analisado. O Brasil apresentou desemprego médio de 8,3% para uma inflação de 8,7% desde 1999. Vários países tiveram taxas de desemprego menores, com inflação também menor. O Chile, nosso vizinho mais responsável, mostrou taxa média de desemprego de 7% para inflação média de apenas 2,7%. Tanto Inglaterra como Estados Unidos tiveram taxa de desemprego média de 6,2% enquanto a inflação permaneceu dentro do controle, perto de 2,5% ao ano. A Nova Zelândia, que realizou reformas liberais e reduziu o déficit público, apresentou desemprego de 6,1% durante o período, com inflação de apenas 2,4% ao ano. Tanto Taiwan como Cingapura praticamente não possuem desemprego, com taxas abaixo de 4%, ao mesmo tempo que a inflação média não chega a 1% por ano. Por outro lado, a Venezuela viveu com inflação bem maior, acima de 20% anual. Nem por isso foi capaz de levar sua taxa de desemprego média para baixo de 12%. Argentina e Rússia são outros casos de maior inflação com mais desemprego também.

Os exemplos são inúmeros. A relação entre a inflação e o desemprego é mais complexa do que parece. A curva de Phillips está longe de ser uma verdade irrefutável. Mais parece um mito. O NAIRU ainda necessita de mais fé que qualquer coisa para ser aceito. Os argumentos dos monetaristas balançam certas teorias convencionais. As teorias austríacas praticamente sepultam de vez as crenças dos keynesianos. E os dados empíricos recentes corroboram com a visão de que a dicotomia apresentada entre inflação e desemprego mais parece, na verdade, uma falsa dicotomia.

segunda-feira, abril 10, 2006

Habilidade de Resposta

Rodrigo Constantino

“Anytime we think the problem is out there, that thought is the problem; we empower what's out there to control us.” (Stephen Covey)

Um dos grandes divisores entre o grupo de indivíduos que cresce na vida e o grupo que apenas existe, como um animal instintivo, é a coragem de assumir erros. De um lado, aquelas pessoas virtuosas que admitem seus próprios defeitos, sempre na busca sincera pela excelência, para melhorar. Do outro, aqueles fracos que necessitam de bodes expiatórios o tempo todo, que culpam o mundo ao redor pelos seus males, que se colocam como vítimas. Uns são agentes ativos na vida, os outros são passivos diante de tudo. A distinção entre ambos os grupos é gritante.

As ações humanas, por mais influenciadas que possam ser por fatores exógenos, são sempre individuais. Indivíduos agem. A responsabilidade, portanto, deve ser individual. Lembro que responsabilidade vem de habilidade de resposta, fazendo responsável pelo ato aquele que o praticou. Eximir um indivíduo da responsabilidade de seu ato é o caminho certo da desgraça. Pessoas fracassadas costumam sempre depositar a culpa dos seus erros nos outros, de preferência algo bem vago como sociedade, miséria, deus etc. Essas pessoas seriam apenas marionetes, executando ações sem qualquer livre arbítrio. Autômatos guiados por uma força oculta qualquer. Compram assim a tranqüilidade de espírito, jogando para outros a culpa dos próprios erros. Jamais saem da completa mediocridade, no entanto.

Penso nessas coisas quando vejo que o julgamento da assassina dos próprios pais irá começar. A garota logo transfere para o ex-namorado a culpa do seu ato bárbaro. Usa a maconha como bode expiatório também. Ela não cometeu o frio e violento ato, segundo sua perspectiva. Foi “levada” a isso. E onde fica a responsabilidade individual?

Extrapolando essa característica para nações inteiras, vemos que os países miseráveis costumam sempre culpar bodes expiatórios externos pela sua desgraça. São sempre vítimas, transferindo a responsabilidade para outros agentes. A receita certa para se perpetuar a miséria.

O filósofo Schopenhauer já aconselhava nesse sentido: “Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão firme de evitá-los no futuro”. Um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, Benjamin Franklin, dizia que “os sábios aprendem com os erros dos outros e os ignorantes não aprendem nem com os próprios”. Esse foi um homem que buscou ser melhor a cada dia, sempre trazendo à tona seus próprios erros do passado, para com eles aprender.

O judeu Viktor Frankl, preso pelos nazistas, concluiu que “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”. Ele decidiu reagir da melhor forma possível diante daquela terrível situação. Não escolhemos tudo que se passa ao nosso redor, mas escolhemos como reagir a tais estímulos. E o nosso fracasso deve ser sempre uma lição. “Para os vencedores, os fracassos são uma inspiração; para os perdedores, o fracasso é uma derrota”, lembra Robert Kiyosaki. Uns ficam paralisados diante dos próprios erros, e logo partem para as tradicionais desculpas, jogando o problema para fora de si. Outros assumem a rédea da própria vida, entendendo que os erros devem ser enfrentados, assimilados e transformados em valiosas lições, para jamais serem repetidos.

Afinal, as ações são individuais. A habilidade de responder por elas também. Liberdade individual só pode andar junto com responsabilidade individual. Quem foge desta, se afasta daquela. Só é livre quem assume a responsabilidade pelos seus atos, sem a busca constante por culpados exógenos.

quinta-feira, abril 06, 2006

A Perfídia de Veríssimo



Rodrigo Constantino

O cronista Luís Fernando Veríssimo usa e abusa de seu espaço na mídia para propaganda ideológica, sempre defendendo o fracassado socialismo. Recentemente, chamou de "detalhe" a forma pela qual o governo conseguiu as informações sigilosas da conta do caseiro que denunciou o ex-ministro Palocci. Até à Abin foi pedida uma investigação ilegal do caseiro por Palocci.

Caro Veríssimo, não estamos em Cuba, ilha-presídio que o senhor parece admirar, de longe e do seu conforto. Vivemos num país com democracia e Estado de direito. A forma pela qual as informações foram obtidas não é um simples detalhe, mas algo da maior gravidade. Mostra bem a face autoritária desse governo que o senhor tanto defendeu. Tente evitar o proselitismo que lhe é tão característico.

Agora o colunista ataca novamente, com bastante retórica sensacionalista e zero de conteúdo lógico. Escreve em artigo que tanto a “direita” como a “esquerda” sentem saudades do século XIX. Os motivos da saudade esquerdista seriam os ideais revolucionários que iriam transformar o mundo, a crença da inevitabilidade histórica do socialismo. A nostalgia direitista viria dos tempos em que trabalhadores eram explorados, segundo a estranha ótica do autor. Ou seja, de um lado a saudade pelo sonho lindo, do outro a saudade da exploração. E Veríssimo ainda conclui que foi a pregação socialista que estragou a “perfeição” direitista, calcada nessa suposta exploração. Considero difícil achar algum outro texto com tanta baboseira e inversão em tão poucas palavras!

Veríssimo usa o recente caso francês, país cuja mentalidade elitista ele adora, mostrando a luta de alguns barulhentos jovens pela manutenção das conquistas trabalhistas. Diz que aqueles que propõem a flexibilização trabalhista hoje “babariam” com a realidade do velho século, com crianças e mulheres trabalhando até 15 horas por dia. Alguém precisa avisar ao “ilustre” colunista que antes da revolução industrial estas crianças e mulheres morriam como moscas, de inanição. Será que Veríssimo não sabe que esse trabalho era voluntário, posto que a alternativa era a fome? Será que alguém com a erudição de Veríssimo desconhece que foi o avanço da técnica nesta época que possibilitou que a população inglesa dobrasse de tamanho em menos de um século, enquanto havia permanecido estagnada por vários séculos? Será que o autor ignora que a situação da Polônia, por exemplo, era caótica nesta época, e que tudo que as mulheres e crianças polonesas gostariam naqueles duros anos era das oportunidades criadas na Inglaterra? Veríssimo tem que saber disso tudo. O que ele faz é manipular as informações, comparando a situação atual com aqueles complicados anos. Assim é fácil. Podemos até mesmo concluir que a situação no Haiti não é tão grave, comparada às condições de vida dos babilônicos sob Hamurabi. Fica faltando apenas honestidade intelectual nesta “análise”...

Fora isso, o que possibilitou uma grande melhora na qualidade de vida e condições de trabalho dos mais pobres não foi a “pregação socialista”, nem de perto. Basta ver que onde mais influência teve tal pregação, mais miséria o povo teve. Na verdade, o que garantiu um progresso acelerado para essa gente foi justamente a lógica capitalista, com avanços tecnológicos e competição entre empregadores. Os funcionários da Dell vivem melhor que os cubanos por esta razão, diferente do que Veríssimo tenta nos convencer. Onde a produtividade do trabalho é maior, os salários tendem a ser maiores. Onde o progresso capitalista é maior, as condições do trabalho tendem a ser melhores. E onde há maior competição entre empresas, com flexibilidade de contratos, as reais conquistas dos trabalhadores tendem a ser maiores.

Mas o autor finge não ver nada disso, que é bastante óbvio. Ele finge crer que são leis escritas, sem quaisquer ligações com a realidade do mercado, que garantem a vida mansa para os trabalhadores. As tais “conquistas” na marra, “protegendo” os trabalhadores contra o desemprego e tudo mais. Se fosse tão simples, bastaria colocar no papel salários milionários e garantia de emprego eterno. Até mesmo a felicidade plena poderia ser imposta por lei. Mas a realidade é chata para os românticos sonhadores. E a realidade é que quanto maior a flexibilidade das leis trabalhistas, melhor para os trabalhadores, principalmente os mais pobres. Afinal, a proteção na marra do emprego de alguns significa a exclusão de outros, que aceitariam trabalhar por menos. Não é por acaso que a taxa de desemprego francesa já é o dobro da americana, passando de 20% no segmento dos jovens, justamente os “protegidos” pela bela lei.

Desconfio muito que tanta inversão por parte de Veríssimo não seja apenas ignorância. Trata-se de alguém que escreve bem e leu bastante. Fico com outra opção. Afinal, são artigos e mais artigos onde o cronista sempre encontra um jeito de condenar o “neoliberalismo” e enaltecer o socialismo, nunca com sólidos argumentos, sempre apelando para uma retórica vazia. Na minha opinião, é mesmo pura perfídia.

quarta-feira, abril 05, 2006

A Sabedoria das Multidões



Rodrigo Constantino

“Collective decisions are most likely to be good ones when they’re made by people with diverse opinions reaching independent conclusions, relying primarily on their private information.” (James Surowiecki)

No livro The Wisdom of Crowds, James Surowiecki defende a tese de que as multidões desfrutam de mais sabedoria do que se imagina. Para um grupo de indivíduos apresentar tal sabedoria, entretanto, precisa preencher quatro condições: diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização e agregação. Apesar de ser uma idéia contra-intuitiva a princípio, a suposta sabedoria das multidões não carece de lógica, além de mostrar evidências empíricas a seu favor.

O segredo é que os erros das estimativas individuais acabam se anulando em um grande número de opiniões. Mas para que isso ocorra, faz-se necessário satisfazer os requisitos acima. Caso contrário, não teremos erros aleatórios, mas sim um viés, onde as opiniões não são realmente independentes e individuais. Neste caso, estaríamos diante do que Gustave Le Bon dizia ao se referir à “psicologia das massas”, um grupo monolítico com pura emoção e nenhuma razão, adquirindo um senso de invencibilidade e irresponsabilidade incontroláveis. O autor reconhece que na maioria das coisas, média quer dizer apenas mediocridade. Mas no processo de tomada de decisão, freqüentemente pode significar excelência, quando satisfeitas as condições necessárias.

Surowiecki cita como exemplo a ferramenta de busca Google, cujo algoritmo baseia-se justamente na sabedoria das multidões, dando maior peso para as páginas mais visitadas na hora da pesquisa. A enciclopédia Wikipidia também seria baseada no princípio da sabedoria das multidões. Na verdade, o livre mercado é justamente isso, um processo onde as multidões, com suas escolhas individuais e independentes, selecionam as melhores alternativas de acordo com suas preferências. No começo do século XX, literalmente centenas de empresas disputavam para ver quem ofereceria a melhor alternativa para os consumidores em termos de automóveis. Havia uma gama enorme de variedades, inclusive com diferentes tecnologias. Poucas, entre essas centenas, sobreviveram. Eram as que melhor atendiam a demanda. As multidões de consumidores tinham decidido. O mesmo padrão se repete em diversas outras indústrias.

Para o melhor funcionamento deste processo, devemos ter a maior diversidade de alternativas possível, com novas idéias surgindo o tempo todo. Claro que, desta maneira, a maioria irá se tornar um fracasso. Mas as poucas vencedoras são as que farão a diferença. A habilidade de rápido reconhecimento e freio das idéias perdedoras é que torna o sistema eficiente.

A premissa adotada na teoria da sabedoria das massas é bastante atraente e sólida. Diz respeito ao conhecimento disperso, contido de forma totalmente pulverizada na sociedade. Nenhum ser ou pequeno grupo de pessoas poderia absorver todas as informações espalhadas entre milhões de indivíduos. O economista austríaco Hayek defende tal tese com perfeição, e sua influência não passa despercebida pelo autor do livro. Ela vai contra a visão platônica de um grupo de “sábios iluminados” que poderão escolher melhor pelo resto todo. A informação está totalmente dispersa, além das preferências serem subjetivas.

Um processo de livre escolha individual, em um ambiente de regras básicas e bem definidas, pode apresentar, portanto, resultados infinitamente melhores que aqueles oriundos de poucos “sábios”. Até mesmo na natureza, observando animais irracionais, vemos uma certa ordem espontânea surgir sem a figura do líder “iluminado”. Seria fazer muito pouco caso do homem, animal racional, supor que cada indivíduo é um completo mentecapto que necessita da direção traçada por um ser “clarividente”. Na livre interação entre indivíduos, respeitando-se as regras definidas previamente, há um claro incentivo à cooperação, assim como a confiança mútua passa a ser um valioso ativo. Preservando-se a diversidade, independência, descentralização e agrupamento cooperativo, não há porque acreditar que o resultado não será superior àquele obtido por um processo centralizado nas mãos de poucos “especialistas”. Há sabedoria nas multidões. E o livre mercado é o mecanismo de sua expressão.

sexta-feira, março 31, 2006

Tensão Protecionista



Rodrigo Constantino

“Those who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety deserve neither liberty nor safety.” (Benjamin Franklin)

Com a escalada do déficit comercial americano, aumenta a tentação de uso populista do protecionismo por parte dos políticos. O déficit de quase US$ 800 bilhões em 2005, superior a 6% do PIB, assusta, e oportunistas logo aproveitam tal medo para a exploração política do fato. Como a China tem sido o principal responsável pelo aumento do déficit, respondendo por mais de um quarto do total, é o alvo predileto como bode expiatório. Em um relacionamento político já delicado, esta tensão a mais se faz totalmente desnecessária, além de ser péssima solução econômica.

O Congresso americano vem trabalhando em projetos que criariam barreiras comerciais com a China. Na tentativa de pressionar a China a valorizar sua moeda, o que não resolveria o problema do déficit americano, alguns senadores propuseram uma tarifa de 27,5% para as importações chinesas. Caso aprovada, tal tarifa representaria um custo adicional de cerca de US$ 60 bilhões para os consumidores americanos, que importaram mais de US$ 240 bilhões da China em 2005. Tais importações são, muitas vezes, complementares aos negócios americanos, além de segurar a inflação. É falsa a acusação de que os Estados Unidos estão exportando empregos para a China. O desemprego americano está em patamares bastante baixos, menor que 5%. Os produtos importados da China, mais baratos, acabam possibilitando uma alocação mais eficiente dos recursos nos Estados Unidos, de acordo com suas vantagens comparativas. O maior grau de integração dos países na globalização favorece os consumidores. O custo adicional, caso imposto pelo governo americano, seria um tiro no próprio pé dos consumidores americanos, e poderia jogar o país em uma forte recessão.

Para piorar a situação, o governo americano tem tentado influenciar a atividade de fusões e aquisições no país. Impediu a compra da Unocal pela petrolífera chinesa, alegando defesa do “interesse nacional”, sendo que a empresa possui apenas 1% de fatia de mercado. Barrou ainda a aquisição de portos americanos por Dubai, sendo que o controle de segurança ainda poderia ser exercido pelo governo americano. Justo em um momento onde o país tanto necessita de investimentos externos, para compensar o déficit comercial, o governo vem criando impeditivos para a transferência de controle acionário para estrangeiros. Uma péssima política, claramente demagógica.

A frase do “founding father” americano usada na epígrafe acima diz tudo. O protecionismo é sempre uma medida maléfica, que aparenta a conquista de uma segurança momentânea, mas sacrifica o futuro da nação. Trata-se de uma falsa segurança, que favorece apenas alguns poderosos empresários locais, prejudicando todos os consumidores. Algo como nossa fracassada “reserva de mercado”, que permitiu a criação das oligarquias locais. Se o fechamento das fronteiras para a competição global fosse algo benéfico, tanto a Coréia do Norte como Cuba seriam verdadeiros paraísos prósperos. Claro que são justamente o contrário disso. Para o bem da “terra da liberdade”, assim como do resto do mundo todo, espero que a lógica econômica prevaleça nos Estados Unidos, e que os populistas sejam derrotados. O mundo não precisa de mais barreiras comerciais, e sim menos. Os Estados Unidos precisam liderar, dando o bom exemplo.

quinta-feira, março 30, 2006

Astronauta Milionário



Rodrigo Constantino

Deve ser fantástico fazer uma viagem espacial. Recentemente, tivemos alguns casos de milionários que pagaram caro por tal sonho. Direito deles decidir o destino do dinheiro que ganharam. Mas quando o governo de um país repleto de pobres, como é o caso do Brasil, gasta milhões para mandar um astronauta em uma viagem cuja missão pertence à Rússia, sequer com intercâmbio tecnológico, devemos questionar a lógica dessa atitude.

O que o país ganha com isso, para justificar um gasto tão elevado por parte do governo? Será que o tolo orgulho nacionalista, cuja mentalidade coletivista costuma ocultar um sentimento de inferioridade em nível individual, justifica tirar os parcos recursos do povo sofrido para bancar o sonho de um astronauta e o capricho de um governo que sofre de megalomania? Será que por se tratar de ano eleitoral devemos suspeitar desta custosa aventura? São perguntas que ficam suspensas no ar, assim como “nosso” felizardo astronauta, que realiza um sonho milionário com o suor alheio. O governo mandou, literalmente, nosso dinheiro para o espaço!

segunda-feira, março 27, 2006

O Gênio Burguês



Rodrigo Constantino

Em 1791, aos 35 anos apenas, morria um artista com talento suficiente para justificar o rótulo de “gênio”. A vida de Wolfgang Amadeus Mozart ilustra a situação de grupos burgueses numa economia dominada pela aristocracia de corte. Como diz Norbert Elias em sua biografia do músico, “Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores”. Um músico daquele tempo não tinha muita escolha, a não ser se submeter a um posto inferior nas cortes. Tal sina não conseguiria prender aquele que escreveu A Flauta Mágica.

Havia nitidamente um ressentimento por parte de Mozart com a sociedade de corte, fruto da humilhação imposta pela nobreza, que sempre o tratava como inferior. Por mais que freqüentasse os círculos aristocráticos, ele não cumpria seus rituais, tampouco bajulava os nobres. Seu pai, Leopold, era um serviçal do príncipe-arcebispo de Salzburgo, cargo obtido com muito esforço. Bom músico, mas não excepcional, sonhou através do filho um futuro mais promissor para a família. Deixou claro o objetivo principal do jovem artista, que era fazer dinheiro. Foi bastante exigente com Mozart, assim como controlador. Aos 3 anos, Mozart já aprendia a tocar, e com 5 estava compondo. O talento era impressionante, e aos 6 anos, o menino já fazia sucesso até mesmo com reis e rainhas. Para as ambições pessoais do criador de Don Giovanni, isso não era suficiente.

A decisão de Mozart de largar o emprego estável porém degradante, aos seus olhos, em Salzburgo, significava o abandono de um patrono, tendo que ganhar a vida como um “artista autônomo”, vendendo sua obra no mercado livre. Era algo bastante ousado e inusitado na época, cuja estrutura social ainda não oferecia lugar para músicos ilustres e independentes. O risco assumido por Mozart era extraordinário. Ele antecipou as atitudes de um tipo posterior de artista, com confiança acima de tudo na inspiração individual.

Tal rompimento com a corte não poderia deixar de causar profundo impacto no jovem artista, com 25 anos então. E este impacto seria claramente sentido em suas obras também, como é de se esperar. Sua capacidade de transformar fantasias e emoções em obras materiais era ímpar, exigindo profundo conhecimento técnico ao mesmo tempo que uma criatividade peculiar, combinação bastante rara. E após o arriscado passo de independência, essa genialidade floresceu com mais força ainda.

O gosto nas artes era ditado pelo consenso dos poderosos, e a música não existia primariamente para expressar ou evocar sentimentos das pessoas individualmente. A sua função precípua era agradar aos senhores da classe dominante. Tais amarras cortavam as asas do sonhador Mozart, cuja personalidade era fortemente marcada por sentimentos agressivos em relação aos aristocratas. O tratamento recebido do arcebispo de Salzburgo, que o encarava como um serviçal qualquer, era mortal para o espírito criador de Mozart. Ciente de seu próprio valor, passou a ser insuportável para Mozart permanecer em Salzburgo. Ele chegou a escrever para seu pai: “Não é Salzburgo, mas o príncipe e sua presunçosa nobreza que a cada dia se tornam mais intoleráveis para mim”.

Foi assim que o “gênio burguês” desafiou a música artesanal da corte e toda a concepção da profissão de músico daquele tempo. Um individualista contra uma prisão aristocrática. Um homem à frente do seu tempo, com um forte anseio por liberdade. E com as mudanças radicais que tal tipo de mentalidade iria produzir na frente, a nobreza ociosa seria profundamente ameaçada pelos conceitos de trabalho e individualismo da burguesia. Com o advento do capitalismo, essa aristocracia daria praticamente seu suspiro final. E atualmente, qualquer um pode se dar ao luxo de comprar, por cerca de dez reais, um CD de Mozart, tendo acesso às sinfonias e óperas deste grande compositor. É a massificação daquilo que antes era uma regalia de poucos nobres, que ainda por cima dominavam as formas de composição dos artistas.

Agora, é evidente que com a maior liberdade vem a maior diversidade, assim como a massificação não garante a qualidade das obras. Tem para todos os gostos! Portanto, assim como qualquer indivíduo hoje, por mais humilde que seja, pode se dar ao luxo de escutar uma bela sinfonia de Mozart, graças ao progresso capitalista, esse mesmo sujeito pode preferir escutar a Tati Quebra-Barraco. Mas quem sou eu para querer impor minhas preferências particulares?! Afinal, gosto não se discute. Se lamenta...

sexta-feira, março 24, 2006

Agora é Alckmin!

Rodrigo Constantino

A política é a arte do possível. Sei que tal pragmatismo do realpolitik incomoda pessoas mais idealistas, nas quais me incluo. Essas pessoas, cansadas da pouca vergonha desses partidos existentes, enojadas com os políticos de forma geral, inclinam-se ao voto nulo, como única forma de protesto. Não deixo de ser simpático a tal idéia, mas considero um equívoco essa opção nas próximas eleições. Tentarei explicar melhor o porquê disso a seguir.

A premissa por trás da escolha do voto nulo é que todos são farinha do mesmo saco, tendo pouca diferença entre o PT e o PSDB. De fato, alguma ponta de verdade há nisso. Mas toda generalização leva a erros e injustiças. O PSDB é um partido que abriga corruptos, sem dúvida. E a mentalidade é por demais estatizante, longe do ideal liberal. Mas nem por isso devemos crucificar Alckmin de cara, colocando-o no mesmo barco furado que Lula. A diferença entre ambos é gritante.

Alckmin não é o candidato dos sonhos dos liberais. Está mais para uma postura social-democrata, ícone de países como os escandinavos. Mas mostrou-se bem preparado durante seu governo em São Paulo, e vem apresentando um discurso no caminho certo, de redução do Estado. O termo “choque de capitalismo”, por ele usado, é justo o que o país necessita. Não será fácil aprovar as reformas no Congresso. Alckmin presidente não é sinônimo de milagre brasileiro, e quem assim sonha irá quebrar a cara. Mas é um homem sério, testado, com idéias infinitamente mais racionais e razoáveis que as de Lula. Alckmin pode não conseguir transformar em realidade aquilo que prega, mas ao menos sabe o que quer, e vai trabalhar para isso. Em sua gestão como governador, de fato reduziu impostos estaduais, com ótimos resultados. Já Lula mostrou-se um péssimo presidente, que deu muita sorte ao pegar um vento super favorável de fora. O que funcionou foi aquilo que ele não ousou mexer, enquanto as novidades foram todas caóticas. Alckmin pode não ser o ideal dos liberais, mas está longe de ser um Lula.

Com isso em mente, creio que todos aqueles que não querem espelhar-se nos fracassos mundiais devem votar no Alckmin. Quem tem asco de um Chávez, amigo de Lula, tem que votar no Alckmin. Quem sente repulsa pela turma do Foro de SP, tem que votar no Alckmin. Quem fica revoltado com os abusos do MST, tem que votar no Alckmin. Quem defende a social-democracia, no estilo escandinavo, tem que votar no Alckmin. E por fim, os liberais, ainda sem opção enquanto o Partido Federalista não surge, têm que votar no Alckmin também. Devemos jogar com as fichas na mesa, aceitando a realidade. Acho que a luta pelo Liberalismo de fato tem que continuar. Alckmin está longe de representar o ponto de chegada. Mas ele é, sem dúvida, o melhor caminho possível hoje para essa desejada transição. A alternativa, o presidente Lula, representa mais passos para trás, rumo ao caminho da servidão. E isso ninguém agüenta mais!

Não sou um “alckmista” por convicção. Mas sou um “alckmista” por extrema necessidade. E acredito que Alckmin tem potencial para fazer um governo razoável, o que já é extraordinário perto da gestão sofrível de Lula. Não resta dúvida: agora é Alckmin!

quinta-feira, março 23, 2006

McLanche Infeliz



Rodrigo Constantino

Pressionado pelo Ministério Público Federal, o McDonald's concordou em passar a vender o brinquedo que acompanha o McLanche Feliz sem a necessidade da compra do sanduíche. A ação do MP ocorreu após o recebimento de reclamações de “pais que se sentiam obrigados a comprar o lanche quando seus filhos queriam apenas o brinquedo”, segundo notícia da Folha Online. Mais uma demonstração de que o Estado se mete onde não deve, algo típico de países socialistas.

Ora, pais que se sentem obrigados a satisfazer as vontades dos filhos já mostram algo de muito estranho. Achei que bastava dizer “não” para os fedelhos. Ao menos é assim que tento educar minha filha, impondo limites. Além disso, o McDonald’s não é uma loja de brinquedos, e os utiliza justamente como forma de promoção, para aumentar as suas vendas. Várias empresas utilizam tal estratégia de marketing. Brinde vendido não é mais brinde! Mas ao que parece, estamos num país onde cada mínimo detalhe do negócio deve ser aprovado pelos burocratas.

A reportagem explica a razão por trás da medida: “A preocupação da Procuradoria é evitar que principalmente o público infantil seja estimulado ao consumo por meio desse tipo de promoção”. Agora sim, tudo faz sentido! Consumo é mesmo coisa de Lúcifer, e o ideal seria que ninguém consumisse nada. Complicado seria gerar empregos e sustentar os burocratas que “pensam” assim sem o pecaminoso consumo.

Diante da completa falta do que fazer desses burocratas, e do grau assustador de ingerência estatal nos negócios, restou-me apenas uma dúvida cruel: o que vai ser do Kinder Ovo?