sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Assim Falou Zaratustra



Rodrigo Constantino

Considero que minha “cruzada” contra o fanatismo religioso foi útil, pois despertou intensos debates sobre o tema, o que sempre leva a uma saudável reflexão. Não dos fanáticos em si, claro, mas o alvo não era este, já que, como disse Thomas Paine, “argumentar com uma pessoa que tenha renunciado ao uso da razão é como dar remédio para os mortos”. Espero que tenha ficado claro que luto contra o fanatismo, não contra qualquer pessoa religiosa em si. E pela reação de muitos, notei como ainda existem fanáticos, pessoas que realmente acreditam que antes da Bíblia nada de bom existia ou que são incapazes de questionar seus dogmas e criticar sua religião. A ciência parte de axiomas, que são verdades evidentes por si próprias, como a existência, por exemplo. Enquanto isso, as religiões partem de dogmas, que são “verdades” impostas que devem ser aceitas indiscutivelmente. Como considero as discussões calcadas nos argumentos fundamentais para a evolução humana, fica claro qual postura acho mais adequada.

Este artigo, com o qual pretendo finalizar esta luta inglória contra o fanatismo, será baseado num filósofo ainda mais virulento que Voltaire nas críticas religiosas. Não necessariamente endosso todas elas, mas as considero úteis para estimular uma reflexão. Antes disso, porém, cabe desfazer um mal entendido que possa ter ficado sobre o artigo que deu origem a esta empreitada, justamente sobre o livro de Voltaire. Alguns interpretaram a seguinte passagem como anti-semitismo do autor e, por conseguinte, meu: “Como eles [judeus] mesmos reconhecem, são um povo de ladrões que carregam para um deserto tudo o que roubaram dos egípcios”. Esta frase foi tirada de um contexto o qual Voltaire está claramente condenando as fábulas judaicas, alegando que quem nelas acredita literalmente, e aplaude, está enaltecendo um povo ladrão. Tanto que logo em seguida ele compara isso com as fábulas dos gregos, considerando-as mais suaves. Quem me conhece sabe que eu jamais seria um anti-semita. Em primeiro lugar, tratar todos os judeus como um grupo monolítico é típico de coletivistas, e sou um individualista. Em segundo lugar, tenho inúmeros artigos defendendo a posição de Israel na questão da Palestina, ou expondo o critério injusto de julgamento contra os judeus, especialmente na mídia. O rótulo de anti-semita simplesmente não cola em mim. Mas vamos a Zaratustra de Nietzsche!

Os ataques de Nietzsche às religiões em geral e ao Cristianismo em particular são bastante ácidos. Nietzsche começa afirmando que todos os deuses não passam de criações humanas: “Ah, meus irmãos, esse Deus, que eu criava, era obra humana e humana loucura, como todos os deuses!”. Entre os motivos para tal criação, ele diz: “Enfermos e moribundos, eram os que desprezaram o corpo e a terra e inventaram o céu e as gotas de sangue redentoras”. Para o filósofo, o desejo de morrer é que faz voltarem as costas à vida, e desprezarem o próprio corpo. “Há uma inconsciente inveja no vesgo olhar do vosso desprezo”, afirma Zaratustra. Para esses pregadores da morte, o recado não poderia ser mais duro: “Tratai, portanto, de que cesse essa vida que é somente sofrimento!”.

Sobre o conceito do bem e do mal, Nietzsche diz: “Em verdade, foram os homens a dar a si mesmos o seu bem e o seu mal. Em verdade, não o tomaram, não o acharam, não lhes caiu do céu em forma de voz. Valores às coisas conferiu o homem, primeiro, para conservar-se”. E em relação ao amor ao próximo: “O vosso amor ao próximo é o vosso mau amor por vós mesmos. Fugis para junto do próximo a fim de fugir de vós mesmos e desejaríeis fazer disto uma virtude; mas eu vejo claro em vosso ‘altruísmo’. Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais bastante: então, quereis induzir o próximo a amar-vos, para vos dourardes com seu erro. O vosso mau amor por vós mesmos transforma, para vós, a solidão em cárcere”.

Mais à frente, Nietzsche questiona: “Podeis pensar em Deus? Mas é isto que significa o vosso desejo de verdade: que tudo se transforme no que pode ser humanamente pensado, humanamente visto, humanamente sentido! Deveis pensar, até o fim, os vossos próprios sentidos! Deus é um pensamento que torna torto tudo que é reto e faz girar tudo que está parado”.

Sobre o pecado original, Zaratustra diz: “Desde que os homens existem, sempre o homem se alegrou pouco demais; é somente este, meus irmãos, o nosso pecado original! E, se aprendermos a alegrar-nos melhor, será este o melhor modo de desaprendermos a fazer sofrer os outros e a inventar novos sofrimentos”.

Nietzsche não poupa os templos religiosos: “Oh, olhai essas choupanas que esses sacerdotes construíram para si! Igrejas, chamam eles a tais antros de cheiro adocicado. Oh, nessa falsa luz, esse ar abafado! Aqui, onde a alma, para elevar-se à sua eminência, não tem o direito de voar! Senão que, ao contrário, assim manda a sua fé: Subi a escada de joelhos, pecadores! E não souberam amar o seu Deus de outro modo, senão crucificando o homem!”.

Do conceito de virtude: “Quanto mais se afundam, tanto mais ardentes lhes brilham os olhos e o anseio pelo seu Deus. Também, o grito desses, ai de nós, já abriu caminho até vossos ouvidos, ó virtuosos: ‘O que eu não sou, isso, isso é, para mim, Deus e virtude!’ Com sua virtude, querem arrancar os olhos dos inimigos; e se elevam somente para abaixar outrem. Cansados de dizer: ‘O que faz uma ação ser boa é ser desinteressada.’ Ah, meus amigos! Que o vosso ser próprio esteja na ação, tal como a mãe está no filho: seja esta a vossa palavra a respeito da virtude!”.

Sobre as rezas: “Rezar é uma vergonha. Não para todos, mas para mim e para ti e para quem tenha a consciência também na cabeça. Para ti, rezar é uma vergonha! E bem o sabes. É o teu demônio covarde dentro de ti que gostaria de ficar de mãos cruzadas sobre o ventre e levar vida mais cômoda. É esse covarde demônio que te inculca: ‘Existe um Deus!’ Com isto, porém, pertences à espécie de homens que temem a luz e que a luz nunca deixa tranqüilos; todos os dias, agora, deverás meter a cabeça mais fundamente na noite e na névoa!”.

Não concordo com todos os pensamentos de Nietzsche, mas reconheço muitas verdades duras em seu discurso. Sei que muitos irão automaticamente acusá-lo de ter ficado louco, ignorando sua doença física. Sei também que alguns vão tentar desqualificá-lo por uma injusta associação ao nazismo, mais por culpa de sua irmã que por suas próprias idéias, já que seria estranho associar ao nazismo quem afirmou que “chama-se Estado o mais frio de todos os monstros frios”. Mas nada disso importa. Um bom argumento independe de quem o fornece. É mais importante as pessoas focarem em o que é dito do que em quem disse. E o fato é que as palavras de Nietzsche não deixam de suscitar uma boa reflexão sobre os deuses que os homens parecem ter criado para suportar suas próprias fraquezas. Ou então sobre um foco mais egoísta na própria felicidade, em vez de viver enaltecendo o sofrimento próprio em prol de terceiros ou de outra vida qualquer. Afinal, “é a minha felicidade que deveria justificar a existência”. Assim falou Zaratustra.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A Desonestidade de Olavo



Rodrigo Constantino

“The argument from intimidation is a confession of intellectual impotence.” (Ayn Rand)

O filósofo Olavo de Carvalho, conhecido pelo excesso de agressões pessoais nos “debates” em que participa, disse que não existe debate entre o conhecimento e a ignorância, ou seja, entre ele e eu, segundo o próprio. Não obstante a extrema arrogância, escreveu um enorme artigo em seu site, onde muito ataca e pouco argumenta, e agora divulgou um outro artigo no JB Online, chamado “Barbárie Mental”, onde a desonestidade fica evidente. Para quem disse que sou insignificante, até que Olavo tem dado bastante atenção à minha pessoa. Mas vamos aos pontos!

Olavo começa seu artigo da seguinte maneira: “Outro dia, em discussão na internet, um rapaz que de vez em quando escreve artigos políticos assegurou que todos os santos e profetas da cristandade só queriam poder e dinheiro, que Jesus nasceu de um adultério e que os judeus são um povo de ladrões”. Vejamos os trechos do meu artigo, já que Olavo está se referindo a mim, para julgar se o filósofo está sendo honesto.

O parágrafo que Olavo usa para afirmar que eu assegurei que todos os santos e profetas da cristandade só queriam poder e dinheiro é este:

“As críticas embasadas de Voltaire foram focadas no Judaísmo e no Cristianismo, mas ele fala de forma geral, quando diz que “a desconfiança aumenta quando se percebe que o objetivo de todos aqueles que estão à frente das seitas é dominar e enriquecer quanto puderem, e que, desde os dairis do Japão até os bispos de Roma, a única preocupação foi erguer para um pontífice um trono fundado na miséria dos povos e muitas vezes cimentado com seu sangue”.”

Podemos notar três pontos relevantes aqui: em primeiro lugar, estou usando as próprias palavras de Voltaire, por isso entre aspas, e portanto é Voltaire quem disse o que está escrito; em segundo lugar, Voltaire – e não eu – está falando de todas as seitas, e não apenas da cristandade; por fim, Voltaire está se referindo apenas aos que estão à frente das seitas. Eu, particularmente, considero a generalização de Voltaire injusta, mas não totalmente errada. Sem dúvida existiram exceções honrosas, mas de forma geral acho que pode-se dizer que os que fundaram seitas tinham como objetivo o poder ou o enriquecimento. O poder é sedutor, e nada como o poder sobre uma legião de seguidores autômatos, típico de seitas, como acho que Olavo deve saber muito bem. Os admiradores corrompem, e os fiéis seguidores, nunca dispostos a criticar ou questionar o “mestre iluminado”, corrompem ainda mais. Tornam o líder ainda mais arrogante e fechado à críticas.

Sobre eu ter assegurado que Jesus nasceu de um adultério, creio que Olavo só pode ter pescado do seguinte parágrafo:

“Voltaire começa questionando a origem de Jesus, que nasceu numa época em que o fanatismo estava em alta. Vários que acreditaram nele escreveram Evangelhos, que quer dizer “boa nova” em grego. Cada um escrevia uma Vida de Jesus, todas discordando, mas parecidas na enorme quantidade de prodígios incríveis atribuídos ao fundador da nova seita. Num desses livros, diz-se que Jesus era filho de uma mulher chamada Mirja, casada em Belém com um pobre homem chamado Jocanam. Havia na vizinhança um soldado de nome José Panther, que teria se apaixonado por Mirja, que teria engravidado dele. Existe mais que isso na história, mas Voltaire conclui: “É mais provável que José Panther tenha feito um filho a Mirja do que um anjo tenha vindo pelos ares cumprimentar da parte de Deus a mulher de um carpinteiro”. De fato. E como não custa lembrar, Deus tinha irmãos homens, se Jesus era Deus.”

Ou seja, Voltaire está usando um livro escrito por judeus para questionar se Jesus poderia ser filho de um soldado. Questionar virou assegurar, para o “grande” filósofo brasileiro. Um pequeno detalhe da língua portuguesa. Na verdade, só é pecado questionar se Jesus nasceu mesmo do ventre de uma virgem para quem for fanático, já que parece mais crível considerar que tal fato não é possível. E se os relatos bíblicos forem para ser levados ao pé da letra, então devemos acreditar, com a mesma intensidade, que um burro falou, que o sol parou, que o mundo foi criado em seis dias e que Adão e Eva de fato existiram. Não vejo mal algum em perguntar se Jesus nasceu mesmo de uma virgem, mas que fique constatada a desonestidade de Olavo, que mentiu descaradamente.

Por último, Olavo diz que eu assegurei que os judeus são um povo de ladrões. Eis a origem disso:

“Mas centrando a mira no Cristianismo e no Judaísmo, Voltaire começa questionando se existiu mesmo um Moisés. O que se fala de sua vida seria tão fantástico como o encantador Merlin. Voltaire busca também a origem muito suspeita das histórias de Moisés, como ser salvo das águas num cesto, que poderiam ser cópias de contos muito semelhantes na Arábia. O resto todo de sua história seria igualmente absurda e bárbara, com dados fantásticos e impossíveis, exageros grosseiros etc. “Que lamentável fazer Deus descer em meio a raios e trovões, sobre uma pequena montanha calva, para ensinar que não se deve ser ladrão!”. Os judeus, de forma geral, não são poupados: “Como eles mesmos reconhecem, são um povo de ladrões que carregam para um deserto tudo o que roubaram dos egípcios”.”

Como podemos ver, Voltaire está questionando se é factível o que falam sobre a vida de Moisés, insinuando que histórias fantásticas como as dele existiam já na Arábia e podem ter influenciado os judeus. O que Voltaire quer dizer aqui parece ser, na minha opinião, que se os judeus realmente enaltecem essas histórias fantásticas, estão reconhecendo ser um povo de ladrões, pois isso que teria ocorrido. Da mesma forma que rabinos que idolatram a figura de Davi estão idolatrando um assassino, como os próprios relatos afirmam. Não há uma acusação minha que diga que todos os judeus são ladrões, até porque seria absurdo para quem me conhece imaginar isso, posto que tenho artigos defendendo Israel e os judeus na questão da Palestina.

Em seguida, Olavo mente um pouco mais, quando diz: “Por incrível que pareça, alguns estudantes correram em socorro do insolente, consolando-o dos maus-tratos sofridos da parte de seu desbocado opositor, tão carente de ‘argumentos’”. Seria o caso de perguntar se Olavo pediu a certidão de nascimento de todos – e foram muitos – que condenaram sua atitude no episódio. Pois vários que foram em minha defesa não são estudantes, mas pais de família formados, adultos com muito mais sabedoria que o filósofo, que parece confundir erudição com sabedoria. Aliás, a única verdade nisso é sua carência de argumentos, que seu tom irônico tenta inverter. A tentativa de Olavo é clara e lamentável: ele pretende desqualificar todos que discordaram dele no assunto como adolescentes tolos. Seria útil recomendá-lo a observar como os seus defensores estão reagindo em sua comunidade do Orkut, já que a infantilidade lá é diretamente proporcional ao fanatismo. Estudantes parecem os seguidores de Olavo, incapazes de condenar o “guru” pelos mesmos critérios que condenam os demais. Alguns deles têm a cara-de-pau de me chamar de arrogante. Falta espelho nas seitas. São sempre dois pesos e duas medidas.

Para concluir, Olavo vem com esta verdadeira pérola: “O episódio, irrelevante em si, é bastante significativo do presente estado de barbárie intelectual. Falar em ‘crise cultural’, nessas circunstâncias, é eufemismo. Na época em que um sociopata adolescente pode fazer em pedaços o corpo de um menino e ainda ser defendido como vítima do capitalismo, o discernimento elementar do certo e do errado já se tornou uma operação complexa demais para os cérebros dos brasileiros. Nas pequenas como nas grandes questões, vigora a mesma estupidez grandiloqüente, a mesma brutalidade mental ornada de belos pretextos”.

Olavo tenta forçar uma associação bizarra entre meu estado intelectual e a reação comum da esquerda ao horror do recente caso do menino morto num assalto, onde muitos culpam o capitalismo pela barbárie. Será que Olavo esqueceu, de repente, que sou um grande defensor do capitalismo, e vários artigos meus foram inclusive publicados no seu próprio site? Será que Olavo desconhece que sou um grande defensor da responsabilidade individual, que jamais culpo a “sociedade” pelos atos criminosos de indivíduos, e que defendo maior punição para esses assassinos? Será que a culpa do estado de barbárie em que o país se encontra está em alguém questionar se Jesus nasceu mesmo de uma virgem, lembrando que somos um povo predominantemente cristão, e não ateu? A tentativa de Olavo de forjar uma ligação entre meu jeito de ver o mundo e a crise cultural do nosso país não é apenas absurda, mas fruto de pura má-fé.

Olavo diz que não há debate entre o conhecimento e a ignorância, ainda que dedique longos textos ao “ignorante” em questão. Pois eu afirmo: não há debate possível entre a honestidade intelectual e a perfídia. Escrevo um longo texto não para debater com Olavo, pois isso parece impossível, mas sim para expor o que está por trás de sua postura arrogante e desequilibrada: a desonestidade intelectual. Não dá para esperar muito de quem afirma que Sir Newton espalhou o vírus da burrice pelo Ocidente.

O Profeta Guerreiro



Rodrigo Constantino

“The whole problem with the world is that fools and fanatics are always so certain of themselves, but wiser people so full of doubts.” (Bertrand Russell)

Maomé, que significa “o glorificado”, nasceu no ano 570 d.C. em Meca, localizada no centro do comércio das caravanas árabes. Ela ficava cercada pelos impérios sassânida da Pérsia, que governava toda a costa oriental da Arábia, assim como o império abissínio e o bizantino. Meca era dominada pelos coraixitas, de predominância pagã. Ao redor de Meca, os beduínos viviam como nômades em tendas, divididos em clãs. A infãncia de Maomé foi passada no deserto com sua mãe adotiva, uma beduína. Desde cedo ele aprendeu tudo sobe o comércio e os desertos, assim como os cuidados com os camelos, fundamentais para a sobrevivência neste local. Os dados a seguir foram retirados da biografia que o historiador Barnaby Rogerson escreveu sobre o fundador do Islã.

Já um bem sucedido comerciante, Maomé buscava adquirir um bom rebanho de camelos para poder pagar o preço de uma noiva. Entretanto, ele acabou casando com Khadija, mais velha que ele e já com considerável riqueza. Ele era considerado um bom marido, assim como pai, tendo tido seis filhos, sendo que os dois únicos meninos morreram jovens. Ele era analfabeto, o que era bastante comum na Arábia esses anos.

No ano 610, em uma caverna nas encostas do Monte Hira, Maomé supostamente teria tido sua revelação divina. Ele tentou mais tarde explicar a sensação, afirmando que sentiu como se um anjo o tivesse prendido com um braço assustador que ameaçava esmagar a vida, expulsando o ar de seus pulmões. A seguir ele teria escutado a ordem de recitar a palavra de deus, e assim foi o início do Alcorão, traduzido literalmente como “recitação”. Ele saiu da forma oral para a escrita somente após a morte do profeta. Sua mensagem subvertia todos os valores fundamentais nos quais a sociedade de Meca se baseava, posto que pregava atitudes como alimentar os pobres, cuidar dos órfãos, dar abrigo às viúvas e proteger os fracos, sem falar da cobrança do dízimo, claro. Parecia evidente que Maomé encontraria problemas na sua tentativa de impor o Islã, que significa “render-se a deus”. Ele defendia a paz com os coraixitas, sob a condição de que estes declarassem que não há nenhum outro deus além de Alá, renunciando a qualquer tipo de adoração que não fosse a Ele. No Alcorão, sura 8 do versículo 39, encontramos: “e combatei-os até que não haja mais idolatria e que a religião pertença exclusivamente a Deus". Com o crescimento do número de adeptos muçulmanos, e tal postura intransigente, logo Maomé foi visto como um perigo para os coraixitas. Planos para assassinar o profeta foram feitos, e Maomé fugiu de Meca, buscando refúgio em Medina.

A era islãmica, a Hégira, começou nesse ano em que Maomé fugiu de Meca, em 622. Formando uma comunidade teocrática, em uma base segura dos inimigos, ele iniciou sua guerra contra os não-crentes. Os habitantes de Meca queriam ser deixados em paz, com suas riquezas materiais e suas divindades pagãs, mas Maomé não queria permitir isso. Ele era o agressor no conflito. De comerciante para profeta, agora Maomé se transformaria em um grande guerreiro.

Por esta época, a igualdade pregada por Maomé também foi abalada pelos desejos carnais do profeta. Em 626 ele casou-se pela quinta vez, tendo se apaixonado pela sua nora, esposa do seu filho adotivo, Zayd. Tal casamento seria ilegal, dado que a regra era de um máximo de quatro esposas para cada um. Foi então que Maomé supostamente recebeu uma nova revelação, tornando legal apenas para ele, o profeta, casar com quantas mulheres ele quisesse. No total de sua vida foram onze. Parece que até Maomé encontrou os limites da igualdade quando a natureza humana falou mais alto.

O ato mais cruel dos muçulmanos liderados por Maomé ocorreu na batalha contra o clã Bani Qurayzah, de judeus árabes. Derrotados, os judeus foram condenados à morte, e valas estreitas foram cavadas, sendo então um por um, dos cerca de setecentos homens, deitados e decapitados com um golpe de espada, com os corpos jogados nas valas. A carnificina durou o dia todo, tendo sido o último grupo executado à luz de tochas. A brutalidade desse ato espalhou ondas de choque por toda a Arábia. Uma estranha maneira, para dizer o mínimo, de se pregar a palavra de deus.

No total, Maomé comandou 27 expedições militares, além de ter organizado outras 38 que foram lideradas por comandantes subordinados. Todos deveriam se render ao Islã e pagar o dízimo, caso contrário poderiam ser roubados, escravizados ou mortos pelos crentes. O profeta também aboliu um mês tradicional do calendário, ligado a um festival popular pagão. Os meses perdiam então qualquer ligação com as estações do ano, cortando uma tradição milenar de cultos de fertilidade sazonais. No fim de 632, o ano dez da Hégira, Maomé comandava toda a Arábia. Em um dos seus últimos discursos, ele declarou que nenhum profeta ou apóstolo viria depois dele, e nenhuma fé nova nasceria. Maomé reconhecia vários outros profetas anteriores, incluindo Moisés e Jesus. Mas em sua revelação ele teve o privilégio de ser o último enviado.

Foi assim, resumidamente, que o guerreiro empedernido criou o islamismo, dominando a Arábia antes, e depois conquistando multidões além de suas fronteiras. A palavra de deus, que teria sido revelada aos poucos para Maomé, tomou o mundo através das espadas dos seus seguidores muçulmanos. Todos são iguais perante deus, segundo o profeta. Menos aqueles que não concordam com o Islã. Esses, no entendimento dele, merecem a morte!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A Marcha da Insensatez



Rodrigo Constantino

O racha que o protestantismo representou para a Igreja Católica foi, em grande parte, causado pelos próprios papas durante um período de sessenta anos entre meados do século XV e começo do XVI. Ao menos esta é a tese da historiadora Barbara Tuchman, que dedica alguns capítulos do seu livro A Marcha da Insensatez ao assunto. Ela define a Renascença como o “período histórico em que os valores deste mundo passaram a suplantar os do além-túmulo”, lembrando que sob seu impulso “o indivíduo percebeu ser artífice e diretor do próprio destino, ao invés de atribuir esse mérito a Deus”. O comportamento de seis papas, que praticaram a insensatez da contumácia e da obstinação, abalaram a Santa Sé, conseguindo espatifar a unidade da Igreja, que perdeu quase a metade de seu rebanho para a cisão protestante.

Tuchman resume bem o que poderia estar por trás dessa insensatez: “Perseguindo os despojos do cargo como cães a farejar a caça, cada um dos seis papas, entre os quais um Bórgia e dois Médici, revelou-se totalmente dominado pela ambição de estabelecer a fortuna da família”. Os fiéis sentiam-se traídos com o abismo entre o que os agentes de Cristo deveriam parecer e o que realmente demonstravam ser. “A veemência com que se valorizavam as benesses da vida material significou abandono do ideal de renúncia cristã”, explica a autora. A miséria ocorrida no crepúsculo da Idade Média foi seguida por novos empreendimentos econômicos e artísticos que marcaram o período assinalado como Idade Moderna. Os papas não ficariam para trás, e tornaram-se grandes patronos das artes. Leonardo da Vinci enfeitava a corte de Ludovico Sforza em Milão e o teto da Capela Sistina era pintado por Miguel Ângelo. Como conclui Tuchman, “acreditavam que através da grandiosidade e beleza visíveis o papado cresceria em renome e a Igreja manteria seu domínio sobre os fiéis”.

O papa Sisto IV, eleito em 1471, “inaugurou uma fase de caça ao ganho pessoal e ao poder político de forma notória, despudorada, incansável”. O mais escandaloso de seus atos foi o envolvimento e possível instigação dos Pazzi no tocante à conspiração homicida contra os irmãos Médici. Aliado aos Pazzi, ele teria aprovado ou até tomado parte no obscuro negócio. Um papa assassino! Segundo Tuchman, ninguém lamentou sua morte, e Sisto IV deixou apenas descrédito no seu legado.

Em seguida se deu o papado de Inocêncio VIII, o primeiro papa que reconheceu publicamente seu filho, Francesco. A legitimação de filhos ou sobrinhos transformou-se em rotina para os papas da Renascença, outro princípio da Igreja jogado ao léu. A vice-chancelaria do papado de Inocêncio VIII ficou com o Cardeal Bórgia, que controlava a Cúria. Novos cargos para executivos apostólicos foram criados, com a exigência de remuneração dos que aspiravam aos postos. Foi estabelecido um departamento destinado à venda de favores e perdões a preços inflacionados. Quando perdões em lugar de aplicação da pena de morte em casos de homicídio e outros crimes nefandos foram questionados, o Cardel Bórgia defendeu a prática sob alegação de que “o Senhor deseja não a morte do pecador mas, ao contrário, que ele viva e pague”.

Inocêncio anunciou uma Cruzada numa bula de 1486, decretando, ao mesmo tempo, um dízimo a ser cobrado de todas as igrejas. A Guerra Santa já havia perdido a credibilidade neste época, quando o comércio com os infiéis provou ser lucrativo e os Estados italianos regularmente negociavam a ajuda do sultão em suas guerras uns contra os outros. Era intenção de Inocêncio usar Djem, O Grande Turco, como meio de guerra contra o sultão sob a vaga teoria de que Djem retiraria as forças turcas da Europa. Mas como diz Tuchman, “mesmo que tal coisa fosse verossímil, nunca ficou bem esclarecido de que forma significaria Guerra Santa a simples substituição de um muçulmano por outro muçulmano”.

Depois de servir sob cinco papas, tendo perdido a última eleição, Bórgia teria simplesmente comprado o papado diretamente de seus dois maiores rivais, os Cardeais Della Rovere e Ascanio Sforza. O papado de Alexandre VI, o título que usou, pode ser resumido na palavra depravação. Tinha amantes casadas, e sua ligação com uma garota quarenta anos mais jovem ofendeu o gosto dos italianos. Como a historiadora coloca, “os assuntos da família Bórgia conseguiam escandalizar uma época acostumada a todos os excessos”. O próprio papa teria dito, num momento de rara introspecção: “O mais atroz dos perigos para qualquer papa está no fato de que, cercado como vive, por lisonjeadores, jamais escuta verdades sobre sua pessoa e acaba por não querer mais escutá-las”. Em resumo, “os admiradores corrompem”, como dizia Nelson Rodrigues.

Na nova eleição, Giuliano della Rovere teria utilizado “tráfico de promessas” e propinas onde necessário, para trazer a seu campo vastas e antigas oposições, assegurando por fim a tiara papal. Com o título de Júlio II, pode ser considerado o papa guerreiro, tendo se engajado em anos de beligerância, conquistas e disputas. Vários papas depois dele manifestaram consternação pelo espetáculo do Santo Padre como guerreiro. Comandou uma ofensiva contra uma rebelião dos próprios cristãos, no feudo papal de Ferrara. Nada como a visão insólita de “um Vigário de Cristo na Terra aplicando-se em pessoa a dirigir uma guerra que ele próprio exigira, contra cristãos”. Na estátua que Miguel Ângelo fora incumbido de esculpir em sua homenagem, Júlio teria mandado colocar uma espada em vez de um livro na mão esquerda. Apesar de tudo, Júlio conseguiu deter o desmembramento do território papal, o que lhe valeu grande prestígio histórico, contando com a definição de “salvador da Igreja” em algumas enciclopédias. Nada é mencionado nestes livros sobre o fato de ter banhado de sangue seu país, ou sobre os seus lucros temporais com suas empreitadas violentas.

O penúltimo dos seis papas foi Leão X, cujo reinado foi intitulado por parte de seus apaniguados de “Idade de Ouro”, tamanha a quantidade de moedas que choviam em seus bolsos vindas de comissões, festividades e entretenimentos contínuos. O dinheiro não caía do céu, mas era tirado através de tributos cada vez maiores, extorsivos, cobrados pelos agentes papalinos. O ressentimento era crescente. Para atender suas despesas a chancelaria papal criou cerca de dois mil cargos a serem vendidos durante seu pontificado, incluindo a Ordem dos Cavalheiros de São Pedro. As pessoas mostraram-se cada vez mais indignadas com as incansáveis e extravagantes dívidas do papa, e para muitos, excluindo os dirigentes da Igreja, tornara-se evidente que o início da dissensão se aproximava.

Maquiavel chegou a constatar que “quanto mais se aproximam da Igreja de Roma, cabeça de nossa religião, menos religiosas as pessoas ficam”. Segundo Tuchman, “o abuso que precipitou a ruptura final materializou-se na comercialização de indulgências”. Um frade dominicano, Tetzel, chegou a anunciar em voz alta que tinha “os passaportes que levarão as almas às glórias celestiais do paraíso”. Com respeito aos já falecidos, dizia que “tão logo a moeda tilinta no vaso, a alma que ela está resgatando parte como uma flecha do purgatório diretamente ao paraíso”. Em resposta à campanha de Tetzel, Lutero pregou em 1517 suas famosas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, denunciando como sacrílego o ultraje das indulgências. As sementes do cisma já haviam sido plantadas.

O Cardeal Giulio, outro Médici, foi o último dos papas citados por Tuchman, sob o nome Clemente VII. Roma estava desmoralizada e em crise. Em 1527, os invasores hispano-germânicos romperam os muros e jorraram dentro da cidade. Durante semanas Roma “queimou em meio ao fedor de corpos insepultos destroçados pelos cães”. Os danos foram irreparáveis.

Barbara Tuchman conclui: “A insensatez dos papas não foi apenas a busca de políticas contraproducentes; foi, muito mais, a rejeição de uma tônica aceitável e coerente, quer política quer religiosa, que melhorasse o panorama geral do papado, evitando o crescente descontentamento”. Para ela, “grotesca extravagância e obsessiva busca de lucro pessoal se constituíram em segundo fator, de igual importância”. E por fim, “ilusão de permanência, da inviolabilidade do poder e do status, eis a terceira insensatez”. Resumindo, “essas três atitudes incompatíveis – indiferença ao crescente descontentamento dos fiéis, preocupação de auto-engrandecimento, ilusão de status invulnerável – caracterizam aspectos persistentes da insensatez”. E não custa lembrar que os religiosos, inclusive os papas, são apenas homens.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Fides et Ratio



Rodrigo Constantino

“So convenient a thing it is to be a reasonable creature, since it enables one to find or make a reason for everything one has a mind to do.” (Benjamin Franklin)

De todos os absurdos que observei nas reações passionais aos meus artigos sobre religião, o que mais me chocou foi a impressionante tentativa de alguns em inverter o fato de que a ciência está mais aberta à crítica que a religião. Que havia algum debate dentro do Cristianismo, é fato. Que dentro do suposto campo científico existe o “cientificismo”, um embuste que não respeita o método científico, é fato também. Mas chega a ser risível comparar a disponibilidade e estímulo ao debate dentro do campo científico com o que ocorre nas religiões de forma geral. Afinal, duvidar e questionar da própria fé já pode ser considerado pecado em alguns casos. Na ciência, como Popper sempre defendeu, as teorias pedem para ser refutadas, e o método científico consiste justamente nisso.

Será que Maomé pedia para ter seus dogmas questionados? Os muçulmanos, de forma geral, estão mais abertos ao debate crítico que a Royal Society? Será que os papas cristãos recebiam com satisfação duras críticas aos dogmas de sua fé? Não vamos esquecer que o mito do Pecado Original declara que o homem comeu o fruto proibido, da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Deus havia ameaçado Adão, sob pena de sofrer com sua ira. Nem mesmo a pergunta inocente do que era o bem e o mal agradara Deus. No Jardim do Éden não havia espaço para questionamentos e conhecimento humano. Não havia lugar para a razão! O castigo para o homem foi o trabalho, posto que ele teria que arrancar com seu suor o alimento da terra. Adão e Eva perderam a pureza, que por esta ótica, nada mais é que ignorância absoluta e obediência cega, sem questionamentos. Eis o que alguns consideram um estímulo ao debate aberto em busca do conhecimento verdadeiro!

Quem pode ignorar que a Igreja Católica criou a Inquisição e o Index Librorum Prohibitorum? Por acaso é uma postura adequada de quem defende o debate proibir a leitura de livros, sejam quais forem? Não parece a postura de ditadores socialistas que mandam queimar livros de autores liberais? Alguém imagina um cientista indo para a fogueira por questionar a teoria do “Big Bang”? Algum livro é vetado no meio científico, sob pena de punição para quem for pego com ele? O objetivo do Index era prevenir a corrupção dos fiéis. E isto pode ser comparado com a postura dos cientistas, por acaso? Isso lembra Hitler proibindo o livro de Mises, isso sim!

Olavo de Carvalho, um dos que inverte a postura entre a religião e a ciência, minimiza a polêmica, afirmando em um debate do Orkut que “toda e qualquer organização tem o estrito direito de exigir que nas suas escolas seja ensinada a sua doutrina e não outra qualquer”. Ou seja, para ele “não há nenhuma intolerância nisso”, já que “o Index é precisamente isso, nada mais”. Nada mais? Um índice de livros proibidos que durou até a metade do século XX não é nada demais e nem demonstra intolerância ao debate? Em 1948 ainda existiam cerca de quatro mil livros proibidos. Não é censura? Não é espantoso que autores como Galileu, Copérnico, Maquiavel, Erasmo de Roterdã, Espinosa, Locke, Pascal, Hobbes, Descartes, Rousseau, Montesquieu, Hume, Voltaire, Victor Hugo e Kant tenham pertencido a lista? Não é uma evidência de que o obscurantismo andava lado a lado com a fé dogmática? Curiosamente, o famoso livro de Hitler, Mein Kampf, nunca fez parte do Index, lembrando que Hitler se considerava cristão.

O falecido Papa João Paulo II, cuja postura era admirável em vários aspectos, tentou conciliar a fé e a razão na Encíclica Fides et Ratio. Não convenceu, na minha opinião. Em determinado trecho, ele diz: "As vias para chegar à verdade continuam a ser muitas: mas, dado que a verdade cristã tem valor salvífico, cada uma delas só pode ser percorrida se conduzir à meta final, ou seja, à revelação de Jesus Cristo". Ora, vários métodos da busca da verdade são possíveis contanto que todos eles levem à revelação de Cristo? Isso me parece mais uma racionalização de emoções já existentes. O indivíduo sente algo, acredita em algo a priori, e parte para uma tentativa de justificar esta crença buscando coisas que confirmem o que ele deseja que seja verdade. Isso é bem diferente da postura científica séria, onde os cientistas honestos partem de uma tese e tentam buscar dados que contradigam-na. A mente humana costuma buscar confirmações para aquilo que já acreditava antes. Poucos são os que realmente desafiam suas crenças, procurando justamente aquilo que possa derrubá-las, provar seus erros. Não pode restar muita dúvida de que é na ciência, mesmo com seus defeitos, que encontramos com maior freqüência esta postura e este método, enquanto nas religiões vemos, normalmente, a necessidade de acreditar falando mais alto que o desejo de realmente conhecer.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A Escola de Salamanca



Rodrigo Constantino

Em recentes artigos, alguns podem ter ficado com a errada impressão de que condeno de forma generalizada qualquer religioso já por ser religioso. Não é verdade. Sim, eu considero o fanatismo religioso extremamente perigoso e uma das maiores ameaças à liberdade. Sim, eu considero prepotente a alegação de que existe a verdade sobre as grandes questões e esta foi revelada por um messias qualquer. Sim, eu penso que a paixão que o tema desperta muitas vezes funciona como uma catraca no cérebro, impedindo um raciocínio claro e objetivo e levando ao repúdio de qualquer questionamento ou crítica. Sim, eu vejo que existem muitos embusteiros no meio religioso em busca de poder e riqueza à custa da ignorância alheia. O próprio fato da Igreja Católica ser tão rica materialmente falando incomoda. Mas não considero tudo que sai das religiões algo ruim, nem de perto.

Em resumo, condeno o fanatismo religioso, a hipocrisia muitas vezes presente no meio religioso e a crença de que a fé pode ser objetiva, e não subjetiva. Mas reconheço o lado bom das religiões, assim como o fato de grandes homens terem sido religiosos. Aliás, tenho um parente próximo que é padre, e uma excelente pessoa. Convivemos bem com as divergências sobre o assunto, pois ele não é um fanático. E para fazer justiça e não deixar também a imagem de que condeno qualquer pessoa religiosa – o que está longe da verdade – pretendo tratar neste artigo da enorme e muitas vezes desconhecida influência que a Escola de Salamanca exerceu na Escola Austríaca, a que mais admiro no mundo econômico.

Os precursores intelectuais da moderna Escola Austríaca foram, na maioria, dominicanos e jesuítas, professores de moral e teologia em universidades que constituíram os focos mais importantes do pensamento durante o Século de Ouro espanhol. Uma detalhada análise encontra-se no livro Escola Autríaca de Jesús Huerta de Soto. Já em 1555, o bispo Diego de Covarrubias expôs melhor que ninguém a teoria subjetiva do valor, afirmando que “o valor de uma coisa não depende da sua natureza objetiva mas antes da estimação subjetiva dos homens, mesmo que tal estimação seja insensata”. O estudo de Covarrubias, cujo título era Veterum collatio numismatum, é citado por Carl Menger nos seus Princípios de Economia Política. Menger é considerado o fundador da Escola Austríaca.

Este foco subjetivista iniciado por Covarrubias tem continuidade por outro escolástico, Luis Saraiva de La Calle, que definiu a relação entre custos e preços já naquela época, mostrando que os custos é que tendem a seguir os preços e não o contrário. Isso seria a antecipação da refutação que Menger faria da teoria objetiva do valor, que passaria a ser o ícone da teoria de exploração marxista.

Outra notável contribuição dos escolásticos foi a introdução do conceito dinâmico de concorrência, entendida como “o processo empresarial de rivalidade que move o mercado e impulsiona o desenvolvimento da sociedade”, segundo Huerta de Soto. Este viria a ser o coração da teoria do mercado da Escola Austríaca, contrastando com o modelo de equilíbrio de concorrência perfeita ou monopolística dos neoclássicos. Os preços de equilíbrio, portanto, não poderiam ser conhecidos, e isso derrubava a teoria de planejamento rígido defendida pelos socialistas. As contribuições dos cardeais jesuítas espanhóis Juan de Lugo e Juan de Salas também merecem destaque. O primeiro, já em 1643 havia concluído que o preço de equilíbrio depende de uma quantidade tão grande de circunstâncias que apenas Deus pode conhecer. O segundo afirma que apenas Deus pode ponderar e compreender exatamente toda a informação e conhecimento usados no processo de mercado pelos agentes econômicos. As mais refinadas contribuições de Mises e Hayek sobre a teoria do conhecimento estavam então sendo antecipadas no século XVII.

O princípio da preferência temporal, um dos elementos essenciais da Escola Austríaca, fora mencionada por Martín de Azpilcurta em 1556. Ele diz que, tudo o mais constante, os bens presentes são sempre mais valorizados do que os bens futuros. Azpilcurta tomou emprestado este conceito de um dos discípulos de Tomás de Aquino, Giles de Lessines, que já em 1285 havia afirmado que “os bens futuros não são tão valorizados como os mesmos bens disponíveis de imediato”. Complicado é entender isso e condenar a usura, como tantos religiosos fizeram.

O trabalho do padre Juan de Mariana, intitulado De monetae mutatione, publicado em 1605, critica a política seguida pelos governantes da sua época de baixar de forma deliberada o valor da moeda, embora não utilize o termo “inflação”, desconhecido então. Mariana critica também a política de estabelecimento de um preço máximo para lutar contra os efeitos da inflação. Ele refere-se ao governo como um cego tentando guiar aquele que vê. E ainda sobre a contribuição à questão monetária, Luis de Molina foi o primeiro teórico a salientar que os depósitos e o dinheiro bancário em geral, que ele denomina em latim chirographis pecuniarum, é parte integrante, da mesma forma que o dinheiro em espécie, da oferta monetária.

Huerta de Soto conclui que “os escolásticos espanhóis do Século de Ouro foram já capazes de articular o que depois viriam a ser os princípios mais importantes da Escola Austríaca de Economia”. Como fica claro, ainda mais para um profundo entusiasta do brilhantismo da Escola Austríaca, os religiosos ofereceram ao mundo muitas coisas boas também. Isso nunca deve ser negado apenas para atacar os frutos podres – que existiram, e aos montes. Este tipo de atitude é desonesta, típica de bandos coletivistas que consideram tudo fora de sua seita terrível. Como fazem alguns religiosos fanáticos, que jogam no mesmo saco os ateístas e os comunistas, como se os horrores destes fossem conseqüência inexorável da descrença na divindade, ou como se todo ateu fosse comunista, ignorando a enorme quantidade de excelentes liberais ateus ou agnósticos.

Os desonestos ignoram convenientemente que uma das maiores influências do comunismo foi um fervoroso cristão católico, Thomas More, cuja obra Utopia estimulou vários comunistas. Afinal, para os crentes fanáticos, o primeiro e muitas vezes único critério de julgamento de valor é a crença religiosa, ainda que muitos crentes sejam pérfidos e muitos ateus sejam honestos. Para aqueles que não são fanáticos, no entanto, não há mal algum em reconhecer que existiram muitos ateus terríveis, como os comunistas (ainda que possamos considerar o comunismo uma seita religiosa, com puro misticismo como pilar de sustentação), e muitos religiosos terríveis também. Por outro lado, vários ateus são ótimas pessoas, assim como vários religiosos. E é neste grupo que devemos incluir os membros da Escola de Salamanca, com espetacular contribuição para o pensamento moderno.

Resposta a Olavo



Rodrigo Constantino

Meu artigo sobre o fanatismo religioso, inspirado em Voltaire, despertou passionais reações, como era de se esperar. Seguidores do filósofo Olavo de Carvalho, em uma comunidade do Orkut, preferiram me xingar de adjetivos tão chulos que não vem ao caso repeti-los. Nivaldo Cordeiro escreveu um artigo também me atacando, como o título deixa claro: “O Bestialógico do Constantino”. Mas não atacou meus argumentos. Após algum tempo só de agressões na comunidade do Olavo, resolveram chamar o próprio “mestre”, e foi quando ele entrou também me agredindo, e apelando à autoridade o tempo todo, apenas repetindo que era impossível debater com um ignorante como eu. Agora, resolveu responder através de um artigo no seu site, o qual pretendo comentar brevemente aqui.

Antes disso, entretanto, creio ser útil para o leitor ter uma noção melhor do tipo de reação de Olavo, que garantiu não ter reagido de forma emocional, citando algumas de suas frases direcionadas à minha pessoa: “Pare de blefar, moleque idiota”; “Não dá para discutir com o ignorante completo”; “Será bom para mostrar aos demais que tipo de lixo falante é esse pirralho desprezível”; “É esse o merda que quer me ensinar a debater?”; “Não odeio uma casca de banana quando escorrego nela, nem um bostinha metido a intelectual quando o mando de volta para a escolinha maternal”. Esta é a postura adequada de um filósofo? Enquanto isso, Olavo diz que Karl Popper não é referência séria para a filosofia. Faz sentido. E não custa lembrar que fui colunista do Mídia Sem Máscara por muito tempo, site de Olavo. Estranho ele oferecer tanto espaço para um “bostinha”. Mas eis o efeito na mudança de opinião que a religião pode gerar.

Olavo disse que responderia aos absurdos históricos levantados por Voltaire, mas não o fez. Em seu lugar, preferiu desqualificar o autor, afirmando que sua obra é considerada por muitos um embuste. As citações de Voltaire, abordadas em meu artigo, permanecem sem resposta. Por exemplo: é ou não é questionável se Moisés de fato existiu? O que falam sobre ele não parece pura fantasia? Não existiam histórias similares na Arábia, que podem ter influenciado a dos judeus? Davi não cometeu mesmo os crimes citados? Não existe um Evangelho que poderia levar a crer que Jesus era filho de Mirja numa relação adúltera? É falso que consta um milagre atribuído a Cristo de expulsar os demônios para porcos numa região onde não existiam porcos? É mentira que os Evangelhos hoje considerados apócrifos eram citados pelos primeiros padres? Seria mentira que os exorcizados eram pessoas mais ignorantes e humildes, como ocorre hoje na Igreja Universal? Voltaire mente ao falar sobre o período de Diocleciano, onde os cristãos não foram perseguidos, ao menos no começo, e ainda criaram uma rica igreja? Constantino matou ou não sua própria mulher? Consta ou não nos relatos da Igreja como foi feita a escolha dos Evangelhos aceitos no Concílio de Nicéia? Enfim, quais das citações históricas de Voltaire são absurdas? Olavo não diz. Apenas desqualifica a obra inteira, sem especificar onde residem os erros.

Olavo discorda veementemente da minha afirmação de que a ciência pede para ser desafiada e refutada, como justamente ensina Popper, enquanto a religião costuma mandar aceitar com fé sem muitos questionamentos. Ele diz: “Desde os seus primórdios, a religião cristã sempre se abriu à discussão, como o evidenciam os escritos dos primeiros padres, quase todos eles compostos em resposta aos críticos da nova fé ou a divergências internas quanto ao seu significado”. Alguém consegue mesmo sustentar que é absurda a afirmação de que a ciência, mesmo com seus erros, é mais aberta às críticas que a religião? Alguém consegue imaginar cientistas em geral agindo da mesma forma que os crentes religiosos? É mesmo preciso responder essa inversão “olaviana” de que a religião é que pede críticas e questionamentos enquanto a ciência exige fé e boca calada?

Olavo não chega a defender a Inquisição, mas luta com afinco para justificá-la e reduzir suas atrocidades, afirmando que era normal ter um índice de livros proibidos (não vejo isso na ciência) e que heresia “significa uma doutrina não católica ou anticatólica pregada dentro da Igreja por alguém que continua a intitular-se membro dela e a desfrutar da sua proteção”. Ou seja, nada demais! Alguém consegue imaginar um cientista indo para a fogueira por questionar a teoria do “Big Bang”? Olavo diz: “Em termos quantitativos, a perseguição religiosa no Ocidente cristão não tem comparação possível com a sangueira desmedida inaugurada pela Revolução Francesa”. Ora, eu condeno ambos! Os jacobinos não têm qualquer semelhança com os verdadeiros liberais. Seus crimes inocentam os da Igreja? Notei que os aliados de Olavo insistiam o tempo todo em atrelar o ateísmo ao comunismo, e sempre que as barbaridades da Igreja vinham à tona, bastava acusar os ateus de crimes mais bárbaros ainda. Não creio que uma coisa justifique a outra, tampouco é razoável alguém associar todos os ateus aos comunistas. Os comunistas foram bárbaros porque eram comunistas, não por serem ateus. Essa falácia é tão absurda quanto condenar toda a fé religiosa por causa de Bin Laden. Dois pesos, duas medidas.

Por fim, Olavo diz que é possível debater o assunto religião somente com a mesma erudição dele, e profundo conhecimento. Pergunto então: por que tantos crentes são ignorantes? Esses sabem das coisas e podem debater o assunto? Na verdade, não importa o grau de leitura, certas perguntas podem e devem ser feitas por qualquer leigo, e merecem resposta. Se estas não existem, então o melhor é admitir a ignorância, mesmo com tanta erudição. Por exemplo: Jesus foi mesmo Deus em pessoa? Ora, como esperam provar isso? Se era o Messias, por que não podemos levar suas palavras ao pé da letra? Deus iria desejar confusão entre os homens, já que a ambigüidade de suas mensagens geraram tantas fações distintas de sua seita? Se existem diferentes interpretações para a Bíblia, então não é apenas a razão humana que irá determinar o correto? Como explicar as contradições do “livro sagrado” sem usar o livre-arbítrio humano? É crível que uma virgem realmente deu a luz a um filho de Espírito Santo? Fazer este tipo de questionamento não exige doutorado de teologia, apenas bom senso. E parece muita presunção assumir que a resposta é conhecida. Eis a postura de fanáticos. Os muçulmanos fundamentalistas também têm certeza de que encontraram a única verdade sobre o assunto. E ai de quem discordar...

Meu único interesse com o tema religioso é mantê-lo no seu devido lugar, ou seja, na esfera pessoal, no foro íntimo de cada um. Pois fé é algo subjetivo. E o perigo começa justamente quando alguns pensam que é algo objetivo, e que basta umas leituras para resolver de uma vez por todas as questões que atormentam a humanidade desde os primórdios. É uma perigosa arrogância. Como disse Mises, o Liberalismo limita sua preocupação exclusivamente com objetos desse mundo, enquanto o reino da religião é de outro mundo. Liberalismo e religião podem conviver lado a lado, pois o liberal proclama tolerância para qualquer crença religiosa. Isso leva à paz, que fica ameaçada justamente quando os crentes começam a tratar um tema tão subjetivo assim com presunçosa objetividade, alegando que apenas os ignorantes não enxergam as roupas do imperador. A reação passional de muitos admiradores de Olavo, e do próprio, apenas corrobora com isso. Foi uma grande decepção. Ainda que esperada, de certa forma. Como muitos sabem, Olavo já foi comunista. Pelo que me parece, ele trocou o deus, mas não mudou o fanatismo.

domingo, fevereiro 11, 2007

O Sermão da Montanha



Rodrigo Constantino

“A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela.” (Humboldt)

Sei que o tema religião desperta fortes paixões que costumam suprimir a razão – o que posso atestar pela reação de muitos aos meus recentes artigos. Mas não consigo compreender porque não devemos questionar coisas sobre este assunto, se ele gera tanto impacto em nossas vidas. Devemos aceitar sem questionar? Devemos tratar como sagrada as crenças alheias mesmo sem acreditar nelas? Por que o mesmo indivíduo que reconhece objetivamente que Maomé foi humano e guerreiro, não o reconhecendo como profeta de Alá, não aceita que façam perguntas sobre Jesus Cristo? Apenas porque aprendeu a repetir a vida toda que Jesus era Deus em pessoa? E duvidar disso, ou questionar, é pecado? Por quê?

Jesus nunca escreveu nada, assim como Maomé. Outros homens escreveram sobre eles, e isso gerou o livro sagrado dos muçulmanos e o dos cristãos. Como encarar o que ali está escrito, por homens comuns? Devemos tomar literalmente o que foi supostamente dito, como fazem os fundamentalistas? Afinal, trata-se ou não da “revelação” divina? Mas se for a Verdade revelada por palavras ambíguas, que não devem ser analisadas ao pé da letra, como interpretá-la então, já que não há um critério objetivo disponível? Qual seria o objetivo de Deus em evitar falar de forma objetiva? Gerar confusão? Criar grupos que interpretam a mensagem de forma diferente e brigam entre si? Se aquelas palavras escritas por homens e atribuídas a Jesus devem ser filtradas por cada um, então estamos diante de algo bastante subjetivo, e no final das contas será a própria razão humana que irá separar o joio do trigo, que irá determinar o que é para ser seguido e o que é para ser descartado. Logo, estaríamos dependendo da própria capacidade racional humana para entender a mensagem. Ou seja, o homem mesmo é capaz de ler supostas “revelações” e descartar algumas partes, ficando com outras. Isso me parece algo bem humano, e não divino.

Se não for assim, como devemos entender o que teria sido supostamente dito por Jesus no famoso Sermão da Montanha? Vejamos alguns trechos, como este: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar uma mulher para cobiçá-la, já adulterou com ela no seu coração. Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; porque é melhor que se perca um de teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno”. Alguém vive assim? Devemos seguir essa “verdade” sem questionamento?

Ou então: “Ouviste o que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, te digo que não resistas ao mau; mas se alguém te bater na tua face direita, oferece-lhe também a outra”. O que devemos tirar dessa lição “divina”? Que a lex talionis do Código de Hamurabi deve ser rasgada, e eu seu lugar devemos oferecer amor em troca de violência? Que de fato devemos oferecer outra face para quem nos agrediu? Alguém consegue viver assim? Seria possível um mundo assim, sabendo que o homem é como é? Deveria um pai oferecer o outro filho vivo para os bandidos que acabam de tirar a vida de um de seus filhos? Amar o próprio assassino do seu filho, eis a máxima cristã no sentido literal. Isso é algo bom ou razoável?

Aqui a mensagem é ainda mais radical: “Ouviste o que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus”. Como pode um cristão ler essa passagem, teoricamente do seu próprio Deus, e reclamar quando vê cartazes com os dizeres “Jesus ama Osama”? Não é isso que foi ensinado? Não era para os cristãos amarem Bin Laden? Ou devemos ignorar este trecho da mensagem “divina” e ficar com outros? Mas quem decide isso? Os próprios indivíduos? Com base em qual critério? Pois se a própria razão humana é capaz de criar um código de moral e ética – como eu acredito – então por que sequer atribuir caráter divino ao que outros humanos disseram? Não precisamos disso.

Jesus acrescenta no sermão um tom bastante crítico às riquezas também: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Ou então: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem guardam nos celeiros; e vosso Pai celestial as sustenta”. E mais adiante: “Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos é que se inquietam por essas coisas”. Algum leitor é cristão e não pagão? Essa mensagem não parece um consolo para os pobres, dando a entender ainda que suas necessidades mais básicas não precisam ser inquietantes, pois irão cair do céu? Depois reclamam quando dizem que a escolha da Igreja Católica é pela pobreza, e não pelos pobres. Como disse Roberto Campos: “O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado. Seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres. Gosta de distribuir riquezas mas não se esforça por facilitar a criação delas”. Mas não estaria a Igreja apenas seguindo os mandamentos de Cristo?

Até mesmo o que se pode considerar a grande mensagem de Cristo, sobre amar os outros como a ti mesmo, não foi algo exclusivo de sua autoria. Uns cem anos antes dele, Publilius Syrus, um assírio que foi levado como escravo para a Itália, chegou a dizer que devemos esperar ser tratado pelos outros como temos tratado os outros. Uma mensagem que vai na mesma linha, pregando o respeito aos demais para poder ser tratado com respeito.

Se o tema é amargo e gera tanto ressentimento em alguns, para que tocar nele? Em minha opinião, a resposta é porque faz toda a diferença do mundo entendemos que os próprios humanos podem definir um código justo de conduta sem ter que apelar para alguma força sobrenatural. Não é preciso cair no relativismo moral onde qualquer coisa é igualmente válida, logo nada é válido como critério de justiça, ao negarmos uma autoridade divina em nosso código moral. Os homens são capazes de buscar aquilo que parece correto e justo, por conta própria e através de sua razão, como tem sido feito há milênios. Os conceitos foram evoluindo. A escravidão, que foi aceita mesmo durante tantos séculos depois de Cristo, inclusive com o aval da Igreja, é amplamente condenada hoje, por exemplo. Foram os próprios homens que chegaram à conclusão de que era totalmente injusto alguém não ter o direito sequer à propriedade do seu próprio corpo. Não é preciso um livro sagrado para tanto, tampouco alguma “revelação divina”.

O Sermão da Montanha pode ter mensagens bonitas e mensagens absurdas. Mas o importante é que, se não podemos tomar aquelas palavras como uma revelação do próprio Deus literalmente falando, será o próprio homem que terá que julgar. Logo, creio que podemos concluir que a moralidade de nossas ações independe da “divindade”. Os próprios humanos racionais é que deverão obter o código moral adequado para nossa vida neste planeta.

sábado, fevereiro 10, 2007

Liberais e Conservadores



Rodrigo Constantino

“The liberal today must more positively oppose some of the basic conceptions which most conservatives share with the socialists.” (Hayek)

Não são poucos os que confundem liberais e conservadores, colocando tudo no mesmo saco. Tamanha é a confusão, que Hayek, em seu clássico The Constitution of Liberty, acabou escrevendo um capítulo extra apenas para explicar porque não era um conservador, levantando as principais diferenças entre estes e os liberais – lembrando sempre que não se trata dos liberais americanos, mas sim dos clássicos.

Isso não o impediu de reconhecer o conservadorismo como legítimo e provavelmente necessário em oposição às mudanças drásticas. Tampouco impede que seja reconhecido o valor das tradições, ainda que estas sejam passadas de geração em geração sem argumento. As tradições são importantes para sustentar as leis e a liberdade, mas nem por isso devem ficar blindadas contra questionamentos. Liberais acreditam na liberdade de pensamento contra aqueles que pretendem impor crenças pela força. Creio que H. B. Acton resumiu bem a coisa quando disse que o tradicionalista quer poder seguir seus caminhos transmitidos, enquanto o liberal quer poder seguir novos caminhos também, sem coerção dos demais.

O liberal deveria perguntar, acima de tudo, para onde devemos nos mover, e não quão rápida deve ser a mudança. Hayek propõe um triângulo como diagrama para separar conservadores, liberais e socialistas, em vez de uma linha reta, que gera mais confusão. Em cada canto estaria um grupo diferente, o que parece mais correto do que colocar liberais no meio entre conservadores e socialistas.

A admiração dos conservadores pelo crescimento livre geralmente aplica-se somente ao passado. Falta-lhes normalmente a coragem para aceitar as mesmas mudanças não programadas pelas quais novas ferramentas para conquistas humanas irão emergir. Uma das características mais comuns na atitude conservadora é o medo da mudança, uma descrença no novo, enquanto a posição liberal é baseada na coragem e confiança, aceitando que as mudanças sigam seus cursos mesmo que não possamos prever aonde isso irá levar. Os conservadores estão inclinados a usar a força do governo para evitar mudanças, pois não possuem confiança nas forças espontâneas de ajuste que fazem o liberal aceitar as mudanças com menos apreensão, mesmo que não saiba ainda como as necessárias adaptações irão surgir. Como um exemplo que vem à cabeça, pode-se citar as pesquisas científicas com células-tronco.

O conservador sente-se seguro somente quando existe alguma forma de sabedoria superior que observa e supervisa a mudança, apenas quando ele sabe que alguma autoridade está a cargo de manter as mudanças “ordenadas”. Em geral, pode-se provavelmente dizer que o conservador não é contra a coerção em si ou o poder arbitrário, contanto que ele seja usado para aquilo que o conservador considera um propósito adequado. Ele acredita que se o governo estiver em mãos de homens decentes, então não é preciso ser muito reduzido por regras rígidas. Assim como o socialista, ele está menos preocupado com o problema de como se deve limitar o poder do governo do que com quem ocupa o poder. E ainda como o socialista, ele sente-se no direito de impor seus próprios valores aos demais pela força. Já para o liberal, a importância que ele pessoalmente deposita em objetivos específicos não é uma suficiente justificativa para forçar os outros a atender tais metas.

Seria por esta razão que o liberal não considera ideais morais ou religiosos como objetos adequados para a coerção, enquanto tanto os conservadores como os socialistas não reconhecem tais limites. Crenças morais que dizem respeito apenas à conduta individual que não interfere diretamente na esfera protegida das outras pessoas não justificam coerção. Pode-se pensar em alguns exemplos como a prostituição entre adultos responsáveis ou mesmo algo mais extremo, como a venda de um rim, que podem ser atitudes moralmente condenáveis para muitos, mas que impactam apenas as vidas dos envolvidos. O liberal, diferente do conservador e do socialista, não é autoritário. Isso pode explicar porque parece tão mais fácil para um socialista arrependido achar uma nova casa espiritual no conservadorismo que no liberalismo.

Diferente do liberalismo, cuja crença fundamental reside no poder de longo prazo das idéias, o conservadorismo está atrelado a um estoque de idéias herdadas num determinado momento. E como o conservador não acredita realmente no poder do argumento, seu último recurso é geralmente alegar uma sabedoria superior, baseada em alguma qualidade superior auto-arrogada. Hayek considera a característica mais condenável da atitude do conservador a propensão a rejeitar conhecimento bastante embasado porque ele não gosta de algumas das conseqüências que podem se seguir dali. Ora, se ficasse provado que nossas crenças morais realmente são dependentes de premissas que se mostram incorretas, seria moral defendê-las recusando-se a reconhecer os fatos?

O viés nacionalista é outro elo que freqüentemente liga conservadores ao coletivismo. Pensar em termos de “nossa” indústria ou “nosso” recurso natural é um pequeno passo de distância para começar a demandar que tais ativos nacionais sejam direcionados para o “interesse nacional”. Protecionismo, reservas de mercado, subsídios agrícolas, são algumas das medidas que podem colocar conservadores lado a lado com socialistas, ambos contra os liberais.

Por fim, Hayek escreveu algo que resume bem a diferença básica entre liberais e conservadores: “O liberal difere do conservador em sua disposição para encarar sua ignorância e admitir o quão pouco sabemos, sem alegar autoridade de fontes sobrenaturais de conhecimento onde sua razão falha”.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O Ônus da Prova



Rodrigo Constantino

“A ignorância traz muito mais certezas que o conhecimento.” (Charles Darwin)

Os ateus e agnósticos costumam ser injustamente acusados de prepotentes. Os crentes afirmam que os ateus se acham os donos da verdade. Não poderia haver maior inversão! O ponto de partida de um ateu é justamente o reconhecimento da nossa ignorância, dos limites do nosso conhecimento. Há muito que o homem pode aprender sobre o mundo, principalmente utilizando sua principal ferramenta epistemológica, que é a razão. Foi raciocinando, e não rezando, que chegamos a tantos avanços tecnológicos e medicinais, ou mesmo às conquistas da liberdade. Mas há um limite onde nossos sentidos conseguem chegar. Além disso, resta um mar de desconhecimento.

O ateu consegue conviver com essa ignorância, com muitas dúvidas sobre o mundo, sobre as questões básicas que sempre mexeram com os homens. Como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, tais questões não têm resposta ainda, e o reconhecimento disso é que possibilita a eterna busca por mais conhecimento. Como disse Epíteto, “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”. Mas o crente religioso não suporta a dúvida. Ele não consegue apenas não saber. “A dúvida é tortura apenas para o crente, mas não para o homem que segue os resultados de sua própria investigação”, disse Humboldt. E então surgiram muitas religiões, oferecendo as respostas prontas, garantindo já saber sobre essas questões complexas. A prepotência, portanto, está justamente do outro lado, do lado dos que juram saber as respostas, pois estas teriam sido “reveladas”.

Muitos entendem que deus é uma palavra apenas para designar esse desconhecido, essa vastidão acima da nossa capacidade intelectual. Mas nesse caso, eu pegaria emprestada a frase de Frank Lloyd Wright, e diria que acredito em deus, mas soletro natureza. Não vejo porque dar outro nome então. Pois o outro nome, deus, vem carregado de outros conceitos, e gera muito mais confusão. Cada um terá sua idéia subjetiva do que venha a ser esse deus. O deus de Einstein, por exemplo, é muito parecido com o dos ateus, já que ele declarava não crer na imortalidade do indivíduo e considerava a ética uma preocupação exclusivamente humana, sem nenhuma autoridade super-humana acima. Não vejo mal algum nisso. Mas vejo riscos no deus antropomórfico que muitos homens criam e passam a acreditar. Um deus que observa os homens, que pune, que salva, enfim, no deus cristão ou no Alá dos muçulmanos. Essa crença em deus pode ser prepotente por afirmar saber as respostas, e ainda costuma ser intolerante, pois não admite competição e repudia qualquer outro deus.

Algumas perguntas delicadas são feitas pelos ateus, mas costumam ficar sem respostas objetivas por parte dos crentes. Se esse deus meio humanizado é onisciente, sabe de tudo, então ele tem que conhecer a dor e o sofrimento, para ter criado tais sentimentos. Mas como pode um ser perfeito conhecer a dor e o sofrimento? A perfeição pressupõe ainda a inércia, pois qualquer mudança, qualquer ação, irá levar inexoravelmente para uma situação pior. Como deus agiu então para criar o mundo? A ação é fruto do desconforto e da busca pela melhoria, e seres perfeitos não agem. Se o teísmo é vagamente definido como uma força superior, um ser misterioso cuja essência não podemos sequer entender, então deus seria um ateu. Ele não acredita numa força superior a ele mesmo, e seus próprios poderes, apesar de acima dos homens, seria natural para ele, e compreensíveis. Tudo seria “natural” pela sua perspectiva. É justamente o que defendem os ateus.

Muitos crentes ficam incomodados com isso tudo, e partem para a fuga mais conhecida: exigem que se prove então que deus não existe. Mas como se pode provar uma não existência? Se for uma fantasia, como será possível provar que ela é mesmo uma fantasia? A ciência busca refutar teorias, testando-as. As que suportam os testes empíricos, são consideradas válidas até que provem o contrário. Mas é impossível partir da necessidade de provar que algo não existe. Eu poderia afirmar que existe um gnomo vivendo em minha casa, e que ele é invisível e indetectável. Nenhum método que os homens conhecem seria capaz de provar a sua existência. Se eu pedisse para provarem que ele não existe, isso seria impossível. E creio que se eu insistisse muito em sua existência, era mais provável chamarem os homens de branco e me levarem para um hospício, depois de realizado um teste com o bafômetro. O ônus da prova deve estar com aqueles que afirmam sua existência, não o contrário.

Os ateus apenas não reconhecem as crenças subjetivas dos religiosos como prova da existência de um deus. Se alguém deseja que suas crenças sejam levadas a sério pelos demais, deve mostrá-las como algo mais que conceitos pessoais, que um estado da mente. Uma crença torna-se objetiva quando é justificada com razões que podem ser examinadas e avaliadas por outros. Caso contrário, não é nada mais do que uma visão pessoal das coisas, uma emoção do indivíduo que nada prova sobre o mundo externo.

Espero ter deixado mais claro que os ateus costumam ser mais humildes por aceitar a ignorância humana, enquanto os crentes assumem uma postura de prepotência e intolerância porque consideram que já sabem as respostas.