terça-feira, setembro 21, 2010

A sabedoria de Schopenhauer



Rodrigo Constantino, O Globo

“Devemos considerar as coisas concernentes ao nosso conforto e desconforto só com os olhos da razão e do juízo, conseqüentemente, com ponderação fria e seca.” (Schopenhauer)

Em 21 de setembro de 1860, há exatos 150 anos, morria o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Seu legado é profundo, incluindo enorme influência em pensadores como Nietzsche e Freud. Contra o obscurantismo pedante de filósofos do seu tempo, que muitas vezes servia apenas para disfarçar a ausência de conteúdo, Schopenhauer transmitiu sua mensagem de forma bastante clara. Em homenagem ao aniversário de sua morte, vamos refletir sobre a atualidade de alguns de seus aforismos.
“Um homem vale por aquilo que sua conduta evidencia, não pelo que agrada a uma língua solta dizer sobre ele”. Esta constatação anda muito ignorada no país das bravatas, onde a retórica sensacionalista parece valer mais que os atos concretos. Os discursos verborrágicos impressionam mais do que o conteúdo das pessoas. Tem muita “língua solta” – e presa também –, tentando levar no grito o respeito alheio. Mas palavras e gestos, com freqüência, expõem gritante contradição.
“O tipo mais barato de orgulho é o orgulho nacional. Ele trai naquele que por ele é possuído a ausência de qualidades, das quais poderia se orgulhar”. Como desprezar este fato quando a liberdade individual é cada vez mais sufocada pelo coletivismo nacionalista? Em nome do “interesse nacional”, oportunistas acabam explorando os inocentes e concentrando poder e privilégios à custa de nossas liberdades básicas. O tal “orgulho nacional” não deveria estar acima dos direitos individuais.
“Quem tem de produzir o bom e o autêntico e evitar o ruim tem de desafiar o juízo das massas e de seus porta-vozes e, portanto, desprezá-los”. Recado essencial quando tantos tentam associar qualidade à popularidade: ambos não são sinônimos. A ditadura do “politicamente correto” é outro efeito desta mentalidade, como se a escolha da maioria fosse a “voz de Deus”. Trata-se, na prática, de uma tirania das massas. Nem tudo que é popular é bom: basta lembrar que Mussolini e Hitler foram idolatrados por seus povos.
“Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão firme de evitá-los no futuro”. O conselho do filósofo bate de frente contra a típica postura que vemos na política nacional, onde cada um que é pego em novo escândalo logo se justifica com base nos erros alheios. “Se outros fazem, então também posso fazer”. Esta atitude serve apenas para alimentar a corrupção.
“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa”. Esse talvez seja o alerta mais importante feito por Schopenhauer. Os verdadeiros inimigos não aparecem vestidos de lobos, mas sim de cordeiros. São os “altruístas”, que pensam apenas no “bem-geral”, que pretendem viver em função dos mais pobres. Em suma, a verdadeira ameaça vem daqueles que prometem o paraíso, e costumam entregar o inferno.
“Se desconfiarmos que alguém mente, finjamos crença: ele há de tornar-se ousado, mentirá com mais vigor, sendo desmascarado”. Esta estratégia poderia ser mais utilizada contra os governantes, mestres na arte da enganação. Basta dar um pouco de corda que a situação daqueles pegos em infindáveis escândalos logo se complica. Já diz o ditado: a mentira tem perna curta. O espantoso é que a máscara de muitos já deveria ter caído faz tempo, mas o povo não quer enxergar a face verdadeira por detrás dela.
“Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direção que a mudança tomará”. O recado merece atenção especial daqueles que parecem hipnotizados com o momentâneo crescimento econômico, ignorando seus pilares insustentáveis e também o avanço do governo sobre nossas liberdades. A miopia faz com que o curto prazo ganhe um peso desproporcional na análise da situação.
Por fim, após tanto pessimismo, uma última mensagem mais esperançosa: “É preciso ser paciente, pois um homem de intelecção justa entre pessoas enganadas assemelha-se àquele cujo relógio funciona com precisão numa cidade na qual todos os relógios de torre fornecem a hora errada”. O tempo é o senhor da razão. Quem ainda não perdeu a capacidade de indignação perante tantos escândalos políticos está apenas com o relógio certo no momento errado. A torre da cidade ainda marcará a hora certa algum dia. Quem viver, verá.

5 comentários:

Anônimo disse...

Será, Rodrigo, que um dia "a torre da cidade marcará a hora certa"?
Nesse aspecto, sou tão pessimista quanto Schopenhauer...

econoespaco disse...

Para mim, o diabo tem barbas, orelha de duende, lingua presa e é pinguço.

Carla Teixeira disse...

Não consigo ver Schopenhauer como pessimista, um tanto cético, mas não pessimista. :-)

oneide teixeira disse...

mesmo o relogio parado marca a hora correta duas vezes ao dia.

João Emiliano disse...

Espero que o relógio da torre da "cidade" chamada Brasil, ao menos um dia, marque a hora certa que é a chamada undécima hora que é a hora da volta do Senhor Jesus Cristo e daí muitos brasileiros acordem e sejam salvos!

Glórias somente a Deus pela memória de Arthur Schopenhauer, que, apesar de eu considerar a metafísica dele autocontraditória, porque o irracionalismo defendido pelo alemão, não passa de um flato vocis ou algo inexistente, mas, o alemão foi um grande filósofo, de qualquer jeito.

Parabéns pelo post, caro amigo Constantino.

ABRAÇOS! []'s