ATENÇÃO! Esse é o vídeo mais importante que gravei esse ano, quiçá nos últimos anos todos. E isso é porque considero o momento atual do Brasil realmente delicado! Sei que muitos, já sem esperanças, pensam que não tem jeito e querem jogar a toalha. Não! Nós vamos lutar, e vamos vencer!!! Para isso, precisamos de uma direita unida.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
quarta-feira, maio 15, 2013
terça-feira, maio 14, 2013
Visão da Semana
Teórica Investimentos
Visão da Semana (de 6 de maio a 13 de maio).
Dos três
principais vetores de crescimento da economia mundial, acreditamos que em dois
deles o maior risco é de surpresas positivas. Para deixar clara nossa visão,
repetindo o que já colocamos nesse semanal há algum tempo, temos a visão que a
Europa pode surpreender positivamente, mostrando algum crescimento nos próximos
trimestres e deixando de ser uma draga para o crescimento global. Acreditamos
que o pior da economia europeia já tenha passado e, por isso, o risco é de nos
surpreendermos com dados mais fortes que o esperado. Nada de muito maravilhoso,
mas grandes chances de entramos num período menos pessimista.
Outro vetor que podemos observar surpresas
positivas é a economia americana. Também nada de excessivamente otimista, mas o
setor privado vem mostrando elevado grau de resistência, capacidade de se auto
sustentar e de investir e gordura para, com segurança, entrar num período de
maior tomada de risco. A probabilidade de novo enfraquecimento é menor do que a
probabilidade de entramos num momento de maior força da economia. Nesse
sentido, o espírito animal do empresário faz com que ele se antecipe e, dado
sua maior margem de segurança para tomar risco, mude sua estratégia para uma
busca por crescimento ao invés de busca por proteção ou sobrevivência. Apesar
da possibilidade desse cenário mais otimista ocorrer, acreditamos que o
terceiro principal vetor da economia global, a China, não deve surpreender
positivamente. Mas também não acreditamos em surpresas negativas vindas da
economia chinesa. Temos a visão que o processo de reequilíbrio e mudança de
perfil do crescimento chinês será bem administrado pelo governo, o que será
positivo para o crescimento da China e do mundo no médio e longo prazo, apesar
de um menos vigoroso crescimento no curto prazo.
Nesse ambiente de recuperação e possíveis
surpresas positivas na economia global, os investimentos nas economias
emergentes, em especial nos BRICs, que passam por um momento de questionamento
sobre a relação entre risco e retorno, podem voltar ao foco de interesse dos
tomadores de risco. Todavia, apesar do nosso maior otimismo sobre a economia
global, o lado doméstico continua sendo o ponto mais desanimador do nosso
ambiente de investimento. A baixa qualidade da atual gestão econômica
enfraquece o bom funcionamento da economia brasileira e retira o mínimo de
condições, que antes existiam, para o desenvolvimento do sistema. Apesar disso,
a história nos mostra que, mesmo com péssimas gestões, a economia brasileira
aos trancos e barrancos consegue se desenvolver.
Repetimos
que o ambiente de liquidez global abundante tem conseguido evitar eventos de
cauda, porém, uma expansão mais fundamentada somente ocorrerá através de
reformas e ajustes estruturais, que precisam de tempo e consenso político. A
liquidez é a ponte para se chegar no acordo político e nas reformas. Porém, sem
os ajustes necessários, será uma ponte para lugar nenhum e voltaremos ao
ambiente de crises e incertezas.
Mais Lobão e menos Chico Buarque
Rodrigo Constantino, O GLOBO
“A bundamolice comportamental, a flacidez filosófica e a mediocridade nacionalista se espraiam hegemônicas. Todo mundo aqui almeja ser funcionário público, militante de partido, intelectual subvencionado pelo governo ou celebridade de televisão, amigo”. É o músico Lobão com livro novo na área. Trata-se de “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, e sua metralhadora giratória não poupa quase ninguém.
Polêmico, sim. Irreverente, sem dúvida. Mas necessário. As críticas de Lobão merecem ser debatidas com atenção e, de preferência, isenção. O próprio cantor sabia que a patrulha de esquerda viria com tudo. Não deu outra: fizeram o que sabem fazer, que é desqualificar o mensageiro com ataques pessoais chulos, com rótulos como “reacionário” ou “roqueiro decadente”. Fogem do debate.
Leia mais no GLOBO.
domingo, maio 12, 2013
Carta aberta a Guilherme Afif Domingos
Rodrigo
Constantino
Prezado
Guilherme,
Li hoje, neste
domingo de Dia das Mães, sua tentativa de justificação para a debandada rumo ao
governo petista. Seu artigo na Folha,
Por
Conta Própria, é um importante documento que demonstra o exacerbado
“pragmatismo” – ele mesmo uma ideologia que pode ser perigosa quando excessiva
– que tomou conta de nosso país.
Nele, você tenta
argumentar que não mudou, que vem apenas servindo à mesma causa de sempre, qual
seja, a tentativa de facilitar a vida das pequenas e médias empresas
brasileiras, que sobrevivem em meio a um dos ambientes mais hostis do mundo
para negócios. Será mesmo verdade?
Você escreve:
Sou, acima de tudo, um
servidor da micro e pequena empresa. A presidenta Dilma está empenhada em lutar
pela classe batalhadora. Esse é um grande ponto de identificação entre nós.
Veja, Afif,
acabei desenvolvendo uma maneira um tanto simples de identificar pessoas
“vendidas” ao poder quase onipresente do PT. Sabe qual é esse segredo? Chamar a
presidente de “presidenta”, agredindo nossa língua para bajular a mandona
vaidosa. A independência, hoje, pode ser medida por quem ainda insiste em
chamá-la de presidente, como deve ser.
Mas se a forma
já entrega a subserviência, o que dizer do conteúdo? Como você pode dizer que a
presidente Dilma está empenhada em lutar pela classe trabalhadora? Somente essa
afirmação já é suficiente para manchar toda uma trajetória de luta sua contra
os pesados impostos e a asfixiante burocracia!
Prezado Afif,
estamos falando da mesma presidente, do mesmo governo? O governo Dilma tem sido
marcado por forte intervencionismo econômico, pela visão mercantilista no
comércio internacional, pelo capitalismo de compadres no mercado doméstico.
Dilma e sua
medíocre equipe desenvolvimentista acreditam no poder do estado como locomotiva
da economia, pensam que são capazes de selecionar de cima, lá de Brasília, os
“campeões nacionais”, que serão agraciados com subsídios e privilégios
estatais. Isso, meu caro Afif, caso você tenha esquecido, representa o que há
de pior para os pequenos e médios empreendedores.
Estes precisam
de menos regulação, menos burocracia, menos impostos, menos inflação, tudo
aquilo que o governo Dilma não ajuda
a entregar. Esse é um governo gastador, centralizador, burocrático, que rasgou
a meta de inflação e flerta perigosamente com o socialismo. Um governo que
confunde mercado com um grupo de vinte grandes empresários. Um governo liderado
pela mentalidade estatizante até a alma.
Pergunto: você realmente acredita que pode mudar isso
tudo lá de dentro? Acha que esse é o momento em que precisamos, nós liberais e
opositores desse modelo nefasto, de um “pragmatismo” que acaba humilhando os
verdadeiros liberais e cedendo aos encantos do poder? Se acredita
nisso, então demonstra ser de uma ingenuidade atroz. Ou, então, ingênuos foram todos aqueles que depositaram em sua figura a esperança de uma alternativa
mais liberal...
O Brasil vive um
momento muito delicado. Nenhum país passa imune por uma década de desgoverno
petista. O PT aparelhou a máquina estatal de forma preocupante, seu
autoritarismo é evidente, e o sonho de muitos ali é transformar o Brasil em uma
grande Argentina, quiçá Venezuela. A postura “pragmática”, para não dizer
fisiológica, do seu PSD, liderado por Gilberto Kassab, é vergonhosa. Trata-se
de uma infâmia!
O que
precisamos, hoje mais do que nunca, é de uma legítima e organizada oposição ao projeto de poder petista. E
não de empresários identificados com o pensamento liberal se curvando diante da
poderosa presidente para praticar o patético “beija-mão”. Não importa que você
tente se justificar, alegando que não mudou e que ainda luta pela causa
empreendedora.
Atos valem mais
do que palavras, e quando você diz isso ao lado da “presidenta”, elogiando seu
governo e sua luta, você se entrega, assina atestado de capacho, vira mais um instrumento
na mão do PT, uma nova peça de xadrez no tabuleiro de poder deles. Espero que
você aproveite esse Dia das Mães para refletir sobre suas escolhas. “Juntos chegaremos
lá”, você dizia. Vejo que você chegou
lá, mas não tenho como apreciar o destino. Muitos já confiaram em sua pessoa, e
hoje estão profundamente decepcionados. Com toda a razão.
sexta-feira, maio 10, 2013
O ideológico pragmático
Rodrigo
Constantino, para o Instituto Liberal
A
cena marcante dessa sexta-feira é de embrulhar o estômago, e demanda fortes
doses de Plasil. Falo, naturalmente, do “beija-mão” patético de Guilherme Afif
Domingos na presidente Dilma. Afif já foi um ícone da oposição de viés liberal
no Brasil, e um duro crítico da própria Dilma. É uma afronta ele abandonar isso
tudo e mergulhar no governo.
É
verdade que ele tentou se justificar. Disse que não serve a dois mestres, e sim
a uma única causa, compartilhada por dois mestres. Como disse o jornalista
Reinaldo Azevedo, Afif é um “ideológico, mas pragmático”. Ora bolas,
pragmatismo tem limites! Não dá para posar de ideológico do liberalismo que, por
pragmatismo, debanda para o PT! Isso é desmoralizante, enfraquece a democracia,
que vive de uma oposição forte e organizada. Algo que, claramente, nos falta
por aqui.
O
PT já havia utilizado a mesma tática com Mangabeira Unger. Ele era um crítico
do governo, foi convidado para assumir uma pasta criada ad hoc para ele, e aceitou. Esse tipo de atitude é humilhante,
desmascara um fisiologismo ridículo, uma falta de compromisso com as próprias
convicções. Estão todos à venda? O PT compra! Faz como Lênin ensinou: compra da
burguesia a corda que será usada para enforcá-la.
Precisamos
de uma visão menos “pragmática”, que
aceita tudo em nome da “governabilidade”. Precisamos de uma oposição com fortes
crenças e convicções, que não esteja à venda, que não abandone seus ideais e
saia correndo pelas migalhas ofertadas pelo poder. Onde está essa direita?
quinta-feira, maio 09, 2013
O conservadorismo pela lente de um liberal
Ensaio escrito para a revista Dicta & Contradicta. Edição de Joel Pinheiro da Fonseca.
Rodrigo
Constantino
Para falar
sobre filosofia política, o primeiro problema que surge é a definição dos
rótulos. Eles são úteis na vida, não resta dúvida, pois ajudam a simplificar
conceitos complexos e a estreitar grupos de pensamento com base em semelhanças
e divergências. Mas podem ser perigosos, justamente por seu simplismo. Como
encaixar em uma única palavra tantos valores e princípios, tantas crenças?
Dito isso, não
terei como fugir dos rótulos em um ensaio sobre conservadorismo e liberalismo.
O que entendo por conservadorismo? Em primeiro lugar, talvez seja melhor dizer
o que não será alvo de análise neste
ensaio: o neoconservadorismo do Partido Republicano nos Estados Unidos, tão bem
representado pelo ex-presidente George W. Bush. Sua visão messiânica de
exportar, por meio de armas, a democracia para o mundo não combina com o
conservadorismo tradicional. Tampouco trataremos de um conservadorismo verde e
amarelo, até porque faltariam representantes legítimos desse pensamento no
Brasil moderno. Inclusive considero estes dois ícones da “direita” – os
imperialistas messiânicos e os meros reacionários – como culpados pela má
reputação do conservadorismo. Se seus representantes são Bush e Bolsonaro,
então não há muito de admirável nessa linha de pensamento político. O
anticomunismo é muito pouco para torná-la respeitável.
O
conservadorismo aqui abordado é aquele que ganhou corpo teórico a partir de
Edmund Burke e suas reflexões sobre a Revolução Francesa. Outros vieram depois
acrescentando suas próprias visões, mas sem transfigurar os pilares essenciais
traçados por Burke. Tocqueville, John Adams, Michael Oakeshott, Russell Kirk,
Roger Scruton e tantos outros contribuíram para a preservação e o avanço de
suas principais características.
E quais seriam
elas? Tentemos definir os principais pontos do conservadorismo; tarefa ingrata,
mas necessária. Com relutância, enfrentarei o desafio, sabendo de antemão que
pecarei pelo simplismo. Pedirei ajuda a Russell Kirk, que se debruçou sobre o
assunto em The Conservative Mind.
O
conservadorismo não é um dogma imutável ou fixo, e se adapta ao tempo sem trair
suas convicções. Em sua essência, porém, representa a tentativa de preservar o
que é familiar, e daí decorre o respeito pelas tradições assimiladas e testadas
pela sociedade ao longo do tempo, pela sabedoria dos antepassados. Alguns
pilares costumam estar presentes em todo pensamento conservador. São eles: 1) A
crença de que há uma intenção divina que governa a sociedade e a consciência
individual, criando um elo eterno que liga os vivos e os mortos; 2) afeição
pela enorme variedade e mistério presentes na vida, ao contrário da visão mais
uniforme e limitada dos sistemas radicais; 3) convicção de que a sociedade civil
necessita de ordem e classes, de lideranças naturais que, uma vez abolidas,
deixarão um vácuo a ser ocupado por ditadores; 4) noção de que propriedade e
liberdade estão conectadas de forma inseparável; 5) descrença em modelos
racionalistas que ignoram o fato de que os homens são governados mais pelas
emoções que pela razão; 6) reconhecimento de que reforma e inovação
revolucionária não são a mesma coisa, sendo esta normalmente arriscada demais
para a manutenção da sociedade.
Em minha
interpretação da leitura dos textos conservadores, eis o que ficou de mais
relevante: uma cautela contra tudo que é extremista e utópico; a preferência
por reformas graduais em vez de saltos revolucionários; uma abordagem humilde
com base na falibilidade de nossa razão; um foco nas virtudes atemporais
desenvolvidas por nossos ancestrais; a valorização da cultura e da família
tradicional; a defesa de uma aristocracia natural; profunda desconfiança da
democracia igualitária; uma visão trágica do ser humano, cuja evolução moral não
acompanha a material; um realismo ao lidar com a política, a arte do possível;
e o respeito pela ordem social contra o risco de anomia. Desenvolverei esses
pontos a seguir.
Ceticismo vs.
fanatismo
Comecemos pela
cautela contra radicalismos. Talvez esta seja uma das mais importantes
características de um típico conservador, e sem dúvida a que mais me atrai.
Todo conservador é cético por natureza e experiência. Ele compreende que a vida
em sociedade é por demais complexa para ser enquadrada em modelos paridos em
uma Torre de Marfim. O conservador rejeita abstrações, por desconfiar de sua
viabilidade, porque estas tendem a uniformizar de forma centralizada os
comportamentos para que o projeto político possa ser construído. Ele jamais irá
abraçar movimentos revolucionários, que têm a pretensão de criar um “novo
mundo” a partir de uma tábula rasa, descartando todo o estoque de conhecimento
existente.
Há em todo
conservador uma boa dose de respeito pelo árduo processo de tentativa e erro ao
longo dos tempos, que serviu para moldar instituições úteis a nossa
sobrevivência. E o mais importante: tais instituições nem sempre podem ser
perfeitamente compreendidas pela nossa razão. O liberal Friedrich Hayek tinha
postura semelhante, apesar de não se considerar conservador. Mas sua visão era
tão parecida com o conservadorismo em alguns aspectos que ele teve que escrever
um texto explicando porque não era um deles.
Hayek, de
fato, tinha muitos pontos de convergência com o conservadorismo. Ele
desconfiava do racionalismo cartesiano, e achava que a própria razão poderia
nos mostrar seus limites, demandando maior humildade frente à complexidade da
vida social. Chegou a cunhar a expressão “arrogância fatal” para se referir a
esta pretensão humana de desenhar modelos racionais perfeitos e justos de
sociedade. Hayek era contra o “abuso da razão”. Seguindo a idéia de Vico,
Mandeville e dos iluministas escoceses, acreditava em uma ordem espontânea, advinda
de consequências não intencionais dos agentes. Sua maior divergência com os
conservadores era no que diz respeito ao otimismo. Para Hayek, faltava aos
conservadores a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais
novas conquistas humanas irão surgir.
No aspecto de
nosso interesse aqui, Hayek sem dúvida estava do lado conservador.
Curiosamente, mesmo desconfiando da razão e respeitando o estoque de
conhecimento acumulado, Hayek chegou a defender uma postura mais ousada dos
liberais. Escreveu que era preciso transformar o liberalismo em uma empreitada
radical e até utópica, uma aventura intelectual. Ironicamente, não viveu o
suficiente para ver os seguidores modernos de Rothbard, que levaram seu
conselho ao extremo, acusando-lhe de “socialista”.
O fanatismo
dos seguidores de Rothbard foi um dos fatores que me afastaram da visão
libertária radical. Jovens imbuídos de uma crença intransigente no princípio
“absoluto” da não-agressão acabaram por criar uma seita fechada, intolerante
com qualquer divergência. Seguros da descoberta dessa “pedra filosofal”,
reduzem a questão ética a uma máxima que uma criança compreenderia. Pensam que,
com ela, respondem todos os complexos problemas sociais. Juram falar em nome da
Razão contra os alienados (todos que discordam). Acabam adotando postura
incompatível com o liberalismo plural e humilde que defendo. Assim como Oscar
Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”.
Conservadores
dão mais ênfase à tradição que ao racionalismo dogmático. A civilização não é
herdada biologicamente; ela precisa ser aprendida e conquistada por cada nova
geração, inclusive por meio de ideias e valores pré-concebidos (ninguém teria
como submeter tudo ao crivo de sua
razão). Se a transmissão fosse interrompida por um século, seríamos selvagens
novamente. O homem não cria, apenas com base em sua razão, os pilares que
sustentam a civilização. Ela é o acúmulo de um processo ininterrupto e que pode
ser desfeito a qualquer momento.
Uma das
críticas comuns que os racionalistas fazem a esta postura é ilustrada pela
história dos macacos enjaulados. Conta-se que cientistas colocaram cinco
macacos na jaula, com uma escada que dava acesso a um cacho de bananas. Assim
que um macaco tentava subir a escada, todos recebiam uma ducha de água fria.
Quando um deles se aventurava em direção à escada, os demais o espancavam,
receosos do castigo geral. Trocaram então um dos macacos, e o novato
rapidamente tentou subir a escada, sendo logo espancado pelos outros quatro.
Os cientistas
foram então trocando os macacos antigos um a um, e cada novo macaco que tentava
pegar o cacho de bananas era impedido pelos outros, inclusive pelos que não
estavam no começo e nunca tinham levado a ducha. Ao fim do processo, os cinco
macacos presentes na jaula eram todos novatos, ou seja, nenhum deles estivera
presente quando a ducha fria impediu o acesso ao prêmio. Ainda assim, quando algum
recém-chegado se dirigia à escada, eles o impediam. Se alguém pudesse perguntar
a estes macacos porque batiam no novato, provavelmente responderiam: “Não sei,
as coisas sempre foram assim por aqui”.
A história é
interessante; mas serve para ambos os lados. Sim, é verdade que muitas vezes
seguimos tradições somente porque nossos pais faziam assim, e antes deles seus
pais também. Só que isso não quer dizer que a tradição seja inútil, ou que possamos
julgá-la racionalmente. Basta substituir o prêmio das bananas no exemplo por
uma armadilha que detona uma explosão nuclear, para concluir que é positivo o
fato de nenhum macaco deixar outro chegar ao topo da escada, ainda que não
saiba exatamente o motivo de sua ação.
Nesse caso,
seria temerário permitir o acesso a qualquer macaco, e a tradição teria uma
função fundamental na preservação daquela comunidade. O conservador, portanto,
não precisa defender cegamente as tradições, ou ser avesso a qualquer mudança. Ele
adota uma postura cautelosa. Defende uma abordagem gradual, repleta de cuidados
e precauções. Não abraça a mudança pela mudança em si. Contra o excesso de
otimismo dos aventureiros, alerta para os riscos envolvidos.
Conta Edmund
Burke em suas reflexões: "Não estamos restritos à alternativa de destruir
completamente as instituições ou de deixá-las subsistir sem nenhuma reforma.
[...] É-me impossível compreender como certas pessoas são tão pretensiosas, a
ponto de considerarem um país como se fosse uma tábula rasa onde pudessem
escrever aquilo que melhor lhes convêm. No plano meramente teórico é concebível
que se deseje que a sociedade tal qual existe fosse estruturada de uma maneira
totalmente diferente, mas um bom patriota e um verdadeiro político procura
tirar o melhor partido possível daquilo que existe de material na sua
sociedade".
O sistema
monárquico dos Bourbon precisava de reformas drásticas; mas será que a
revolução jacobina traria o paraíso pregado? Não deixa de ser curioso o fato de
que Thomas Paine, autor de The Age of
Reason e Common Sense, tenha se
empolgado tanto com esse movimento revolucionário que tinha tão pouco de
racional e nada de bom senso. Por sorte, a Revolução Americana, ao contrário da
Francesa, contava com importantes figuras mais pessimistas, como John Adams,
para contrapor o otimismo radical de Paine e Jefferson.
Isso nos
remete ao outro ponto de divergência entre liberais radicais e conservadores:
estes são, via de regra, mais pessimistas. Para Rothbard, por exemplo, a “atitude
adequada ao libertário é a de inextinguível otimismo quanto aos resultados
finais”, enquanto o “erro do pessimismo é o primeiro passo descendente na
escorregadia ladeira que leva ao conservadorismo”. Mas será que o pessimismo
(ou realismo, diriam alguns) é mesmo um erro?
Em The Uses of Pessmism, Roger Scruton
defende que doses de pessimismo são cruciais para se evitar catástrofes.
Segundo ele, pessoas escrupulosas misturam um pouco de pessimismo a suas
esperanças, reconhecendo que a vida possui limites, não apenas obstáculos. Ele
vai além, e afirma que há uma forma de vício na irrealidade que cria uma das
formas mais destrutivas de otimismo: o desejo de substituir a realidade por um
sistema de ilusões.
Tom Wolfe
sintetizou ironicamente a questão quando disse que um conservador é um liberal
que foi assaltado. Sonhar é bom, até indispensável para o progresso. Adotar uma
postura mais otimista diante da vida é parte essencial dos empreendimentos que
mudam o mundo para melhor. Mas o sonho impossível, otimista em demasia, pode
ser fatal. Quando se diz que não há limites intransponíveis, que a vida não é
feita de trade-offs, mas apenas de
obstáculos que precisam ser superados, se está a um passo da utopia.
Essa é outra
característica dos conservadores: uma profunda ojeriza ao pensamento utópico, à
crença de que os males do mundo podem ser extintos. O pensamento utópico é
redentor, oferece uma visão de completude, um ponto de chegada, o “fim da
história”. Utopias são visões teleológicas que aplacam a angústia de uma vida
sem sentido ou destino. O utópico não aceita restrições e imperfeições; ele
quer uma “solução”. Tampouco aceita que valores podem viver em conflito
insolúvel, sem uma resposta “certa” e única.
Modelos
utópicos desembocam em sistemas fechados, prontos, acabados, e sempre
intolerantes. Como o utópico sequer reconhece que podem existir valores
incomensuráveis, ele tende ao fanatismo, pois “sabe” o que é certo ou justo em
todos os casos. Os sábios carregam muitas dúvidas, enquanto os tolos e
fanáticos estão sempre certos de si, embora suas utopias não possam se
concretizar, coisa que, no fundo, eles sabem. É por isso que se negam a
descrever em detalhes e de forma crítica o que exatamente têm em mente. As
utopias acabam empacotadas de forma vaga, mesmo quando têm roupagem científica.
Essa meta inalcançável serve como poderosa arma para negar o que é real. A
utopia é uma condenação abstrata de tudo que nos cerca, e justifica a postura
intransigente e violenta do utópico.
O utópico é,
em todos os sentidos, o avesso do conservador. Ele não aceita contemporização
alguma, não alimenta um saudável ceticismo quanto às “soluções” pregadas, não
tolera divergências, não respeita as experiências históricas, não convive com
as restrições impostas pela vida em sociedade, não encara a possibilidade de
sua “receita mágica” levar a um resultado terrível. Como mecanismo de defesa,
monopoliza os fins nobres e rejeita qualquer experimento concreto como derivado
de sua utopia. Para tanto, ele teria que reconhecer suas imperfeições.
O Papel da
religião
Muitos
conservadores atribuem relevância gigantesca à religião como instrumento da
preservação dos valores morais. As religiões oferecem, além disso, uma visão
redentora pós-morte, o que ajudaria a suportar as angústias da vida. Retire-se
isso das pessoas, especialmente das massas, e alguma coisa será colocada em seu
lugar. Em Tempos Modernos, Paul
Johnson considera que o colapso do impulso religioso deixou um vácuo de grandes
proporções. Ele diz: “A história dos tempos modernos é, em grande parte, a
história de como aquele vácuo foi preenchido”. No lugar da crença religiosa,
haveria a ideologia secular. As utopias seriam, desta forma, substitutos das
religiões. A grande diferença é que a seita ideológica promete um paraíso
terrestre, o que é ainda mais perigoso.
Confesso que
este é um tema que gera muitas dúvidas em mim. Até que ponto as pessoas em
geral necessitam das religiões para preencher este vácuo, evitando assim o
risco de colocarem em seu lugar seitas seculares ainda mais perigosas? Em
outras palavras: até que ponto a “morte de Deus” não abriu espaço para o
nascimento do “Deus Estado” e, com ele, dos totalitarismos modernos? Não tenho
a pretensão de saber a resposta, mas reconheço que há aqui uma importante divergência
entre liberais e conservadores. Se estes afirmam a religião como garantidora do
tecido social, aqueles preferem a defesa secular das liberdades.
Há
conservadores seculares, como Oakeshott. Mas talvez seja um ponto fraco do
conservadorismo moderno esta enorme dependência da religião. Talvez a
filosofia, as artes e a literatura possam substituir a religião neste encanto
pelo mistério do universo, nesta contemplação pelo desconhecido, eterno e
indizível. Mas talvez os conservadores, apelando para o argumento utilitarista
da fé, tenham um ponto quando alegam que, sem o freio religioso, as massas
demandarão algum outro “Pai” em seu lugar. As rotas de fuga alternativas e mais
sofisticadas talvez sejam privilégio de uma minoria esclarecida. Sei que é uma
visão elitista, mas eis outro aspecto que alguns liberais clássicos e
conservadores compartilham: a existência de uma aristocracia natural que
carrega o mundo nas costas.
Elite e massa
A multidão
conta com a vantagem numérica. Nas massas, a sensação predominante é a de ser
“como todo mundo”, e não há angústia nisso; ao contrário, sente-se bem por ser
idêntico aos demais. A característica moderna, apontada em A Rebelião das Massas por Ortega y Gasset, é que esta “alma vulgar,
sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o
impõe em toda parte”. A hiperdemocracia criou o império das massas, que precisa
destruir o diferente, o melhor.
De gustibus non est disputandum. Esta, que é uma máxima ao agrado de muitos liberais, seria a nova
regra geral. É verdade que, se gosto não se discute, há ao menos um apelo à
tolerância, tão cara aos liberais. Só que existe outro lado da moeda: a crença
inabalável nas preferências subjetivas acabou produzindo um excessivo
relativismo. A música clássica e o funk das favelas, os quadros de Caravaggio
ou o tubarão de Damien Hirst, Dostoievski ou Dan Brown, tudo simples questão de
gosto. E o “melhor” será julgado pela maioria. Vox populi, Vox Dei.
Os
conservadores demonstram enorme desconforto diante deste cenário. Eles entendem
que a democracia não é critério estético. E o mesmo vale para a política. Por
isso conservadores costumam desconfiar das escolhas democráticas, cientes de
que não serão os melhores que chegarão ao poder, e sim os mais populares, ou
seja, os demagogos. Esta desconfiança com a democracia não é sinônimo de defesa
de regimes autoritários. Muitos liberais, como Ludwig von Mises e Karl Popper,
reconheceram que a principal vantagem da democracia não é o resultado ótimo de
sua escolha, e sim seu método pacífico de eliminar as piores escolhas. Os
conservadores fazem coro aqui, alertando para os riscos do modelo democrático,
sem, entretanto, rejeitá-lo completamente.
Os
conservadores tiveram importante papel no necessário alerta de que regimes
democráticos podem se tornar despóticos. E, quando isso ocorre, costuma ser a
pior forma de tirania: aquela da maioria que aniquila o indivíduo. Este receio
é fundamental para a própria defesa da liberdade, possível somente em um
governo de leis, e não de homens com desejos arbitrários impostos aos demais.
Os conservadores defendem, então, um amplo mecanismo de pesos e contrapesos, o
respeito às instituições estabelecidas, o Common
Law obtido pela experiência local de inúmeros casos passados. Eles rejeitam
as mudanças radicais e nunca testadas, a total substituição de costumes
estabelecidos por sistemas paridos nas cabeças de idealistas que falam em nome
do povo.
Michael
Oakeshott fez a distinção entre a “política de fé” e a “política do ceticismo”.
A primeira entende que o governo deve buscar a perfeição humana, que para todo
problema há uma única solução racional, enquanto a última entende o governo não
como entidade benigna e perfectibilista, mas apenas necessária, e que é
impossível construir uma sociedade perfeita. No âmbito individual, cada um
buscará a perfeição à sua maneira, e não devemos colocar o governo ou a
sociedade como agentes dessa busca de perfeição.
Individualismo
moderado
Os liberais são
mais enfáticos na defesa do individualismo, ou seja, do indivíduo como um fim
em si mesmo, e não um meio sacrificável por um bem maior. Os conservadores, se
não aderem ao coletivismo, também não apreciam o individualismo extremo. Ou
seja, quando individualismo é confundido com “sociopatia”, quando liberdade
individual é confundida com licença para fazer qualquer coisa desde que não
agrida (fisicamente) o outro, aí o conservador se torna um crítico do
“liberalismo” radical.
Indivíduos não
devem ser tratados como átomos totalmente independentes, como ilhas. O
conservador dá valor à comunidade local, à narrativa histórica que caracteriza
o próprio indivíduo. O apetite individual sem qualquer restrição pode
representar uma ameaça de desintegração da ordem social e, com ela, da própria
liberdade individual. Seria o caos anárquico. O psicopata, não custa lembrar,
não peca por falta de coerência, e sim por falta de remorso, culpa, empatia.
Confesso que
tenho simpatia por este alerta, pois a lógica individualista levada ao extremo
da coerência pode significar até a destruição do núcleo familiar. Os filhos não
assinaram contrato algum com os pais e, portanto, devem ser livres para fazerem
o que quiserem, em qualquer idade?.
Qualquer restrição seria uma coerção ao indivíduo livre, pela ótica libertária.
Considero esta conclusão absurda. “Refreia as tuas paixões, mas toma cuidado
para não dar rédeas soltas à tua razão”.
Roger Scruton,
falando sobre os limites da liberdade, explica que os conservadores lutam para
restringir de alguma forma o comportamento adulto de olho nos interesses das
gerações futuras, enquanto alguns liberais alegam que a única coisa importante
é a liberdade destes adultos aproveitarem como quiserem o aqui e agora. Traçar
esta linha divisória é tarefa quase impossível, mas podemos pensar em casos que
ilustram a divergência. Um deles é o aborto. Existem diversos argumentos contra
e a favor, e por inúmeros pontos de vista. De nosso interesse aqui, porém,
basta dizer que há quem defenda a prática com base somente no “direito” da mãe
fazer o que quiser com seu corpo. Já os conservadores, mesmo os que não se
limitam à base estritamente religiosa, questionam até que ponto a banalização
do aborto não afeta valores importantes para preservar a sociedade.
Costumo manter
a equidistância entre libertários e conservadores religiosos aqui. Os primeiros
alegam que o feto é como um “parasita” (Rothbard usou o termo) no corpo da
mulher, que faz o que quiser com ele. O aborto seria legítimo até o fim da
gestação. Os últimos acreditam que o feto, desde o milésimo da concepção, é
exatamente como um ser humano em direitos. A pílula do dia seguinte seria equivalente
a assassinato. Encaro ambas as visões extremas como um erro. Para cada problema
complexo, há uma resposta clara, simples e errada.
Outro exemplo
seria o consumo de drogas. O liberal radical diria que esta é uma questão
exclusivamente individual, de liberdade de escolha, enquanto o conservador
estaria mais preocupado com os possíveis impactos desta liberação geral no seu
entorno. O conservador, em geral, prefere não misturar liberdade com
libertinagem, pois esta coloca em risco aquela. Talvez seja possível uma
contemporização aqui, com a liberação de drogas leves como a maconha, sem
apelar para o “liberou geral”, enquanto o consumo é combatido por campanhas de
persuasão.
Construindo
pontes
Estamos
chegando perto do fim deste ensaio, e ainda há muito que dizer sobre
conservadorismo. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto em espaço tão
reduzido. Gostaria agora, contudo, de
tentar construir uma ponte ligando liberais a conservadores.
O ceticismo e
a cautela dos conservadores são excelentes ferramentas para amainarem um pouco
o excesso de otimismo dos liberais. Fazendo uma analogia, os liberais seriam a
juventude impetuosa, sonhadora, que quer tudo para ontem, enquanto os
conservadores seriam o adulto maduro e calejado, desconfiado de toda grande
empolgação. Um equilíbrio entre ambos talvez seja o ideal.
O
tradicionalismo serve para não jogarmos no lixo a sabedoria dos antigos, sem
cair no reacionarismo. O peso colocado nas emoções serve para frear um pouco a
arrogância de nossa limitada razão. A desconfiança em relação ao ser humano nos
leva a reconhecer que há sempre um monstro interior que o progresso material
não é capaz de eliminar. A preocupação com certos valores lembra-nos que
libertinagem não é liberdade. O respeito às virtudes contrabalanceia a
tendência iconoclasta e subversiva dos libertários. Até o aspecto religioso
pode, ao menos, nos mostrar que nem só de pão vive o homem, em um mundo cada
vez mais materialista onde tudo é mercadoria, inclusive o amor. Por fim, o foco
comunitário pode temperar nosso individualismo. A liberdade individual existe em função da sociedade, e embora a
cultura seja fonte de mal-estar, como sabia Freud, é preciso renunciar a parte
da satisfação pessoal em prol dos ideais civilizatórios.
Pois ainda não
inventaram nada melhor que a civilização, e nem vão, posto que ela é o
resultado de séculos de aperfeiçoamento, sem jamais tocar a perfeição. Uma formação natural, se preferir, e não uma
criação artificial. Preservar os
pilares que sustentam esta civilização, conservar
tais alicerces, sem saudosismo de um passado idealizado, mas sabendo
avançar sempre que possível e com cautela, eis a ponte que liga liberais a
conservadores.
A matemática de Verissimo
Rodrigo
Constantino
Em
sua coluna de hoje, Verissimo voltou a fazer o que mais gosta: distorcer os
fatos para vender sua ideologia estatizante e atacar o liberalismo. Ele usou,
de forma um tanto pérfida – como de costume, um acontecimento verdadeiro para
concluir algo absolutamente falso. Non
sequitur.
Qual
o fato verdadeiro? Havia alguns erros de cálculo nas várias planilhas dos
respeitados estudos de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, que constam no livro Oito Séculos de Delírios Financeiros
(“This Time is Different”). E qual a conclusão de Verissimo, o sabichão de
economia? Que isso anula totalmente a conclusão dos autores, qual seja, a de
que a austeridade fiscal é parte importante da receita de cura das crises
econômicas no longo prazo.
Eis
a forma sensacionalista que o cronista descreve a coisa: “A certeza de que com
o tempo a austeridade se justificará, demonstrada claramente nas contas erradas
da dupla, só conseguiu transformar ‘austeridade’ em palavrão, nos países em que
a maioria da população continua pagando, com desemprego e miséria, pelos
desmandos dos seus governos e a ditadura do capital financeiro, responsável
pela crise”.
Haja
cara-de-pau! Em primeiro lugar, a crise não foi causada pela “ditadura do
capital financeiro”, que sequer existe e não passa de mais um fantasma criado
pela mitologia canhota, um bode expiatório para culpar pelas burradas dos
próprios governos estatizantes. A crise tem todas as impressões digitais dos
governos nas cenas dos crimes. Juros artificialmente baixos, gastos públicos
excessivos, excesso de regulação (sim, os setores no epicentro da crise eram os
mais regulados), e por aí vai.
Em
segundo lugar, Verissimo pega um erro que não altera o resultado final da
pesquisa para desqualificar o próprio conceito de “austeridade”. Será que o
“matemático” Verissimo realmente pensa que o governo pode gastar mais do que
arrecada infinita e impunemente? Será que ele pensa, de fato, que é o governo
que cria prosperidade por meio de gastos públicos? O Brasil já deveria ser uma
potência econômica de causar inveja a países como Suíça, Cingapura, Austrália
e Nova Zelândia, certo? O que deu errado?
O
“economista” Verissimo afirma que a austeridade não está dando certo em lugar
algum do mundo, e cita como exemplos Grécia e Espanha. Mas será que o homem não
sabe que foi justamente a gastança irresponsável dos governos desses países,
principalmente do grego, que gerou a grave crise em primeiro lugar? Será que
Verissimo pretende nos explicar de onde vem os recursos para que governos
possam gastar tanto sem efeitos nefastos? Do céu? Das árvores? De Marte? Das
impressoras do Banco Central?
No
final do artigo, Verissimo ainda encontrou uma oportunidade para bater em
Thatcher, o terror dos socialistas. Ela foi jocosamente chamada de “Mrs.
Austeridade” pelo cronista, que usou as pompas fúnebres bancadas pelo governo
para atacá-la. Mausoléu de ditador comunista não incomoda gente como o
Verissimo, mas um singelo reconhecimento pelo legado da maior estadista que a
Inglaterra já teve é um disparate, que negaria todo seu histórico de
austeridade e combate ao cancerígeno “welfare state”.
O
título do artigo de Verissimo é “Dois + dois = ?”. Para liberais, a resposta é
uma só: 4. Mas sabemos qual a resposta para ele: 8, ou talvez 10, quiçá 12! Por
que um governo deveria ser austero, gastar menos do que arrecada? Isso é coisa
de “neoliberal” insensível, que não liga para os pobres. Verissimo é diferente,
um sujeito bom, sensível, nobre, e por isso ele defende a gastança estatal
irresponsável. Qual o problema de imprimir dinheiro e sair gastando para ajudar
os pobres?
Um
“neoliberal” chato diria que é a inflação, o mais nefasto imposto sobre os
pobres. Mas isso é detalhe. O importante mesmo é colocar Thatcher e seus
seguidores como os representantes do Capeta na Terra, e tecer loas aos
socialistas que monopolizam as virtudes e só entregam caos social, desgraça e
miséria. A tragicomédia da vida pública...
quarta-feira, maio 08, 2013
Desarmamento: O poste que nem Lula elegeu
Bene Barbosa*
"Eu acho que nós estamos dando um presente aos milhares ou milhões de brasileiros e brasileiras que, no anonimato, têm lutado e dedicado parte de sua vida para que possamos ver a violência diminuir no nosso país". Com estas palavras o então presidente Lula sancionava, há quase dez anos, o chamado Estatuto do Desarmamento. Lula se referia ao fato da sanção ocorrer no dia 23 de dezembro e vinculava a lei a um presente de natal. Era, sim, um presente de grego!
O estatuto, segundo o então presidente, não visava apenas coibir o uso de armas de fogo, mas interromper as fontes de abastecimento do crime organizado com armas de particulares e fechar o cerco às quadrilhas. A justificativa se mostrou infundada, mais uma farsa de falsa promessa. O cidadão foi desarmado, mas, como mostram os dados estatísticos, o armamento farto que integra os arsenais dos criminosos não sofreu nenhum abalo. Ao contrário, seu uso contra o indefeso cidadão ficou muito facilitado, graças ao “presente” de 2003.
Dois anos depois de aprovada a lei no Congresso, veio o referendo. Lula e Fernando Henrique Cardoso, PT e PSDB, além de outros partidos, personalidades e redes de comunicação, deram-se as mãos pela proibição da venda legal de armas de fogo no Brasil. Em apenas 20 dias de campanha oficial, mais de 10 anos de lavagem cerebral em favor do desarmamento veio por terra. O poste de Lula era de vidro e se quebrou. Quase 60 milhões de brasileiros disseram um retumbante “não” ao desarmamento. Nem o então presidente obtivera tamanha votação, tampouco seu icônico “poste”, como, segundo ele próprio, se revela sua sucessora.
Mesmo em frangalhos, já sobejamente rejeitado e de ineficácia comprovada, o poste do desarmamento foi carregado em frente pela atual presidente, em especial pelo obsessivo esforço de seu Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O resultado é a crescente rejeição à lei vigente, como estampa a enquete da Agência Câmara sobre sua revogação, na qual já mais de 50 mil manifestações foram registradas, com 95% delas favoráveis ao fim da política nacional de desarmamento.
São números absolutamente recordes para essa modalidade de consulta e se referem ao apoio maciço ao PL 3722/12, de autoria do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB/SC), que estabelece um novo sistema de controle de armas, mais racional e convergente com a vontade popular, devolvendo ao cidadão a possibilidade de autodefesa e fazendo retornar às variantes da segurança pública o hoje inexistente receio do criminoso de uma reação da vítima.
Resta saber se as sucessivas e cada vez mais contundentes manifestações populares sobre o tema serão compreendidas pelo Governo Federal e seus parceiros desarmamentistas, ou se continuarão eles insistindo numa clarividente fórmula de fracasso, como quem assiste à reprise de um jogo de futebol na esperança de ver um placar diferente.
Mas uma coisa já é certa: no que depender da população, o desarmamento continuará sendo o poste entalado na garganta de todos aqueles de viés autoritário que insistem em criar um Estado detentor do monopólio da força, favorecendo apenas aqueles que, contra qualquer lei, atacam os cidadãos que deveriam ser alvo da proteção deste próprio Estado.
*Bene Barbosa é especilista em segurança pública e presidente da ONG Movimento Viva Brasil
"Eu acho que nós estamos dando um presente aos milhares ou milhões de brasileiros e brasileiras que, no anonimato, têm lutado e dedicado parte de sua vida para que possamos ver a violência diminuir no nosso país". Com estas palavras o então presidente Lula sancionava, há quase dez anos, o chamado Estatuto do Desarmamento. Lula se referia ao fato da sanção ocorrer no dia 23 de dezembro e vinculava a lei a um presente de natal. Era, sim, um presente de grego!
O estatuto, segundo o então presidente, não visava apenas coibir o uso de armas de fogo, mas interromper as fontes de abastecimento do crime organizado com armas de particulares e fechar o cerco às quadrilhas. A justificativa se mostrou infundada, mais uma farsa de falsa promessa. O cidadão foi desarmado, mas, como mostram os dados estatísticos, o armamento farto que integra os arsenais dos criminosos não sofreu nenhum abalo. Ao contrário, seu uso contra o indefeso cidadão ficou muito facilitado, graças ao “presente” de 2003.
Dois anos depois de aprovada a lei no Congresso, veio o referendo. Lula e Fernando Henrique Cardoso, PT e PSDB, além de outros partidos, personalidades e redes de comunicação, deram-se as mãos pela proibição da venda legal de armas de fogo no Brasil. Em apenas 20 dias de campanha oficial, mais de 10 anos de lavagem cerebral em favor do desarmamento veio por terra. O poste de Lula era de vidro e se quebrou. Quase 60 milhões de brasileiros disseram um retumbante “não” ao desarmamento. Nem o então presidente obtivera tamanha votação, tampouco seu icônico “poste”, como, segundo ele próprio, se revela sua sucessora.
Mesmo em frangalhos, já sobejamente rejeitado e de ineficácia comprovada, o poste do desarmamento foi carregado em frente pela atual presidente, em especial pelo obsessivo esforço de seu Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O resultado é a crescente rejeição à lei vigente, como estampa a enquete da Agência Câmara sobre sua revogação, na qual já mais de 50 mil manifestações foram registradas, com 95% delas favoráveis ao fim da política nacional de desarmamento.
São números absolutamente recordes para essa modalidade de consulta e se referem ao apoio maciço ao PL 3722/12, de autoria do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB/SC), que estabelece um novo sistema de controle de armas, mais racional e convergente com a vontade popular, devolvendo ao cidadão a possibilidade de autodefesa e fazendo retornar às variantes da segurança pública o hoje inexistente receio do criminoso de uma reação da vítima.
Resta saber se as sucessivas e cada vez mais contundentes manifestações populares sobre o tema serão compreendidas pelo Governo Federal e seus parceiros desarmamentistas, ou se continuarão eles insistindo numa clarividente fórmula de fracasso, como quem assiste à reprise de um jogo de futebol na esperança de ver um placar diferente.
Mas uma coisa já é certa: no que depender da população, o desarmamento continuará sendo o poste entalado na garganta de todos aqueles de viés autoritário que insistem em criar um Estado detentor do monopólio da força, favorecendo apenas aqueles que, contra qualquer lei, atacam os cidadãos que deveriam ser alvo da proteção deste próprio Estado.
*Bene Barbosa é especilista em segurança pública e presidente da ONG Movimento Viva Brasil
segunda-feira, maio 06, 2013
As boas intenções do A.A.
Rodrigo Constantino
O livro As boas intenções, do
escritor espanhol Max Aub, ilustra de forma sarcástica como medidas repletas de
bons sentimentos podem acarretar efeitos catastróficos, inclusive na vida
daqueles que tais ações mais visavam a ajudar.
Trata-se da história de Agustín Alfaro (A.A.), “o que normalmente se
chama um bom rapaz”, nas palavras do
autor. O livro retrata uma série de acontecimentos trágicos que vão ocorrendo à
medida que Agustín tenta proteger sua mãe do sofrimento.
Tudo começa quando surge na casa da família uma moça chamada Remedios,
que alega ser mãe de um filho de Agustín. O problema é que o rebento não era de
Agustín, e sim de seu pai, que usara o nome do filho com a amante.
No afã de poupar sua querida mãe de tamanho sofrimento, uma vez que ela
considerava o marido um homem exemplar, Agustín acaba aceitando a farsa. O que
se segue é uma verdadeira comédia de enganos que, naturalmente, acaba por
desgraçar ainda mais a vida de sua mãe, sem falar das demais pessoas envolvidas,
começando pelo próprio Agustín.
Pessoas
repletas de boas intenções, mas desfalcadas na razão, podem se proteger das desgraças
do mundo criando a ilusão de que basta a boa vontade para acabar com o mal.
Lembrei dessa história quando vi as declarações de outro Augustin, o secretário
do Tesouro Nacional, sobre o superávit primário. Para Arno Augustin (A.A.), a
meta fiscal não é tão importante e deve ficar à mercê do comportamento da
economia.
Em
outras palavras, o governo não deve poupar para abater o endividamento público,
e sim mirar no crescimento econômico. Claro que ninguém ousaria duvidar das
boas intenções do secretário A.A., que não poderia ser acusado de interesse
eleitoreiro de curto prazo. Suas intenções são puras, as melhores possíveis.
Caso contrário a presidenta Dilma jamais o escolheria para cargo tão
importante.
Mas
é que, faltando-lhe conhecimento econômico, suas lindas intenções vão levar a
uma comédia de enganos, no final altamente prejudicial aos mais pobres, que ele
certamente quer ajudar. São pessoas assim, como o A.A. do livro e o nosso A.A.,
que reforçam a máxima de que o inferno está cheio de boas intenções...
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