Rodrigo Constantino, para a Revista Voto
O Brasil vive tão imerso em escândalos de corrupção que a população parece anestesiada. Os infindáveis casos que vem à tona suscitam reflexões sobre o sistema político totalmente podre no país. Num dos casos mais recentes, o governador José Arruda foi pego num profundo esquema de desvio de dinheiro público. As imagens dos vídeos, ao contrário do que afirmou o presidente Lula, falam por si só. Não há como negar fatos tão escancarados. Ou Arruda era chefe de uma quadrilha, ou fazia parte dela, de forma passiva. A desculpa esfarrapada de que o dinheiro servia para comprar panetones para crianças carentes ofende o bom senso daqueles que ainda o possuem nesse país. O Brasil virou mesmo um grande circo, e os palhaços somos nós!
O primeiro ponto a ser abordado é o estágio de metástase que o câncer da corrupção chegou no Brasil. Todos os grandes partidos parecem verdadeiras máfias organizadas, com as metas de chegar ao poder, desviar recursos públicos e se perpetuar na mamata. Como explicar milhões gastos em campanhas para receber um salário de poucos milhares? Haja altruísmo! Claro que a realidade é outra: a política virou um negócio muito lucrativo. Gente inescrupulosa é atraída para a política para “se dar bem” à custa dos impostos tomados na marra dos trabalhadores. Eis a verdadeira luta de classes existente no país: de um lado consumidores dos impostos, e do outro os pagadores. Quando as vantagens da vida parasitária são grandes demais, o resultado é cada vez menos hospedeiro pagando a conta.
Os principais partidos estão cada vez mais parecidos. O PT teve seu esquema nacional de “mensalão”, o PSDB teve o seu em Minas Gerais e agora o DEM apresenta sua versão no Distrito Federal. Iludem-se aqueles que sonham com a chegada de um novo partido “diferente de tudo isso que está aí”, formado por santos honestos e preocupados somente com o “bem-geral”. A política é um jogo sujo, e acaba atraindo os piores tipos. Claro que existem exceções, mas esse “jogo democrático” não passa de uma guerra pelo poder, onde os fins justificam quaisquer meios. Alguém realmente acha que o PV de Marina Silva seria tão diferente no poder? Alguém acredita que Ciro Gomes mudaria tudo isso? Não basta “vontade política” quando o sistema de incentivos está podre.
A mudança não vai ocorrer através do próprio meio político, com a tomada de poder pelos “bons revolucionários”. O corporativismo em Brasília é de assustar. Mesmo políticos “concorrentes” ficam receosos nessas horas, tímidos nos ataques, sem demandar medidas drásticas e imediatas, justamente porque sabem que amanhã podem ser eles no vídeo. Todos parecem ter rabo preso. Além disso, parece paradoxal esperar um grande programa de redução do poder político através da conquista do próprio poder político. Não é por aí que vem alguma mudança estrutural. Mas de onde ela virá então?
Eis onde surge a importância da luta no campo das idéias. Somente mudando a mentalidade da maioria das pessoas poderemos mudar essa realidade lamentável. Mas não através do próprio governo, naturalmente. Como esperar educação de boa qualidade, que estimula um olhar crítico, justamente através daquele interessado em manter o povo na completa ignorância? O governo tem interesse em manter o povo refém, reverenciando o próprio governo como uma espécie de deus. Somente quando esta mentalidade mudar haverá menos escândalos de corrupção. Afinal, esta é diretamente proporcional à concentração de poder e recursos no governo. Quando o sucesso de uma empresa depende da canetada de um burocrata, parece lógico que a corrupção será fomentada.
Outra importante causa da corrupção é a impunidade. Uma reforma no Judiciário é fundamental, para reduzir a morosidade dos julgamentos. Acabar com os privilégios dos políticos também é primordial para evitar que tudo acabe em “pizza”. Mas, novamente, isso só será viável através da mudança da mentalidade das pessoas. Enquanto os eleitores votarem nos políticos corruptos porque recebem migalhas em troca, porque estão satisfeitos com a economia, porque conseguiram um emprego, o recado será perverso: a imoralidade não tem custo. É preciso dar um basta a isso, eliminar da vida pública aqueles que, pelo menos, foram pegos roubando. Isso não vai garantir que os novos eleitos sejam honestos, pelos motivos expostos acima. Mas ao menos será um recado um pouco mais duro para os que foram pegos com a boca na botija.
O recado das urnas já é um começo. O povo precisa mostrar indignação diante de escândalos de corrupção. Precisa rejeitar veementemente candidatos ligados a esquemas comprovados ou mesmo suspeitos. Precisa colocar a questão ética acima dos interesses de curto prazo. Em vez de fazer como algumas entidades de esquerda, que apresentam uma indignação bastante seletiva, os eleitores precisam abraçar princípios isonômicos, ou seja, condenar todos os políticos envolvidos em escândalos, independente de seus partidos. É preciso acabar com os dois pesos e duas medidas. É preciso exigir fichas limpas. E, principalmente, faz-se necessário ajudar a mudar a mentalidade do povo brasileiro, que passou a encarar o meio político como panacéia para todos os males que assolam o país. Concentrar poder em Brasília é a receita mais certa para estimular a corrupção.
Contra esse câncer chamado corrupção, que tanto estrago causa no país, só mesmo extraindo os dois tumores malignos: o excesso de governo e a impunidade.